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29/jun

Eis que esta coluna linda e cheirosa está de volta e espero ser fiel a ela no decorrer deste resto de ano. Verdade é que tive que limpar todos os links que tinha acumulado como pauta porque perdi a linha de prioridade por causa do tempo de hiatus do Random Girl. Foi melhor apagar tudo e começar de novo a tentar arrumar uma bagunça que estava cheia de nó.

 

O ponto de continuidade será o mesmo, o especial de processo de escrita. Hoje, darei uma reforçada na construção de universo a fim de apoiar o post anterior. Um ponto que deve ser difícil para quem planeja fantasia e distopias, por exemplo.

 

Vale o lembrete que, por enquanto, esse especial não segue gêneros específicos. Faço um geralzão e respaldo com minha experiência. Esse é um projeto para o futuro.

 

Estalando os dedos agora mesmo!

 

Escrita

 

Comentei no texto anterior que peguei minhas inspirações para construir meu universo, aka cidade não tão fictícia, dos meus arredores. Das ruas que fui, das ruas que jogo no Google para dar uma clareada e de ruas favoritas. Peguei tudo e fiz um mix. Comentei também que não acho errado morar no Brasil e querer que a história se passe em Londres. Tudo é uma questão de pesquisa para que esse background, que também fala muito sobre o enredo, não soe artificial – principalmente se vocês nunca viajaram pra lá, o que requer mais pesquisa.

 

Se vocês estiverem inseguros em criar um universo, a dica é dar o primeiro passo com base naquilo que conhece. Muita coisa pode se transformar a partir disso, como em Jogos Vorazes em que Suzanne Collins praticamente dividiu um mapa e rebatizou continentes; Divergente que usa uma Chicago distópica e Veronica morava lá na época em que escrevia a trilogia (não sei se ainda mora); e até Rowling que se inspirou no modelo de ensino de internatos britânicos para rechear um castelo mágico. Ao darmos de cara com esses universos parece até que elas criaram tudo do zero, mas a inspiração veio do cotidiano de cada uma.

 

Stephen King também usa muito das suas experiências e até a mesma cidade para as mais variadas histórias (o que acho um máximo por motivos de possibilidades de crossovers).

 

Outra dica importante que dei é que o universo está ali para ser as mãos dos personagens. Por vezes, ele se amarra à história, como os Distritos de Panem. Por vezes, só fica de fundo, como apreciar a vista em um passeio de carro.

 

Universo-1

 

Disse no último post do We Project que questionários não são a minha praia. Ao menos, não no quesito personagem. Não digo com propriedade que o mesmo vale para o universo porque não tive dificuldade em criá-lo por ter usado o que conheço. O máximo que fiz foi dar algumas pinceladas de futurismo para atribuir a sensação de que muitos anos se passaram.

 

Para quem começa agora, ou ainda não está confiante com o universo, talvez essas perguntas podem ajudar: como esse universo/sociedade/lugar influenciará os personagens? O que há de importante? Há segredos? É apenas uma casa que engatará o romance? O que há de bom e de ruim no seu universo? O que o herói ou a heroína quer mudar? O que os vilões querem que seja mantido? (isso dá plot e subplots).

 

Pensem também: economia, segurança, política e a filosofia que influencia os personagens. Se for uma distopia, esse esquema é essencial. Inclusive, como funciona esse sistema opressor/ditador. Se for sobrenatural, pesquisem locais mal-assombrados, busquem lendas e superstições, um combo que sempre dá um insight e que dá para trabalhar em cima.

 

Ok, vocês esboçaram tudo o quanto puderam, mas ainda não conseguem visualizar tudo isso porque sentem que está faltando alguma coisa? Sim, passei por isso, e continuo a passar, porque por detrás de toda a origem do background, daquela cidadezinha ou daquele mundo fantasioso ou distópico, há outra pergunta: por que diabos esse lugar é importante?.

 

Não importa o gênero da sua história: o país/lugar/cidade/qualquer buraco inventado será palco dos personagens. Por ser palco, que pertinência tem a atuação do seu elenco ali? Qual é o significado e a relevância? É Londres? Então, o que há de bonito lá? O que tem de inspirador? Como esse lugar pode impactar em um romance? É distopia? Então, quais são as regras? Qual é o clima? Qual é a hierarquia?

 

Por mais que uma personagem indo até à faculdade e, do nada, dar de cara com o crush seja simples, é importantíssimo se indagar porque ela está naquele lugar, por que aquela faculdade e/ou curso, o que ela aprenderá naquele espaço e o que ela enfrentou para estar ali. Se houver o crush, por que esse encontro é importante?

 

O universo não é apenas uma maquete. É a sombra dos personagens. Em alguns casos, ele faz parte da grande treta por meio da voz de outros que tendem a ser os antagonistas.

 

Uma coisa que me ajudou muito na hora de moldar meu universo foi pensar no conflito antes. Conflitos são alteráveis, óbvio, mas, pelo menos, se tende a manter os espaços criados. Pensem em quais lugares ajudarão nessa movimentação e em como os personagens se sentem ali. Uma personagem pode não se sentir bem no Palácio do Planalto, um canto do seu universo, e pode ser meramente porque ela não é fã de um governo golpista – olha só que grande exemplo que talha toda a problemática e o clima do universo em cima de um bendito golpe.

 

Assim, que lugares ajudarão nos conflitos? O que torna tal lugar tão especial? Que papel esse ambiente/mundo pode exercer no conflito seja direta ou simbolicamente? A soma desses locais podem muito bem apresentar o que vocês desejam como universo. Vocês passarão a vê-lo um pouco melhor e confesso que esse esquema é de grande ajuda. Melhor que perder tempo pensando em nomes – que podem surgir enquanto se escreve.

 

Daí, partirmos para as perguntas do Globo Repórter: como as pessoas vivem ali? Aonde trabalham? O que comem? Aonde se divertem? É democracia ou ditadura? Vai ter ou não golpe? Qual é a identidade das pessoas? Classes sociais? E os líderes? Os points badalados?.

 

Resumidamente: não é apenas escolher “minha história se passará em Londres”, como também é sobre o motivo que pode ou não ser aprofundado. Por isso que temos os personagens, responsáveis em mostrar esse mundo que vocês criaram. Algo que pode ser introduzido seja por narração ou por diálogos.

 

Outra coisa muito importante: se escrever tendo em vista 2016 no Brasil, estude essa realidade para não comer bola. Vocês podem não usar o ano na história (eu não uso e até então não vejo necessidade porque o que me norteia são décadas, detalhe que entrega o tempo do meu enredo), mas é pertinente saber o que tá rolando na sua timeline escolhida. Se for romance histórico, acho que nem preciso dizer pesquisa, né?

 

Mesmo que não usem 300 a.C no seu enredo, se indaguem sobre século e ano. Vocês não usarão todos os dados, mas podem aprofundar o universo e absorverem insights para capítulos.

 

Uma coisa que descobri ser necessária para a minha história é o passado. Há quem não precise do que aconteceu antes para nortear o enredo, mas eu tive que voltar aos anos 60/70 porque eles contribuirão com meu futuro – e isso dói demais porque é tanta informação bacana e me forço a ser extremamente seletiva. Isso vale muito para quem escreve fora de época ou fantasia/distopia. É aqui que mora meu conflito maior e que me faz empacar várias vezes.

 

Pensando no passado, questionem sobre a vida que habita ali antes do capítulo 1. Quais foram os eventos que mudaram tudo? Como as pessoas se comportam em reflexo disso? Como isso alterou as crenças, propósitos e rendeu a possível divergência de opiniões?

 

De novo, de novo e de novo: é tudo uma questão de pesquisa. Nada de preguiça!

 

Sou fácil de me deixar levar pela preguiça, mas isso é uma insolência pessoal que não noto a não ser quando o calo dói mesmo. Por ter reflexo da época em que escrevia fanfics, me preocupar com o universo ainda não me é automático porque produzia em cima de histórias prontas. O que me restava era só bolar um novo conflito para personagens que já existiam – e isso me fez grande fã de Universo Alternativo porque pude explorar minha escrita.

 

Quando sentei para escrever o We Project pela primeira vez, fui no instinto de ficwriter até que chegou uma hora em que precisava de um universo mais delimitado/alinhado. Eu o via na minha mente, mas não tanto no enredo. Foi aí que comecei a fazer vários outlines e pesquisar.

 

É bacana se sentir no controle, mas nunca, nunca mesmo, botem no papel “como você acha que é”. Como já diria a professora de português: nada de ‘na minha opinião’ na redação porque ou você tem certeza ou não tem certeza de nada para defender seus argumentos.

 

Mas por quê criar um universo ou organizar uma sociedade ou conhecer o país da minha história é tão importante? Não posso simplesmente partir do que está na minha cabeça?

 

Fato é: vocês partirão do que tem na sua cabeça e muito provavelmente será algo original. A diferença é que, vindo de uma opinião pessoal (e acho que daquele feeling enrustido de jornalista), alguns enredos precisam ter um tipo de respaldo. Sim, vocês podem criar uma lenda urbana por conta própria. Sim, vocês podem criar sua terra medieval, seu mundo mágico, sua distopia. Mas tudo isso parte de algum ponto de reconhecimento. Um ponto que muito provavelmente lhes inspira e que foi lido aos baldes para quererem fazer um trabalho parecido.

 

Assim, vale dizer também o quanto é necessário compreender o gênero que escreve para compor seu universo. Essa é a velha dica de ler outros autores que possuem trabalhos nas linhas de seu interesse. Por mais que a ideia seja sua, é preciso estudá-la para que seja sólida e relacionável. E, quem sabe, para ter um diferencial só seu.

 

O WP tem muito de genética. Não sou perita no assunto, mas escolhi destrinchar esse tema como parte do universo, o que anulou a “necessidade” de dar aula (e se há uma coisa que me frustra é termo técnico em livros, só aceito em séries porque há apoio visual). Meio mundo sabe que genética nas mãos erradas dá em nhaca, por exemplo, então, esse peso amarrado ao universo tem sido a razão do meu viver. O que pega para mim é: o que posso fazer de diferente?.

 

O que vocês podem fazer de diferente em seus universos? Lembrem-se que até clichês são permitidos, bastam dar uma inovada neles.

 

Universo-2

 

Não precisa ser necessariamente nessa ordem, mas, uma vez delineado o universo, se abre espaço para pensar nos conflitos e, claro, nos personagens.

 

Depois que o universo estiver alinhado, vocês, como bons seres humanos, jogarão tudo no liquidificador – isso é um “neologismo” para hora de criar o caos. Se sua história depende do universo e da sociedade, se perguntem como quebrar essa estabilidade. Tudo na vida está em constante mudança e isso inclui políticas e modos de vida.

 

Farei um post específico sobre esse tópico no futuro, mas pensem em um conflito como uma traição ou uma histeria. Com esse título lá no topo do outline, o que pode acontecer a partir daí? Depois, pensem em como o universo contribuirá nesse quesito porque é bem provável que os personagens necessitem dele para se moverem e desencadearem novos conflitos.

 

A treta principal deve ser dividida em vários pequenos conflitos. Fragmentos que podem se amarrar ao universo. Vocês podem ter a cidade, mas e os locais? Os locais também compõem o universo. Criar essa parte é mais fácil para romances, por exemplo, porque não há tanta complexidade. Agora, ficção científica pede paciência para que seu mundo seja palpável, principalmente se você é daqueles que têm uma inspiração gigantesca em Star Wars.

 

O importante é haver certa dose de complexidade no universo para que ele seja interessante e engaje o leitor, mesmo que sua história seja ambientada no Brasil.

 

Rowling me conquistou primeiro por Hogwarts e depois pelos personagens. Se fosse o contrário, penso que não teria me apaixonado pela saga, fatos reais (tenho sérias dificuldades de simpatizar com protagonistas). Ela fez do seu enredo mais apaixonante que o trio (com todo respeito a ele). Suzanne fez Panem e os Jogos marcantes. Vejam o peso desses universos que tendem sim a desvalorizar um pouquinho de nada o grupo de personagens. O peso aqui é o enredo que… Está interligado ao universo.

 

O background, universo, sociedade, enfim, é apoio à sua história e tem que ser tão bem alinhado/a(s) quanto às características principais dadas aos personagens.

 

Essa construção de mundo não é meramente para fantasia, ficção científica ou ficção histórica. Vale para tudo – casa dos personagens, o trabalho, a faculdade, o mapa da cidadezinha afastada dos grandes centros, aquele outro mapa em que você decide aonde fica o cinema e o metrô, ou quando a cidade tem dois covens bruxos que não se dão bem entre si. Universo é o espaço, o lugar que provavelmente revelará muito da personalidade dos envolvidos.

 

Ou seja, ninguém está imune desse processo.

 

Universo-3

 

Fiz posts sobre outline que penso valerem para praticamente tudo. Como sou geminiana, os meus roteirinhos não são organizados e se multiplicam por cadernos. Tive que sentar um dia para organizar tudo porque já nem lembrava mais aonde estava a anotação X.

 

Mas por que outline é importante? Para organizar a história. Use-o mais para desenhar o universo e até mesmo para destrinchar os grandes e pequenos conflitos. Vocês podem organizá-lo numa planilha, na famosa folha de sulfite, em um caderno, ou criando mind map online. Não se esqueça de que tudo é editável, então, se conforme. Até se sentirem seguros, muita coisa será alterável (e já fiz tanta alteração, meldels, e continuo).

 

O importante é chegar ao final do outline e ver se tudo o que saiu do brainstorm realmente funcionará. Acreditem em mim quando digo que delimitar o universo é a parte mais fácil. O drama é encaixá-lo como background e no movimento dos personagens.

 

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Universos não precisam ser 100% narrados

 

Esse é papo para um post solo, mas me senti no dever de falar sobre isso bem por cima.

 

Uma coisa que aprendi é ter muito cuidado com descrição, até mesmo de personagem. Isso vem da época de fanfics em que comecei a aderir o processo de não dizer todos os detalhes do universo em três páginas de mil e um parágrafos. O mesmo vale para personagens, em que vocês não precisam necessariamente fazer 3 parágrafos para dizer como ela/ele é (seus cabelos dourados como o pôr do sol, nhá). Em vez disso, fragmentem o que querem entregar, tanto do universo quanto do personagem. Um jeitinho que pode lhes ajudar a ter mais o que contar, além de estender a curiosidade de quem lê.

 

Rowling pode ter narrado a escola, mas muito de Hogwarts veio da movimentação dos personagens e dos diálogos. Katniss apenas introduziu o grande problema de Panem que era a Colheita e depois entregou o resto para a ação. Ok que essa questão de descrição pode ser mais complicada em 1ª pessoa porque se trata de uma narrativa sob uma única ótica. Nesse caso, tem que tomar um pouco mais de cuidado no que quer entregar.

 

E precisa ter nomes chiques e cheirosos?

 

Vejo muito conflito nessa questão, talvez até um pouco mais quando pensamos em nome de personagens, pois há uma turma que julga a criatividade de quem escreve com base nos nomes criados – o que supostamente o torna a pessoa mais awesome de todas.

 

O que essa pessoa não percebe é que isso não é para todo mundo e que ninguém deveria se sentir culpado em dar nomes vistos como comuns. O que importa é cada um se sentir confortável com o que cria e com o que escreve, a intenção, e o resto é resto. Não gosto desses comparativos e muita gente me contrariaria “porque não sei fazer nada criativo” (sendo que Rowling chamou Harry de Harry, pfvr!, e compensou tudo na criação do seu universo).

 

(sendo que Roth chamou Chicago de Chicago, puff!).

 

(sendo que tem gente que nem dá nome pro rolê, puff!).

 

Vocês podem batizar o universo do jeito que lhes convir. Não há uma lei que os obriga a criar uma cidade fictícia. Às vezes, você insiste tanto em uma coisa sendo que poderia ir para o caminho que julga mais fácil e ignora porque é “batido” ou é “clichê” (e sei que existe esse peso, não mintam pra mim). Pode ser que a resolução dos seus problemas está justamente no simples.

 

Então, não se amarrem as “10 regras que lhes farão escritor@s bem-sucedid@s”. É o mesmo que alguém tentar imitar meu bife à milanesa (cada um tempera o bife de um jeito diferente, ué).

 

Goodies:

 

Para quem quer usar Londres na história (ou qualquer outro país): Airbnb. Esse site é muito legal porque dá para buscar bairros, saber os pontos positivos e negativos do lugar e tem imagens.

 

Para você que é fã de questionário: clique aqui e se divirta.

 

Próxima parada: vamos falar dos nossos amigos imaginários aka personagens. ❤

Stefs
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Escreva seu comentário antes de ir <3
  • Karla Kélvia

    Aiiii que post massa!

    • Hey, Random Girl

      *-* ah obrigada! <3