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09/jun

Este livro pertence a minha mana/prima Isis Love <3

 

Sempre será algo muito estranho para mim ler livros Young Adult narrados na perspectiva de um garoto. Obviamente que me divirto muito mais em comparação a narradoras femininas (depende delas, claro), e dessa vez não foi diferente.

 

Eu, Você e a Garota que vai Morrer traz Greg Gaines, 17 anos, um ser humano que não passa de um adolescente babaca, mas não sabe por qual motivo é tão babaca. Ao longo da leitura, ele me lembrou dos garotos que me fizeram companhia na escola e, ao me agarrar a isso, a história se tornou divertida e mais proveitosa. Sou dessas que precisa de ponto relacionável em tudo nesta vida.

 

(Assim, é tanta porcaria dita na voz de um garoto adolescente, então, pensem. Precisava ter parâmetros).

 

Ao relacionar Greg às memórias dos meus antigos amigos adolescentes, reconheci e digeri os comportamentos e os diálogos desse personagem. Não é tão ruim, embora sejam ditas muitas baboseiras se querem saber, mas a leitura não é de toda dispensável. Uma vez que você aceita as abobrinhas e se dá conta de que nada será aprendido, tudo flui naturalmente e de modo efetivo.

 

Sério, não há nada de interessante ao ponto do filme dar de 10 a zero na versão impressa dessa história – e tento entender a coerência porque o roteiro é de Jesse Andrews que também assina o livro. Bem… Como o próprio narrador diz “quem escreve é um cineasta”. Detalhe que diz muito sobre o que está no papel para o que foi para a tela.

 

Eu, Você e a Garota que vai Morrer culminou de ser, até agora, a leitura mais despretensiosa do livro viajante que tenho participado na companhia de algumas manas. Honestamente, ele não agregou nada na minha vida, a não ser dar uma relembrada na regra de boa vizinhança: ser empática com as pessoas e ajudá-las sem esperar nada em troca. O que é muito considerando o narrador que é deveras imaturo.

 

Para Greg, aderir a essa regra de boa vizinhança é um baita desafio porque ele não se importa tanto com as pessoas. Pra mim, esse foi o principal conflito desenvolvido nesse livrinho.

 

Não há um enredo que possa entregar de resumo pra vocês, mas saibam que tudo começa na escola. Os primeiros capítulos nos dão impressões desse ambiente que o Greg detesta e do método dele para não ter amigos e nem inimigos. O que isso significa? O personagem defende sua preservação, o que o fez criar o esquema de transitar de panelinha em panelinha só pra dar um oi, nem um pouco intencionado em pertencer a uma delas. Ele não quer ser rotulado, algo que rola na famosa hierarquia escolar, e nem ser um inimigo de outros grupos.

 

Além disso, Greg conta sobre seus relacionamentos fracassados com as garotas e destrincha os micos ao estar diante daquelas que lhe chamam/chamaram a atenção. E lá está Rachel, garota que descobrimos que já tem um histórico na vida dele, memórias que o personagem não gosta de revisitar uma vez que o embaraço rolou quando conviveram no mesmo círculo judaico.

 

O reencontro acontece quando a Sra. Gaines meio que o obriga a prestar visita para essa garota que foi diagnosticada com leucemia. E essa senhora força a barra, principalmente por ter aquela impressão – que todo mundo teve – de que Greg a namorou no passado. Claro que o “affair” não aconteceu, embora Rachel nunca tenha escondido o quanto foi bacana ter esse ser humano estranho, que mal sabe que não faz questão de fazer/ter companhia, na sua vida.

 

Lembram que disse lá em cima que Greg não sente tanto pelas pessoas? Então, Rachel ressurge na sua vida para tirá-lo do eixo, ou seja, tirá-lo da sua autopreservação.

 

Greg é um palhaço e sua narrativa é uma palhaçada, com direito a diálogos escritos em formato de roteiro – um artifício que funciona e é muito legal porque usa linguagem de cinema mesmo (duh!), como indicar a entrada e a saída de um personagem de cena. Não pense que o “palhaço” é uma referência ruim porque não é. A começar porque ele nem sabe porque escreve essa história que não conta muita coisa sobre quem eu tinha mais interesse: a garota que vai morrer.

 

Algo que o filme faz, com muito coração, ao ponto de ter uma conclusão 100% superior.

 

Acho que talvez eu tenha um problema onde as emoções, frequentemente, tem mau funcionamento, e em grande parte do tempo você fica sentado lá, sentindo alguma coisa imprópria. Deveria ser chamada de Desordem Emocional do Idiota.

 

Este livro traz a desconstrução emocional de Greg, um personagem que não gosta de ser notado, que não consegue expor seus sentimentos e adequá-los ao momento, e que evita ter amigos. Essa é a tríade que o move e Rachel, a garota que vai morrer, se destaca como a sombra propulsora para melhorar esse ser humano que não se considera humano. Ela existe, ao mesmo tempo em que nem existe, para fazê-lo mudar com relação aos aspectos citados acima.

 

Visita vai, visita vem, Greg é consumido pelo êxtase da sua missão que perde o valor e a graça conforme Rachel fica mais doente. Quando está com ela, ele só faz piada porque acha que é unicamente capaz de fazer apenas isso pelos outros – e a garota dá risada naturalmente. Uma vez que os risos cessam, o adolescente começa a soar meio ingrato, deixando claro que a ideia de visitá-la foi a pior que sua mãe já teve – até a faculdade entrar em cena.

 

Eu, Você e a Garota que vai Morrer me prendeu nos instantes em que esse personagem resmunga sobre tudo praticamente, com direito a esquivas, especialmente sobre Rachel, que são meramente egoístas por causa da sua autopreservação que começa a ser abalada. Chega um ponto que Greg não consegue mais lidar com a garota que vai morrer e não aguenta Earl, o amigo que não é amigo, passando por cima de suas escolhas para agradá-la.

 

O personagem simplesmente não sabe lidar com o que sente e sempre se atropela falando nhaca. E é muita nhaca mesmo, uma “metlaladola de melda”. Tanto antes, durante ou depois das visitações à garota que vai morrer, Greg assinala que não tem emoções adequadas e que não pode viver uma vida humana adequada também. Algo muito bem esboçado quando os filmes, produzidos com Earl, entram em cena.

 

As melhores ideias são sempre as mais simples.

 

A ideia de filmes dá vida ao livro, arremata a dificuldade de Greg em sentir e fortalece as ceninhas dele. Há alguns capítulos que funcionam como IMDB da sua parceria com Earl, que vem desde a infância. Um pequeno conflito que gera outros pequenos conflitos na vida de um adolescente que não só não demonstra a empatia esperada sobre o estado de Rachel, como também se revela um bundão na hora de lidar com elogios e de mostrar seus projetos.

 

Se quicar entre grupos é um método de segurança pessoal, o mesmo vale para o tosco currículo cinematográfico que deixa de ser segredo. Rachel passa a conferi-lo na miúda e com a bênção de Earl – na condição de não mostrá-lo a ninguém – para desespero de Greg que, de novo, não sabe lidar com isso.

 

Enquanto estiver na zona de preservação, Greg consegue controlar os seus “surtos”, mas claro que Rachel e os filmes mudam tudo. É aí que confirmamos que, realmente, ele não tem nenhuma habilidade ou estrutura para lidar com taxa de rejeição ou com as pessoas (mais precisamente a reação delas). O personagem tem um Modo de Modéstia Excessiva para destoar elogios e para mudar de assunto, mas nenhum método de defesa contra micos – que acontecem logo na escola, o ambiente que mais odeia.

 

Tudo por culpa de quem? De menina Rachel e isso só aumenta a frustração de Greg.

 

Greg passou o ensino médio praticamente na sua inexistência, mas Rachel o faz existir. Uma vez que é visto, sua defesa social é rachada justamente naquilo que se empenhou tanto em evitar: a hierarquia das panelinhas. Isso começa desde que circula com a garota que vai morrer e extenua quando o Pior Filme do Mundo entra em cena e tira tudo do controle.

 

O filme em específico é o dedicado à Rachel. Com o insucesso, Greg é meio que forçado a repensar o que anda fazendo com sua própria vida e o que fará no futuro uma vez que foi retirado, com a mesma força com que foi empurrado a visitar a garota que vai morrer, a sair da caixinha. Ele tem que buscar uma vida adequada e aprender a inserir emoções adequadas também se quiser parar de “surtar”.

 

É a primeira coisa… negativa que aconteceu a você na sua vida. E você não pode reagir mal assim a isso e tomar decisões caras com base nisso. Eu estou cercado de parentes que fazem coisas estúpidas. Costumava achar que tinha que fazer as coisas para eles. Ainda quero fazer as merdas para eles. Mas você tem que viver sua vida. Tem que cuidar da própria vida antes de começar a fazer as coisas por todos os outros.

 

Quem tem grande responsabilidade nessa chamada de atenção é Earl, uma poça de honestidade, dono de uma caracterização completamente oposta a do narrador. Ele é de classe baixa, tem vários irmãos e a mãe é uma alcoólatra que vive em chats. Um adolescente sensato e realista, talvez, pelas condições das quais vive. De acordo com Greg, o brother oscila entre o menos puto e o putérrimo (e o imaginei com uma baita tromba de marra), o que torna essa relação um tanto quanto estranha, mas interessante. Justamente porque ambos não têm nada em comum, a não ser os filmes e, óbvio, o relacionamento de amizade com Rachel.

 

Em outras palavras, Earl é o melhor personagem.

 

O narrador principal de um livro sempre tende a ser boa pinta, mas Greg é um pé no saco (mas ele consegue, às vezes, ser engraçado). Enquanto Earl, que deveria ser o pé no saco por causa dos seus problemas pessoais e por absorver o comportamento meliante dos irmãos, é boa pinta. Earl não se conforma como o amigo pode ser tão sem sentimento com relação à Rachel, e com outras coisas, e é ele quem se sai como maior companheiro da garota que vai morrer.

 

Greg é bitolado na sua inexistência e faz tudo para evitar qualquer expectativa. Quando o personagem começa a ter expectativa e essa expectativa não é atendida, ele “surta” ainda mais. Principalmente quando não consegue mais animar Rachel, já que a maioria das pessoas que conhece é gamada nas suas piadas – que são sem graça, mas você ri porque desacredita.

 

Rachel não tem tanta voz no livro, agindo mais como uma ponte para fortalecer os conflitos internos de Greg a fim de libertá-lo. No caso, os tais “surtos”, palavra repetida várias vezes na tradução e que me obrigou a ir atrás de saber se fazia referência à saúde mental. Principalmente porque o personagem diz que tem um fungo que come seu cérebro e cogitei uma analogia, mas a história não esclarece e nem faz referência ao assunto. Joguei no Google e só encontrei coisas relacionadas à saúde de Rachel, então, fui lá na fonte original.

 

Resultado: Greg usa freak out para explicar seus grandes momentos de agitação quando se sente sob pressão e quando espera o mesmo comportamento das outras pessoas ao seu redor. O filme também não insinua nada sobre saúde mental e é aí que brota o ponto pesado e negativo com relação a esse livro.

 

Surto não tem nada a ver com ficar agitado demais em uma situação, já que a palavra é constantemente associada como uma das reações de algumas doenças mentais ou transtornos (esquizofrenia, por exemplo). Uma vez que não tem nada confirmado, só me resta retrucar da tradução preguiçosa nesse quesito (opinião que pode mudar se eu encontrar informação de réplica). E, sério, a repetição de “surto” incomoda demais!

 

No mais, Eu, Você e a Garota que vai Morrer vale o tempo de leitura. É descompromissado, sem grandes expectativas. Como Greg diz: não é uma história romântica e sentimental – missão cumprida com sucesso. Um ponto positivo porque, lá no fundinho, esperei romance. Mau costume dos YA da vida.

 

Você tem que fazer o que é bom pra você.

 

Greg me fez lembrar dos meninos de Markus Zusak. Até que me senti bem acompanhada desse personagem inseguro de Andrews, medroso sobre suas emoções (o meu ponto de relacionamento). Vale dizer que a linguagem é de moleque mesmo, com direito a menção da famigerada piroca – os tais papos “nojentos”.

 

No fim, toda essa interação entre Greg, Earl e a Garota que vai Morrer se traduz no que a Sra. Gaines diz assim que propõe ao filho ir visitar Rachel: você pode fazer a diferença na vida de alguém e se você se permitir ela pode fazer o mesmo em troca.

 

E o filme é muito melhor, compareçam depois da leitura.

 

Eles têm que resolver as próprias vidas para que eu possa ajudar. Amo a minha mãe, mas ela tem problemas com os quais eu não posso ajudar. Amo meus irmãos, mas eles precisam descobrir que eles têm que se resolver antes que eu possa ajudar. Caso contrário, apenas vão me arrastar com eles. – LISPECTOR, Earl

 

Na Estante:

Título: Eu, Você e a Garota que vai Morrer
Autor: Jesse Andrews
Páginas: 288
Editora: Rocco (Fábrica231)
Vale quantos corações? ❤❤❤

Stefs
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