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24/jun

Quando entramos no cinema, independente do gênero que iremos assistir, embarcamos numa jornada. Mesmo que busquemos respostas a todo instante, o grande fascínio é a forma na qual as peças se encaixam com seu protagonista, seja ele comum ou inusitado. Esse é o caso de Midnight Special.

 

The only thing I ever believed in was Alton

 

Midnight Special nos apresenta, em primeira instância, o grande evento: o sequestro de Alton Meyer, um garoto de apenas oito anos. Conhecemos então o Rancho, uma comunidade/culto/seita que o coloca numa posição especial, principalmente aos olhos do líder Calvin Meyer, que descobrimos ser o pai adotivo do garoto. Tal sumiço atrai o FBI, que tenta encontrar respostas que os levem ao paradeiro do menino. Ação que dá aval a uma incisiva investigação e levanta cada vez mais questões como: o que faz Alton ser tão especial? e qual o interesse do FBI nisto tudo?.

 

Além do FBI, dois membros do Rancho agem por conta própria. Afinal, é de interesse de Calvin em recuperar seu filho adotivo ou, mais precisamente, seu objeto de exploração.

 

Com direito a referências heroicas ao mostrar Alton lendo uma HQ do Super-Homem, logo nos é apresentado o trio principal. Alton, interpretado por Jaeden Lieberher, é o requisitado e diferente garoto que usa óculos de natação; Roy, interpretado por Michael Shannon (que viveu um dos grandes vilões de Homem de Aço em 2013), é o superprotetor pai biológico; e Lucas, interpretado por Joel Edgerton, é, além de policial, amigo de infância de Roy.

 

Midnight-Special--4

 

He’s not like us

 

É durante a pernoite do trio na casa de Elden, um ex-membro do Rancho, que descobrimos o segredo por trás dos óculos de natação de Alton (que tem intolerância ao pôr do sol e à claridade). Sedento e fora de controle, o anfitrião acaba por perturbar o sono dele, desejando “a visão” que desfrutara no Rancho. Tal pedido resulta na primeira demonstração explosiva dos poderes do garoto, fazendo-o disparar um potente raio laser. Seria Alton um X-Men?

 

Brincadeiras à parte com meu querido Ciclope, Roy, ao presenciar tamanho desgaste do filho, decide seguir sua jornada, sendo que a cada minuto que passa o menino fica mais debilitado.

 

Assim, balanceando os acontecimentos e a revelação gradativa dos poderes, Ray e Alton reencontram Sarah, mãe do menino e, consequentemente, ex-mulher de Ray. Instante que ocorre por intermédio de Lucas, personagem que, assim como a audiência, observa a partir daí essa disfuncional família tentar consertar erros do passado. Mesmo sem entender muito o que a criança é e necessita, ele assume o papel de fiel amigo e segue ao lado deles, sem questionar.

 

Mesmo com o distanciamento familiar, a criança fica extremamente confortável perto de Sarah e consegue então ter sua primeira noite de sono em dias. Acredito que nunca vi Kirsten Dunst interpretar uma mãe e aqui quem vos fala é uma pessoa que não é lá grande fã da atriz. Apesar de minha antipatia, Dunst expressa com o olhar todo o arrependimento de uma mulher em abandonar o filho e o reencontro da família traz um senso de estranha normalidade, tendo em vista tudo que acontecerá daqui pra frente.

 

Longe de toda a ação, eis que surge Sevier, interpretado pelo ator do momento Adam Driver (Girls, Star Wars: O Despertar da Força). Um agente da NSA que também inicia uma intensa investigação em busca de respostas sobre o paradeiro de Alton ou, mais precisamente, seu destino final. Ele se destaca como peça importante na história dessa criança que é um personagem difícil de decifrar, sendo esse um dos aspectos interessantes de Midnight Special.

 

Midnight-Special-2

 

Impossibilitados de ficar juntos, Sarah parte com Alton para o local que ele precisa estar. É aí que enxergamos um novo mundo através do olhar desse franzino e especial menino. Inimaginável a olhos comuns e deslumbrante arquitetonicamente, este mundo possui características marcantes, dentre arranha-céus, pontes e arcos. Seria isso somente fruto de sua mente? Será que qualquer pessoa poderia presenciar tal evento? Como uma mãe que protege seu filhote em toda e qualquer circunstância, Sarah realiza o ato mais abnegado e sem nenhum traço de egoísmo.

 

Toda a ação seguinte culmina para concluir a jornada desse personagem especial e conhecemos um pouco mais das pessoas que, direta ou indiretamente, influenciam seu destino final. Chega-se num estágio que pouco importará o que o menino é de fato e sim o que ele precisa fazer para cumprir sua missão. Explicando que não é um alien e muito menos um soldado, o garoto sabe que seu lugar não é na Terra.

 

Pouco conheço sobre o trabalho de Shannon, a não ser seu vilanesco General Zod em O Homem de Aço e seu inescrupuloso empresário em 99 Casas, que por sinal vale uma conferida. Em Midnight Special, sua performance coloca em evidência os diversos elogios a ele destinado, principalmente no circuito alternativo e independente. Dentre duras e sérias expressões faciais, o ator incorpora com ferocidade um homem dedicado e abnegado, cujas escolhas do passado refletem em suas atitudes no presente. Pouco sabemos sobre Roy, porém, a maneira na qual se conecta com a figura focal da história torna tudo mais acreditável, especialmente tratando-se de uma família desmembrada.

 

Já meu contato mais recente com Lieberher aconteceu ano passado quando tive o prazer de assistir uma das melhores comédias não comédias, o tocante St. Vincent, protagonizada por Bill Murray. O ator dá vida a Oliver nesse mencionado longa, mas é em Midnight Special que abraça a responsabilidade de atuar como gente grande. Alton me fez recordar um pouco Jake da série Touch, estrelada por Kiefer Sutherland, que tivera apenas duas temporadas. Introvertido e conectado ao mundo ao seu redor, vemos o menino se sentir seguro ao lado de Roy, mesmo que não tenha tido contato com o pai.

 

Midnight Special não pode ser simplesmente considerado um novo cult do circuito independente. O filme escolhe o relacionamento entre os personagens. Em vez de transformar o longa em mais uma produção sobre superpoderes intergaláticos, há a intenção de fazer com que a audiência se conecte com um grupo de pessoas tão cheio de falhas mas, sem exceção, com o coração no lugar certo, especialmente para fazer aquilo que julga ser o correto.

 

Apesar da visível homenagem ao clássico de Steven Spielberg, Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), esse filme de Jeff Nichols (Amor Bandido, O Abrigo) trouxe uma boa e velha nostalgia alá J.J. Abrams. Humano e interplanetário na mesma medida, Midnight Special flui de maneira natural aos olhos e, mesmo sem aprofundar muito na origem de seus mistérios, consegue envolver do começo ao fim. Mesmo sem grandes reviravoltas, o longa segue convicto na jornada de seus personagens, estes que a todo instante dedicam-se em crer no inimaginável.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Mari
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