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22/jun

Este é aquele momento reservado para Stefs chorar como se não houvesse amanhã sobre mais uma das suas séries favoritas que foi cancelada. Pela segunda vez em menos de 2 anos, lá estava eu lamentando mais um desemprego de quem? Se vocês falaram Jake McDorman, acertaram, e não aguento mais essa barra que é ver todo projeto desse homem cortado. Pior que são projetos muito legais, como foi o caso de Manhattan Love Story e, recentemente, meu xodó chamado Limitless.

 

Vivi uma angústia durante o Upfront da CBS que aconteceu no mês passado. Juro que estava muito confiante com a renovação de Limitless, principalmente por estar contaminada com a mesma positividade que deu uma nova vida a Blindspot, série da NBC (que não deixa de entrar no hall da rara criatividade quando se tem FBI envolvido), que tem quase a mesma linha e bombou.

 

Sem contar que, na minha mente, a série deste post era pra ter sido renovada antes do hiatus de final de ano. Daí, a cozinharam tanto que só restou cortar uma das poucas diferentonas que nasceram na fall 2015-2016.

 

Finjo que acredito que a CBS tentou manter Limitless na grade, na famosa tentativa de procurar uma nova casa. Se tivesse mesmo interessada, poderia ter apostado em um adiamento. Caí na cilada e acreditei, desconfiando, na intenção, torcendo para a Netflix morder a isca porque essa série é muito criativa e poderia ficar ainda mais inteligente por lá. Ouvi que cogitaram até a Amazon, mas sempre achei aquele pedaço cheio das frescuras pra pouca série. No fim de tanta agonia e de tanta espera, Craig anunciou o que eu não queria ler.

 

Sendo honesta, o cancelamento era esperado e ao mesmo tempo não era. Vivi na corda bamba com Limitless, verdade seja dita. Porém, uma parte de mim acreditou que a série se salvaria, principalmente por causa da opinião calorosa de alguns críticos (o do Hollywood Reporter rasgou tanta seda que fiquei chocada). Essa turma foi milagrosamente receptiva com esse projeto e inclusive com o finale. Não havia quem não falasse que o procedural era o mais criativo da última fall, mas nem isso o salvou da faca.

 

Por ter essa boa receptividade em mente, o cancelamento não perdeu o caráter de surpresa. O hype estava ótimo e só uma pessoa sem noção perderia um buzz por mais razoável que fosse. Sem contar que a transição de Supergirl para a CW aumentou minhas esperanças de renovação porque a heroína automaticamente diminuiria os gastos da CBS. Fui enganada de novo e ainda estou chateadíssima.

 

Não me vejo chateada desse jeito desde que The Tomorrow People foi cancelada por baixa audiência, mas o que é baixa audiência na CW, não é mesmo? A série dos seres do amanhã agiu como um maravilhoso frescor para uma emissora que não larga seus hits que não são mais hits, mas terminou injustamente cancelada também.

 

Nisso, volto a dolorosa realidade de que tudo nesta vida é sobre dinheiro e não amor.

 

Passada as emoções do golpe baixo, meu coração se partiu em pedacinhos e repeti dezenas de vezes que dó!. Não apenas por Jake ter sido barrado de novo, mas porque, especialmente, Limitless foi inovadora (doa a quem doer!) e tinha um bom elenco. Até o final, o roteiro se manteve alinhado à sua proposta, explorando o NZT e tentando se encontrar a cada episódio. A série é cinematográfica, terminou de um jeito ainda mais cinematográfico, e só posso culpar o dinheiro que trollou o investimento.

 

Se nem Supergirl se manteve na CBS, imaginem uma série que dependia e muito do visual? Era Limitless, o que a fez um procedural diferente, cativante e divertido.

 

Aqui jaz Limitless

 

Limitless---Brian-NZT

 

Limitless era o frescor nos meus dias ensolarados devido a sua pegada cômica que se amarrava aos pensamentos de Brian Finch, o protagonista que não passa de um fracassado e que deixa de ser um fracassado ao experimentar uma droga chamada NZT. Uma droga que também é personagem central dessa história, como bem mostrou o filme, um viagra para o cérebro que faz quem a consome magicamente o ser humano mais inteligente e perspicaz da face da terra.

 

Sempre olho com receio para séries que são inspiradas em filmes e com Limitless não foi diferente. Só não me abati tanto porque sou apaixonada pela fonte de origem e não conseguiria deixar passar batida a possível meleca que fariam pra TV. Não me decepcionei em nenhum momento, principalmente quando o foco dessa única temporada foi explorar a droga e como ela muda o cotidiano das pessoas que a consome.

 

A premissa de um fracassado consumindo a droga do sucesso permaneceu firme e forte, do começo ao fim, sendo uma boa extensão do filme. Uma história que começou com Eddie Morra, o escritor flopado vivido por Bradley Cooper, e que terminou (espero que não, podem levar pras telonas uma parte 2 com o mesmo elenco) com Brian Finch, um ser sem grandes expectativas.

 

Brian Finch, 28 anos, descrito em um dos episódios como o filho do meio perdido que busca aceitação dos pais. Não poderia concordar mais, pois ele é exatamente isso. O filho que o pai não dá crédito, que o pai está cansado de ver se arrastando pelos cantos da vida sem ter uma carreira ou um plano de vida. O personagem está entre um irmão mais velho bem-sucedido e uma irmã mais nova queridinha, lhe sobrando o limbo. Todos os dias, esse cidadão tem ideias de mudar a própria vida, mas nada muda, sendo o famoso perdido que não tem identidade e nem maturidade.

 

Resumindo, esse boa-pinta é um mero espectador da vida alheia.

 

Combo perfeito de ser humano quando conversamos sobre NZT. Simplesmente porque Brian nunca teve um sucesso para chamar de seu, algo que muda na sua primeira viagem proporcionada graças a um amigo das antigas que, do nada, subiu na vida graças a essa pílula transparente. Uma vez ingerida, a droga desperta todos os neurônios e faz o cérebro trabalhar 100%, o que abre um mar de possibilidades, de resoluções e de perspectivas. É como se a vida finalmente se mostrasse pela primeira vez e dá a sensação de que tudo é possível. Um prato cheio para um personagem que tem pouquíssima força de vontade porque lhe falta propósito.

 

Obviamente que essa droga não tem boas intenções, pois seus efeitos colaterais são drásticos e podem levar à morte. A única pessoa imune se chama Eddie Morra (agora Senador), que surge no momento em que o protagonista sofre com o pós do NZT. Esperto, o agora vilão cerca um cara sem propósito e propõe o que deveria ter sido desenvolvido como a grande tensão da trama: injeções de imunidade pela infiltração de Brian no FBI. Parece fácil, mas a ironia é instalada quando Finch também se torna um procurado pelo FBI.

 

Tudo porque Brian chama a atenção da equipe de Rebecca Harris (interpretada pela Jennifer Carpenter) uma vez que passa a correr atrás de novas doses de NZT para ajudar seu pai que está muito doente. Só que no processo, ele encontra o rastro de uma chacina de quem consome a droga e acaba como principal suspeito.

 

Com o apoio de Morra, a missão do protagonista é resolver o caso, só assim para entrar no FBI com o plus da mentira de que é imune ao NZT. Caminho do sucesso que casa com o interesse de Nas, a chefona desse departamento, em Finch devido a um projeto ultrassecreto (aka experimento) que usava a mesma droga na tentativa de aprimorar agentes. Por ouvir a palavra imune, ela quer entender como o organismo dele funciona para, quem sabe, resgatar a tramoia do passado.

 

Li muito que a existência do FBI em Limitless foi o grande clichê. Como vocês bem sabem, não tenho problemas com clichês desde que saibam o que fazer com eles. Ou seja, que sejam criativos com uma figurinha absurdamente batida. Nesse caso, o amor nasceu pela discussão de caráter e pelo trabalho visual que compensaram os casos semanais. Um amor dividido com Quantico e Blindspot, somando três séries da fall passada que investiram na famosa agência, mas com três abordagens diferentes. Não tem como tirar esse Q policial uma vez que se investe em procedural ou esteja dentro do gênero investigativo. É pegar ou largar, ou é só para quem curte mesmo.

 

E americano ama esse formato, então, já dá tempo de parar de reclamar sobre o FBI.

 

Limitless---Rebecca

 

Limitless fez diferença na maneira como retratou a turma do FBI que não é a grande heroína como acontece em várias séries. Brian é o herói e o responsável em trazê-la para o cerne da trama. Não só isso, como torná-la parte da sua narrativa drogada, sendo uma adição do humor cômico. Detalhe que desvalorizou os aliados, como Rebecca que é vivida por uma atriz popular, mas foi divertido enquanto durou. Acredito que o único momento sério desse time está no Piloto, pois houve uma caçada e ninguém sabia quem era Finch na noite.

 

A única relação forte, e que mantém o pilar FBI aceso, é entre Brian e Rebecca que possuem uma história em paralelo que só é lembrada quase no final da temporada, somando um ponto negativo. Uma amizade saudável, sem preocupação romântica, somando um ponto positivo.

 

Uma vez como “agente” imune a uma droga que coincidentemente fez história no FBI, Brian finalmente encontra o que faltava em sua vida: propósito. Na companhia de Rebecca, que vira sua amiga, companheira, mentora e consultora, ele se destaca como o cérebro que tudo soluciona, especialmente casos que mofavam na gaveta, causando inveja, amor e ódio de muitos. Em um piscar de olhos, ele vira o super-herói dos casos semanais sem ao menos passar em quântico.

 

Daí, vocês devem pensar que Limitless perdeu a graça porque com uma droga dessas não tem como haver caso semanal intrincado, misterioso ou chocante. Foi justamente a falta disso que me fez ficar, não apenas por tudo ser um alívio cômico, mas por fugir dos casos redondinhos. Há quem aposte os 40 minutos nos casos, só que essa série preferiu discutir valores e morais com base no caráter dos personagens perto do NZT. Esse é o real peso da premissa, o coração, e quem recebe na cara o tempo inteiro é Brian. Um ser que pode até ter mudado de vida, mas começa a fazer dessa droga um meio de não ser o Brian de antes.

 

Por essas e outras que fico meio assim de chamar essa série de procedural, especialmente porque há uma história de fundo que exige o acompanhamento semanal. Porém, no início, há situações isoladas e penso que foi por isso que muita gente abandonou. Limitless só cresce do 1×12 em diante.

 

Depois do 1×11, o roteiro está mais à vontade, os escritores extrapolam na criatividade e os personagens, outrora desimportantes, conquistam muito peso na vida e nas decisões de Brian. Mesmo com a segurança e o elo fortalecido no FBI, o protagonista tem desafios individuais também e é quando vemos o quanto esse cidadão é dependente da droga. Ele aceita trabalhos mais arriscados, toma várias decisões sozinho, aguenta o peso sufocante da vida dupla e ainda tem direito a um breve arco romântico. Combo de coisas que se alastra até culminar na queda de um personagem que atinge o fundo do poço.

 

Limitless---Edward

 

Outro ponto negativo que vale mencionar é que Morra não cresce, um vilão que tinha potencial, mas ficou resguardado por motivos de agenda do Cooper. Ao ser introduzido no Piloto, era de se esperar as mais variadas dores de cabeça da parte dele impactando a rotina de Brian, mas só há Sands, o porta-voz do Senador. Se Limitless pecou em alguma coisa, foi na falta de engajamento de conflito grande. Tiveram que se virar uma vez que não podiam contar com Bradley por 22 episódios.

 

É aí que é preciso ultrapassar a zona de conforto e o mimimi para ver que Limitless era sobre conflitos entre valor e moral. É isso que segura a trama, uma vez que fomos apresentados a um personagem sem expectativa de nada. Por mais que saiba o que é certo fazer, Finch pensa mil vezes, especialmente porque Morra pode simplesmente matar as pessoas que ama. Sem contar que o protagonista só consegue se ver útil com a droga e se torna facilmente invisível sem ela.

 

Assim, a primeira e única temporada de Limitless faz o NZT o grande personagem e Jake carrega essa missão com um sucesso cômico. Amarrado a isso, há o tema ambição, corrupção de caráter e o quanto uma pessoa está disposta em não parar de consumir a droga para ser cada vez melhor. Morra aparece muito pouco, mas o suficiente para lembrar o quanto foi longe (e se você ver o filme dá um mega contraste). Da vida de escritor falido, o Senador se torna um falso exemplo de sucesso, já que não mensura os próprios limites para conseguir o que deseja.

 

Deveria Brian seguir pelo mesmo caminho corrupto de Morra para se tornar um protagonista interessante? Talvez, mas acredito que fariam essa abordagem na S2, uma vez que ele ganhou um baita brinde no finale.

 

O foco não era os casos semanais

 

Limitless---FBI

 

Quando todo mundo escuta procedural, esse todo mundo espera casos amarradinhos e uma equipe heroica no final do dia. A grande questão de Limitless é o comportamento humano. Foi gerar debates internos em cima de algumas questões, como quem em sã consciência aceitaria ficar drogado para ser útil? Quem arriscaria tanto por uma droga que não deixa de ser letal?

 

Brian vive nessa linha tênue. Ele não quer compactuar com o lado negro da força, mas quer manter o uso do NZT porque isso, apesar dos pesares, o faz melhor. Esse é o real conflito que dá ao protagonista a falsa sensação de pertencimento e de sucesso. Em âmbito geral, ele continua o mesmo, a diferença é que paga de ioiô dentro da sua própria história. Todo mundo só o quer por ser imune e vemos esse cidadão se debater para mostrar que tem valor. Só que as duas vidas que o cerca começam a sufocá-lo.

 

Limitless apostou diferente ao investir mais na questão do caráter diante de uma droga que mata com a mesma rapidez com que tem efeitos maravilhosos. O quanto você estaria disposto a usá-la para ter o que quer? Para ser quem quiser? Os casos são meros coadjuvantes porque o NZT sempre foi visado como o real personagem que move um cara que não sabia o que queria da vida até se tornar atraente pela sua dita imunidade que as pessoas matariam para ter.

 

A série é sobre uma droga que faz qualquer ninguém ser alguém, como é muito bem retratado no filme. Brian quer muito, quase desesperadamente, ser alguém e não se importa em consumi-la desde que tenha propósito e seja útil. Nisso, voltamos ao que disse lá em cima: Brian não tem identidade e nem planos. Tudo que ele tem é a droga, mas sem a droga quem é Brian?

 

Em vez dos casos serem janelas para explorar e desenvolver os personagens, quem faz isso é o NZT que abre brechas de transformação exterior e não interior. A droga é uma pura válvula de escape, que faz todo mundo herói por um dia, e o maior efeito colateral (além dos drásticos como paranoia) é voltar à vida medíocre e sem valor. Da mesma forma que a subida é rápida, a queda é ainda mais rápida e pode ser emocionalmente drástica. Esse é o impacto, especialmente para Brian, pois, uma vez sóbrio, ele não possui a sagacidade que o torna falsamente especial.

 

A droga é viciante não pela composição, mas por causa do sucesso que garante a quem a consome. Por mais que seja fatal, há quem não se importe com os efeitos colaterais desde que continue a subir. Brian tem esse momento, mas se esfola todo por um bem maior.

 

Mesmo que Morra afirme e reafirme que as pessoas serão melhores com essa droga, é fato que é uma grande mentira porque o ser humano é egoísta e com o NZT isso não some, se intensifica. Só não para Brian que continua amigável, um pentelho sorridente que quer abraçar todo mundo. O personagem não consegue simplesmente se corromper à vida bem-sucedida que conquistou em um piscar de olhos. No fundo, ele sabe que tudo é falsidade, porém, o viagra cerebral inibe essa realidade. Mesmo que seja um cara bom, até os bons não querem voltar à vida ruim.

 

Os objetivos iniciais de Limitless foram cumpridos, como a premissa que manteve o foco 100% no NZT, o maior aliado de trama que movimentou todo o resto. Os casos em si foram adições para preencher tempo, pouquíssimos realmente chamam a atenção e são marcantes, só não aqueles que estavam ligados ao Morra, à droga e ao próprio protagonista de alguma forma.

 

Os casos semanais nem eram grande coisa porque era claro que todos seriam resolvidos por causa do NZT, sinal mais que suficiente para evitar qualquer apego nesse quesito. O protagonista sempre foi a alma do negócio, com suas escolhas e o peso do seu caráter sendo discutidos por causa de uma “balinha transparente”.

 

Brian Finch é quem interessa

 

Limitless---Brian-vs-Brian

 

Por mais que seja um procedural, com o ~clichê~ de ter o FBI em cena, o personagem de Jake é a alma de Limitless. Brian é aquele adulto que se esqueceu de amadurecer e que chegou a um ponto da vida de completo desânimo e da pura realização de que não conquistou nada. Ele se segura na pose de ursão pimpão com seu jeito brincalhão e extrovertido que não combina com um local de trabalho em que os agentes precisam estar impecáveis e sérios. Ele gera os casos semanais, mas o que interessa no final são os resultados de cada capítulo da sua jornada de herói.

 

O Piloto já entrega que tipo de protagonista teremos, aquele que corre atrás de mais NZT pra ajudar alguém querido, ao contrário de muitos que fariam o mesmo pelo poder. Um elo criado comigo de imediato porque, depois de anos, o personagem se vê fazendo realmente algo, quebrando a impressão de que ficou pra trás na vida, e quis que ele vencesse em todos os âmbitos.

 

Antes do NZT, Finch não tinha motivação e criava um projeto em cima do outro só para dizer que fazia alguma coisa (parecia até eu). O personagem é uma pessoa boa, um queridão, mas se sente mal por ver todo mundo seguir e ser o único que ainda está lá atrás. Uma pincelada que o torna relacionável e duvido que ninguém tenha se sentido dessa forma. Por ele ser tão bom, não tem como você não se perguntar o quanto de estrago a droga trará para uma vida que já não tem muito ao que se agarrar.

 

Esse relacionar acontece com facilidade porque o protagonista foge do comodismo de homem bem-sucedido que acha mais motivos para alimentar a ganância por causa de uma droga. Brian é um cara que poderia ser meu vizinho de tão comum que é. Mesmo desesperado, ele ainda sorri. Ele ainda tenta. Mesmo dentro do perfil também cômodo de nerd fracassado, o peso da sua caracterização vem do traço de solidão.

 

Brian não tem amigos, os relacionamentos amorosos floparam, só havendo a família que o relembra de seus insucessos. Por ser tão sozinho, é fácil torcer por esse ninguém que quer ser alguém, especialmente porque se trata de um ninguém empático e altruísta. Não queremos que o NZT o destrua porque ele desfruta desse benefício positivamente.

 

E isso é muito legal por ser aquela velha história de que se usa um mal pra fazer o bem, mas até onde isso é aceitável e suportável?

 

A jornada de Finch sempre deixou muito que pensar. Sempre discutimos que se tivéssemos chance X faríamos Y, mas e se essa chance fosse uma pílula de NZT? Você manteria sua integridade? Você seguiria a vida para ajudar o outro? Mesmo tendo consumo da droga autorizado, Finch continua a não fazer grandes planos para si mesmo e poderia uma vez que tem o benefício das injeções. Ele poderia ter crescido no âmbito pessoal e profissional em menos de 10 episódios, mas a razão aqui é sobre um personagem que sempre se inclinou para o outro. Que sempre quis fazer a diferença.

 

Não tem como não aprender alguma coisa com esse tipo de personagem que pode sim inspirar. E Finch inspira incontáveis vezes, principalmente quando está sem esperança.

 

Embora Brian seja uma completa marionete de ambos os lados, a série ensina sobre valores no ponto de vista dele. Ele poderia ouvir Morra sobre esquecer a sua versão do passado, mas não o faz. Os laços no FBI se tornam honestos, fundamentados, e o personagem não consegue nem cogitar qualquer movimento que possa trair uma equipe que, intimamente, acredita que nem se importa com ele. Esse jovem não perde a humildade, embora pague caro por isso também.

 

Assim, ele é rodeado e testado de diferentes formas até se ver no labirinto que faz seu papel de duplo agente ser estilhaçado. É quando somos relembrados que mesmo com os casos, mesmo com a droga e mesmo com o FBI, Brian é quem sempre importou. Ele não tem malícia, não pisa nos outros e se protege na insolência em forma de piadinhas e de risadinhas inconvenientes. Ele é inseguro, errático, apavorado, e os instantes em que mostra lealdade e bravura são os que destacam que NZT pode ser tudo e nada.

 

No fim do dia, Brian quer mesmo é fazer o bem. Sou suspeita pra falar de personagem com essa pegada porque eles me conquistam rápido.

 

Limitless---Brian-working

 

Ao contrário do que muitos fariam, Brian combate a briga interna e se mantém verdadeiro ao que pensa e ao que valoriza. Com uma droga dessas, ele é ainda mais justo, mas nem sempre dá certo. Mesmo assim, o personagem inspira porque tem acesso a uma ferramenta que o faria dono do universo, que facilmente o faria sumir de vista do FBI e de Morra, mas opta por ficar. Por acreditar que com NZT é possível melhorar os arredores. Só que ele esquece da própria vida.

 

Não é à toa que uma vez sóbrio do NZT, ele consome outra droga que sinaliza o velho e banal Brian Finch.

 

O que me tocou várias vezes enquanto assistia Limitless é que Brian vive na incessante busca de ser especial. De ser importante. De pertencer. Algo muito vívido nos últimos episódios da temporada. Por causa de uma pílula, o personagem encontra significado na vida e isso é precioso mesmo sendo errado (é uma droga, né, gente). Muitos procedurais de hoje só querem o caso e se esquecem de humanizar os personagens porque são tantos em cena que não dá tempo. Por mais que ame séries assim, esse é um quesito que reclamo sempre se ou esquecem ou não fazem direito. E essa minha favorita, eterna protegida, fez tudo direitinho ao dar poder a um ser humano banal.

 

Um ser humano precioso. Sua corrupção de caráter com o NZT vem mesmo das decisões que precisa tomar uma vez que tem que manter o disfarce, ao ponto de realmente se deixar levar por várias doses. Ele não hesita em morrer por um bem maior, algo que Morra nunca esteve disposto.

 

Por essas e outras que o cancelamento doeu bastante, porque Brian humanizou um procedural que podia ser mais um entre vários. Finch é o diferencial, não os agentes e os casos. Tudo está na mão de um cara sem muita ambição que coloca tanto o outro acima dele que você nem sabe se isso é bom ou ruim.

 

Limitless trouxe um personagem fracassado, lhe dá o mundo e o toma por alguns segundos para que ele relembre que não é uma máquina, mas gente como a gente que tem que pensar em como sobreviver, se voltará a estudar e no que trabalhará uma vez fora do FBI. O FBI o muda, lhe dá mais propósito, mas no fim quem decide quem é Brian Finch é o próprio Brian Finch.

 

O trabalho criativo

 

Limitless---Abertura

 

Essa é minha parte favorita! Nossa, apaixonadinha para todo o sempre. <3

 

Além de Jake ser um ator nível comédia, Limitless merecia mais crédito pelo seu trabalho criativo – que deve ter sido realmente o que pesou no bolso uma vez que era edição no dedo para manter a mesma experiência do filme. Os pensamentos de Brian sob os efeitos de NZT eram enriquecidos toda semana, com várias versões dele mesmo, desenhos de cálculos e de probabilidade, atuações do elenco em plano alterado de consciência que rendeu até um episódio com passagens em formato de quadrinhos – 1×16, famoso em entregar o potencial da série.

 

A série brinca com reticências no ar, outras línguas, cortes de tela, ângulos de câmera maravilhosos, a mudança de cores que indica quando Brian está sob efeito da droga, entre outros efeitos que dão ritmo à narrativa do protagonista. Para TV aberta, Limitless teve uma edição impecável. Visualmente, a série nunca estagnou, sempre trazendo algo diferente e se tornando a cada semana mais atraente tendo como apoio um personagem pra lá de carismático.

 

Limitless---Brian-3

 

No âmbito roteiro, Craig Sweeny foi a pessoa mais preciosa do time (aka o criador). Quando terminei de ver o finale, comecei o ciclo que dó! porque se há uma coisa que aprecio é escritor que constrói bons paralelos que façam jus à trajetória do personagem. Inclusive, que tem noção do quanto podem escrever tendo em vista um curto espaço de tempo e um terreno ainda não confiável já que primeiras temporadas nunca sobrevivem. O produtor apostou no seguro, sem grandes reviravoltas, tudo dentro do que foi jogado ao longo dos episódios.

 

De fato, a série não estava interessada em ser mais um procedural, embora tenha iniciado como vários que existem. Não é à toa que a droga e o próprio Brian renderam as grandes histórias que começaram no Piloto, ficaram silenciosas por alguns episódios até saírem dando na cara. O mais estelar é que a droga deu chance para humanizar não só Finch, mas os personagens que tinham motivo para ingerir NZT e ser tão estrelas quanto o “agente” agregado. Salvo Morra que era ambição e arrogância pura – e uma S2 poderia mostrar como um falido escritor se tornou tão perigoso.

 

E menciono a narrativa do ponto de vista do personagem, com várias pausas dramáticas e até uma pagação de mico do elenco por causa do NZT. Há quem não goste desse artifício porque é muito fácil quebrar o ritmo da trama, mas, de novo, casos semanais não eram a prioridade e Limitless encontrou seu jeitinho de honrar as palhaçadas da mente drogada de Brian Finch.

 

Considerações Finais

 

Limitless---Brian-e-Piper

Não podia finalizar este post sem imagens do OTP

 

Uma vez que se captura o que realmente interessa, Limitless se torna hipnotizante. A série faz quem assiste refletir sobre o que seria possível fazer depois de ingerir NZT – eu terminaria todos meus livros, claro. Não é um projeto genial em trama, mas é genial visualmente. Em 22 episódios, foi lançado na roda o que se propôs, mantendo tudo na medida, com uma timidez inicial que fez dar certo. Os envolvidos estavam mais preocupados desde o início com o trabalho criativo e em manter Brian como agente duplo, não com casos intrincados que seriam perda de tempo por causa da droga.

 

E por escolher se apoiar no NZT é aí que Jake e o trabalho criativo foram tão bem aproveitados. Estamos tão acostumados a ver um personagem viciado na bad, tendo delírios, e meio mundo pedindo para que vá à reabilitação. Limitless torna tudo colorido e alegre e não banaliza o uso dessa droga, ato que seria praxe se a intenção fosse ter vilões por semana. A pílula transparente é motivo de felicidade, uma vez que quem a consome pode fazer o que quiser. Não tem tanto drama, só a reflexão sobre uma pessoa ser melhor com a pílula e como se dará o uso desse melhor. O protagonista a ingere por um motivo, que passa a ser outros, e assim segue.

 

O que incomodou realmente, mas só no começo, foi o arco muito esparso de Limitless. Houve episódios filler que se prolongam, mais ou menos, até o 1×11. Quando Piper linda e maravilhosa entra em cena, o jogo muda, mas nada apaga a verdade de que faltou sim um grande vilão que até existiu, mas ficava nas sombras. O personagem de Cooper foi lançado como big thing no Piloto para render vários nada, sendo que poderiam ter apostado em outra pessoa (até apostaram, mas…) – e aqui mora minha frustração.

 

A audiência de Limitless não era top para as exigências da CBS, não mentirei, mas, considerando suas propostas para o novo ciclo da fall, levanto a bandeira de que o corte dessa minha favorita foi deveras injusto. Uma vez que se conquista milagrosamente o apoio da crítica e se tem uma série tão criativa nas mãos, seria bom rever conceitos. Mas é aquele ditado, né?

 

Limitless se despediu sem cliffhanger e deixou reticências contemplativas. Terminaram em um bom ponto, com um pouco a se pensar sobre o futuro do ponto de vista de Morra (que não apareceu no finale) atrelado ao misto de missão cumprida caso a série fosse cancelada. Entregaram um bom trabalho que seduz pela edição e que a premissa discute a questão de males que vão para o bem. Tudo foi escrito intencionalmente para que nos reconhecêssemos nas escolhas de Brian e nos voltássemos para dentro se fosse viável ter NZT.

 

A série pode não ser impressionante ou extraordinária em comparação ao que já existe aos baldes. Não é, com certeza, mas o peso da moral vale por qualquer caso semanal que poderia esquecer a discussão sobre uma droga que lhe dá o sucesso e fica à sua mercê a hora de parar.

 

jake 1

 

Vai deixar saudade sim! E vai morrer pra sempre no meu notebook. Se você não deu uma chance, ou parou no meio do caminho, espero tê-los feito mudar de ideia. ❤

Stefs
Postado por:       

       
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Escreva seu comentário antes de ir <3
  • Rajja Vinicius

    Fiquei chateado pelo cancelamento, tinha muito potencial

  • Marcelo

    Estou assistindo a serie pela.netflix e fiquei surpreso de saber que foi cancelada! Uma serie tão boa e cancelam…