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13/jul

 

Obs: Muitos, muitos, muitos spoilers. :(

 

Se você falar mais uma vez no ka, juro que minha cabeça vai explodir.

 

Dando sequência ao ritmo mais acelerado com que Lobos de Calla terminou, Canção de Susannah faz o link entre o quinto volume e o final da série sem deixar a peteca cair. Por tratar de acontecimentos chave e começar a dar algumas explicações para o mistério que ronda a Torre e a busca de Roland, é um livro que não deixa espaço para enrolação e que te envolve completamente. Com 405 páginas (na tradução da Objetiva), dá pra ler tudo em um dia tranquilo.

 

Vai ser complicado não dar spoilers aqui, então, se você caiu nessa resenha por acaso, tome cuidado. Parte do post será uma discussão sem censura sobre um acontecimento que muda tudo na série.

 

A narração retoma o final do volume anterior, ou seja, o dia da batalha contra os Lobos. Vemos Eddie, Roland, Jake e Callahan discutindo com os Manni quando e como eles podem subir até à Gruta da Porta, abrir a porta desconhecida e ir atrás de Susannah/Mia. Somando a relutância (ou prudência) dos Manni em subir a trilha à noite ao fato de que eles também precisam ir atrás do dono da livraria em outro quando, Eddie está à beira de um ataque de nervos. Mesmo assim, a voz da razão fala mais alto e ele concorda em deixar a busca pela esposa para a manhã seguinte.

 

Imaginem a noite de merda que ele tem. Sem conseguir dormir, Jake vai lhe fazer companhia na varanda do padre, enquanto Roland conta com a companhia de Rosa (a “faz-tudo”, assistente de Callahan) para fazê-lo esquecer de sua insônia. É nesse momento que um tremor muito forte abala Calla, fazendo todos sentirem que as coisas estão literalmente e cada vez mais saindo dos eixos. Não um terremoto, mas um feixemoto. Um abalo em um dos dois únicos feixes de luz que continuam erguidos, suportando a Torre e os mundos que os cruzam.

 

Haveria uma vida após a morte ou mesmo o céu e o inferno seriam eliminados pela queda da Torre Negra?

 

Enfim, na manhã seguinte, o grupo parte para a gruta com os Manni, que aproveitam o Toque de Jake (a habilidade do garoto de tocar mentes, algo como telepatia) como faísca para a sua própria magia com ímãs e pêndulos. A porta deve ser aberta duas vezes: para Nova Iorque de 1999, para Eddie e Roland irem atrás de Susannah/Mia, e para a cidadezinha de East Stoneham, no Maine, em 1977, para Jake e Callahan irem atrás de Tower, o dono da livraria de Manhattan. É uma cena angustiante, porque ninguém sabe se Oi vai conseguir passar também. Em meio a lágrimas e a pressa, Jake tem que se despedir do trapalhão ao mesmo tempo em que se concentra para abrir a porta.

 

Não me agarro a nenhum deus. Me agarro à Torre e não vou rezar para ela.

 

Como Roland já sabe, e todos nós estamos aprendendo, só se pode planejar as coisas até certo ponto. Depois disso, não há como ir contra a vontade do Ka. Quando a porta se abre, Jake e Callahan (que não soltou da mão do menino, Deus o abençoe) são sugados para NY de 1999 e não têm a mínima chance de resistir. Oi, tão desesperado quanto eu da primeira vez que eu li, vai atrás do dono e acaba atravessando também, sem problema nenhum. Antes que consiga abrir a boca para protestar, a porta se abre mais uma vez, e Eddie é sugado sem delicadeza alguma para o Maine junto com Roland. Eddie, na verdade, bate a cabeça no batente da porta e perde a consciência por um tempo.

 

Há muito tempo você não vai ao Brooklyn, não é, filho?

 

A partir daí nós começamos a acompanhar a história em três frentes: Susannah/Mia em NY, Jake e Callahan em NY também, Eddie e Roland em East Stoneham. Na parte da(s) mulher(es), nós conhecemos mais sobre Mia, de onde ela veio, que parte ela tem em tudo isso. Descobrimos também como (e porque) Susannah ficou grávida, quem é o pai e o que a criança está destinada a fazer. Apesar de não gostar da Susannah, eu achei todo o arco dela muito bem escrito, e as atitudes dela neste livro foram ótimas. Nada de burrice, fez tudo certinho até o final. A minha maior crítica continua sendo à personalidade IRRITANTE da mulher. E quando eu digo isso eu me refiro à Susannah, não à Detta, Detta é parceira.

 

Da parte de Jake e Callahan, que só é retomada no final do livro, o padre deixa o garoto liderar enquanto eles refazem os passos de Susannah na Nova York de 1999 de um mundo onde a Co-op City fica no Bronx, e o tempo só caminha para frente. Ou seja, o mundo real, o mundo central, onde eles precisam fazer a coisa bem-feita da primeira vez, porque só têm uma chance em tudo. A parte deles no livro acaba com os dois entrando na batalha que os espera no Dixie Pig (um restaurante que existe de verdade, mas não em NYC), onde Susannah/Mia entrou. Essa cena é retomada já no primeiro capítulo do próximo volume. Só digo que chorei.

 

Finalmente, a melhor frente do livro é a de Roland e Eddie, e não só porque eles se materializam em East Stoneham no meio de um tiroteio (eles causam o tiroteio), e Roland tem que se virar com um Eddie inconsciente em um mundo estranho. Depois de uma sequência muito boa de chumbo, depois de encontrarem Calvin Tower e Eddie falar umas verdades para ele, eles encontram o rei.

 

Me recuso a acreditar que fui criado no Brooklyn pelo simples erro de algum escritor, algo que acabará sendo corrigido numa nova versão.

 

Na resenha passada, falei que eles descobriram um livro que muda tudo, certo? Salem’s Lot, do Stephen King. A Hora do Vampiro. O primeiro a se abalar com a novidade é, claro, o padre Callahan. Porém, Roland e Eddie aos poucos percebem que não é só o padre que é um personagem criado da cabeça estranha de um escritor estranho. Depois de sobreviverem ao tiroteio que os recebeu no Maine, os dois juntam os pontos e percebem que toda a vida deles, suas histórias, a busca pela Torre Negra, quem sabe a própria Torre, são criações do mesmo homem, do mesmo palavreiro. E o cara mora ali perto, bem pertinho de onde eles estão.

 

É a parte final do jogo. Tudo pelo qual trabalhei e tudo que esperei por todos esses longos anos. O fim está chegando. Sinto isso. Você não?

 

Preciso falar que o capítulo chamado “O Escritor” é meu favorito? Preciso falar que me emocionei com a cena do Roland encontrando o King? Um se ajoelhando diante do deus que o criou, o outro crente que ficou louco. O que acontece é que A Torre Negra é uma história que o King colocou no papel pela primeira vez quando ele tinha apenas 19 anos, e que praticamente ficou abandonada por longos períodos de tempo, porque, segundo ele (o King real e o fictício), a ideia toda era muito assustadora. Diante da possibilidade de sua história (sua missão, sua vida!) não ser concluída, Roland conversa com King e o hipnotiza para que ele continue e termine A Torre. É claro que o abandono dela pelo King é tão obra do Rei Rubro quanto o bebê de Mia.

 

Eu achei uma sacada tão genial ele se colocar na história, tão, mas tão genial! Mas, como não dá pra agradar todo mundo (não que ele se importe com isso, nessa altura do campeonato), esse é um divisor de águas para os leitores. Sei que teve muita gente (a maioria que não é tão constant reader assim) que odiou, achou absurdo e jogou o livro pela janela, mas também teve muita gente que gostou. É só perguntar pra qualquer fã de King o que ele/a acha d’A Torre Negra.

 

Para mim, a maior preciosidade do livro, o top do top de tudo é o posfácio, Páginas do Diário de um Escritor, que traz registros dele desde o encontro com Roland e Eddie até o dia em que ele foi declarado morto (o King foi atropelado e quase morreu em 1999, falei sobre isso aqui). Acho um barato tentar descobrir o que é verdade e o que foi inventado, mais engraçado ainda é o aviso dele no final do livro de que “as pessoas reais mencionadas nestas páginas foram usadas de um modo ficcional.” O livro todo é lindo, muito bem escrito, continua num ritmo muito bom, mas o que me faz dar nota 5/5 é o palavreiro, não tenho nem vergonha de admitir.

 

A Torre está caindo, um trilhão de universos está se fundindo e tudo é Discórdia, tudo é ruína, tudo está acabado.

 

Agora, preciso também deixar a minha crítica à tradução e revisão do texto. Ao longo da série, dois tradutores se revezaram no trabalho, Alda Porto e Mário Molina, sendo que o último foi responsável pela maioria dos volumes. Ok, sem nenhum problema. Acontece que cada um traduziu alguns termos e nomes do jeito que quis, e não houve a preocupação de padronizar nada.

 

Fazendo um paralelo com Harry Potter, por que não?, seria o mesmo que o Três Vassouras ter este nome em um livro e no outro se chamar Vassoura Tripla.

 

São coisas que não mudam necessariamente a história, mas que importam e muito para os fãs. São detalhes que acabam com a alma do livro, além do que já se perde naturalmente na tradução. Essas coisas me irritaram demais em Canção de Susannah, além de vários erros de vírgula (erros grotescos, dos pecados capitais da vírgula) e outras coisas do tipo. Eu imagino que isso tenha acontecido porque na época de lançamento dos últimos volumes da Torre (eles foram lançados mais ou menos juntos, porque o King escreveu tudo numa tacada só) rolou uma correria. Espero que os erros tenham sido corrigidos nas edições que se seguiram.

 

Acho que tudo que precisa fazer é escrever a história certa. Porque algumas histórias realmente vivem para sempre.

Na Estante

Título: Canção de Susannah (A Torre Negra Vol. 6)

Autor: Stephen King

Páginas: 405

Editora: Objetiva

 

Mônica
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