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05/jul

Texto por: Gui Zambonini ❤

 

Entre tantas vírgulas que uma pessoa pode ter, Louisa Clark imaginou que poderia ser as reticências da vida de William Traynor. Já ele, decidido a por um ponto final na tênue acentuação dos dias que o acomete em cima de uma cadeira de rodas, percebe, aos poucos, que a jovem abelhinha o faz gostar da ideia de ter um ponto e vírgula antes do inevitável.

 

Seis meses é o tempo que o separa de uma grande exclamação. Mas será que os doces sorrisos e as tagarelices de Lou bastarão para ele transformar o futuro em uma grande interrogação, ao invés de pontuá-lo de vez?

 

Para esta resposta, a autora britânica Jojo Moyes conduziu com sutileza as palavras escolhidas ao longo das 318 páginas do livro Como Eu Era Antes de Você. Todavia, para chegar ao desfecho é preciso voltar ao ano de 2007. Durante uma noite chuvosa, o bem-sucedido Will despede-se de sua namorada, Alicia. Ao deixar o apartamento dele, em Londres, a caminho de uma reunião importante,Traynor é pego pelo destino infindável ao ser atropelado por uma motocicleta.

 

O acidente resulta em dois anos de amarguras, sem melhoras na tetraplegia que lhe é acometido. Se antes o jovem e vívido filho de Camilla e Steven Traynor dedicava-se a comprar empresas, a aventurar-se pelo mundo, a namorar mulheres que mais pareciam modelos e a não ter medo de nada e nem ninguém, agora, aos 35 anos, ele vê-se obrigado a lidar com angústias que exalam em dor, raiva e a certeza de que nunca mais saberá o que é viver outra vez.

 

E os problemas de William não são poucos. Devido à lesão na coluna, nenhum músculo do tórax para baixo funciona. A fisioterapia o ajuda a manter as condições físicas, mas sem esperanças de que os médicos consigam consertar a medula espinhal. Ele também não transpira como qualquer pessoa. Por causa do acidente, um simples resfriado faz a temperatura do corpo dele subir. Sem contar as dores de estômago e a úlcera pelo excesso de medicamentos; dores nos ombros; infecção urinária; escaras na pele; dores de cabeça; queimação nas solas das mãos e dos pés; falta de sensibilidade física; e a possibilidade de morrer a qualquer instante por causa de uma infecção aleatória.

 

Como esperar uma vida plena, quando tudo passa a ser penoso, passivo e enfado sem ternura? Entre tantas limitações, Traynor ainda convive com a claustrofobia de saber que nunca mais poderá levantar-se da companheira dele de cada dia: a cadeira de rodas. Em uma conotação de Fera, personagem do conto de fadas francês escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, Will é o clássico “monstro que não morde, mas assusta” – até porque ele mesmo se enxerga em um abismo de assombrações de um passado próximo, de um presente eterno e de um futuro que não existe.

 

Como-Eu-Era-Antes-de-Você---Epílogo

 

Entre as reviravoltas de um labirinto funesto, o príncipe decaído passa aflorar-se ao conhecer a nobre de coração puro, também conhecida como Louisa Clark. Aos 26 anos, ela não se cansa de contar diariamente os 158 passos entre o ponto de ônibus e a casa dela. Trajeto do qual se inclui a cafeteria The ButteredBun, local onde trabalha. No caso, trabalhava. Com a notícia de que deixará de preparar e de servir chás e cafés, Lou depara-se com a realidade a qual evitara desde os 20 anos: o comodismo.

 

Com um semblante cujo sorriso enriquece e acalma as almas enfurecidas, a jovem de personalidade única, vibrante e sempre adepta de cores nas vestimentas, vê-se em um grande marasmo interno. Entretanto, nem toda a alegria das estampas reflete quem ela é de verdade. Na busca por desafiar-se, ela percebe que o amor tanto concreto quanto abstrato pode ser o substantivo que faltava para despertar a sua essência calada.

 

Com os cabelos inspirados no da Princesa Leia de Star Warsdivididos em duas partes torcidas e presas em coques iguais –, Louisa aceita trabalhar para Camilla Traynor, no castelo de GrantaHouse. O local ficava a apenas 30 minutos da casa dela, de Josie (mãe), Bernard (pai), Treena (irmã), Thomas (sobrinho) e vovô. Além disso, o salário era generoso e, a princípio, o ponto de maior importância a Lou, afinal, a família contava com a ajuda dela para manter os gastos e não se afundar em dívidas. Todavia, a jovem não contava que a indicação do Centro de Trabalho local à vaga de cuidadora fosse transformar o modo de ela enxergar a si mesma e a vida em tão pouco tempo.

 

William Traynor era indecifrável – ao menos era isso que Lou pensava no começo. Ele contava com a assistência de Nathan para lidar com as medicações e a fisioterapia, mas era com Clark que ele passava a maior parte do dia. Na visão dela, os chás resolviam qualquer problema, mas Will não ligava para eles, muito menos para os pensamentos dela ou para quem estivesse à volta dele. Raramente ele saía do anexo onde vivia. Cortar o cabelo e fazer a barba era como dias ensolarados em Londres: raros e incomuns. Porém, em certo dia, após um acesso de fúria do aristocrata, ela o enfrenta e deixa bastante claro que está lá apenas pelo dinheiro e não por ele. Acostumado a não ser contrariado, Traynor acata o recado com um olhar de soslaio e, a pedido dela, passa a não ser mais um mero “babaca”.

 

Com um laço certeiro, as duas metades passam a ser um inteiro. Entre passeios e cortes de cabelo, Will liberta a Louisa presa em um labirinto do passado e a ensina a desafiar e se abrir para o mundo. Enquanto ela passa ser os olhos e as sensações de quem ele foi um dia, ela mostra que não é necessário dizer “eu te amo” para amar de verdade. Tudo bem que Lou namora Patrick, o corredor, mas a falta de virtudes e conexões deles apenas realça o comodismo dela. E não é preciso ser um adivinho para saber que os dois estavam datados para acabar. Patrick via Lou como uma “duende drag queen”; Will, como o pote de ouro dos duendes à espera no fim do arco-íris.

 

Como-Eu-Era-Antes-de-Você-1

 

Desde o momento em que Louisa soube que o contrato de seis meses dela era por ser o tempo de vida decidido por Traynor, ela vestiu as meias pretas e amarelas preferidas, manteve-se de cabeça erguida e o fez perceber que a tetraplegia jamais o impediria de viver. Contudo, médicos, enfermeiros e psicólogo aguardavam-no na data marcada em uma clínica na Suíça, conhecida como Dignitas. Lá, em doses calmas, ele tomaria 100 mililitros de água em um copo misturado com barbitúrico (composto químico). Em minutos, a bebida amarga o faria pegar em um sono profundo para nunca mais acordar.

 

Enquanto Lou quer Will com todas as vírgulas, ele não esconde que a quer como ponto final.

 

O inevitável é uma escolha pessoal e inquestionável para aqueles que, quando dormem, surpreendem-se em ainda poder abrir os olhos no dia seguinte. É doloroso ouvir da boca de quem ama que ele não mudará a decisão por ela – porque dentro dele, o William do passado definitivamente não existe mais; e o do presente, mesmo penoso, é o porto seguro de um homem de sorte. E Louisa pode não ter conseguido mudá-lo de apreciação quanto ao fim dos seis meses, mas o mudou de alma e coração. E sem deflagrar crenças, talvez fosse isso que o faltava para concluir o ciclo da vida, já decidido por ele.

 

O para sempre é algo subjetivo, porque o para sempre, sempre acaba. Jojo Moyes não escreveu uma história triste e muito menos um clichê romântico. Ela usou de uma personalidade folhetinesca para transformar personagens literários em uma novela da vida real. Quem leu antes de acompanhar a versão cinematográfica, pode visualizar com plena clareza os diálogos e ações de cada um em Como Eu Era Antes de Você.

 

E, claro, as lágrimas finais eram de se esperar por tamanho envolvimento com Will e Lou. Em pouco tempo, o zangão e a abelhinha conseguiram demudar a solidão camuflada em felicidade. E isso foi um final feliz. Mesmo que o sol brilhe mais claro quando alguém está bem, nem ele e nem ninguém pode mudar o quê e quem as pessoas são – e nem as escolhas delas.

 

Na Estante

Nome: Como Eu Era Antes de Você

Autor: Jojo Moyes
Páginas: 318

Editora: Intrínseca

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Escreva seu comentário antes de ir <3
  • Karla Kélvia

    Eu amo mto esse livro, e foi ele que me fez conhecer esta escritora ágil, divertida, mas, acima de tudo, mto sensível e observadora. Lendo agora a continuação, vejo qto a Louisa é cada garota de mais ou menos essa idade. divertida, atrapalhada, meio perdida, mas com suas esperanças. Amei a review!

  • Isis Renata

    Louisa é uma querida e minha identificação foi imediata. Tagarela, criançona e com medo de arriscar na vida. Me vi refletiva nessa moça de coração enorme que transborda sentimento por onde passa.
    Lindo ver a lição do livro/filme de que não podemos mudar as pessoas, mas podemos tocar sua alma.
    E sabermos que nao somos fracassados.
    Por mais que digam que é clichê etc. A história de Lou e Will serão pra sempre parte da minha vida