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08/jul

Amo muito filmes bobinhos (que novidade!) e hoje trago um filme superbobinho chamado See You in Valhalla (em português literal, algo como Vejo-o em Valhalla). Um “dramédia” de 2015 que conta com rostinhos conhecidos no elenco – Sarah Hyland, conhecida pelo seu trabalho em Modern Family, Odeya Rush por O Doador de Memórias e Jake McDorman por Limitless. O longa é bem leve, rende umas reviradas de olhos pela quantidade de bobagens, mas, bloqueando o lado crítico, dá sim para capturar uma história que aquece o coração.

 

Quando minha mãe morreu, minha família se desfez. Meu irmão tentou nos colocar juntos de volta. Quando ele morreu, ele alcançou seu objetivo. Nós nos tornamos uma família novamente. Às vezes, na morte, a respiração é arrastada para uma nova vida.

 

A história começa situando o drama. No caso, a morte de Magnus Burwood, ser humano excêntrico que agia, pensava e se comportava como um Viking. Tanto amor ao ponto de ser batizado com esse nome em uma comunidade voltada a essa cultura, onde vivera com a namorada que falecera por motivos de drogas (e ele buscara reabilitação também). Tal baque o forçara a se readaptar ao mundo real, aka ficar na casa do pai, mas a falta da amada o faz se perder de si mesmo somada a falta que sente da mãe que também se fora. O que resta? Escuridão.

 

Logo, estamos diante dos demais Burwood, que formam uma família disfuncional cheia de assuntos inacabados e que resolvem encerrá-los ao se reencontrarem para o funeral de Magnus. No decorrer dos preparativos, quem se destaca é Johana, personagem de Hyland que, ao saber da morte do irmão pelo noticiário, volta à cidade com um mistério pequenino nos ombros. Um conflitinho que a trama não desenvolve, mas precisa para continuar em movimento. Por meio do seu ponto de vista, conhecemos o básico dos irmãos e do pai que querem ir embora logo porque claramente não se aturam. Isso, desde a perda da Sra. Burwood.

 

See-You-in-Valhalla---Grupo

 

Os Burwood têm perfis escandalosamente batidos (além do fato de terem passado anos sem se reunir e evitado ao máximo que isso acontecesse): o pai é famoso pelas mancadas homéricas justificadas pelo peso da morte da esposa e ele tem a missão de lembrar que, depois da Sra. Burwood, Magnus fora a cola da família. Na esteira dele, temos Barry que é o filho gay que sofre chacota do irmão hétero Don, o bem-sucedido que vê seus familiares com certa superioridade – e desmerece até o brother falecido. Nada sobre essas figuras desenvolve, a não ser sobre Johana e é muito pouco, pois o foco de See You in Valhalla é fazer com que os personagens se reconciliem e se perdoem com base no impacto da perda de mais um deles.

 

O Sr. Burwood pode até considerar Magnus como a cola, mas, na verdade, o Viking é o empurrão do reencontro enquanto Johana vai se revelando como a verdadeira Super Bonder. Esses dois irmãos se reconhecem pelos passados conturbados e pelo gosto artístico, pontos de vista que rendem o leve drama de See You In Valhalla. Ela é o aviso final de que a família precisa se aceitar e se grudar, e o funeral soa como o único meio para que isso aconteça. O famoso tudo ou nada.

 

Inclusive, dá até a impressão de que essa lavagem de roupa suja entre os Burwood é uma forma para que Magnus descanse em paz. Pensamento não entregue no roteiro porque o que vemos nesse reencontro é um grupo desajeitado que tenta retomar a conversa que faltou há anos, sem perder a chance de jogar as nhacas na face um do outro. Discussões que encontram um jeito de atingir mais Johana pelo seu passado e o irmão Viking visto como um completo perdido na vida.

 

A proposta de See You in Valhalla é fazer com que esses personagens se julguem menos e se respeitem mais, o que não é nada novo já que a premissa de morte + família é tão batida quanto mulher em filme de terror dizer ao assassino que o namorado está a caminho. Não sei qual foi realmente a intenção de Brent Tarnol, o roteirista, porque eu estava preparada para classificar o longa como “perda de tempo”. Li até uns comentários do tipo “não esperava nada e chorei”. É mais ou menos isso que acontece porque você se vê diante de uma comédia meia-boca, toda estereotipada, toda regada de comentários babacas, cheia de clichês, mas lá no final há o baque. Não é uma grande epifania, mas uma lição básica que podemos agregar pra vida.

 

Só perto do final é que See You in Valhalla deixa de timidez. Por mais bobo e mais do mesmo que seja, tem propósito. Basta focar em quem interessa: Magnus.

 

See-You-in-Valhalla---Magnus

 

Magnus aparece em flashbacks que apoiam à trama. Ele tem um nome de guerra, parte do seu quarto no sótão é estilizada com várias coisas que fazem menção à cultura Viking e seu recontar tem várias citações a Odin. Isso me fez lembrar da minha época potteriana, que foi meu refúgio por muitos anos, em que fiz questão de criar no meu quarto um pedaço de Hogwarts. Eu precisava desse mundo para manter meu juízo no lugar e o mesmo acontece com esse personagem.

 

Sabe quando precisamos de histórias que nos empurre adiante? Pergunta que confere a gotinha de significado na trama e que pega na hora de classificar See You in Valhalla. É o famoso “filme que não é tão ruim quanto aparenta”. É ruim, mas poderia ser pior.

 

O gosto de Magnus parece completamente desimportante, mas é o coração da trama. Por eu ser fã de Harry Potter, ter crescido com a saga, e ter feito dela um livro de cabeceira para dias bons e ruins, o Viking se tornou compreensível e relacionável pela sua paixão que cria o imaginário do filme. São nos flashbacks que o longa se revela muito mais, não entre as brigas dos irmãos Burwood que me fizeram julgar Valhalla até a hora do real choro livre começar. Ignore-os (menos Makewi porque ele é bom demais e tão estereotipado quanto).

 

A parte cômica desvia o que é importante. No caso, aquilo que Magnus sempre acreditou.

 

Harry Potter me ajudou nas fases negras da vida e é assim que Magnus vê a cultura Viking. É seu refúgio. É sua força. Até não ser mais. Por mais que não esteja presente, e tenha umas cenas que qualquer pessoa consideraria esquisitas, o valor dessa cultura se entremeia entre os irmãos que precisam compreendê-la para compreender o irmão falecido. Além disso, para perceberem que aquele reencontro não se embasava unicamente no velório. Cada um dos Burwood é covarde sobre algo e Magnus reacende o que faltava: bravura. O core dos Vikings.

 

Magnus é um completo perdido em alguns aspectos? Sim. Em vários. Os flashbacks o ajudam porque o presente o vende como um sem futuro e um ser humano fantasioso. Como assim você fica nesse tipo de bolha com mais de 20 anos nas costas? Quando é que você amadurecerá? Por isso que digo que esse filme é para olhos sensíveis. O personagem não tem espaço na trama, não teve espaço na vida dos irmãos, e mesmo assim dá para se colocar em seu lugar porque o que amamos pode nos preencher. E o que nos preenche pode preencher outras pessoas, como acontece com os irmãos.

 

Não tenho vergonha de nada que amo, de usar Caps Lock, de usar gif, o que for. Se tiver que fundar uma comunidade potteriana só para desempregados, vou mesmo porque essa sou eu. Magnus é um Viking da mesma forma que sou uma nascida trouxa aluna da Sonserina. O que temos em comum é que a vida real sempre nos pegará pelos calcanhares. Ninguém está imune a catástrofes. Os refúgios não nos escondem eternamente, mas podem servir de escudo.

 

A missão de ser a cola acaba nas mãos de Johana que se inspira naquilo que Magnus mais amava. Em uma cultura que diz, entre muitas coisas, que os membros não fogem da luta. Inclusive, o irmão falecido a inspira a lidar com seu passado deixado nas reticências. Há uma conexão forte entre os dois, embora não seja explorada no filme com grandes detalhes.

 

See-You-in-Valhalla---Burwood-Arte

 

O lado especial de See You em Valhalla também existe em lidar com lembranças e cicatrizes. Cada um dos Burwood é hipócrita e eles se vendem como gostariam de ser vistos. Até a fachada desses personagens se dissolver, muita piada rola. Cenas ruins também. As storylines são fracas, mas há a tentativa de prezar o individual, só que de um jeito grosseiro.

 

Jake foi a pessoa que me fez ver esse filme e me surpreendi de ter gostado. Sou uma pessoa que tem uma queda por clichês e esse clichê familiar cutucou meu coração em vários momentos. Não é uma história que provavelmente mudará sua concepção da vida e do universo, mas fará com que pense sobre o quanto a perda influencia em vários aspectos. O longa não explora a circunstância da morte em si, mas o quanto cada membro dessa família vive protegido na sua fachada até encontrar o limite pra ceder. Algo que aconteceu com Magnus.

 

Todos estão em cena para lidar com pontas soltas. Magnus não conseguiu e desistiu.

 

Aqui, temos um singelo exemplo sobre clichês: não há mal usá-los desde que seja repaginado. Nesse caso, o peso de See You in Valhalla já está no título que faz menção à mitologia nórdica – e até a trilha sonora tem uma bandinha que aborda esse universo. A história Viking embasa a moral. Magnus pode não estar ali, mas quer que todo mundo volte a se grudar e seja autêntico e guerreiro.

 

Emocionei-me com Johana e o peso que ela carrega nos ombros por causa do seu passado. Até mesmo com Magnus que tenta aprofundar a trama, mas o roteiro fica no raso. Sério, não sei explicar esse filme, só vendo mesmo. Ele é estranho, idiota, babaca, mas termina em amor.

 

Tudo graças ao Magnus, claro, porque é bem fato que See You in Valhalla parte de um canto qualquer e chega a lugar nenhum no quesito trama. Você começa sem expectativa de nada e no meio da história dá vontade de arrancar os olhos com tanta bobagem. Mas lá no final você tem um pequenino pote de ouro e é possível se ver tocado pela sequência que culmina na conclusão que é tão excêntrica quanto o Viking.

 

Esse é aquele tipo de filme para olhos e coração sensíveis. Se vocês se agarrarem aos diálogos sem profundidade ou aos irmãos, a experiência será mesmo uma grande perda de tempo. Esse é aquele exemplo que pede para que quem assiste desligue o lado crítico, algo que nem faz parte de mim quando escrevo resenhas de filmes porque sempre trago aqui os que mais gosto (porque não gosto de ser enganada).

 

See You in Valhalla tem lá sua imaginação e a trilha sonora é maravilhosa, características da maioria dos filmes independentes. O que fica é que todo mundo precisa encontrar seu ponto de bravura, perdoar, buscar o melhor de si e impactar. A história é curta, não tem aprofundamento, mas manda em sua sutileza dramática a mensagem do quanto precisamos acreditar que determinadas coisas acontecem por um motivo e que todas as coisas ruins servem para nos fazer aprender e, quem sabe, nos redescobrir.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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