Menu:
15/jul

Eu estava com vontade de publicar este texto desde o início da fall season do ano passado, mas a quantidade de séries que peguei para resenhar tornou a tarefa impossível. Por um lado, isso foi até bom porque só nesse ciclo senti um pouco de firmeza sobre algumas abordagens que falarei com mais de frequência aqui no Random Girl. No caso, personagens femininas em âmbito – quase – geral. Digo quase porque sou uma pessoa só, não tenho um vira-tempo e felizmente não são todos os programinhas, livrinhos e filminhos que me agradam (e aceito indicações, sempre).

 

Vamos dizer que este texto explica razoavelmente os motivos dos quais eu cutuco desenvolvimento de personagem feminina ao ponto de fazer posts de 10 páginas (vide: Kim Burgess).

 

Essa preocupação com personagens femininas bateu na minha cara durante as resenhas de The Vampire Diaries. Agradeço Elena Gilbert por ter iniciado esse meu faniquito e por me fazer citar problema em tudo. Ações que me fizeram perder o medo de dizer o que pensava sobre o desenvolvimento de storyline dessa personagem e várias outras. Sou daquelas que não consegue ficar quieta se vejo algo errado. O que fizeram com a minha querida Santa Gilbert a partir da sua transição ao vampirismo foi a prova de que não dá mesmo para manter o silêncio. Independente se minhas palavras afetam ou não em alguma coisa.

 

Rolava um baita medo de desconstruir uma personagem que foi muito querida – e que me foi querida. Porém, os feedbacks positivos me alimentaram e foi aí que comecei a soltar o braço no textão. Isso porque na época pouco se falava de feminismo e de representatividade (2011-2013), não com a força do ano passado pra cá. Além disso, não estava tão engajada. Escrevia mais por instinto.

 

Sendo assim, resolvi vestir minha capinha de vez e sair metralhando quem não faz o job direito. Oficializo meu escritório mais conhecido como: sou fã, mas não sou trouxa.

 

Elena é o ponto de partida que me fez escrever sobre dois tópicos que trabalhava e que não fazia ideia de que trabalhava. Como assim? Algo semelhante a época em que vivia afundada no fandom de Harry Potter: não sabia o que era shipper, mas shippava Harmony forte (e ainda shippo). Não sabia que as histórias que criava no papel sulfite sobre a saga se chamavam fanfics – algo que fazia desde a época dos Backstreet Boys sem saber o que fazia. Vamos lembrar que vivi a adolescência dos anos 90 e não tinha a internet de agora. Fui uma das pessoas que demorou a ter essa praticidade aqui em casa – porque eu não tinha computador, duh!.

 

No caso de personagens femininas, eu conversava sobre empoderamento e representatividade sem me tocar que esse processo tinha dois nomes diferentes. Cá estamos!

 

Esses focos de escrita começaram a ser investidos naturalmente primeiro por contribuírem com a minha desconstrução, o que me fez ficar mais interessada. Segundo porque nadei bastante nesses temas no ano passado, período que marcou meu ingresso na Revista Pixel. Foi lá que obtive aval para usar meu escudo, pegar minha espada e caçar showrunners. Foi lá que senti vontade de arriscar e a inspiração para isso veio pelo fato de que o site é conduzido por mulheres. <3

 

Lá, comecei a explorar pautas sobre representatividade feminina na TV. E toda vez que deixo um texto no rascunho é como se tivesse cumprido uma missão. Não só por dar um puxão de orelha, mas porque vejo o quanto me desconstruí sobre os mais variados aspectos com relação a mulheres na mídia. Eu tento sair do jornalismo, mas não é que o dementador volta!?

 

E este post meramente existirá para que vocês entendam um pouco porque esses assuntos importam e os motivos de querer discuti-los neste site. Da mesma forma que quero aprender mais, quero que quem me lê compreenda porque cutuco tanto determinadas coisas que podem soar desimportantes. Afinal, é só uma série/livro/filme… Pra mim apenas deixou de ser.

 

Sei que minhas palavras não influenciarão em nada lá na gringa (a não ser que comece a traduzir meus textos para o inglês), mas gosto de educar e de aprender. Gosto de mostrar que nem tudo tá perfeito na vida dessas personagens e em qualquer assunto que me incomode. Cheguei num ponto de concordância comigo mesma sobre o quanto me faz bem (e algumas vezes mal) explorar esse caminho e o quanto preciso continuar.

 

Por isso, este texto está aqui, com base nas minhas experiências do ano passado pra cá. Percebi que gosto muito do assunto. Fim. Seguimos.

 

 

Stefs Investigations aka Random P.D.

 

 

Jessica

 

Considerando minha trajetória falando sobre séries, posso resumir tudo com um vídeo da Jout Jout chamado Mudemos. Ainda bem que estou em constante mudança. Ninguém nasce desconstruído.

 

Uma personagem ruim existe porque a escrita dela é ruim. Às vezes, a atriz não é tão boa, o que arrasa o conjunto da obra. Mas é bom se policiar, saber quando vale dar uma cutucada ou não, porque o erro maior sempre estará no writer’s room.

 

Outro ponto é: há quem ache que basta colocar alguns pingados de mulher na série para dizer que estou representada. A questão é que, ok, elas estão ali, mas não estão contando uma história interessante. Conforme escrevi lá na Pixel sobre morte de personagens femininas na TV, viva ou não a maioria delas só tem servido de dispositivo para angústia masculina. Ela só está ali para tentar trazer o melhor do homem, para apoiar o homem, para morrer pelo homem ou não ver mais ninguém porque só quer saber do homem por quem está fixada (e não apaixonada).

 

Sem contar que várias mulheres na TV são criadas para alimentar triângulos, para ser objetos e/ou para morrer (e quando morrem a prioridade é colocar um homem no lugar e não outra mulher). O mesmo acontece por aqui, em que novelas ainda apostam no mode megera rica que não suporta a menina pobre ou a mulher infeliz que tem ódio mortal da amante (e você já espera o famoso tapa na face cheio de anéis). Ou a mulher negra sendo sempre a doméstica fofoqueira sem nenhuma expectativa de crescimento ou o alívio cômico. Não dá mais, né?

 

Sim, está rolando melhoras, mas podem mais. Muito mais. Infelizmente, ainda rola muito jogo seguro porque há produtores que não se desprendem da “lei” de Hollywood de que homem branco, hétero, cis é mais rentável. E que mulher correndo atrás do homem, se sacrificando pelo homem, é mega romântico. Em alguns casos pode até ser, mas se não há história pra ela, não tem como embasar o resto, simples assim. Por isso tanta personagem supérflua e assassinada.

 

Muitos que acompanham minhas resenhas sabem que minha ferida é o tratamento de personagem feminina. Por isso me batizei como caçadora de showrunners porque representatividade pode até partir do ponto de ter uma personagem X no meio da série, ou do filme, mas que história ela tem? É bem desenvolvida? Há desafios reais, muito além de correr atrás do homem? Ela tem conversas empoderadoras com outras mulheres ou só param lado a lado para falar do homem (que elas desejam simultaneamente)? O elenco de mulheres é diverso, com minorias que também tem espaço de fala? Há mulheres negras e personagens da comunidade LGBT que estão longe de estereótipos?

 

Não é apenas ter a personagem, entendem?

 

Se for assim, Stefs, pare de ver série porque tá tudo errado.

 

É aí que tenho que ver série mesmo (e vocês também).

 

De nada adianta ter uma mulher em cena ou uma adolescente sendo que uma ainda seguirá o papel de chefe chata e amarga por causa do divórcio ou da menina que tem inveja da garota nerd que fica em escanteio e por um milagre divino chama a atenção do boy popular. Como disse no texto sobre sororidade na TV, não tem problema trazer perfil batido e investir em clichês, mas chegou um momento que é possível quebrar amarras sobre o mais do mesmo. Há muitas séries que ainda pregam rivalidade feminina entre duas personagens que tendem a ser vazias. Poderiam desenvolver esse impasse a fim de torná-lo em algo positivo para ambas.

 

Conflitos positivos ou negativos são necessários para qualquer filme, livro e série, até os mais batidos como um triângulo amoroso. Mas ainda há a necessidade de ter o homem como grande protagonista e a mulher como sua aliada – e de quebra ter outra mulher para causar atrito romântico ou para querer brigar pelo mesmo cargo jogando absurdamente baixo. Ou personagem estepe que claramente morrerá ou sairá de cena logo.

 

Além disso, há a realidade de que o fandom também pode acabar com essas personagens de tanto que enchem o saco no Twitter. Fanservice também mata e descaracteriza personagens femininas. Isso deveria ter um pôster porque se trata de outro tipo de caos que tende a aniquilar mulheres da ficção maravilhosas.

 

 

A investigação continua

 

Representatividade Feminina

 

O que eu ganho com essa abordagem? Conhecimento e mais desconstrução.

 

Setembro está quase aí e continuarei com a mesma abordagem nas resenhas (ou em posts independentes). Quem me acompanha há certo tempo sabe que dificilmente falo de coisas técnicas e que tal trama foi apenas “rasa”. Minha ferida sempre foi e sempre será desenvolvimento de personagem porque sem personagem bom não há plot bom. Personagem é quem desencadeia a história. Sendo mal escrita, o que teremos? Sim, isso mesmo, histórias ruins pra caramba.

 

A resposta geral para a pergunta acima virá em um post independente, mas adianto: tudo que absorvo nas séries que vejo rebate em praticamente tudo que escrevo. Se há uma coisa que o feminismo me trouxe foi o descortinar de muitos vícios de escrita. Sério, eu fui por anos a pessoa que escrevia relacionamento abusivo sem saber que era um relacionamento abusivo – e romantizava o relacionamento abusivo. Era ok a mulher sofrer pelo homem, sendo que desse jeito não é ok de forma alguma (eu fui muito fã de Twilight, pensem!). Não é essa mensagem que quero transmitir (e tento não transmitir). Quanto mais eu absorver conteúdos que fazem a diferença e pontuar o que considero certo/errado, mais sentirei confiança de não cair nessas ciladas quando algum universo meu sair da gaveta (ou quando escrevo fanfic, amo, sou, nunca pararei).

 

(e se eu deslizar, pfvr, me contem hahahaha).

 

Quem escreve sabe do que falo com um pouco mais de propriedade e quem tem contato com representatividade/diversidade feminina também. Sei que ainda errarei muito (não sou gênia e nem tão cheia de si assim), como errei bastante no passado (#mudemos). Manter o que tenho produzido sobre personagens femininas tem tudo para me ajudar a ser uma serumaninha melhor.

 

E entendo que algumas pessoas gostam (e aceito sugestões também). E entendo também que nem todo mundo concordará comigo (e podemos trocar ideias de boa sem problema algum). Estamos aqui para evoluir.

 

Esse descortinar estava descortinado desde que comecei a ralhar com Elena Gilbert. Quando arrumava este site, ri de ter encontrado um post sobre a Quinn de Glee, o estampido que me fez pensar e por que não?. O instinto trabalhava antes da minha consciência. Rolou muito medo dos trolls virem com suas tochas e invadirem meu reino, mas prossegui. Acredito que o segredo da vida está na intenção e quando um processo vem de um lado genuíno não tem o que dar errado.

 

Representatividade rima com modelos. Não tenho essa de categorizar personagens, separá-las por cor de pele, porque as vejo como uma unidade. Obviamente que se não tem diversidade, eu atacarei. Contudo, se há 5 personagens em cena, são essas 5 que terão minha atenção. Não estou aqui para proteger personagens masculinos, embora cutuque quando vejo descaracterização e tontice. Eles não são meu foco, claro, porque a maioria influencia negativamente a personagem feminina. Geralmente, ela só nasce para movê-lo na trama e fica anulada no cantinho sem história.

 

É isso que me faz feliz e infeliz: a história.

 

Por tratar a mulher como uma unidade multifacetada, tê-la na série já me faz feliz, mas o que me impacta é o que ela tem ou terá que contar. O calo que estarei pronta para alfinetar é como ela se desenvolve em meio às adversidades e até mesmo como seu romance é iniciado e segue em frente. Se não há conflito, só meramente amoroso ou pelo homem, não tem como proteger os envolvidos.

 

Meu foco sempre será história e caracterização. Sempre foi, desde que me entendo por gente, mas descobri isso anos e anos mais tarde. Faltava coragem de apontar o que ligeiramente me incomodava e agora estou aqui para deitar em X de indignação quando o rolê tá errado.

 

 

Caçando showrunners na próxima fall

 

Representatividade-Arquivo

Obviamente que teríamos menção honrosa aos produtores da franquia Chicago

 

De acordo com uma pesquisa feita pela Variety, a próxima fall tem esse rosto: 90% da pizza pertence aos showrunners brancos. 78% são homens, 11% são mulheres. Apenas 6%/4% são homens e mulheres das minorias em sequência.

 

E o que isso tem a ver? Entramos na falta de inclusão por detrás das câmeras que afeta sim storylines e quem são protagonistas. Resumindo: afeta tudo! Mulheres tendem a ganhar papel 100% de destaque se mulheres são showrunners – digo tendem porque temos Julie Plec que escreve mais para homem, por exemplo.

 

Vejam no gráfico aí embaixo que mostra o quanto não há peso feminino como showrunner e, numa repartição, nem homens e mulheres que representam as minorias. Esse grupo pode até existir no writer’s room, mas não é a voz influente.

 

Diversidade na TV

 

Para falar das multifaces da mulher só sendo mulher. Para falar das minorias só sendo das minorias. Homem branco, hétero e cis tende a não compreender isso e joga nos estereótipos. O mesmo vale para mulheres que escrevem para mulheres, cujo posto de autoridade em uma série, infelizmente, pode não significar nada. Simplesmente por elas tratarem suas personagens como objetos, que têm que ficar seminua e fazer sexo toda semana com o boy (tenho tudo contra quando a personagem só faz isso em todos os episódios sem desenvolvimento algum de história e de caráter).

 

Claro que há exceções, amém. Há muitos homens que dão conta maravilhosamente do seu elenco feminino (tipo o Peter Nowalk) e há mulheres que sambam (Shonda Rhimes).

 

Histórias nas séries da vida são muito importantes e repito que não basta ter a mulher entre vários homens só para dizer que tá tendo espaço para ela. As pessoas querem histórias boas, querem se relacionar na medida do possível com o que é contado e meio mundo sabe que a vida não é meramente um romance – pensamento que também vale para séries adolescentes que pregam os mesmos assuntos de triângulo e de rivalidade feminina.

 

Outra coisa que me incomoda é ver homem sendo mais valorizado que a mulher. Não usarei o feminismo para embasar esse argumento (embora tenha um Q feminista), mas, sério, ver personagem rebaixando outra para divertir o personagem masculino mata aos poucos. Inclusive, os chorosos argumentos “tá atrapalhando o OTP”, “tá chorando demais”, “tá aparecida demais”. Please!

 

Enfim, deixo este post para explicar porque escrevo do jeito que escrevo algumas resenhas. Isso vem da minha mente que se desconstrói um pouco todo dia e isso não me faz a diferentona, a especial. Como disse lá em cima, eu fui a pessoinha que escrevia relacionamento abusivo presa ao mesmo pensamento que os caras de GoT tiveram ao escrever o estupro da Sansa: a desculpa de que era o único meio de tal personagem evoluir. Sendo que há vários meios de fazer uma personagem evoluir e nada tem a ver com patriarcado ou misoginia ou machismo. Ler mais sobre esse assunto tem me ajudado demais a dar pitaco aonde tem que dar e continuarei.

 

Continuarei acompanhando essas histórias porque elas me ensinam o que não fazer. Elas me mostram o que há de tão errado na retratação de mulher na mídia. Elena Gilbert me ensinou muitas coisas e sempre lembro da sua trajetória da S4 até a S6 com grande tristeza. Não só por ela ter perdido o posto completo de heroína de TVD, mas por ter sido reduzida tanto, mas tanto, que não sobrou nada a ela a não ser um caixão. Pior que isso, é pensar que foram duas mulheres que tocaram esse barco e acharam que estava tudo bem, tudo lindo.

 

Que venha a próxima fall season em que a maioria continua sendo homem escrevendo sobre mulher. Poucos se salvam nesse serviço, mas não os fazem imunes aos meus tuítes azedos (Lobo e amigos estou filmando vocês aqui da janela do meu quarto!).

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3