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08/ago

Let love light your way
Forever always with me stay
I’ll live while I’m alive
Forever always with me stay
With me stay

 

Vivo a quase dois anos em Dublin e uma das razões que me trouxe aqui foi minha banda favorita, o The Corrs. Sempre fui uma criança um pouco às avessas e, conforme cresci, fui percebendo que tudo que mais me define vem de um mesmo lugar. São dois estados de espírito que fazem quem você é e isso é o sentimento que nutre por aquelas pessoas e coisinhas que tanto ama. Família é Amor e fim de história.

 

The Corrs é uma família. Coincidentemente ou não, minha banda favorita é composta pelas irmãs e o irmão Sharon, Caroline, Andrea e Jim. Nascidos numa adorável e pequeninha cidade do norte da República da Irlanda chamada Dundalk.

 

Todos nós temos aquele tipo de música que nos transporta para algum lugar especial. Pode ser a eletrônica, a batida do funk ou gingado do hip hop. Independente do que classificas como música, temos que concordar que sempre haverá um artista ou banda que lhe represente. Em 2000, encontrei a minha. Graças ao Acústico MTV e ao momento aleatório que o álbum In Blue (2000) chamou minha atenção numa barraquinha de camelô.

 

I met you on a sunny Autumn day
You instantly attracted me
When asking for the way
God if I had known the pain I’d make you feel
I would have stopped this thought of us
And turned upon my heel

 

Foram as letras, melodias e o sentimento de cada canção presente em Forgiven Not Forgotten (1995), Talk On Corners (1997), In Blue (2000), Borrowed Heaven (2004) e Home (2005) que me acompanharam nas fases mais decisivas. Principalmente no momento de transição da adolescência para a vida jovem adulta.

 

The-Corrs-4

Dreams

 

Aquilo que amas pode sim ajudar na construção do seu eu. Não importa se acredita que esse eu exista graças aos seus pais e melhores amigos, aqueles que considera naturalmente como parte dessa grande família.

 

Somente aqueles que têm algo assim para se agarrar conseguem entender o quanto esse momento que vivo agora significa pra mim.

 

Quando cheguei aqui na Irlanda, em setembro de 2014, muitos me perguntaram o motivo da minha vinda. Confesso que para alguns não quis explicar toda a pessoalidade desse momento. A necessidade latente que pulsou dentro de mim e que me fez sair da minha zona quentinha de conforto. Mas, resumidamente, a resposta é bem simples: “estou a viver meus sonhos”.

 

E é impossível falar de realizar meus sonhos sem agradecer também Sara Bareilles, minha cantora favorita. A responsável por me ajudar a criar o mantra que ainda me mantém de pé.

 

“Be Brave”, que carrego no coração e na batata da minha perna, é mais uma das várias motivações diárias que tento aplicar. Mesmo quando quero desistir, tudo que amo me mantém no caminho que escolhi estar no momento.

 

Diversos momentos questionei minha escolha e coloquei à minha frente diversos obstáculos. Porém, o maior deles sempre foi e acredito que sempre será meu auto-boicote. Cinco anos de terapia me tornaram uma pessoa mais consciente de quem eu sou, principalmente a respeito desta tendência de entrar em pânico quando percebo que minha vida segue um curso natural e positivo. Não irei afirmar que estou acostumada apenas com coisas ruins, mas quando encaro certas coisas, estas que fazem parte de sua realidade, creio que és esperado reagir de tal forma.

 

Aquilo que mais temia se transformou no meu maior presente a mim mesma. 2009 me permiti iniciar a terapia e em 2014 dei meu primeiro passo rumo à vida adulta. Cordões foram cortados, bolhas foram estouradas e a tão famosa Zona de Conforto fora substituída por uma Zona bem desconfortável e desafiadora. Mas essa tal Zona se transformou na minha Zona, no sentido figurado e até mesmo literal.

 

The-Corrs-3At Your Side

 

I’ll be at your side, there’s no need to worry
Together we’ll survive through the haste and hurry
I’ll be at your side
If you feel like you’re alone, and you’ve nowhere to turn
I’ll be at your side

 

 

Harry Potter e The Corrs entraram na minha vida quase no mesmo período. Hoje, sem ambos, digo claramente que não seria a pessoa que sou. Minha família direta, composta por meus pais e minha amada Vovis Felicidade Maria, é a grande responsável pela minha formação como ser humano. Ao lado dela que aprendi o real sentido da palavra compaixão, empatia e abnegação.

 

O menino que sobreviveu e os irmãos irlandeses são extensões de famílias que escolhi pertencer. Com elas, vivi e senti as mais diversas emoções, construindo memórias e encontrando respostas para perguntas às vezes tão difíceis de decifrar.

 

Cada um teve sua proporção e a pergunta de Albus Dumbledore para Severus Snape em Harry Potter e as Relíquias da Morte serve perfeitamente para minhas maiores paixões. Assim como Harry encontrou Hermione e Rony, tive o privilégio de encontrar ao longo de minha jornada as melhores pessoas possíveis. Muitas, inclusive, estão comigo até hoje, caminhando, crescendo e dividindo o lado bom e não tão bom da vida.

 

E foi depois de todo esse tempo que hoje posso afirmar que minha banda favorita me ajudou a curar feridas. A não ligar tanto para coisas sem importância. A ter paciência, a valorizar o silêncio, a encontrar alegria. Principalmente, a dar voz a sentimentos e experiências difíceis de verbalizar.

 

Hurt Before

 

You see she’s
Turning the key, unlocking the door
Embracing the roller coaster world
Stepping outside, body and soul
Taking whatever future holds

 

Tenho plena consciência que minha canção favorita pode soar um pouco tristonha. Porém, ela sempre será a Corr song que mais fala comigo. Presente no terceiro álbum de estúdio, In Blue (2000), mas usada poucas vezes durante as turnês, me recordo quão feliz fiquei ao comprar o DVD The Corrs: Live in London e ela estar presente.

 

Nunca fui a menina que fantasiava com o príncipe encantado ou que tinha a cada semana um crush novo. Sempre fui contida e reservada demais. Em outras palavras, morria de vergonha de expressar ou até mesmo sentir algo por alguém.

 

Ainda adolescente, comecei a prestar atenção cada vez mais na história por trás de cada música que escutava. O Corrs leva boa parte do crédito dessa minha percepção pra lá de sentimental, como uma boa canceriana que sou. Falo isso porque é super comum eu chorar enquanto escuto alguma música que realmente amo. Seja a caminho do trabalho ou em frente ao meu laptop. O que estou falando? É mega comum eu chorar pra praticamente tudo.

 

Escutar “Hurt Before” chegava a doer um pouco. Ainda dói, mas encontrei anos depois uma maneira de expressar quanto ela significou e ainda significa. Já passado os vinte e cinco anos da jovem mencionada na canção, tatuei um pequeno trecho da música, traduzido para o gaélico, em minha costela. Com esse lembrete em minha pele, acredito que nem tudo está perdido.

 

Um dos grandes motivos de sair de minha Zona de Conforto foi explorar minha maior insegurança: ser boa o suficiente para alguém e, principalmente, aprender a dividir minha vida, essa que tanto me habituei a viver sozinha. Só de pensar em criar uma rotina diferente da minha sempre me traz uma sensação de pânico. Por mais que eu tente boicotar isso, resolvi explorar esse ano um lado meu que ainda não conhecia.

 

E foi quando esse alguém apareceu. Por mais curto que tenha sido nosso tempo juntos, aprendi muito sobre mim mesma e como é possível encontrar uma pessoa que lhe enxergue exatamente como és. O mais incrível, que a aceite exatamente dessa forma. Irlanda me deu o presente de conhecê-lo e por mais que as circunstâncias não tenham nos permitido a continuar nossa weird awesome journey, serei eternamente grata pelo que me fez sentir. Por me permitir e não mais fugir.

 

“Courage is resistance to fear, mastery of fear – not absence of fear.” – Mark Twain

 

The-Corrs-7Angel

 

Essa pessoinha ao lado é sem dúvida alguma uma das três pessoas mais importantes de minha vida. Além de avó materna, Felicidade Maria foi e sempre será minha segunda mãe. Companheira de idas e vindas à escola, meu anjo sempre esteve ao meu lado. Lembro como se fosse hoje a tristeza em seu olhar quando disse que ela não precisava mais me levar na escola.

 

Portuguesa até o último fio de seu paninho de crochê, Dona Happy, como um de nossos vizinhos costumava chamá-la, foi sem dúvida uma das mulheres mais curiosas e admiráveis que já tive o prazer de conhecer e conviver. Foram vinte quatro anos ao seu lado. Hoje, sei que olha por mim a cada passo que dou.

 

Perdê-la em 2010 criou um buraco no meu coração que nunca será preenchido e confesso que nunca senti tanta dor. Perante a perda e a dor, veio a aceitação e a força, essa que credito muito a fé que ela sempre teve em mim. Mesmo não realizando alguns de seus desejos em vida, como fazer primeira comunhão, ela foi a melhor avó que poderia ser. Mesmo com suas limitações e os conflitos naturais presentes em qualquer família.

 

Saudade nunca fez tanto sentido como agora e vira e mexe essa senhora linda aparece em meus pensamentos. Seja quando converso com ela após um dia difícil e confuso ou quando vou dormir. Às vezes, acabo sonhando com seu doce sorriso.

 

Confidence for Quiet

 

Um dos grandes aprendizados de morar sozinha foi o autodescobrimento. Nunca estive mais comigo mesma que nesses últimos dois anos. Por mais que boa parte do tempo me irrite com minhas cabeçudices, atrapalhos e limitações, aprendi a me valorizar mais, a fazer o que gosto, mesmo que, às vezes, tenha que fazer sozinha. Não menos importante, aprendi a me ouvir, mesmo que o exercício arranque minhas energias. Afinal, a eterna batalha das emoções continua firme e forte.

 

Not anymore, I don’t feel it
I’m not hopeless, tragic
No, nothing no more to say
I’ve got freedom, no more calling
I don’t care
I’ll walk away
‘Cause I’ve got confidence for quiet
I’m not afraid

 

Um dos maiores desafios no momento é encarar a falta que as pessoas que amo me faz. Resumidamente, lidar com a infinita saudade daqueles que são parte da minha história e que me fazem sorrir somente pelo fato de serem tão unicamente incríveis. Já aqui, aprendo dia a dia a lidar com as despedidas. Ironicamente, isso me faz recordar de uma personagem televisiva que não suporto.

 

“Everybody leaves”

 

Sem querer soar emo como ela, todas as pessoas mais próximas de mim, sejam grandes amigos do Brasil ou pessoas que conheci e me aproximei aqui, já voltaram pra seus respectivos países. Desde então, aprendo a lidar com essas chegadas e partidas. Por mais que eu saiba que esse turbilhão de emoções será amenizado com o tempo, sei que precisarei ser forte mais uma vez. Ainda mais pra alguém que é totalmente ligada a conexões humanas.

 

E é através do silêncio, que às vezes me incomoda, que descubro que consigo encarar e lidar com certas coisas sem recorrer aos outros. Determinadas situações, principalmente as de território desconhecido, sinto a necessidade de expressar e até mesmo compartilhar algo que ocorre. Mas independente de encontrar ou não respostas pra muito do que sinto e quero, vislumbro dentro de mim a serenidade e a confiança de respeitar o meu tempo para as coisas. Independente de achar que não soube aproveitar mais ou que estou perdendo tempo.

 

 

The-Corrs-8Unconditional

 

Nossa primeira história de Amor começa naquele lugar que chamamos de lar. Sentimento muito mais simbólico e complexo do que simplesmente o teto que nos abriga. Família é e sempre será o bem mais precioso que teremos. Mesmo que demos valor a ela em diferentes etapas da vida. Não há aprendizado maior do que conviver, crescer e evoluir ao lado daqueles que não só dividem seu código genético, mas carregam contigo bagagens recheadas de histórias, batalhas, memórias e mais desse Amor.

 

 

Todos dizem que só existe uma certeza em nossas vidas. Concordo plenamente com essa afirmação. Porém, revertendo para o momento que me encontro hoje, devo acrescentar uma outra certeza: irei voltar. Quando digo voltar, sim é pro Brasil.

 

Já fui de duvidar de tudo que colocava minha mente e coração para fazer. Hoje, digo que não sou mais assim tão dura comigo mesma e uma linda parcela devo àqueles que chamo de Família. Seja a de sangue ou a que a vida me presenteou.

 

Recentemente completei o tão temido TRINTA e, como dizem, ele chega carregado de crises e de incertezas. Bom, falo por experiência própria: não precisas chegar ao Big 3 pra sentir tudo isso rs. Porém tudo mudou e hoje estou onde estou, grata pela oportunidade de vencer minhas batalhas e desbravar meus sonhos.

 

Incondicional é uma manifestação genuína regada de amor. Um amor que transpõe o fuso horário, o oceano e a saudade. Incondicional é viver na certeza de que compartilha algo especial por alguém. Esse alguém que não pensaria duas vezes caso precise ajudá-lo e vice-versa. Incondicional é maior do que o EU. É maior do que qualquer bem material. É esse sentimento que me mantém erguida.

 

E é por isso que quando algumas pessoas dizem que eu não devo voltar mais pro Brasil, considerando toda a situação do país, eu olho pra dentro do meu coração e encontro a resposta. Sim, não aja com o coração é o que dizem. Mas o simples ato de ir contra ele é anular minha essência e caráter. Se existe algo que nunca mudará é essa dupla.

 

The-Corrs-15Full Circle

 

2005.

 

Esse ano me trouxe um gosto amargo na boca e um vazio no coração: tudo indicava que meu The Corrs pararia. Com o lançamento do CD “Home” e do DVD “All The Way Home”, ficava clara a homenagem à Ilha que os viu crescer e conquistar fãs ao redor do mundo.

 

Dentre pesares, aprendi a lidar com a falta que eles me faziam. Mas foi em 2013 que algo inimaginável aconteceu: Sharon Corr desembarcaria no BR, trazendo alegria a um ano turbulento e cheio de mudanças. Um ano cuja a jornada que trilho hoje começaria.

 

Minha Corr favorita trouxe sua turnê solo. Além de vê-la ao vivo, pude ganhar seu autógrafo e sincero abraço. Sem contar o fato dela se encantar e se preocupar com o choro emocionado de minha Mãe, que estava a registrar o tão sonhado encontro entre sua filha fã e seu ídolo.

 

Sempre brinquei que em 2015 eles iriam voltar a gravar juntos, algo como um “After 10 years”. Se me senti realizada em 2013 com 1/4 dessa família, o que seria de mim com toda ela?

 

E foi numa quarta-feira, mais precisamente no dia 10 de junho de 2015, que meu Sonho #2, o #1 é ir pra Londres, estava prestes a se realizar. E o mais lindo disso tudo? Dois sonhos combinados de uma só vez, pois o retorno da minha banda pela primeira vez em dez anos seria em Londres.

 

A única pergunta que consigo formular após tudo isso é: “Isso realmente aconteceu?”.

 

Viver na Irlanda no mesmo período que sua banda favorita anuncia o retorno foi um dos maiores presentes que poderia receber. Porém, se eu achei que meus momentos junto à essa família que tanto me ajudou a crescer estavam perto do fim, ai ai ai, sonho meu <3.

 

O show retorno no Hyde Park foi apenas a entrada, pois ainda seria contemplada com o prato principal e a sobremesa, essa com direito a cereja no topo. Poucos meses depois do mini show em setembro, meus queridos anunciariam uma nova turnê, a The White Light Tour, nome do novo álbum de estúdio.

 

Foi em janeiro deste ano que finalmente fui a uma turnê do The Corrs. Mesmo com a confusão na hora de comprar o ingresso na pista, marquei presença pertinho da Andrea, Sharon, Caroline e Jimmy no primeiro show deles na Irlanda após tanto tempo.

 

The-Corrs-2

 

E lá estavam eles, a poucos metros de mim, fazendo aquilo que foram destinados a fazer. Sem mesmo assistir a série, foi como se tivesse pego uma carona na TARDIS do Doctor e voltei aos meus quinze anos. Nostálgico e ao mesmo tempo atual, The Corrs provou que a pausa os transformou, tornando-os cada vez mais presentes e apaixonados por sua música e seus fãs. Fãs que mostraram que depois de todo esse tempo ainda estavam ali para aplaudi-los.

 

Por mais que me sinta alheia a certas coisas, tudo que tem ocorrido, seja bom ou ruim, agrega algo de positivo ao meu crescimento. Surpreendentemente, achei que a vida já havia me presenteado de algumas formas, mas nunca imaginaria que o dia 09 de junho de 2016 realmente aconteceria e traria com ele tamanha gratidão. Pelo simples fato de poder existir mais um dia nesse mundo tão quebrado e necessitado.

 

Esse dia marcou o dia que conheci o The Corrs. Dentre horas na fila do show de Cork até a confirmação nos últimos momentos que haviam concedido nossa entrada no camarim – obrigada Aline <3 -, tudo passou muito rápido aos meus olhos. Lentamente dentro do coração, pois esses quinze anos como fã contemplei cada canção e agradeci o quanto essa família mudou a vida de Mariana de Barros Pereira. Dizer isso, frente a frente, a cada um deles foi mágico e surreal.

 

Continuo sem saber ao certo que rumo o amanhã trará, mas uma coisa é certa: aprecio cada vez mais o tempo para cada coisa e a tranquilidade que preciso ter para começar algo novo. Ou mesmo recomeçar algo que tenha me amedrontado em quaisquer que sejam as circunstâncias.

 

The-Corrs-Meeting

 

E é nesse Paraíso Emprestado chamado Ilha da Esmeralda que escrevo mais um capítulo de minha “Be Brave Journey”. E, digo mais, me sinto lisonjeada em poder dividi-la nessa casa tão aconchegante e aleatória.

Mari
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