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05/ago

Teve um dia que acordei com vontade de assistir Amor Sem Escalas e pensei mil vezes antes de fazer isso por motivos de: emprego. Por tê-lo visto há certo tempo, não lembrava exatamente da premissa, mas recordava de uma forma meio embaçada que havia a questão de demissão. Matutei a fim de saber se tinha emocional para encarar uma ficção de uma verdade que ainda é minha. Honestamente, todo dia me sinto demitida quando não tem entrevista ou tem vácuo, fatos reais.

 

Como angústia é meu nome do meio, tomei coragem e decidi revê-lo por conta e risco. Confesso que teve choro nas partes das demissões sendo que não me lembro de ter chorado com elas. A experiência de assistir a mesma coisa em diferente época sempre será bizarra.

 

Lembro-me que a causa de ter comparecido a Amor Sem Escalas pela primeira vez foi Anna Kendrick, pessoa que acompanhava com fervor na época por causa da fase Crepúsculo (Jessica Stanley é a única personagem que carrego comigo). De quebra, ainda havia Vera Farmiga, mulher que amo de paixão e que protegerei dos inimigos. O impulso maior para não adiá-lo veio da época de premiações e me propus a saber o que tinha de bom nele. Afinal, esse filme conseguiu gloriosas indicações.

 

O extra foi a direção de Jason Reitman, famoso por Juno e Obrigado por Fumar. Dois filmes que gosto muito.

 

Mesmo com todo esse combo de motivos, estava aí uma adaptação (do livro de Walter Kirn) que intimamente sabia que não seria recordado no futuro. Inclusive, que não seria tão amado ao ponto de querer assisti-lo mil vezes até morrer. As coisas meio que mudam quando você cresce e amadurece um pouquinho. Por isso que tenho tanto medo de reler Harry Potter, por exemplo, porque sinto que detestarei.

 

O caminho de retorno se deu 7 anos depois (o filme foi lançado em 2009) e os motivos foram Anna Kendrick e Vera Farmiga de novo. Farmiga pesou mais dessa vez por causa da saudade que vive em mim com relação à Norma Bates feat. o Emmy ainda ignorando essa mulher pelo trabalho em Bates Motel. Esse não é meu mundo!

 

Para quem não se lembra da premissa, Amor Sem Escalas (Up in the Air) traz um giro nas alturas na companhia de Ryan Bingham, personagem de George Clooney. Ele tem o trabalho inusitado de voar por diferentes cidades em nome de uma empresa que demite pessoas. De quebra, o cidadão evita qualquer relacionamento mais profundo. Quer coisinha deprimente que ganhar seu dinheirinho à custa da decepção dos outros? E ainda por cima não “fazer questão” de se manter perto da família?

 

Amor Sem Escalas - Resenha

 

No primeiro momento, o filme mostra que tudo na vida de Ryan parece perfeito. Para ele, viver praticamente de aeroporto em aeroporto é melhor que ficar em casa. Só que entre pousos e decolagens, o personagem se revela um completo lobo solitário. Aparentemente, parece não precisar de mais nada a não ser motivo para continuar no céu e não na terra.

 

Ryan vende a ideia de que é completamente dono de si e é cheio de si ao afirmar que viver longe do convívio social é maravilhoso. Inclusive, não atender as expectativas do convívio social. Ter esposa e filhos, por exemplo, não passa de empecilhos para um estilo de vida que só existe por causa do emprego que tem. O caso é tão sério que a única meta desse homem é somar milhas para chegar aos 10 milhões. Terrível e quem não perdoa é Natalie, personagem de Kendrick.

 

Natalie entra em cena para destruir esse estilo de vida nas alturas. Ela lança a proposta de que a empresa pode exercer as demissões a mando dos contratantes localmente. Em outras palavras, fazer a mesma coisa só que por meio de videoconferências. Novidade promissora, especialmente para diminuir os gastos das viagens, mas Ryan manifesta sua frustração. Sentimento que tem a ver apenas com a realidade de criar raízes uma vez que as viagens funcionam como desculpa perfeita.

 

Ficar no mesmo lugar, com um grande espaço de tempo, o obriga a ser presente. E ele não quer ser presente. Pensamentos que ficam claros quando o noivado da irmã entra na roda e o personagem nem conhece o cunhado. Por essas e outras que Ryan perde a cabeça diante da decidida Natalie que já tem todas as estrelas da chefia com seu projeto “glocal”. Daí, nasce outra meta: provar que demitir localmente não faz o menor sentido.

 

A única forma de evitar que esse programa seja inserido na empresa é mostrar a Natalie o trabalho no nu e no cru. De acordo com Ryan, não se trata apenas de viajar para demitir. Há um preparo emocional porque cada pessoa reage diferente e estar presente para reverter quadros dramáticos é de suma relevância. Sem contar a facilidade de quem estiver na chamada sair de cena e deixar quem dá as péssimas notícias em um total vácuo. Detalhe esse que não acontece quando o confronto é pessoalmente.

 

Com essa discussão, Natalie se junta a Ryan e é dado o pontapé ao que interessa no filme. Inicia-se a desconstrução, pelos olhos leigos da jovem, desse estilo de vida que não é tão glamoroso. Logo ela se vê inconformada em vários âmbitos e ele nem liga porque ama viver quicando de avião em avião. A personagem não compreende essas escalas porque acha impossível uma pessoa viver bem daquele jeito e passa a contestá-lo. E com toda razão!

 

Amor Sem Escalas - Resenha

 

É nas brigas constantes que descobrimos que Ryan não tem metas e nem aspirações. Ele não passa de um tremendo acomodado que se acha incrível por não depender de nada e de ninguém. Seu movimento constante é o que disfarça o mais do mesmo, dando a impressão de que há alternância sendo que só a paisagem muda. A liberdade lhe é tudo, mas Natalie sabe que essa noção de estar ok com o ver a vida passando de voo em voo sozinho, sem almejar mais que isso, é meio irreal.

 

A dupla traz os atritos sobre o que se almeja na vida além do trabalho. Ryan afirma que não tem interesse por um conto de fadas, pensamento que começa a cair por terra quando se envolve com uma completa desconhecida. Natalie já diz que não se importa em casar com o trabalho uma vez que não encontrou o cara perfeito. Há ironia e dualidade em Amor Sem Escalas, pois o roteiro mostra que esses personagens não são o que aparentam.

 

Detalhe que rebate lindamente em Alex, a completa desconhecida. Personagem de Farmiga que, primeiramente, Ryan vê como sua igual: nômade desapegada. Não é à toa que um acha sexy no outro a quantidade de milhas colecionadas.

 

Chega a ser divertida a maneira como ambos combinam as agendas para garantir o booty call, mas a brincadeira engaja sentimentos aparentemente verdadeiros. De novo, graças à Natalie que não aceita ouvir de Ryan que Alex é uma distração. Sendo que, possivelmente, há futuro para esse romance fora do aeroporto.

 

Ao menos, é o que Ryan começa a pensar. Do homem desapegado, ele se mostra cada vez mais apegado à Alex. Ele traça planos além do sexo, como levá-la a festa de noivado da irmã. É aí que o avião da sua vida começa a entrar em pane.

 

Amor Sem Escalas - Resenha

 

Os instantes entre Alex e Ryan são deveras pontuais. Tudo para que o personagem de Clooney perceba que pode investir um pouco na vida pessoal em vez de ficar tão bitolado em querer conquistar as suas preciosas milhas. Quando o filme chegou perto do baita plot twist fiquei jogada como se fosse a primeira vez porque se entra no tópico do poder da vida dupla.

 

Há várias formas de se distanciar da vida só tendo como base o profissional e Amor Sem Escalas explora esses segredinhos sem floreios. Ryan queria as milhas, Natalie queria um mozão e Alex tem duas facetas inesperadas e é a mais bem-resolvida da história (e é por isso que sua caracterização é tão convincente). A ironia do filme reside nos objetivos pessoais e só quem tem muito jogo de cintura consegue atender o tradicional e se aventurar sem culpas.

 

Ryan tinha as milhas como segurança pessoal, mas o norte da sua escala mudou uma vez que passou a querer Alex como companheira. Algo nada planejado e que o personagem corre atrás mais por instinto. Ele vive sensações novas que ironicamente não o afastam do trabalho. Ao se entregar ao que sente, só resta tristeza. Afinal, se não tivesse abaixado a guarda, seu coração não teria sido partido por causa daquilo que ditara não querer para sua vida. Seria melhor ter seguido a sua regra pessoal.

 

O aeroporto, outrora sua casa, se torna o marco de uma decepção amarga. O que fazer? Por ser amarga, o que se pode imaginar no futuro desse personagem é escalas tristonhas. Ele finalmente percebeu que ter o tradicional nem é tão ruim quanto aparenta. Porém, em vez de mudar seu próprio norte, Ryan o assegura.

 

Amor Sem Escalas - Resenha

 

Natalie é o oposto de Ryan. Enquanto ele não intenta nenhum embarque na pista do amor, ela é pura entrega. Ela é a mulher do compromisso, seja com relacionamento ou com trabalho. A personagem chega até a dizer que se imaginou tendo estabilidade aos 23 anos. Só que essa realidade se desmantela ao longo das aventuras com um cara que se diz cético a praticamente tudo.

 

Ryan passa a ser um reflexo do que Natalie não quer para sua vida. Isso não quer dizer que ambos terminam se odiando. Eles se admiram por serem cúmplice dos altos e baixos um do outro. Obstáculos que não contavam e que compartilham sem querer.

 

Natalie e Ryan possuem vidas e interesses invertidos, detalhes capturados com mais clareza perto do final do filme. Ela se abandonou por um cara tipão e trabalha numa empresa de demissões mais pelo (ex-)namorado. Assim que a oportunidade surge, a personagem vaza e vai atrás do que realmente merece. Por não querer uma vida acomodada. Em contrapartida, ele abandonou o suposto cold shoulder e foi atrás da mulher que estava praticamente apaixonado. Crente de que era recíproco e, no fim, voltou à estaca zero, ou seja, à rotina de fazer outras pessoas infelizes.

 

Duas metas para dois personagens que não foram traçadas. Simplesmente aconteceram porque deram brecha. O baque é o que muda o percurso dessas jornadas. Natalie quer mais e Ryan até quis mais e acabou voltando ao comodismo anterior regado de ausência de proximidade.

 

Amor Sem Escalas me pareceu mais impactante agora. É um filme extremamente vulnerável e você meio que escolhe qual aspecto tem a ver com sua personalidade. Até onde sei, nunca vi filmes do Clooney em que ele não é o galã que tudo conquista e aqui ele é galã, mas não conquista nada.

 

Quem brilha mesmo nesse filme é Kendrick, que chegou a ser indicada como atriz coadjuvante no Oscar em 2010 (e nas outras premiações badaladas). Resultado que lhe apresentou o famigerado boom na carreira. A cena em que sua personagem chora pelo boy muito eu no trabalho e no amor.

 

Quanto te pagam para calar seus sonhos?

 

Amor Sem Escalas - Resenha

 

Além das desavenças de Ryan, Amor Sem Escalas discute essa ideia de que todo mundo parece bem apenas com o emprego vs. aqueles que perdem o emprego. No meio, se destaca a questão dos objetivos que muitos não traçam uma vez que estão assegurados por um registro na carteira. Parece que uma vez que você retorna para um escritório todos os seus desejos evaporam, silenciados pelo salário, pelos benefícios, pela rotina, etc.. É muito tenso!

 

Por perder esse senso de criar uma lista de garantias caso ocorra uma demissão, o baque de ser dispensado inesperadamente acaba comparado ao peso de uma tragédia. Como perder alguém querido de um dia para o outro. Nunca estaremos preparados. Como o próprio filme diz, ser demitido, sem ao menos imaginar essa possibilidade, é igual a uma morte. Você fica desnorteado até reencontrar seu ponto fixo e enfrenta as fases do luto.

 

Uma das partes mais marcantes do filme, e que frisa bem essa questão de ter escolha e de ter objetivo, é quando acontece a demissão de Bob. Ryan pergunta quanto pagaram a ele para desistir de seus sonhos, já que o personagem de J. K. Simmons é formado em gastronomia. Demitido, a sugestão é seguir adiante na vocação que silenciou por dinheiro. Uma luz no fim do túnel.

 

Nessa demissão, Bob fala sobre seu papel de pai e como suas filhas se sentiriam diante da notícia de demissão. Ele está arrasado porque ser dispensado é sinônimo do fracasso. Pensamento que, agora mais velha, acho terrível que pais ainda digam aos filhos. Não deixa de ser uma expectativa social e quando não cumprimos essa expectativa social nos sentimos um lixo. Sendo que há milhões de caminhos que podemos seguir, só que poucas pessoas dizem isso.

 

Minha mãe é o maior exemplo, mas é uma questão de geração. Quando ela perdeu o emprego foi o momento mais desesperador da vida dela munida com a sensação de que não era mais importante. Que não era relevante. Por ter dedicado parte da sua vida a várias empresas, ser dispensada era a última coisa que passaria pela sua cabeça. Afinal, era dedicada. “Da casa”.

 

Lá no final do filme, há relatos de partir o coração sobre perder o emprego e como cada um tenta superar. É tudo uma questão de continuar tentando e esperar a luz no final do túnel. Nisso, entro no argumento de como esses roteiros iludem todo mundo. Basicamente o “faça o que ama”. Não é tão simples, mas acredito piamente que não seja impossível. Basta foco.

 

Amor Sem Escalas tem as demissões como apoio de trama para explicar mais ou menos que certas coisas não acontecem por acaso. O que diferencia cada situação é a forma como as pessoas lidam. Há um comentário de suicídio entre as visitas de Natalie e de Ryan, há senhoras e senhores dispensados pela idade, e há quem depende unicamente daquele emprego. Ser demitido soa como uma chance de se inovar porque de alguma forma o universo avisa que agora sim você pode fazer aquilo que adiou por tantos anos. Os personagens têm discursos motivacionais batidos para respaldar o ato, mas nem todo mundo captura a mensagem e consegue voltar à superfície.

 

É muito bizarro como nos isolamos quando algumas coisas dão certo. Uma vez no emprego, não projetamos outras coisas e quando projetamos é tudo muito em cima da hora. Não tomamos conta do nosso dinheiro, algo que não me identifico porque sou muito boa para juntar até moedas. Quando perdemos esse solo seguro é pedir para ficar desnorteado porque enquanto estamos ali não há plano B, C e D. Esses planos nem chegam a ser pensados.

 

E esse aspecto vale para todos os âmbitos da vida, o que nos leva para a palavra chamada comodismo. Os famosos 10 anos que são aparentemente seguros, consomem nossa vida em um piscar de olhos. Às vezes, nem percebemos, como bem acho que rola com Ryan. Com a demissão, só há um vácuo. Geralmente, sem planos.

 

A questão de metas se amarra ao lado pessoal porque é esse lado que os personagens não andam tendo. Tudo é só dedicação ao trabalho, mas a vida não é só isso. Daí, Ryan fala algo pertinente: você se vê nos momentos favoritos da vida sozinho ou com um co-piloto? Fato é que o trabalho nos isola. Há quem fique bem com isso, mas e lá no futuro?

 

No fim, Ryan nos manda a mensagem dentro daquela velha tensão entre o que você diz, o que você pensa e o que você realmente está vivendo. Ele salta esses aspectos tendo Natalie como testemunha. Uma vez com Alex, o personagem reconhece a grande hipocrisia que é partir para as viagens imaginando as pessoas favoritas na bagagem. Palavras discursadas que voltam para lhe dar na face.

 

Todo mundo precisa de uma pessoa. Não necessariamente para casar com ela, mas para ser co-piloto de escala em escala, de aeroporto em aeroporto. Minto?

 

Amor Sem Escalas é aquele filme que você ri para não chorar. Que é lindo de trágico. Deixa aquele gosto meio amargo na garganta por meio de ironias 100% relacionáveis. Com certeza o revisitarei mais vezes quando sentir que a vida desapegada é mil vezes melhor.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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