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03/ago

 

Ouço todos os meus amigos perdidos e seus pais perdidos murmurando para mim. Murmuram junto ao próprio respirar da Torre.

 

É hora de ser sincera. Eu terminei de reler A Torre Negra há quase seis meses, mas fiquei tão abalada e não consegui escrever esta resenha para o último livro da série. Durante esse tempo todo, li Maggie Stiefvater, Eduardo Spohr, mais Stephen King… E nada de conseguir sentar para escrever sobre o fim (?) da história do Roland. O meu maior incentivo para procrastinação era o cronograma de postagens do blog – quando terminei a série, ainda faltavam quatro resenhas a serem postadas até o sétimo livro. Tempo suficiente para eu reorganizar meus sentimentos. Só que não.

 

Quando a marida Stefs e eu renovamos os votos no começo do ano, ela pediu que eu escrevesse sobre outras coisas e com mais frequência. É claro que eu aceitei a condição, só que não passou pela minha cabeça que eu fosse sofrer tanto com a Torre ao ponto de ficar bloqueada e não conseguir escrever mais sobre o assunto. E, como eu já devo ter comentado aqui, sou uma criatura que precisa de ordem na vida, ou seja, eu só poderia escrever sobre outras coisas quando terminasse de resenhar a porcaria do livro. É por isso que a coisa demorou tanto para sair, marida. Espero ainda ter um job aqui.

 

Pois bem, pensei antes de abrir o Word e agora vai. Passei uma hora selecionando as citações que marquei com post-it enquanto lia. Deu vontade de chorar só de ler tudo de novo, mas me contive. Fiquei pensando como poderia escolher apenas algumas frases dentro de tantas tão maravilhosas. Algumas das passagens desse livro marcaram o fim da minha adolescência de tal forma que não seria certo deixá-las de fora. Por exemplo:

 

Será que algum de nós, exceto nos sonhos, espera voltar de fato a estar junto de seus amores mais profundos quando eles se afastam, mesmo que só por alguns minutos, para cumprir uma tarefa das mais banais? Não, de jeito nenhum. Cada vez que saem das nossas vidas, nossos corações os dão como mortos. Tendo recebido tanto, é o nosso raciocínio, como poderíamos esperar não sermos levados tão baixo quanto Lúcifer, pela tremenda presunção de nosso amor?

 

Este livro, contudo, coloca o Roland no centro de todo o turbilhão de acontecimentos e emoções. Viramos a última página do mesmo jeito que fizemos com a primeira, e o deixamos da mesma forma como o conhecemos – sozinho. Eddie, Jake, Susannah e Oi têm seus momentos e nos arrancam muitas – muitas! – lágrimas, mas suas histórias terminam em momentos diferentes. A estrela principal do último volume da série é o velho com o grande trabuco na cintura, então, nada mais apropriado do que usar as citações dele ou sobre ele que mais me marcaram. É de Roland que vamos falar.

 

Nunca passou pela mente de Roland que aquele a morrer podia ser ele.

 

E vamos falar sobre morte, embora eu não queira dar nenhum spoiler dessa vez. Vamos lá, não dá para se aventurar em Torre Negra achando que todos vão viver felizes para sempre. Talvez isso aconteça em algum nível da Torre, mas, nas 871 páginas em questão, é inocência esperar que tudo corra bem.

 

A morte nos ameaça ao longo de todo o livro; é como um gosto ruim na boca do qual não conseguimos nos livrar. O tempo todo nós sabemos que algo muito ruim vai acontecer, o que de maneira alguma significa que estaremos preparados quando chegar a hora. Eu sei que eu não estava – meus soluços que o digam.

 

Estou com medo de dormir – disse. – Estou com medo que meus amigos mortos voltem e que vê-los possa me matar.

 

É muito interessante ver como o pistoleiro lida com o fim de sua caminhada e o fato de ter que abrir mão de tanta gente para alcançar o seu objetivo. Por toda a vida a única coisa que o moveu foi chegar à maldita Torre, ver o que a preenchia, quem estava lá dentro, subir ao último andar. Um detalhe importante é que ele nunca teve a pretensão de arrumá-la, endireitá-la para salvar o que restasse do mundo. A única coisa que sempre quis foi chegar ao topo, um desejo que o consumiu por completo e o fez de escravo.

 

Tão longe viajei e tantos feri ao longo do caminho, feri ou matei, e o que posso ter salvado foi salvo por acaso e nunca poderá salvar minha alma, se eu tiver uma. Contudo, há pelo menos isto: cheguei à parte final da última trilha.

 

Mas Roland não é um homem ruim. Ele é apenas viciado, obcecado, fadado a viver em função de algo que, durante quase toda a sua vida, muitos acreditavam ser um mito. Ao longo dos livros, o pistoleiro é questionado por aqueles que aprendem a amá-lo, por que você precisa tanto chegar à Torre? É uma pergunta que nem ele consegue responder.

 

É um personagem repleto de defeitos, com cada um deles estampado na cara, mas só não é meu favorito porque o Jake existe. Além disso, o Roland é muito parecido comigo, o que não deve ser uma coisa assim tão boa.

 

Ocorreu-lhe que, se não tivesse passado a amá-los, jamais se sentiria tão sozinho. Das muitas coisas, no entanto, que tinha a lamentar, a reabertura de seu coração não estava entre elas, nem mesmo naquele momento.

 

Apesar de seus defeitos, ao longo dos sete volumes vemos o homem reaprender a amar, não um amor de homem e mulher (esse foi totalmente consumido pelo fogo junto com Susan em Mejis), mas um amor de pai, de irmão. Algo que ele nunca experimentara por completo antes, e já não imaginava ser possível sentir depois de perder Cuthbert em Jericho Hill. Vemos um homem duro, teimoso e inflexível sequestrar três habitantes de Nova Iorque e obrigá-los a se juntar a ele em uma jornada sem sentido apenas porque o Homem de Preto assim predisse. E vemos o mesmo homem se afeiçoar a cada um dos seus “prisioneiros”, abrindo-se para eles, compartilhando suas histórias e seus medos, ensinando-os tudo que podia e se deixando ensinar, até virarem uma família.

 

Universos paralelos à parte, o relacionamento entre eles é a mensagem mais importante a ser tirada dos livros. É o que dá liga à história, é o que nos faz sentir como se fizéssemos parte daquilo também. É a mesma coisa que nos atrai nos Marotos ou no trio Harry-Rony-Hermione. E é por isso que dói tanto quando os laços são rompidos.

 

Posso ser brutalmente franco? Você continua.

 

O fim do pistoleiro é infinitamente mais triste do que o fim de seus companheiros. Esse é o mais próximo que eu posso chegar da verdade sem dar spoiler nenhum. É uma conclusão cruel, muito parecida com a realidade das nossas vidas físicas e espirituais, porque, no fim das contas, nada é mais verdadeiro do que isso:

 

Aqueles que não aprendem do passado estão condenados a repeti-lo.

 

Pronto. Agora eu posso fechar a Torre e guardá-la em definitivo na minha estante. Talvez eu volte a ela em dez ou vinte anos. Quem sabe? Afinal, o Ka é uma roda que nunca para de girar.

 

Na Estante

Título: A Torre Negra (A Torre Negra Vol. 7)

Autor: Stephen King

Páginas: 872

Editora: Objetiva

Mônica
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