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27/set

Semana passada, ao sair da sala de cinema, me vi imersa a um misto de sentimentos e de memórias. Como uma boa canceriana nostálgica, recordei o relato dos meus pais sobre a primeira vez que assisti a um filme no cinema, com apenas quatro anos de idade.

 

O Urso (1988), escolha dos meus pais, é um filme francês sobre um urso órfão que se aproxima de um humano. Este que acaba ajudando-o a escapar de caçadores locais. Segundo meus pais, eu, mesmo tão pequenina, chorei descontroladamente com o desfecho da jornada do adorável e pequeno urso.

 

Essa breve memória foi apenas uma introdução que justificará o quanto Captain Fantastic me afetou. Além disso, como carregarei essa história para sempre dentro do meu frágil e forte, contraditório eu sei, coração.

 

Resenha: Captain Fantastic

 

Quando The Sound of Music encontra Kings of Summer que encontra Moonrise Kingdom, nos deparamos com um conto familiar. Um conto que discute com tamanha sensibilidade e ferocidade as escolhas dos pais, independente daquilo que as gerações anteriores e a sociedade impõem ou exigem em relação a criação dos filhos.

 

O que seria uma criação convencional? Qual seria o limite dessas escolhas? Até onde a transparência e honestidade são aceitáveis?

 

Abnegar seus filhos do convívio com a “nua, real e cruel” sociedade pode ter seus prós e contras. Porém, Ben, interpretado pelo mais do que nunca brilhante Viggo Mortensen (Trilogia Senhor dos Anéis), transforma e educa seus filhos com uma filosofia intelectual e física extremamente rigorosa. Repleta de valores e de significados. Mesmo no vislumbrar de seis indivíduos à vontade nesse habitat natural, é impossível não analisar o contraponto: seria essa somente a vida que eles poderiam ter?

 

Ben e seus filhos moram em uma cabana presente em uma região montanhosa no estado de Washington. Ali, a família vive de recursos naturais, o que conseguimos vislumbrar nos primeiros instantes do filme ao vermos o grupo ardilosamente caçando um cervo. Assim, percebe-se pouco a pouco a dinâmica familiar dos Cash. Porém, um elemento importante faz falta na equação: aonde está a mãe?

 

Seguindo a ordem de nascimento, temos do mais velho ao mais novo: Bodevan, Kielyr, Vespyr, Rellian, Zaja e Nai. Além de nomes inusitados e únicos, cada um deles possui personalidades distintas. Dentre todos, Rellian parece ser o mais inconformado com a situação da família e é ele quem questiona quando a mãe voltará pra casa.

 

Resenha: Captain Fantastic

 

A premissa de Captain Fantastic se justifica no seguinte ponto: Leslie (a mãe) e Ben decidiram há muitos anos viver na floresta. Deslocados de todo e qualquer contato com o mundo moderno e capitalista no qual naturalmente nasceram. E é esse estilo de vida que eles passam pra suas crias. Crianças que, diferente dos pais, não tiveram nenhum contato com o mundo externo. Além claro dos livros e histórias que aprenderam.

 

Our children shall be philosopher kings, it makes me so indescribably happy.

 

Dentre exercícios e corridas matinais, Ben impõe uma intensa rotina física e também exige que os filhos exercitem o intelecto, com reflexões e análises dos livros que constantemente leem. Bo, o mais velho, naturalmente se destaca em termos de eloquência e de sapiência, principalmente porque tenta confrontar o pai, quase de igual pra igual. Kielyr e Vespyr, donas de um invejável cabelo ruivo, possuem idades bem próximas. Além de estarem juntas e expressarem suas opiniões, colocam a mão na massa até pra limpar o jantar da vez, resultado da caça em família.

 

Tão fascinantes e precoces à sua forma, Zaja e Nai são os caçulas. Zaja é provavelmente a garota mais pra frente de sua idade e Nai, ah! esse guri, arranca suspiros e rouba a cena em diversos momentos.

 

Agora, voltando à pertinente pergunta de Rellian, o pai finalmente revela a nós da audiência o paradeiro da matriarca. Três meses atrás, Leslie voltou para a cidade precisando de cuidados médicos. O real diagnóstico somente seria revelado num dos momentos mais cortantes e bem entregues por esse elenco tão jovem e tão talentoso. Acredito que ter um ator como Mortensen, tão comprometido e versátil nesta produção, contribuiu para uma cena que revela o paradeiro da mãe.

 

Resenha: Captain Fantastic

 

Assim, Captain Fantastic provoca reações diversas. Desde momentos de extremo inconformismo, a exemplo da perigosa escalada nas montanhas, até a comoção extrema de lidar com a perda da pessoa mais importante de sua vida. É o lidar com a morte e a tentativa de fazer os filhos continuarem a viver, mesmo perante a dor, que coloca Ben frente a frente com seu maior desafio até então.

 

O pai assume o papel de Captain Fantastic dado por sua esposa. São suas escolhas, mesmo que nada ortodoxas, que mantêm o núcleo familiar unido. Apesar de alguns incidentes no caminho, eles fazem de tudo para completar o plano, este que se inicia a partir do momento que o sogro de Ben, avô das crianças, interpretado pelo sempre impecável Frank Langella (Lolita, Frost/Nixon), o impede e, consequentemente, os netos de participarem do funeral de Leslie.

 

Resenha: Captain Fantastic

Power to the people. Stick it to the man

 

Vale também ressaltar a riqueza da história e de seu roteiro, este encabeçado por Matt Ross. Ator creditado em diversos projetos para TV e para o cinema, entre eles Big Love, Silicon Valley e o Aviador. Mesmo que tenha um filme low budget e dois shorts em seu currículo, tens seu grande debut como diretor e roteirista. Acredito que o resultado não poderia ser mais positivo.

 

Resenha: Captain Fantastic

 

Sua visão, somada ao talento do elenco e toda a equipe envolvida, faz desse indie uma das maiores e originais dádivas cinematográficas da atualidade. Captain Fantastic capta a magia da entidade mais genuína e humana de todas: a família. E, com ela, todos os sacrifícios feitos em prol daqueles que amamos.

 

Sua pessoalidade me atingiu em cheio. Ao final dos créditos, me vi consumida por cada momento vivenciado. O que vejo como algo extremamente positivo, afinal, tal sensação remete ao que senti.

 

If you assume that there is no hope, you guarantee that there will be no hope. If you assume that there is an instinct for freedom, that there are opportunities to change things, then there is a possibility that you can contribute to making a better world

 

Confesso que muitos detalhes e momentos especiais/marcantes do filme resolvi deixar nas entrelinhas, pois não me vejo no direito de verbalizar aquilo que precisa ser visto e sentido. Por isso peço: façam esse bem a vocês mesmos e assistam Captain Fantastic. Garanto que, mesmo que sejam pessoas sentimentais e empáticas como sou, terão uma fantástica experiência. Não só cinematográfica, mas também de vida.

 

E acredito que não haveria outra forma de fechar esta resenha do que ao som de um cover que exemplifica tudo que essa história simboliza. Axl Rose e sua turma que me desculpem, mas nunca mais conseguirei escutar seu clássico da mesma forma. Principalmente porque este fora inserido numa das cenas mais icônicas de um filme que entrou direto pra minha lista de favoritos de todos os tempos.

 

Aproveito para agradecer pela superação, luta e amor dos meus pais e quão orgulhosa sou por eles se manterem de pé após tantas tormentas.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Mari
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