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08/nov

Desde que eu conheço a Stefs, nós falamos sobre escrever algo para o Halloween. Por diversos motivos, que eu acredito girarem em torno da falta de planejamento das duas, a ideia nunca vai para frente. Mas é assim que funciona o nosso casamento: uma vez por ano eu mando mensagem sugerindo um podcast, uma vez por ano ela manda mensagem falando sobre o Halloween. Nada anda e fica tudo bem. Este ano, porém, eu me aproveitei de um período bom de inspiração para tentar colocar a coisa em prática. Mas a minha inspiração é tão seletiva quanto a minha memória: três semanas depois, eu já não gosto mais do que saiu e não consigo terminar a coisa.

 

Na verdade, quando comecei a escrever a primeira parte, não tinha noção do que estava acontecendo. Não sabia nem o gênero da coisa, muito menos aonde queria chegar com aquilo. Foi só depois que terminei a segunda parte que tive uma ideia mais clara da brincadeira e pensei que aquilo poderia se encaixar no tema 31 de outubro. A única coisa que sabia com certeza – e que se manteve até agora – foi que eu queria escrever uma coisinha rápida em quatro atos (primavera, verão, outono, inverno), e que cada parte aconteceria em um lugar diferente do mundo.

 

O outono, o inverno e a primavera saíram, mas o verão azedou. Passei uns bons minutos pensando e repensando, mas só o que me vem à cabeça são diálogos para o meu outro bebê, que talvez entre no terceiro capítulo deste diário. Resolvi, então, assumir o fracasso do Halloween e torná-lo um exemplo prático, quase vivo da minha desordem (im)produtiva. Por que não?

 

Garanto que estava tateando no escuro ao escrever as três partes. Só sabia mais ou menos em qual direção estaria o final quando terminei a terceira (o Chris seria o assassino) – e acredito mesmo que foi por isso que a inspiração foi embora. De qualquer jeito, acho que os textos a seguir são uma ótima ilustração do meu post anterior. Não posso garantir nada, mas, se um dia surgir o final dessa história, o RG será o primeiro a saber. E continuamos órfãos de textos de Halloween. Sorry.

 

outubro

 

A cidade não havia mudado nem um pouco. Continuava cinza, meio suja, cheia de gente, cheirando a fumaça e café. Ainda assim, continuava linda. As pessoas atravessavam as ruas apressadas sob o céu limpo do fim daquela tarde de outono.

 

Ela se recostou no banco do táxi quando o motorista parou em mais uma fila de carros. Por costume, pegou o celular para ver se tinha alguma mensagem. Ainda sem notícias dele. Kelly respirou fundo e prometeu a si mesma que não iria deixar aquela visita à cidade a afetar tanto. Nova York era enorme, ela não tinha motivos para achar que o encontraria por acaso. Sim, ele sabia que a mãe dela havia morrido, e que ela voltaria, pelo menos por uns dias. Ele tinha que saber. Mas isso não significava nada.

 

“Moça,” o taxista chamou sua atenção, “parece que tem uma obra aqui. Vou precisar dar a volta em duas quadras para chegar na rua que você quer. Você está com pressa?”

 

“Ah, vou descer aqui então.”

 

“Tem certeza? Você tem sua mala para levar.”

 

“Tenho sim, não é longe a pé. Muito obrigada.”

 

Ela só queria ter alguma coisa para fazer, é claro que não estava com pressa. Minha mãe morreu, moço, que pressa eu teria de voltar para casa? Ela abafou o riso enquanto puxava a mala pelo concreto da calçada. Fazia tempo que não visitava Nova York, mas tinha certeza que os locais não tinham o costume de rir sozinhos na rua. Você está entre eles, Kelly, aja como tal.

 

Sua mãe havia sido uma juíza famosa na região. Criara os dois filhos sozinha, após se divorciar do pai deles, que naquele momento devia estar numa praia, no México. A verdade era que Kelly e John deram a sorte de serem independentes por natureza, tendo se criado sozinhos. Contrariando todas as expectativas, John, que era a personificação da rebeldia quando adolescente, acabara seguindo os passos da mãe pelo direito. Já Kelly se tornara fotógrafa e escritora freelancer, escrevendo principalmente para revistas de viagem. Se não fosse por Christopher, ela não seria nem capaz de se lembrar qual fora sua última vez na cidade.

 

Infelizmente, ela se lembrava muito bem.

 

As portas do elevador se abriram para o apartamento, que continuava praticamente fiel à sua memória. Ela deixou a mala e o casaco em um canto e foi direto para a cozinha procurar café e alguma coisa para comer. O lugar estava deserto, o que não era muito normal. Mas tudo estava limpo e organizado, tinha café feito e um bolo sobre o balcão, sinal de que pelo menos uma empregada continuava trabalhando.

 

Quando John chegou, Kelly estava sentada em cima do balcão, lendo o jornal e segurando uma caneca.

 

“Por que você não me avisou quando chegou? Eu teria vindo direto para cá.”

 

“Faz só meia hora.” Ela deslizou para o chão e o abraçou. “E agora você está aqui também.”

 


 

Havia muita gente no cemitério. A maioria eram colegas de trabalho da sua mãe, ninguém que ela realmente conhecesse. Não havia muita gente da família, mas a família não era mesmo muito grande. Kelly ficou quase o tempo todo com Susan e Daniel, sua cunhada e sobrinho. Daniel tinha apenas cinco anos, era muito novo, mas já tinha idade o suficiente para entender o que estava acontecendo. Ela se sentia pior por ele que pela mãe, o que a fazia se sentir uma pessoa horrível.

 

Ela havia se afastado para fumar um cigarro quando achou que viu uma sombra mais afastada atrás de umas árvores. Uma sombra que ela conhecia muito bem. Sem pensar duas vezes, pegou o celular e ligou para ele.

 

“Chris, eu sei que é você.” Ela falou para a linha silenciosa. “Apareça.”

 

Depois de segundos que ela jurava terem se arrastado por minutos, ele respondeu. “Aqui não. Na frente do seu irmão não.”

 

“Porra, por que você veio aqui? Você achava que o John não estaria no enterro da própria mãe?”

 

“Claro que não, Kelly. Eu não sabia se você viria. Eu precisava ter certeza.”

 

“Bom, estou aqui!” Ela começou a acenar com os braços. “Essa é a sua chance.”

 

“Pare com isso,” ele suspirou. “Podemos nos encontrar mais tarde? No Leo’s?”

 

Ela respirou fundo e soltou o ar devagar. “Às 6 de tarde,” concordou. “Vá embora antes que o John te veja.”

 

“Kelly… Sinto muito pela sua mãe.”

 

“É… é, obrigada.”

 


 

O Leo’s devia ser o lugar mais sujo da cidade, mas havia sido um dos preferidos de Kelly e Christopher. Era o lugar secreto deles quando ela estava na faculdade, e ele ainda dava aula na escola secundária. E aqui estamos novamente, nos encontrando em segredo. Ela pensou quando entrou na lanchonete engordurada e se sentou em frente a ele na mesa reservada.

 

“Nossa, você está ótima.”

 

“É o ar do Mediterrâneo. Você devia tentar.”

 

“É um convite?”

 

Ela deu de ombros. “Vai fazer alguma diferença?”

 

“Me peça de novo, Kelly.” Ela revirou os olhos e ele segurou sua mão. “Não, eu estou falando sério.”

 

“O que mudou? Você não é mais casado? Não tem mais um filho?” Ela puxou sua mão de volta. “O que pode ter mudado?”

 

Ele baixou os olhos para a mesa, como se estivesse envergonhado. “Lisa perdeu o bebê e nunca mais conseguiu engravidar. Eu tentei te ligar depois que você foi embora, mas… Ela foi embora há dois anos, voltou para a Flórida, para a casa dos pais.”

 

“E como você está?” Ela se sentiu muito idiota fazendo aquela pergunta.

 

“Bem, eu acho.” Ele puxou os cabelos para trás. “Dou algumas aulas na faculdade e meu segundo livro está sendo editado.”

 

Ela ergueu as sobrancelhas, genuinamente impressionada. “Isso é muito bom, Chris. Parabéns.”

 

“Dessa vez a publicidade vai ser maior,” ele disse, feliz.

 

“Que bom!” ela forçou um sorriso.

 

“Quanto tempo você vai ficar aqui?”

 

“Acho que só essa semana. Preciso voltar logo para Malta.”

 

“Kelly, vamos…”

 

“Não,” ela se levantou de repente, pegando-o de surpresa. “Não, Chris. Olha, foi muito bom te ver, mas agora eu tenho certeza de que não me arrependo por ter ido embora. Eu sinto muito pela Lisa e o bebê que vocês perderam, mas isso não é problema meu. Você fez a sua escolha, e eu fiz a minha. Nós obviamente somos pessoas muito diferentes agora, não existe mais conto de fadas.” Ele ficou sentado onde estava, encarando-a sem reação. “Adeus.” Ela se virou e começou a andar para a porta, mas parou no meio do caminho. “Por favor, não tente entrar em contato comigo. Você sabe que não vai adiantar.”

 

fevereiro

 

A chuva não parava, e aquela era uma noite especialmente fria para os padrões de Malta. Ainda assim, turistas se aventuravam pelas ruas, espremendo-se embaixo de guarda-chuvas e dentro dos bares e restaurantes espalhados por Valletta. Kelly via todo o movimento sentada em sua sacada; um cigarro aceso esquecido na mão esquerda enquanto ela via o vidro embaçar contra a água.

 

George havia ligado mais cedo naquela tarde. Ele iria até o apartamento dela depois que saísse do estúdio e, provavelmente, passaria a noite. Kelly não sabia o que existia entre eles. Ela não se atrevia a dizer que era sério, mas também não podia dizer que não se importava com ele. Não queria se comprometer com ninguém, e, até onde ela sabia, ele também não. Então, estava tudo bem. Tudo casual.

 

A tela do celular piscou, iluminando a sala escura e chamando a atenção dela. Era John, seu irmão, mandando uma foto do filho vestido de Capitão América para a festa de um amiguinho. Ele insistiu em tirar essa foto pra você, a legenda dizia. Kelly sorriu e apagou o cigarro. Ela não gostava de crianças, mas Daniel era especial. Não só por ser seu sobrinho, mas porque era muito parecido com ela quando tinha a mesma idade: sério, preocupado, tímido, com poucos amigos. Quando estava com ele, Kelly não precisava se policiar e prestar atenção nas coisas que falava, porque ele entendia seu sarcasmo como qualquer outro adulto. Talvez até mais que alguns adultos.

 

Ela pulou da sacada e andou até a cozinha no escuro. O apartamento era pequeno, mas confortável e tinha a personalidade dela estampada em todos os cantos. Encostada contra a porta da geladeira, ela digitou uma resposta para o irmão – diga a ele que velhos rabugentos não sorriem – e, logo em seguida, mandou uma mensagem para George, pedindo para ele pegar comida chinesa no caminho.

 

Quando George chegou – ele tinha a própria chave -, ela estava afundada no sofá, lendo um dos romances eróticos que ele havia comprado para ela de brincadeira. Eles haviam se conhecido em dezembro, em uma livraria barata. Fazia duas semanas que Kelly andava recebendo ligações estranhas, um número não identificado que desligava assim que ela atendia. Naquele dia, ela estava andando de volta para o apartamento quando sentiu que estava sendo seguida. Não chegou a ver ninguém, mas teve a sensação forte de ser observada. Por isso, entrou na livraria e foi até o fundo, pegando um dos livros e fingindo interesse nele enquanto espiava a rua.

 

“Você já leu os dois primeiros?” Ela pulou assustada quando o homem ao seu lado sorriu. “É uma trilogia,” ele indicou o livro com o queixo. “Já leu os dois primeiros?”

 

Ela ainda demorou alguns segundos para baixar os olhos para as mãos e perceber do que se tratava. “Ah!” Quando viu a mulher vendada na capa, devolveu o livro na prateleira como se tivesse levado um choque. “Não… eu… não li.”

 

O homem deu risada. “Vocês americanos são muito pudicos. De onde você é?”

 

“Nova York,” ela encolheu os ombros e, mais calma, começou a rir de si mesma.

 

Eles se apresentaram e, uma semana depois, já estavam juntos. Casualmente juntos.

 

Ele era um fotógrafo italiano que havia se mudado para Malta depois de passar as férias por lá quando ainda tinha vinte e poucos anos. Dez anos depois, ainda dizia que aquele era o paraíso, e que Kelly contrastava tanto com as cores e o calor, que ela devia ficar lá para sempre. Porque os dois trabalhavam com fotografia e viajavam muito, tinham assuntos em comum, o que tornava a coisa mais interessante do que se fosse só sexo. Não que o sexo não merecesse destaque naquela relação – Kelly nunca estivera com alguém como ele antes. E ele não só era extraordinário, como também fazia com que ela saísse da sua zona de conforto para experimentar coisas novas.

 

Achando graça de como ela ainda ficava envergonhada com certas coisas, George lhe deu de presente o livro que ela havia pegado na livraria no dia em que se conheceram, bem como os dois anteriores. Ela morreu de rir quando abriu os pacotes. George era um clichê italiano tão grande que chegava a ser quase uma piada. Kelly gostava de tê-lo por perto e, ela percebeu depois do Natal, as ligações haviam parado depois que eles se conheceram.

 

“Não achava que você estava realmente lendo,” ele piscou para ela quando colocou a comida sobre a mesa.

 

“Você me deu esses livros por algum motivo.” Ela andou até ele, pegou a sua mão e começou a levá-lo para a cama. “Eu quero saber se aprendi bem algumas coisas.”

 


 

No meio da noite, famintos, eles esquentaram a comida das caixinhas e comeram na cozinha. Kelly mostrara para ele a foto do sobrinho vestido de Capitão América, e George dissera que gostaria de conhecer sua família algum dia, se ela não se importasse. Com um sorriso, ela dissera que pensaria sobre o assunto.

 

Kelly acordou com o barulho usual da cidade no sábado. A chuva havia parado em algum momento antes do sol nascer, mas voltaria de novo durante a tarde. Enquanto isso, o comércio voltava a ferver, e as ruas ficavam movimentadas desde cedo.

 

Ela piscou contra a claridade entrando pela janela e sorriu ao sentir que George continuava do outro lado da cama. Lembrando-se da noite anterior, Kelly virou para o lado dele e tentou acordá-lo. Era estranho que ele já não tivesse se levantado, porque geralmente era ela quem não gostava de acordar cedo.

 

“Ei,” sussurrou em sua orelha, mas ele não se mexeu. “Vamos, até parece que a noite de ontem te matou.” Kelly o puxou pelo ombro e quase caiu da cama quando o corpo dele virou de barriga para cima. Os olhos dele estavam abertos, vidrados e sem brilho. Os lábios cinzentos no rosto antes bronzeado, agora pálido e sem vida. Uma poça de sangue já meio coagulado se formara no lençol no lado para o qual ele estivera virado, o corte reto e fundo na garganta não deixava dúvidas.

 

George tinha sido assassinado.

 

maio

 

A polícia de Malta não concluiu as investigações, mas Kelly conseguiu provar que não era culpada. Não havia sinais óbvios de que seu apartamento havia sido arrombado, nenhuma janela quebrada, pegadas molhadas no chão ou impressões digitais estranhas pela casa. Porém, o assassino havia quebrado o cilindro da fechadura.

 

Graças a isso, a polícia se focou em achar o culpado, em vez de arrumar desculpas para incriminar Kelly. O que ela imaginou que poderia ter acontecido se estivesse mesmo com muita má sorte.

 

Ela se enterrou no trabalho. Assim que pôde sair da ilha, foi para Paris. Depois, Zurique e Ticino. Estava escrevendo como nunca e tirando o que podiam ser as melhores fotos de sua carreira. Mantinha contato regular com o irmão em Nova York, falava com o sobrinho por FaceTime pelo menos duas vezes por semana. Não fazia amizades nos lugares onde morava, mas cumprimentava todos os vizinhos, tentava ser simpática com todos. De vez em quando, o detetive responsável pelo caso de George a ligava para lhe atualizar, mas esses telefonemas eram cada vez mais raros. Kelly já achava que nunca encontrariam o culpado.

 

Ela se lembrava das ligações estranhas que recebia antes de conhecer George, da sensação de ser seguida no dia quando o conheceu, e se perguntava a razão por trás do assassinato. Ele fora morto por algo que fez ou por causa dela?

 

Nada fora roubado do apartamento. Ela não sabia se ele tinha inimigos ou não. Ela não sabia dizer se ela tinha inimigos. Mas os dois eram fotógrafos, e George não tirava fotos apenas de paisagens, como ela fazia. Ele também tirava fotos de pessoas. Ele tirava fotos principalmente de pessoas. Esse é o tipo de coisa que pode te dar dor de cabeça, que pode te render um inimigo ou outro, dependendo do trabalho, dependendo da pessoa.

 

No começo, ela ficara com medo. Ela não sabia explicar, mas sentia que tudo aquilo fora sua culpa. Que George era uma peça que precisava ser retirada do tabuleiro para que ela ficasse vulnerável. Mas, com o passar do tempo, o medo foi diminuindo, e ela foi se sentindo mais segura. Nada de estranho acontecera desde Malta. Até aquela quarta-feira, dia em que tudo andava normal.

 

Era um dia como outro qualquer. Kelly havia passado no supermercado de manhã, comprado algumas coisas que precisava para casa. Terminara o último artigo da série sobre Zurique antes do almoço, o enviara para o editor da revista Travel, e saíra para comer um lanche no restaurante à beira do lago.

 

Não notara ninguém estranho, nem dentro do restaurante, nem durante a sua caminhada pelo lago antes de voltar para casa. Mas ela notaria se houvesse alguém suspeito ao seu redor? Provavelmente não. Infelizmente, já tinha baixado a guarda, não andava mais tão preocupada. John também já tinha desistido de trazê-la de volta para Nova York, para perto da família. Todo o senso de perigo havia diminuído.

 

Daniel fizera uma maquete da Millennium Falcon para uma apresentação na escola, e quis contar tudo para ela assim que chegou em casa. Susan pediu desculpas, disse que John estava ocupado com um caso, e que ela não sabia o que fazer para distrair o garoto. Kelly disse que não tinha problema algum, que falar com Daniel era a melhor parte do seu dia, e que ela não precisava se preocupar. Depois de quase uma hora conversando com o sobrinho, Kelly desligou e foi preparar o jantar.

 

Ela comeu na varanda, sob o céu limpo e estrelado de Ticino. Estava pensando qual seria seu próximo destino, quando ouviu um barulho de vidro se quebrando dentro da casa. Assustada, Kelly deixou a taça de vinho que estava segurando na beira da mesinha, antes de ir para dentro ver o que havia acontecido.

 

A cortina do seu quarto, no extremo oposto do chalé, ondulava suave com o vento que entrava da janela quebrada. Uma pedra do tamanho de um punho fora atirada contra o vidro, e agora jazia sobre o colchão, todo o espaço entre a cama e a janela forrado por cacos de vidro. Não havia, no entanto, sinal de que alguém entrara ali.

 

Sentindo o coração disparar, Kelly correu de volta para a varanda para pegar o seu celular. Queria ligar para John, talvez para a polícia. Já havia desbloqueado o aparelho quando percebeu que a taça de vinho não estava mais lá. Ao mesmo tempo, ouviu a porta da frente bater. Com cuidado, espiou para dentro da cozinha e da sala mais atrás, mas não havia ninguém. Ela estava sozinha novamente.

 

Kelly tentou controlar a respiração. Apoiou-se na porta da varanda e começou a planejar seus próximos passos. Talvez, pudesse ir para a América do Sul, algum lugar bem longe, onde pudesse ganhar tempo até descobrir o que estava acontecendo. Quando já estava mais calma e decidida sobre o que faria em seguida, atravessou a cozinha e foi até o sofá, onde deixara seu laptop. Sentou no braço do sofá e sentiu a espinha gelar ao olhar para a mesa de centro.

 

No último aniversário do Daniel, quatro de julho do ano anterior, todos haviam tirado uma foto juntos: Kelly, a mãe, o irmão e a família dele. Daniel estava no colo dela, agarrando uma revista em quadrinhos e com o rosto vermelho. Ele não gostava dos fogos do 4 de julho e havia chorado até Kelly lhe dar o baú cheio de quadrinhos que era dela quando criança. Não importava onde Kelly morasse, ela sempre colocava essa foto na geladeira. Agora, a foto estava sobre a mesa de centro, sob a taça de vinho que havia sumido. Com cuidado, ela levantou a taça e puxou a fotografia de baixo: o vinho havia derramado, formando um círculo vermelho e úmido ao redor de sua cabeça e da cabeça de Daniel.

 

“Que merda é essa?” Ela sussurrou, deixando-se cair no sofá, sentindo as pernas fracas e a cabeça tonta demais para conseguir se levantar.

 

Com os dedos tremendo, Kelly finalmente ligou para John. Ela voltaria para Nova York no primeiro voo que conseguisse pegar.

Mônica
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