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19/mar

Quando sentei para ver este episódio de Chicago Med, tinha plena certeza de que não gostaria dele. A começar pela entrega da morte via promo, que me é ainda deveras surreal. Depois, e mais relevante, porque os roteiristas das Chicagos (somando todos porque não sou obrigada) têm o talento de falharem miseravelmente ao tentar dar relevância a determinados assuntos. Tais como justiça social, algo que tem ocorrido com extrema frequência em Chicago P.D.. Sempre que me dou conta disso, me pergunto aonde estão os limites da vergonha alheia, mas Chicago Justice nasceu para provar que tais limites não existem. Atualmente, a meta é só ganhar confete em cima de situações que requerem rigor e aprofundamento, mas acabam como trivialidades nessa franquia.

 

Por se tratar de suicídio, um assunto que me faz aliada, estava pronta para o tiroteio e para o espetáculo de mau gosto. Bem, de mau gosto não foi, mas ainda estou me perguntando quem é menino Wheeler. Afinal, você não me insere um plot desses se não tem a menor intenção de explorá-lo no futuro. Considerando que em âmbito médico realmente há taxas elevadas nesse tópico, poderiam fazer o favor de esticar essa pauta que tem sido plano de fundo de vários episódios dessa temporada de Chicago Med. Mas é pedir para ser enganada à toa.

 

Tornar Wheeler a fonte do pesar me deixou com os dois pés atrás. Primeiro pelo motivo óbvio chamado falta de desenvolvimento de personagem. Segundo para manter os principais intocáveis e daí a decisão de contratar avulsos que, dependendo da situação, ninguém se lembrará daqui dois anos. Tanto o desenvolvimento quanto manter o elenco como homens e mulheres de aço são os pontos frágeis atuais da franquia. Junto com CPD, Chicago Med anda deveras carecida de desenvolvimento, especialmente de background dos médicos e cia. Para um 2º ano, é deslize.

 

Centralizar um cara que nem do main cast era próximo, a não ser de Will, me entregou a sensação de que seria mais uma tentativa dos roteiristas em pegar um assunto atual e tentar ganhar aplausos em cima. Como tem rolado em Justice e me embrulha o estômago. Minha perspectiva foi se alterando quando diálogos-chave se manifestaram e meio que justificaram certas empreitadas. Como os motivos de Wheeler ter ficado na clandestinidade na rotina do hospital.

 

Antes disso, quis socar alguém devido àquela impressão de normalidade depois da queda de Wheeler. Assim, rapidinho. Detalhe que tem me frustrado bravamente junto com os atendimentos que ganham resultados dignos da nave da Xuxa. Nada de drástico move o local, vide o 2×14 que não deixou os médicos por mais tempo em tomadas externas e tudo logo ficou “bem” quando o auxílio entrou em cena (e entendo porque frio da ursa). Essa de proteger personagens e local de trabalho é irreal demais a essa altura de Chicago Med. Podem considerar o espaço um santuário, mas cadê os demônios?

 

O que salvou esse episódio é que havia intenção em tratar Wheeler como um desconhecido. Esclarecimento que veio em uma linha de diálogo entre Sharon e Charles. Um impulso de trama que fez desse dia em Chicago Med um belo instante para testar hipocrisia alheia e Natalie foi a primeira que fiquei de olho. Afinal, a vítima do episódio nem respirou muito perto do cangote dela. Ela se mostrou genuinamente abalada, mas aguardei a falsidade. Como não rolou, transferi a preocupação para os homens. Especialmente Rhodes que tem sido favorecido por absolutamente nada.

 

Tal teste de hipocrisia se entremeou nos atendimentos que não trouxeram respaldo ao tema. O foco foi na turma e como cada um reagiria a perda de alguém que não conheciam. Aqueles que aparentavam estar sob controle não estavam de forma alguma, como Choi. Personagem que entrou em cena no pique Latham, com pulso firme, um suposto distanciamento e muita farpa verbal que gostei de acompanhar. Acreditei nesse moço porque pensei imediatamente na experiência no exército. Supus que o imediato resfriamento emocional diante de uma tragédia dessas não o afetaria porque também ocorre casos de suicídio entre quem serve. Seja por estresse pós-traumático ou por causa da zona de guerra da qual atuam. Ele se saiu como o cara que equilibraria a balança, mas quem acabou por segurar muito mais, como sempre, foi rainha Maggie.

 

Resenha Chicago Med - Will e Choi

 

O intuito de Choi foi confrontar o acontecimento ao pensar e agir para evitar perdas. Um detalhe anunciado no final do episódio e que deu mais embasamento a tantas mãos trêmulas em cada ala. Ele não estava errado em dizer que todo mundo deveria ter ido pra casa porque emoções tendem a nublar pensamentos. Algo que vimos aos baldes a essa altura de Med. Mas será que ele toparia ir para casa conversar com o papagaio? Duvido muito! O personagem tentou se segurar o quanto pôde, mas tem um emocional expansivo. Ele se envolve rápido e foi basicamente o que vimos.

 

Choi é um misto de emoções, o que o deixa mais próximo de humanização junto com Charles e Reese. Mais complexo também. O lado frio tentou entrar em cena, mas foi impossível visto no que ele trabalhou antes de embarcar nesse hospital. Foi demais para suportar e o personagem quebrou. E é sempre tão bonito ver esse homem quebrar porque tudo na companhia dele é uma montanha-russa emocional em que só restam as lágrimas.

 

Mais uma perda no âmbito paciente poderia aniquilar os ânimos de um ambiente que contou mais com o papel de Sharon para relembrar o ocorrido. A chefia pesou o clima, mas não o bastante. Tinham que seguir o trabalho, com certeza, mas uma vez que o pai de Wheeler entrou em cena poderiam ter ido por esse caminho. Como sempre, Chicago Med desviando do que realmente interessa no momento. Em contrapartida, o efeito da perda cumpriu seu intuito de abater o time. Não todos, mas os essenciais. Além de Choi, Natalie passou a contestar o seu trabalho e as possibilidades de resolução, mas quem acabou roubando a cena foi menina Reese.

 

Reese não me surpreendeu ao se revelar culpada por Wheeler (algo que comentei na resenha passada) e seus questionamentos foram cabíveis. Como uma futura psicóloga deixou um claro pedido de ajuda passar batido? Ela foi a última pessoa que ele entrou em contato e fiquei um tanto orgulhosa em ver a personagem segurando o tranco na medida do possível. Além disso, indagar que tipo de trabalho anda realizando. Juro que aguardei a reprise da cena do banheiro, mas a garota seguiu de queixo empinado. Agora, me resta acreditar que a mesma saia da teoria de vez.

 

Resenha Chicago Med - Reese

 

Não diria que a personagem está crua no que faz. Ela apenas bitolou de um lado e deixou o outro passar batido. No caso, o instinto. Reese passou vários episódios tentando contestar o intangível. Se o diagnóstico não contasse com embasamento em livros, esse intangível não fazia sentido em sua mente. Wheeler foi intangível, enviou vários verdes, mas a moça ignorou o comportamento porque sua mente estava totalmente pronta para seguir o teórico. Penso em uma quebra nesse quesito já que Sarah parece que finalmente se tocou que há vários pontos de partida para ter um resultado. E isso é mais que necessário porque sua pessoa está presa em um ciclo repetitivo de escrita.

 

Nitidamente, o impacto dessa perda iniciou um processo de mudança de perspectiva. Ao menos, de Reese. Vê-la batendo canela no hospital foi excelente, mas foi ainda mais excelente fazer de seu respectivo atendimento um salto para o modo que possivelmente encarará sua profissão daqui por diante. Embora não tenha culpa por Wheeler, de não ter dado atenção ao que se tratava de indícios de ajuda, a personagem se saiu como a mais significativa da semana. A moça colocou em cheque um tratamento que deveria ser típico de qualquer ser humano: perguntar se o outro está bem.

 

Quando Reese senta e pergunta isso para Charles, me parti foi toda. E, claro, quando ela indaga o paciente se a ajuda ofertada ao menininho foi por instinto ou uma medida até do ângulo do salto.

 

Fazia tempo que menina Reese não mexia com meu juízo. Obrigada, garota!

 

Resenha Chicago Med - Natalie

 

O que posso dizer sobre Natalie? A carga monstro sendo que foi a mais distante de Wheeler. A mãe teve um papel importante, dando um chacoalho até no lado materno da médica. Foi puxado, mas a personagem seguiu firme o quanto pôde também e teve o jogo de cintura que faltou em Choi. Novamente, Manning tomou o cerne do perrengue, foi energética, se segurou o máximo possível e deixou que suas emoções se manifestassem em privado. Para uma mulher que na S1 não hesitava em se deixar levar pelo que sentia, esse controle reafirma um pouco seu amadurecimento.

 

Só espero que daqui para frente Natalie conte com perdas reais. Apesar de ter sido um caso pertinente para agitar o inferno nela, vi o zanzar e mais um episódio de à espera de um milagre. E o milagre rolou. Bem exausta desse tipo de situação tão quanto de Reese citando o DSM.

 

Quem acabou se destoando, como sempre, foi Rhodes em companhia de frases prontas. O que está acontecendo aqui? O garoto me incomodou demais e queria tanto que fechasse a boquinha…

 

Connor ficou naquele papel de vamos falar bonito e seguir adiante. Só que ele fez o que considerei o maior erro desse episódio: trazer Wheeler para um ponto de vista médico. E quando digo ponto de vista médico, não é o diagnóstico, mas sim o distanciamento e passar panos frios. Ok, não está errado, mas Choi representou esse mesmo papel e fez melhor. Ethan não rebaixou o ocorrido ao mesmo tempo em que não deixou de seguir adiante com a rotina. Rhodes deu o corte do vôlei e rolou um desconforto tremendo. E só piorou porque o personagem meteu textão verbal logo para Reese, a pessoa mais direta da situação. Alguém arruma a caracterização desse moço?

 

Rhodes se atreveu a “justificar um dito erro da profissão na hora do diagnóstico” ao mostrar um coração detentor de uma coloração diferente em dada parte. O onde o jovem aprendeu a não “errar mais”. Oi? Really que esse senhor tentou rebaixar um suicídio desse jeito? Ah, mas me respeitem! Numa saia justa dessas, comparar um problema cardíaco com “deixar escapar os indícios suicidas” fez meu sangue bater na testa. Uma pessoa que contempla suicídio não larga sinais de bandeja, o que desvalidou ainda mais esse exibicionismo.

 

E, digo mais, era bem capaz que Reese até ajudasse Wheeler e ainda não enxergasse o desejo dele em tirar a própria vida. Will achou o fato do rapaz beber como um efeito rebote de um atendimento que deu errado. Pedir comprimidos é o clichê médico que pode significar várias outras coisas. Essa de Rhodes ser mais técnico em cima de uma fatalidade dificilmente farejável reforça o tipo de personagem que ganha tudo e que a partir disso ganha espaço de fala. Stop there!

 

Ainda bem que Rhodes representou um erro que não afetou o episódio. Natalie, Will, Choi e Cia. estavam na mesma bolha de introspecção embora o corpo e a mente continuassem a trabalhar porque o dia assim exigia. Não havia necessidade de Connor querer ser o pimpão e dei amém que Reese deu mute na hora. Não é uma questão de deixar passar um comportamento que poderia render em ajuda. Tais atitudes ocorrem quando se menos espera, por variados motivos, e uma coloração diferente no coração não tem o mesmo peso. Não quando há um confronto de suicídio na roda de conversa e que foi uma ponte para se fazer pensar sobre a atitude de várias pessoas em simplesmente não se importar – o que não é erro médico. É algo que vem de nós (e que pode haver quadros psicológicos que justifiquem).

 

Tem como trazer a família de Connor Rhodes para distrair?

 

Quem eu achava que zoaria tudo ficou muito de boa (na medida do possível). Will segurou firme também e mostrou que perder um residente não é a 8ª maravilha do mundo. Ele poderia não conhecê-lo, como o hospital inteiro, mas focou no trabalho justamente para não falar asneira. E chegou perto, hein? Pelo visto, o ruivão sempre será minha primeira opção para falar nhacas, mas Rhodes acaba de assumir o pódio gratuitamente.

 

A sensibilidade também estava em Charles, que segurou bastante a trama junto com Maggie. Ele foi o farol tranquilizador, uma surpresa já que o psicólogo tem histórico com o tema central desse episódio. O personagem era quem mais esperava que sairia abatido de primeira ou daria riot. As conversas dele com Halstead deixaram meu coração quentinho. Tudo que ele disse na verdade.

 

Concluindo

 

Resenha Chicago Med - Wheelers Dad

 

Tenho que agradecer pela ausência de piadas idiotas.

 

Tenho que agradecer também pela mensagem do episódio. De novo, saí de Chicago Med meio arrasada. Não só por ter um relacionamento muito forte com o tema, mas por tantas outras coisas que se eu começar a pontuar o texto perderá todo o foco. O peso foi tão forte que todas as vezes que passei o olho na foto do pai de Wheeler aí em cima, me vi de olhinhos marejados. Foi um mega trigger warning e confesso que também estava assustada com o que isso provocaria em mim.

 

E, sério, a NBC foi descuidada demais em soltar a promo daquele jeito sem aviso de trigger.

 

Saindo da emoção, o episódio deixou aquela sensação de que era longo. Houve vários momentos tediosos que pareciam que iriam a canto algum. Contudo, o foco foi nos personagens e esse ínterim de tempo foi muito bom porque explorou como cada um se sentia depois de Wheeler.

 

Bom é que teve um momento feliz: April dar ban em Tate. Vocês não fazem ideia do quanto esperava por isso desde aquele papo “pare de trabalhar”.

 

E qual é a graça de chamar personagem de CPD pra vários nada?

 

Apesar dos meus resmungos, o que tenho gostado em Med é que os roteiristas pelo menos têm inserido homens em vários âmbitos que a sociedade ainda prega como problema de mulher. A taxa de suicídio entre eles é maior que o das mulheres. A começar pela dificuldade de expor o que sentem porque também é coisa de mulher ser vulnerável. Para esvair emoções, eles bebem, usam drogas… Pequeninas demonstrações de Wheeler diante de cada personagem principal. Pena que tenho a singela impressão de que ficará por isso mesmo porque tais temas nunca são aprofundados.

 

Se passaram no teste da hipocrisia? Passaram sim! Não saber quem era Wheeler foi a jogadinha que deu peso aos passeios de uma Sharon que chegou no fim do circuito passada pela realização de que ninguém conhecia o rapaz. Até eu fiquei um tanto inconformada, mas daí lembro dos discursos de Rhodes que me soaram um tanto indelicados e…

 

O pai de Wheeler não participou muito, mas representou o ponto alto desse episódio que descarrilou a partir daí uma mega choradeira. Sério, eu tive que pausar para dar uma volta porque as coisas se tornaram pesadas para mim. O senhorzinho trouxe o impacto da grande pergunta: por quê? O filho entra na fila de perda de confiança mais o estresse e a pressão de atender uma expectativa. Talvez, ele não tenha nascido para seguir carreira médica e assim o fez por um motivo que nunca saberemos. Suposições de muitas porque, como Charles pontuou, a mente tem seu jeito de criar armadilhas e nos paralisar.

 

A cena de Wheeler caminhando até o topo do prédio foi de paralisia completa e não de determinação. Uma paralisia que poderia ser pelas mais variadas razões e que rebate no pensamento do quanto podemos ser negligentes com as pessoas de maneira geral.

 

Não precisamos gostar de todo mundo, isso é impossível, mas podemos ser mais humanos. Podemos dar voz a quem precisa de ajuda só com um olá e essa foi a mensagem que recebi de uma Reese que notou o quanto um relacionamento pode alterar o curso da vida. Passamos tanto tempo na bolha que esquecemos do crucial: perguntar se o outro está bem.

 

Cada um tem sua batalha. Batalhas que ainda zanzam na zona de rótulo frescurinha. Fico feliz que não tenha rolado um discurso baixo desse jeito porque é o que mais se escuta diante do tema suicídio.

 

Sejamos mais Reese. É o que deixo de reflexão nessa resenha.

 

PS: apenas deixo aqui a falta de necessidade da última cena de Choi. Sensacionalista feat. vamos pensar na altura que Wheeler despencou para estar inteiro daquele jeito. Fica aí a reflexão.

 

Chicago Med retorna no dia 30 de março.

Stefs
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