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09/abr

Foi impossível não sentir várias coisas e pensar em tantas outras depois desse episódio de Chicago P.D.. Não é uma leva de sensações e de impressões novas quanto ao estupro, claro. O que ocorre é o ressaltar de tudo e mais um pouco que fica trancado até eclodir diante de pautas como essa. A experiência da vez apertou gatilhos, especialmente o referente à Nadia. Porém, houve um ponto de diferença. Um ponto que virou do avesso tais emoções porque a voz ressaltada nos desdobramentos que moveram a Unidade de Inteligência foi a do homem predador. Se é que podemos usar tal indicação, mas vamos nos ater ao que a série pontuou – e foi dessa forma.

 

É em situações como essa que sempre me pergunto como escreverei sobre. Poderia partir para o lado costumeiro, em que dou o máximo de impressões e de opiniões possíveis, ou dar uma contornada no cerne do assunto para encontrar um tipo de calmaria emocional. É fato que sentei em frente ao meu notebook já pensando na dificuldade que seria escrever e revisar essas palavras. É uma resenha longa, então, tenham paciência comigo.

 

A trama me fez contestar a frase “nem todos os homens”. Uma reflexão que há tempos não fazia porque se eu começar atinjo um ponto que rende horas de contorcionismo emocional. O famoso tudo pode acontecer porque, como pontuado pelo roteiro, o homem tem o instinto animal que precisa ser saciado. E ainda sim é uma colocação errada porque o homem que comete estupro não almeja saciar seu desejo sexual. Ele quer mostrar que tem poder e domínio sobre a mulher – entre outras coisas que enumerei ao longo da resenha.

 

Abaixo da hierarquia da trama, tivemos Nicole, brutalmente estuprada e largada ao relento para morrer. Acima da hierarquia da trama, havia um homem que doutrinava e impulsionava vários outros a romper a dita resistência feminina em forma de “não”. Porque o “não” ainda é visto como início de jogo, o popular “se fazer de difícil da mulher”. Dito repetidas vezes, o “não” significa que o homem pode empurrar todos os botões, insistir, porque ela está, intimamente, querendo muito – só que não. Essa foi a abordagem e gostei bastante porque essa é uma fatia da realidade que precisa continuar em várias rodas de conversa. Não deveria porque não é difícil entender que não é não, mas…

 

Mesmo que toquemos nesse ponto da conversa, as mulheres seguem tomando cuidado com os drinques na balada, por exemplo. Seguem policiando suas roupas com medo de chamar atenção. Detalhes que um motherfucker usa para “ganho próprio”, sendo que não é vacilo você deixar seu copo descansar enquanto bate um papo ou usar um vestido decotado. Realidades que criaram parte do clima desse episódio de Chicago P.D. que saiu da zona de conforto do estupro ao abordar uma das “estratégias” que resultam em tal crime. Foi basicamente uma análise do homem nas “zonas predatórias”, nas noites em que “ninguém é de ninguém” e “o que cai na rede é lucro”.

 

Nicole e Denise trouxeram para o cerne do crime dois caras que achavam correto o que faziam. Achavam normal forçar diante de uma negativa. Uma vez que conquistassem um sim pela metade, como ir para um lugar privado para, supostamente, conversar, eles as drogavam para garantir que não houvesse a negativa sexual. Na relutância de não serem violadas, no curto fio de consciência, o estupro acontecia. Para abafar a atrocidade, bastava largá-las na rua e seguir adiante. Ato que, nesse episódio, foi embasado e inspirado em um homem que dissera a outros que era ok fazer de tudo para quebrar essa resistência. Um homem que afirmara que a resistência feminina é fachada. Afinal, a mulher sempre quer um homem a tiracolo. Elas precisam de um homem all the time e o homem só está fazendo o grande favor de ser presente. Alguém avisa que não?

 

Ao contrário de se apoiar no ocorrido com a irmã de Burgess, tivemos aquela chuva desagradável de patriarcado, estrelando machismo e slut-shaming. Porém, foi impossível ignorar o peso do estupro, mesmo ele só sendo artifício para iniciar o debate sobre consentimento.

 

A cada 11 minutos uma mulher é estuprada neste país. São 130 mulheres estupradas todos os dias. E isso [são] dados subnotificados, porque as pesquisas mostram que apenas 10% das mulheres violentadas e estupradas têm coragem de denunciar. E apenas 35% das mulheres que apanham dos seus companheiros têm coragem de denunciar. E os números não param por aí: 70% dessas vítimas de estupro são crianças e adolescentes, mais de 80% do sexo feminino. Fonte: xxx

 

Resenha Chicago P.D. - Nicole

 

Nicole e Denise foram as grandes personagens dessa semana por um motivo do qual não deveriam e isso me deixou com a pulga atrás da orelha porque Chicago P.D. tem desfrutado de temas do momento para gerar um tipo de buzz. Não é errado porque a franquia se faz de eventos cotidianos para ter storyline. Porém, essa série não tem sido a melhor amiga para essas e outras pautas. A S4 vem de uma leva de tentativas de pregar justiça social, hate crime e racismo e flopa miseravelmente. Meramente porque sempre querem enaltecer a equipe e esquecem o X da questão. Embora tenha mencionado alguns pontos positivos desse episódio lá em cima, é fato que a investigação da semana serviu de novo para elevar a UI. No caso, só os homens.

 

A conversa estimulada pelo roteiro era de homem para homem, mas as vítimas não deveriam ter sido esquecidas. Muito menos as únicas mulheres que poderiam dar mais voz ao assunto. Afinal, são elas que sofrem. O que o homem prega como dito correto não interessava quando chegamos ao derradeiro fim. Era importante saber como elas viam aquilo, mas CPD não esquece deslizes e aqui temos um enorme. Ótimo dizer que o homem tem que parar de ser estúpido, meio mundo sabe disso, mas a conclusão poderia ter trazido um parecer de cada uma delas. No caso, o direito de resposta sobre a resistência feminina não ser uma ilusão e nem pontapé do “jogo da conquista”. Faltou isso, com certeza.

 

Infelizmente, a única pauta que, até então, conseguem mexer e trazer um episódio de CPD recheado é estupro. Um aprendizado de SVU que começou a passos de bebê e que se tornou um bebezão. Male, male, esse tema é “confortável” a ser escrito pelos roteiristas, mas não significa que continua very cool. Ainda mais quando é visado para empurrar personagem a troco de nada já que essa mana nem desenvolvimento tem mais. Assim, apesar da premissa da série ser combate ao crime de rua, não vejo entrave de propiciar uma pegada dessas. Contudo, toda temporada tem e os resultados finais ficam a desejar.

 

E ficou a desejar. Mais detalhes em breve.

 

Essa temporada de CPD estava carente de impacto e conseguiu seu impacto. Ótimo, mas foi em cima de um tema que precisa de folga. Antes que chegasse a semana de exibição desse episódio, considerei seriamente em pulá-lo. Primeiro pela afronta de ter estupro de novo. Segundo por tirar mais um parente das colinas para sofrer. Terceiro porque a soma desses dois tem rendido vício de escrita nessa mana. Vale lembrar que esse mesmo assunto custou Nadia em seu pico de desenvolvimento para agitar a vida de Lindsay – e o luto aqui passou mais rápido que o de Wheeler em Med. 

 

Um rememorar que me deixou travada em ver o episódio porque não aguento mais ver estupro como fonte única, ou de última hora, para mover personagem. Seja ela ou ele quem for.

 

Nada novo sob o Sol, eu sei, mas Timothy, aka o roteirista, me deixou um pouco mais calma ao sair do norte foca no estupro e vamos sensacionalizar. Ele cutucou verdades com sal grosso e, de novo, foi triste dar de cara com a verdade de que ainda precisamos discutir consentimento. Sendo que, repetindo, não é difícil compreender que não é não. O episódio foi eficaz em tacar na face essa mentalidade masculina, mas, obviamente, perderam a chance de mandar uma mensagem de POV feminino. Mesmo que uma mulher nunca tenha passado por isso, ela precisa estar consciente de que tem direito de fazer um escândalo caso um homem não compreenda que negativa é negativa.

 

Esse episódio me fez pensar no quanto as mulheres ainda precisam desenhar o “não” na face deles. No quanto ainda temos que responder o que é consentimento. Tipo, qual é a real dificuldade do homem em compreender negativas? Uma pergunta válida e que foi respaldada ao longo da investigação. Ao menos, dentro da sua proposta.

 

O roteiro instigou uma investigação que ornou com os estupros e que fez sentido. Timothy chutou o balde dentro do possível, uma empreitada corajosa para uma Chicago que segue firme no mais do mesmo, sem grandes mudanças ou grandes novidades que engajem o telespectador. Que, inclusive, mantém suas mulheres como sombras e/ou como pontes de angústia masculina. E quando digo corajosa é porque a franquia é comandada por homens e esses homens têm um ego maior que a Dinamarca. E por terem um ego maior que a Dinamarca, personagens masculinos acabam enaltecidos. Vejam bem, Nicole era o holofote que puxaria Burgess, mas Burgess não conquistou o destaque que merecia e nem o direito de voz final.

 

Resenha Chicago P.D. - Goldwin

 

Apesar disso, e de outros pormenores, Timothy merece algumas estrelinhas. Ele trouxe com honestidade as atitudes dos homens predadores. Com Goldwin, personagem-chave que embasou o comportamento dos outros investigados, tudo se tornou desconfortável e de se indignar. Não houve um só momento em que não acenei a cabeça e disse “é assim mesmo que alguns homens pensam/agem”. Isso me irritou. Irritou tanto que, assim que Voight saiu da presença dele, vi o episódio dando pausa.

 

O pensamento, a estratégia e o ato mexeram com a minha existência e com meu feminismo. No derradeiro fim, respirei de alívio porque não usaram a desculpa psicológica para amenizar ou livrar os estupradores. O famoso caminho cômodo usado em várias finalizações dessa temporada de Chicago P.D.. Burgess não tomou o drinque, não foi agredida, para passarem a flanela. Ainda bem que não investiram em uma estupidez dessas porque seria o mesmo que dar ok a esses porcos.

 

Seria o mesmo que embasar todas as notícias que inocentam o homem porque ele tinha a saúde mental abalada. Algo que se vê em casos de estupro até o feminicídio.

 

Comentei na semana passada que meu medo era que essa trama fosse escrita por mulher. A verdade: estou cansada de mulher escrever sobre estupro ou abuso e dar aquela romantizada (Julie Plec!!!!!!!). Em tempos que mulheres querem histórias sólidas e empoderadoras, ver uma mulher com machismo internalizado investindo no tema me faria gritar como uma Banshee. Se homem escrevendo sobre esse tema para ganhar confete já dói o âmago, mulher que ainda culpabiliza a vítima só piora meu estado de impotência. Uma outra verdade que me fez temer esse episódio.

 

No fim, a escolha de Timothy fez muito sentido visto que a trama deu um tipo de voz ao homem que só um homem conseguiria entregar com honestidade. Afinal, é de se presumir que ele entenda a sua natureza, certo? Certo. Não duvido que uma mulher entregaria o mesmo serviço com excelência porque são elas as abordadas por aqueles que induzem o “teste do consentimento”. Porém, o episódio foi mano a mano e um homem como roteirista deu sim um pouco mais de crédito. Deu para sentir que o cara sabia exatamente o que estava fazendo. O que é um raridade em CPD ultimamente, vamos ser sinceros.

 

Por causa da entonação, os homens ganharam destaque e tudo bem. Era uma história para eles, mas havia uma vítima que acabou sufocada e não se conseguiu vocalizá-la. Graças ao peso e a influência do POV masculino, grande parte do episódio foi busca e remontagem, não tendo uma gota de emoção ou viés de conscientização. O aspecto família só se fez presente na única linha de diálogo de Hank e depois nada mais foi pincelado. Se digo que faltou toque feminino, aproveito e digo que faltou também uma conversa sobre consentimento entre os homens da UI. O intento era enaltecê-los, então, fizessem direito.

 

Principalmente quando se criou um homem que influenciava outros do jeito errado. Já que amam enaltecer a figura masculina nessa franquia, contrapostos que pudessem rebater o “nem todos os homens” seriam interessantes de acompanhar. Os detetives simbolizam a justiça e a mentalidade contra tudo que foi pregado nesse episódio. Eles são a maioria em CPD e o assunto caberia a cada um dar um pouco de voz. Outra chance perdida.

 

Resenha Chicago P.D. - Burgess

 

Já no caso do POV feminino, faltou a sororidade e a pegada de que mulheres podem ser sistema de suporte nessas circunstâncias. Que não há julgamentos e que ela não é culpada de nada que lhe ocorrera. O clima estava propício para isso, mas as que tinham chance de dar esse cutucão ficaram escoradas até o “momento da justiça”. Essa parte me incomodou e incomodou ainda mais quando Nicole entoou a culpa e o não saber como viver dali por diante. Nunca espero missas nas Chicagos, mas dava sim para aprofundar a conversa entre irmãs nem que fosse por 2 minutos.

 

E incomodou muito, mas muito mais quando se é revelado que Jordan mandou alguém para vigiar Nicole. Outra violação que a personagem passou junto com o slut-shaming. Foi uma aparição solta que só quem tem um pouco de noção sacaria que era amarração ao “motivo” do estupro.

 

Por ter tido a voz masculina centralizada, quem realmente importava foi esquecida. Nicole era a liga e a deixaram escapar. Uma conversa entre Burgess e Lindsay sobre consentimento enriqueceria demais a trama. Ainda mais Erin que deve ter passado por maus bocados na adolescência, uma época em que era vulnerável a qualquer presença masculina. Além disso, não deram chance para a empatia – mesmo isso sendo automático para uma margem de mulheres (porque há mulheres que têm machismo internalizado) e de homens sensatos. Faltou demais voz feminina nesse episódio.

 

Poderia reclamar mais, mas a criação de Goldwin e de suas asneiras fortaleceram o que o roteiro queria entregar. Ele foi a porta que desencadeou tudo de ruim, intercalando cada faceta masculina que seguiu esse “guru” a dedo. Foi quando se iniciou a briga de consentimento vs. “resistência feminina”. Trabalharam muito bem, em pouco tempo, a perspectiva errônea de sim e não. Um papo que não é novidade já que mulheres ainda são vítimas dessa “caça” que se torna um estilo de vida para vários homens. Porque eles têm em mente que podem fazer o que bem entenderem e que jamais podem aceitar um “não” de uma mulher. Afinal, ela é objeto de conquista. É poder.

 

Um poder expressado na morte de Denise, um tapão por motivos de Nadia. Erin segurou firme, mas não dava mais para segurar firme. A vítima escapou e ainda sim se escondeu para tentar sobreviver. Foi horrível, outra pausa do episódio que dei para me restaurar e continuar.

 

Em vez da roupa que usavam, Nicole e Denise foram estupradas pela mentalidade de que toda mulher que quer se divertir, que busca sexo, que quer encher a cara até cair são “presas fáceis”. Ou seja, suas negativas são inválidas, o que reforça o slut-shaming feito por Jordan. Mulher que se preza está em casa quando o galo canta 22hrs. As demais, pedem para que isso lhes ocorra.

 

Cara, a ideia de que toda garota que festeja é fácil, ao ponto deles saberem até o dito tipo de bebida de mulheres, para alimentar essa doença me fez gritar como uma Banshee em minha residência.

 

A dupla maldita representou a quebra da ausência de consentimento a força. Ambos adotaram as palavras de Goldwin como uma verdade universal, cada sucesso os impulsionando a fazer mais. E isso acontece entre panelinhas masculinas, aquelas competições imbecis de quem pega mais. O nojo que nasceu diante do interrogatório deles, de ver que os dois tinham tudo esquematizado para fazer mais vítimas por noite, rebateu no site em que os homens se gabavam das ditas conquistas. Que refletiu na cena de Nicole no metrô, o começo desse pesadelo. Tudo que restou foi um rodopio mental e mais uma leva de questionamentos que se somou as já existentes sobre o assunto.

 

A narrativa

 

Resenha Chicago P.D. - Jordan

 

Se existem outros elogios que posso dar a esse episódio, eles vão para a narrativa. Uma narrativa que entregou uma fatia sobre a famosa cultura do estupro. Embora tenham partido para a investigação, anulando bastante o emocional feminino, a maneira como esse roteiro foi escrito me deixou abaladíssima. A UI poderia ter saído tranquilamente de cena e ainda saberíamos o que rolava. Tudo porque os diálogos montaram e contaram essa história. Percebam que não houve tanto apoio de locações e os personagens estavam sem tanta presença de trama. O quarto de balões era o efeito único que Timothy queria dar depois dessa longa conversa. A amostra dos limites que essa mentalidade de que “mulher bêbada pede estupro”, e assim por diante, ultrapassa.

 

Nicole não passou tanto pela culpabilização da vítima, mas cada linha de diálogo entregou isso também. Inclusive, que o homem não deveria ser culpado pela obviedade de que só queria festejar e o que rolou depois foi por influência do momento e de alguma substância. Ainda bem que não apareceu ninguém para defender os estupradores porque ia rolar aquele riot inesquecível.

 

Meio que me senti na obrigação de ressaltar algumas passagens, então, vamos lá.

 

 

Quando uma mulher diz não, não significa que o jogo acabou. Significa que apenas começou. E meu programa vai ensiná-los a atravessar a resistência artificial da mulher e levá-la ao desejado estado de consentimento.

 

Na mente do homem: a mulher se faz de difícil e precisa sempre de um empurrãozinho para um “não” virar um “sim”. Porque no fundo elas estão super a fim e jamais negariam a piroca de ouro.

 

A real: tal suposição do comportamento feminino acarretou no estupro de Nicole e de Denise. Em algum momento, elas “usaram” a “resistência artificial”. Então, vamos para as drogas. Errado, errado, errado. Não é apenas não, ou seja, um convite para você, homem, vazar das nossas vistas.

 

Qualquer homem é capaz de ter qualquer mulher, a qualquer momento. Só precisa saber jogar.

 

A real: Nicole e Denise foram visadas como triunfos. Objetos e fontes de poder. Não sexual, mas de confirmação quanto ao modo de operação dissipado por Goldwin. Elas são a prova de que essa resistência artificial não existe – porque quando se é negado, basta drogar para garantir o sucesso.

 

Aviso: homens joguem no Google o significado de “não”. Juro que será revelador.

 

Como pode saber se uma mulher está apenas fingindo resistir?

 

“Como é bom ser homem”: Goldwin foi preso por acusação de estupro e foi liberado. O que rolou? Indiretamente, o fortalecimento da ideia de que mulher é mentirosa e que tudo que ocorre com ela é por conta e risco. Ou porque merece. Afinal, não custa nada parar de fingir que resiste.

 

A real: muitas mulheres não denunciam o estupro e o abuso justamente porque acreditam que serão tachadas de mentirosas. O sistema em si as tratam com ceticismo, o que chega a acarretar a desistência do reporte. Nisso, eles saem imunes e elas ficam presas em seus casulos.

 

Ela ficando bêbada em barzinhos. Que tipo de mãe se coloca nessa posição?

 

A mente do homem: se Nicole estivesse em casa, cuidando da filha, comendo pizza com Burgess, nada disso teria acontecido. As mulheres precisam aprender que seu lugar é em casa, especialmente para que nada de ruim aconteça. Que adoráveis os ômi.

 

A real: as mulheres não têm que educar a imbecilidade masculina e nem se poupar para que o homem se contenha. O homem tem que se conter e acabou. É exaustivo, nesse quesito, ter que explicar ao homem que a culpa é dele e não da mulher. Essa de “eles só fazem porque são provocados” e “eles não conseguem controlar seus instintos animais” não dá razão ao estupro. E é lorota! O que uma mulher espera ao beber por aí? Ressaca, colega!

 

Disseram que eu devia ultrapassar a resistência.

 

Esse quote vale para o site, o antro de conquistas masculinas e reportes de possíveis estupros. Possíveis porque nada se confirmou no episódio, mas serviu de respaldo para a mentalidade masculina de tratar mulher como objeto de poder.

 

Harry, o carinha que investiu em Nicole e em Denise, tinha leque de autoconfiança. Por não confiar na própria piroca de ouro, Goldwin se saiu como a representação de um alfa que sabe o que diz. E por saber o que diz, seus pupilos não poderiam decepcioná-lo. A panelinha masculina que acha que pode tudo mesmo, corretíssimo, só que ao contrário. Esse é um exemplo de dude que alimenta que toda mulher é meta, é objeto, é número a ser conquistado. Alguém avisa que não é?

 

Ela queria o que, exatamente? Queria ser sequestrada? Queria ter sido drogada sem ter conhecimento? O que ela queria era fugir de você, tão desesperadamente, que morreu. Resposta: Era para ser apenas diversão.

 

Acorda pra vida: mulher não pede para ser estuprada. De acordo com o posicionamento do marido, Nicole mereceu o que lhe ocorreu. O mesmo para os estupradores que trataram tudo como um maldito circo. Afinal, mulher fora da cama depois das 22hrs busca estupro. Não!

 

Fato: estupro é outra manifestação do patriarcado e os homens são os maiores agressores.

 

O tapa: a palestra de Goldwin. A sala cheia de homens aprendendo, nas entrelinhas, a estuprar. Os alunos eram estimulados a usar qualquer meio para quebrar a dita resistência feminina.

 

A dor: para alguns homens, o “não” abre margem para uso da força, ameaças e/ou atitudes que “driblem” o consentimento, como drogas. O homem obtém o ato sexual sem a vontade da vítima e isso não é normal. É crime! Só que é ainda normalizado/banalizado porque mulher que se expõe de tal maneira está procurando. Ela está procurando mesmo: ter um bom momento. Quando ela disser não, deixe-a em paz, grata.

 

A cultura do estupro: a mulher ainda é tratada como objeto porque há essa ideia masculina predatória de que é direito dele tê-la, como os culpados pelo crime contra Nicole e Denise disseram. A ideia de ser só por diversão se saiu várias vezes como desculpa desses caras que tinham tudo matutado, como o horripilante quarto de balões. Eles e os outros queriam mostrar que podiam, queriam provar a mesma tese aprendida naquelas malditas palestras, e assim alimentar que é sim possível quebrar essa resistência que, hipoteticamente, não existe.

 

A verdade: não é não e fim. Se uma mulher diz não, repito, se retire e vá beber com seus trutas.

 

Homens… Fomos feitos para conquistar mulheres. É o nosso instinto animal. É assim que nossa espécie perdura.

 

O argumento final que reafirma que o machismo e tudo que se perpetua por intermédio dele ainda não morreu. Nem quando dois estupradores saem de cena. Mulheres continuam a ser estupradas e culpabilizadas por serem mulheres. Não interessa quantos homens são incriminados e presos.

 

Concluindo

 

Resenha Chicago P.D. - Burgess e Erin

 

O que eu achei? Creio que esse foi o melhor episódio da temporada se considerarmos tudo. Impacto e deslizes porque não dá para exigir mais nada desse ano de CPD. Tiveram propósito, algo não sentido em vários outros dessa season. Não nego que foi bom, mas podiam alcançar um ótimo se Burgess e Lindsay fossem mais vocais. Principalmente Burgess porque essa trama era para ela – e acabou não sendo. Fato é que esse não superou o 1×11, onde a saga de undercover da personagem começou (épico!!). No mais, os aplausos vão para a construção do roteiro. Uma joinha!

 

O roteiro trouxe um aspecto pertinente quanto ao comportamento masculino. Uma situação que torna, infelizmente, o estupro possível. De quebra, investiram forte no ciclo de machismo que imbui que homem de verdade é aquele que “pega” a mulher que quiser. Uma empreitada um tanto arriscada para uma Chicago P.D. que empurra o machismo em vários momentos, mas encontraram uma ponte de salvação no cidadão que enaltecia os ditos fracassados para torná-los as pirocas de ouro da cidade. Um frame que mostrou o quanto as mulheres são sinônimos de poder.

 

E é fato que segurei bastante do meu linguajar e peço desculpas pelo piroca.

 

O roteiro tratou esse viés cruamente e foi até que muito bom não terem aprofundado o estupro, especialmente porque seria repetitivo. Encontraram um bom território para entregar uma trama visceral. Foi basicamente contornar o terreno e bater na porta dos fundos. Teve seus deslizes, mas o impacto se deu com sucesso. Ainda estou com o episódio na cabeça. Firme na crise existencial.

 

Homens e mulheres… Perduramos, pois nos importamos uns com os outros. Precisamos uns dos outros.

 

Abre-se alas para outros aspectos negativos do episódio, tais como Voight e seu textão verbal. Ele é um personagem maravilhoso e o Voight’s way melhor ainda, mas aí estava uma chance de ficar calado. Inclusive, a chance de dar o desfecho para as mulheres que não brilharam em uma trama que afeta… A mulher. Ótimo trazer a mentalidade masculina, gostei bastante, mas, de novo, a série perde chance de mandar uma mensagem. E uma mensagem em uma situação dessas era mais do que necessária. Embora há a certeza de que esse ciclo infelizmente não terá fim enquanto o machismo existir entre nós, quem mais precisava de ajuda ganhou uma flanela. O tom dado a um futuro depois de tal trauma não me fez feliz. Afinal, não se trata apenas de ter medo de sair na rua.

 

Há mais, muito mais a se dizer depois de um trauma desses e a saideira de Kim só tornou a resolução simples e sem impacto. Por isso que digo que faltou presença feminina. Elas quem deveriam ter encerrado o episódio, ponto final. Foi ótimo ver Burgess e Lindsay disfarçadas, mas ambas só contaram com 10 minutos de destaque. Faltou demais uma palavrinha chamada sororidade. Erin, que sempre ganha uns discursos potentes, não disse nada de eficiente. Ambas só ficaram centralizadas nos caras, um tanto injusto para a condição de Nicole.

 

Amo Voight com todas as minhas forças. A ação dele em apavorar Goldwin foi extremamente válida por ser da caracterização do personagem. Contudo, ele roubou um tempo que deveria ter sido dado para um sistema de suporte com foco em Nicole. Ela sobreviveu, uma raridade para essa série, e muito mais poderia ser dito. Muito mais poderia ter sido cutucado na condição de vítima.

 

Foi um episódio de homens caçando homens, o que não achei tão problemático. A última coisa que queria era foco total no estupro, mas há algo em mim que ainda arde. Daí, volto no “nem todos os homens”. Inclusive, de que a franquia é comandada por homens e assim os homens precisam ser enaltecidos. Patriarcado existe, machismo também, e se Al foi sexista por um dia, quem me garante que o restante não se enquadra no mesmo perfil? Por isso que disse que faltou conversa do bem entre os homens da UI. Exausta de pregar perfeição quando o ser humano é imperfeito.

 

Com o foco masculino, o episódio foi robotizado e só ganhou vida com a morte de Denise. Algo irônico a se dizer, mas, enquanto caçavam homens, não havia emoção à vista. Só foi a moça surgir que o teto de vidro ruiu. Vale dizer que o caso investigativo se manteve dentro do tema. Foi ótimo, especialmente por contar com o apoio dos diálogos. Montaram razões eficazes e reais. Foi ousado mostrar todo o esquema da dupla acusada, que rendeu uma cena incrível para Burgess e Lindsay. A cena do quarto de balões foi a mais forte, sem dúvidas. Quando o trinco é passado na porta, perdi toda a vida porque Kim fez a burra e Erin poderia tomar uma na cara. Sou fraca!

 

O episódio me fez lembrar do honrável 1×11, o pico da carreira de Kim em CPD e a firmação de que a garota tinha talento para ser imprudente. Talento reconhecido por Voight essa semana e me restou dizer mentalmente que eu sabia desde o início que a moça sambava. Não a apadrinhei à toa.

 

O roteiro foi esperto em fugir do que seria mais uma trama SVU, não nego. Digo que foi até um desafio visto que os roteiristas das Chicagos e seus produtores ainda possuem uma visão estreita regada de machismo que tem se espalhado. É muito bacana trazer esses temas, mas fiquei na corda bamba. A franquia é um desserviço ao papel feminino em vários âmbitos. Por isso, meus elogios se encerram por aqui porque as insatisfações com CPD são maiores que esse episódio.

 

Notinha: Mas Burgess tão maravilhosa socando aquele cara… Os personagens estavam bem em cena. Distribuíram bem a investigação. E Platt! Ah, Platt! Vamos ser amigas?

 

Para refletir (Notas tiradas do Think Olga)

 

“Além disso, existe uma rejeição da ideia de ser vítima. Ninguém que tenha sofrido um estupro quer ser definida somente por este fato, nem quer a pena da sociedade. O patriarcado valoriza também as emoções socialmente caracterizadas como masculinas: a força, a ausência de sentimentos, a capacidade de superar obstáculos. Após sofrer uma violência, muitas vítimas entram em negação, tentam continuar suas vidas normalmente, como se nada tivesse acontecido – tanto pelo silenciamento externo, quanto por um que começa dentro de si, por essa noção de que sofrer e chorar, ainda que coisas ruins tenham acontecido, são coisa “de mulherzinha”, sinais de fraqueza.”

 

“Entretanto, o fato de as mulheres serem as principais vítimas de estupro também joga sobre elas as consequências dessa violência, que envolvem também prejuízos financeiros e atrasos na sua trajetória profissional e de vida. Ainda que esse não seja o principal aspecto com que devemos nos preocupar, não devemos diminuir a importância desse impacto no desenvolvimento das mulheres em busca da equidade de gênero. Não chegaremos lá enquanto formos vistas como presas por agressores majoritariamente do sexo masculino.”

 

E segue mais link aqui.

 

A única coisa que queria ouvir nesse episódio é: não é sua culpa. Não queria ouvir de Burgess que os caras foram capturados e que não machucarão mais ninguém. Até que essa mentalidade masculina mude, haverá uma leva de outros caras que continuarão a fazer a mesma coisa.

 

Enfim, seguimos em frente desejando que isso não ocorra com nenhuma de nós. E se caso acontecer, que sejamos fortes também por elas para dar suporte e direcionamento. Que elas entendam que sua roupa, seu drinque, seu desejo por festas, etc. não são acenos para estupro. E que denunciar é preciso sim.

 

PS: eu sei que homens também são vítimas de estupro e abuso sexual, mas não entrei nesse norte porque o episódio centralizou duas mulheres.

Stefs
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