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15/abr

Não, não me esqueci desse especial de Natal de Doctor Who. Nem muito menos abandonarei as resenhas da seriezinha (que volta sábado, amém!). Mas por que atrasou, Stefs? Explico.

 

Desde que ingressei no universo Who, os especiais de Natal me fazem passar mal. Por mais fracos que possam ser. Por serem lançados fielmente em todo final de ano, meu fim de 2016 não estava (e nem foi) dos melhores. Considerando que esse tipo de episódio de Doctor Who me move de um jeito estranho, me faz pensar e chorar demais ao ponto de dar um review na minha vida, resolvi empurrar a experiência para quando estivesse um bocado melhor.

 

Na época da exibição, não estava no dito juízo normal e nem com o emocional excelente para revisitar o 12º e saber o que o mesmo aprontaria. Estava com medo do que a experiência poderia engatilhar porque minha vida estava um caos completo. Em âmbito geral, de A a Z. Mas nossa? Sim, nossa, porque sou uma pessoa que se envolve com ficção. Sou aquela que busca sentido e sentido não existia ao meu redor em fins do ano passado. Agora, volto lentamente aos trilhos.

 

Apesar do emocional bagunçado em fins de 2016, em 2017 escolhi ser um tanto mais intencional. O que isso quer dizer? Usarei das emoções passadas como aprendizado e deixarei as emoções e os insights novos me nortearem. Falarem um pouco mais por mim (o que tem dado certo até o presente momento). Não que seja a pessoa mais racional da vila porque não sou. Eu realmente trabalho com instintos e com emoções, mas não quer dizer que abandonarei o planejamento. Afinal, ainda sou a pessoa que necessita de cinquenta tabelas do Excel para ter um tipo de organização e norte.

 

Apenas, desafoguei da ideia de ter tudo mais planejado que o normal para que meu coração falasse mais alto. Com a reafirmação de que sou um ser humano introvertido, houve mais respaldo para fazer desse meu ano mais intuitivo e foi um tanto engraçado decidir ver esse especial no dia 04.04.2017. O que tinha lá? Um cristal intuitivo. Se eu gritei? Gritei!

 

Não menos importante que isso: havia uma história de super-herói. Uma história leve em comparação ao Natal passado de Doctor Who e me senti deveras grata. Inclusive, um tanto surpresa porque esperei mesmo um descarregar emocional. A trama saiu do turbilhão de emoções típicas da festividade para propiciar um celebrar divertido. Alegre, mas sem deixar de ser relacionável.

 

Perguntei-me se teria recebido bem esse episódio em fins do ano passado. Fica o questionamento.

 

Resenha Doctor WHo - HQ

 

Por estar tão pronta para dar de cara com algo intrincado e profundo, passei um bom momento me perguntando aonde estava o coração desse episódio. Ri demais, me diverti à beça, mas aonde estavam as lágrimas e a pausa dramática? Todas as minhas expectativas, muito bem plantadas e floreadas em reflexo dos Doutores anteriores, não foram atendidas e fiquei ué. Não me vi emocional ao ponto de fazer um review da minha vida. Contudo, o que vi nessa trama foi o intento de resgate do seu ser uma vez que determinadas perdas e determinadas condições de vida podem tomar tudo de você.

 

Palavras que me serviram de muleta para acompanhar esse especial, centralizado em meio ao caos de novos alienígenas querendo tomar a Terra. Além disso, brindado com o mimicar da história do Super-Homem. Depois de 24 anos que rimam com a perda de River Song, o que restou foi o retorno às origens. E retornar às origens nem sempre é uma tarefa fácil, mas o 12º tirou de letra.

 

Todo super-herói tem sua história de origem e esse episódio narrou e moldou o quanto pôde a de Grant (e fez o mesmo com a do Doctor, mas mais indiretamente). Uma criança adorável e viciada em quadrinhos que acaba por engolir um cristal intuitivo ao achar que era remédio. Um elemento capaz de tornar realidade o que uma pessoa deseja de coração. Belo presente de Natal, que não era presente de Natal, de um Papai Noel, que não era Papai Noel.

 

Sem querer, o 12º fez o sonho íntimo e puro de Grant se tornar realidade. Sonho esse escancarado em cada pôster pendurado na parede do menino. Uma empreitada que representou o ideário americano de super-heróis e que confrontou/rebateu o modo de operação escocês e alienígena de proteger o planeta Terra.

 

O imaginário infantil perdeu esse aspecto quando a história se abriu em NY. Lugar que serviu de palco para um avanço no tempo que não mostrou um pequeno Grant, mas um homem Grant que passava pelo dilema de todo super-herói, ou seja, manter sua identidade. Da figura de babá ele migrava para o papel de herói e vice-versa. Só que havia outro herói a tiracolo que, male, male, se saiu como seu mentor. Codinome Doctor Mysterio, um escocês inventor dos Doctors, o original.

 

O pequeno Grant foi a primeira pessoa que o Time Lord encontrou depois de 24 anos e, com isso, nada como garantir algo marcante. E foi à sua maneira porque se tratou de uma experiência para recobrar o heroísmo, o prazer da vida e o senso de servir. Quem sabe, o prazer de estar entre os humanos, já que o 12º seguiu firme sendo o mais alienígena que conseguiu ser para proteger a famigerada Terra. E eu amei dolorosamente.

 

Grant passou por todos os impactos de ter engolido o cristal intuitivo, como a visão raio-X. De quebra, rendeu um paralelo com a história do Doctor, funcionando como uma indireta de se recobrar o propósito. O herói de NY não atendeu a promessa de não usar seus poderes e o Time Lord se recusou a não se envolver com os terráqueos. Quebra de regras que lhes deram uma razão de vida. Um tipo de importar essencialmente humano que os reuniu no futuro para lutar contra um mal comum. O que veio no transcorrer dessa aventura foi muita trapalhada e muitas risadas. Achei até bizarro não ter muita lição de moral, mas seguimos.

 

Estava no destino desses personagens representar um tipo de heroísmo. Fato que torna impossível aceitar uma vida, digamos, mundana. O que os diferencia, em tese, foi a forma de como cuidar da humanidade. Ambos fizeram isso o quanto e do jeito que podiam. Um do jeito clichê de super-herói e o outro com uma excentricidade ambulante. Um combate que acarretou na interrupção do plano alien de dominar líderes e recolonizar a Terra. E que cérebros nojentos, ugh, pela Deusa!

 

Resenha Doctor Who - Grant

 

Mesmo que não fosse intencional, o 12º precisava dessa rotina heroíca de Grant, toda confusa e conturbada, para ver sob uma ótica diferente de que aquele também é seu trabalho. Afinal, há inimigos de vários outros planetas, de várias outras galáxias e afins, que precisam ser combatidos. Haverá sempre a luta para quem dá um passo à frente e assume essa posição, e o amor e a vitória são brindes. Brindes que não protegem o fato de que a perda é inevitável. Como ocorreu com River.

 

O Time Lord precisava de uma nova regeneração, mas interior. Algo que o personagem tentou disfarçar, mas se viu eclodindo de dentro para fora ao ser inserido em uma saga de super-herói que combinou bastante com sua personalidade. Alienígena e desordenada.

 

Daí, volto na minha indagação sobre o coração dessa história. Enquanto Grant e o 12º lutavam por uma noite feliz, foi fácil esquecer que esse Doctor tem um racional e um emocional muito mais alien que humano. Embora a memória do Eleventh esteja distante, parte de mim ainda é habituada a histórias com grande descarga emocional. Porém, esse é o Twelfth. O Time Lord que cumpriu a trama do seu jeito Doctorish, com muita ciência e pouco contato com serumaninhos.

 

Pouco contato humano um tanto discrepante porque o 12º teve várias trocas interessantes nesse especial. Como segurar um bebê e isso foi adorável. Para ele, tudo muito bizarro e aparentemente desimportante. Só aparentemente porque é uma conexão que ainda o confunde e que abre brecha para o deboche. Porém, o personagem estava muito aberto nesse especial, o que pode ser visto como um preparo do que vem aí na próxima temporada.

 

Havia sim coração na trama. Um não, mas dois corações de um Time Lord pé no chão. Tratou-se de uma trama de escapismo da dor com direito ao sarcasmo típico dessa caracterização do Doctor. Assim como Eleven se refugiava em ambientações mais infantis, para ser a própria criança em cena, esse aqui é mais científico. Sua maneira de lidar com a dor não é tão palpável porque não há uma entrega emocional. Ele é razão, embora tenha sido possível capturar o desfarelar de um luto por River.

 

Resenha Doctor Who - Doctor

 

Mas, com essa enorme jornada, é fato que o 12º não está mais tão preso dentro de si. Ele só se mostra sensível a quem tem um elo de confiança, como Clara. Como a própria River. Ao contrário do Eleventh que contaria até da morte da bezerra, o Twelfth abraça a negação e segue o bonde. Nem Nardole, um companheiro formidável e uma baita ponte ao especial de Natal anterior, conseguiu um tipo de resposta ao retorno do fato doloroso de que o Time Lord tem medo de ficar sozinho – e que nos faz voltar ao “sou um homem mau” já que as memórias cruéis o atordoaram em cheio ao longo dos anos passados.

 

Ser herói, por vezes, é ser solitário. Grant teve uma vida solitária como herói, mas quando voltava a ser só Grant, lá estava Lucy, seu amorzinho e seu elo com a humanidade. O Doctor não tem esse elo até uma nova companion entrar e o acompanhamos sozinho dessa vez. Com as mesmas aflições.

 

Geralmente, heróis do cotidiano tomam partido de quem precisa ser vocalizado. Atitude que não pede um squad de dez pessoas, pois, em vários casos, ser uma influência positiva na vida de outra pessoa basta. Insight que embasou as conversas entre a criança Grant e o 12º. Embora o Doctor não quisesse que o crescido Grant usasse seus poderes, ele sabia que seria impossível controlá-lo. Mesmo sem querer, o cristal intuitivo deu uma vocação. Como a ação do Time Lord em furtar a TARDIS.

 

Ambos se encontraram e se tornaram iguais. Com os mesmos dilemas, mesmas decisões e mesma solidão. Deixaram a mensagem de que podemos sim ser um pouco mais, basta quebrarmos a zona de conforto. Não menos importante, que podemos fazer da jornada um meio de regeneração.

 

Concluindo

 

Resenha Doctor Who - Doctor

 

O herói americano com o mentor escocês. Um Natal que emendou sabiamente o último, marcado pela despedida de River Song. Para suprimir essa perda, nada como novas aventuras a fim de uma regeneração emocional e resgatar o que é ser herói e quais são seus objetivos. Não foi emocionante para um típico especial whovian, mas sim uma folga. Aquele resfolegar necessário para se voltar à superfície e seguir a jornada. Seguir em frente mesmo em dias bons e ruins.

 

Para quem perdeu alguém tão querido, era esperado uma dose de péssimo humor. De sarcasmo fortíssimo. Ainda mais quando se soma o ocorrido com Clara. Houve um pincelar de cada nuance, mas sem se esquecer de explorar o dito lado sensível dessa versão de Time Lord que jura ainda ser o maior adepto da poker face e do cold shoulder. Penso que esse especial foi um aquecimento, não apenas por ser um novo arco de regeneração completa, mas de ter os dois corações partidos de novo.

 

E, talvez, mais bruscamente.

 

Foi admirável ver o 12º mais disposto a entender a rotina humana. No caso, a de Grant. Como ele conseguia dar conta dos dois papéis e as expressões do Capaldi sempre impagáveis (o sorriso aterrorizador, berro!). A trama deixou esse ser misterioso mais transparente do que ele gostaria, a prova de que não adianta relutar porque o envolvimento com os humanos uma hora vem e fica forte. Bastou vê-lo se gabar sobre ser o herói dos heróis no quesito salvar a Terra. Quero protegê-lo!

 

Embora não tenha tido “muito coração”, houve a cutucada na ferida: tudo acaba. Mas é sempre triste. Mas tudo começa de novo e isso é sempre divertido. Sejam felizes.

 

E foi divertido pra caramba!

Stefs
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