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02/maio

Doctor Who, Tâmisa, Última Feira de Inverno, 4 de fevereiro de 1814.

 

O que fazer no passado? Aproveitá-lo!

 

Se essas duas crianças aproveitaram? Demais da conta!

 

Confesso que estava empolgadíssima para ver esse episódio justamente por ser de época. O que se torna algo suspeito para dizer, pois tudo que tenho visto sobre essa temporada de Doctor Who tem me deixado cheia de expectativas. Fazia muito tempo que a série não metia uns cosplays que remetessem a alguma linha do tempo anterior britânica e estou aqui sorrindo que nem uma tolinha. Uma aventura decidida pela bad girl TARDIS que só seria possível com o casar de humores entre tutor e pupila. Uma linha que nasceu no 10×02 e que seguiu firme nesse aqui.

 

O que isso quer dizer? Não sei, mas o episódio deu margem para pensar, além de muitas coisas, sobre a questão de humores. Questionamento levantado na semana passada e que segue fluido entre Bill e o 12º. Ao contrário da faceta rabugenta dessa versão do Time Lord, lá estava a faceta pimposa, e que tem brilhado muito, na companhia de Potts. Duas crianças adoráveis que discutiram várias coisas pertinentes ao longo dessa história que questionou o valor do ser humano.

 

No literal, o episódio foi sobre quebrar mais o gelo entre Bill e o 12º. Nada como o passado para dar um choque térmico nessa relação e isso foi acarretado com sucesso. Há duas semanas, tudo estava lindo, mas agora o dark side desse trabalho veio à tona. Nada como uma decisão difícil: deixar que humanos ditos sem valor continuassem a ser devorados por uma criatura ou libertar a criatura que os devoravam para parar de devorar geral – sendo redundante. Um confronto que trouxe uma trama de moral, a começar pela conversa sobre o que uma viagem pode acarretar no futuro.

 

Bill já havia transitado pelo futuro e lá viu que a humanidade não evoluiu tanto assim. Agora, ela acompanhou o agridoce de um capítulo anterior que não mostrou nem um pingo de piedade. Uma situação que, acima de tudo, foi feita para testar seu bonding com o 12º.  A companion chegou em um dos pontos críticos sobre confiar cegamente no Doctor e isso não saiu nem um pouco barato.

 

O episódio deu brecha para um comentário quase despercebido do 10×02: a habilidade de romantizar o Doctor pelo papel que exerce na humanidade. Bill chegou muito perto disso, afinal, quem não chegaria a conclusão fantástica de um herói protegendo a Terra? O 12º mostrou no nu e no cru que não é o ursão preferido da prateleira e lançou a real várias vezes sem se preocupar com as chances de partir o coração da companion. Foi aquele instante de vai ou racha. E rachou.

 

Resenha Doctor Who - Bill e Doctor

 

Rachou para o bem porque sinceridade é tudo nessa vida.

 

O pontapé para o passado me fez esperar a lição de não faça nada porque a história não pode ser reescrita, mas morrer se tornou o cerne e acompanhamos a primeira treta da dupla. Bill mostrou sua vulnerabilidade ao testemunhar a primeira morte da sua vida – e chegou a testemunhar uma segunda. Ela tinha o direito de indagar o comportamento do seu tutor, que apenas lamentou o ocorrido e seguiu em frente. A explicação? Não há tempo de se indignar e ainda estou um tanto reflexiva sobre isso.

 

Afinal, me vejo muito nessa saia justa quando leio bad news na internet e faço o possível para não chegar a um nível de indignação altíssimo. Com perdas não tenho tanta propriedade, mas, considerando a ficção, o contra-argumento fez sentido para o 12º. Ele vive por segundo e perder esses segundos podem acarretar em perdas ainda maiores.

 

O que destaca um dos aprendizados dessa semana de Doctor Who (e difícil de engolir): o mundo continua girando com cada perda e precisamos seguir em frente. Além disso, tentar fazer alguma coisa para impedir mais coisas ruins. Mas como fazer isso se algo em tal instante não foi superado?

 

De um ângulo isso soou um tanto frio e o 12º voltou a dar aquele choque cardíaco. Depois de refletir um pouco, suas palavras fizeram um pouco de sentido. Isso, considerando o trabalho dele. A companion não tem a mesma visão de vida e de experiências do Doctor e se preocupar um tanto mais com uma chave de fenda sônica foi o cúmulo. Proposital ou não, a cena do menininho sendo engolido e o Time Lord ali no gelo só focado em salvar seu bem precioso moveu um inferninho.

 

A cena dela cobrando o Doctor foi a melhor do episódio junto com a dele lendo para as crianças. A emoção de Bill era tangível, bem como sua indignação. Não menos importante, houve o destaque do quanto a personagem realmente não deixa escapar nada e questiona na hora. Não havia receio em sua voz, só decisão de saber a verdade. De quebra, ainda jogou mais verdades na face do Doctor sem pestanejar. Enquanto algumas companions protelavam nesse quesito, a moça não perde chance. Adoro!

 

Essa companion me aparece cada vez mais rica em personalidade e está dando tão certo com o 12º. Dá vontade de mandar um e-mail para o Capaldi não deixar a série. Afinal, a personalidade de um afeta o outro, e ver Bill com outra versão do Time Lord já me deixa muito triste em meu canto.

 

Daí, entramos na singela pincelada sobre humores temporários. Você tem o direito de ficar zangada com o 12º por ele ter agido, aparentemente, na frieza. Mas, naufragar nisso é igual a uma dita perda de tempo. Foi o que o personagem tentou vender e ficar contra ele se tornou impossível ao ouvi-lo dizer que alienígena tem lá seu leque de humanidade. Comentário que calhou perfeitamente com essa versão do Doctor. E, tem mais, um fato ruim pode encontrar sua recompensação no fim da jornada. Algo provado quando esse senhor mudou o testamento que beneficiou aquelas crianças.

 

Embora tivesse pincelado vários assuntos que ajudaram a mover a trama e estreitar mais a relação desses personagens, o que tocou mesmo na ferida foi a descoberta do que mantinha a criatura presa embaixo do lago congelado. O discurso do 12º tremeu várias estribeiras emocionais. De fato, como você trata o ser humano define uma era. Não menos importante, define quem você é.

 

Foi sensacional colocarem Bill em uma época em que o racismo era latente. Por um segundo, fiquei preocupada porque tudo pode acontecer em Doctor Who. Porém, usaram dessa liga para criar um curto debate sobre o valor humano e que deu seu jeito em rebater até na questão de whitewashing. A companion sofreu preconceito na cara lavada e a reação do 12º teria sido muito a minha. Você, mulher do roteiro, merece todos os prêmios e os aplausos. Espero que mantenham essas cutucadas, especialmente porque rebate no upgrade dos diálogos da série – e que comentei na semana passada.

 

O racismo foi a ponte para se pensar no papel da criatura mantida presa embaixo de um Tâmisa congelado. Presa pela ganância humana de um homem que definia quem tinha ou não valor. Aqueles que não tinham privilégio que, automaticamente, ninguém sentiria falta, representaram o nicho de vítimas perfeitas e Bill poderia ter sido essa vítima porque foi mensurada pela sua cor.

 

Resenha Doctor Who - Bill e Doctor

 

Como tratar o ser humano foi a grande questão dessa aventura. Além do fator morte, Bill teve que combater as diferenças de um passado que não lhe era receptivo. Era uma sociedade preconceituosa e rica, que só beneficiava quem se encontrava no mesmo patamar. Sem dúvidas, foi um episódio para a companion e somente para a companion. A personagem tinha que passar por isso, essa dificuldade de escolha, e que bom que tenha sido cedo.

 

Embora tenha parecido um capítulo romântico e alienígena da Regência Britânica, 12º e Bill estavam diante de um vilão que tratava a pessoa como moeda. Aquele tipo que só pensa em lucro e o lucro foi abatido na sabotagem do testamento. Crianças marginalizadas e vítimas fáceis ganharam voz, o que serviu de dita recompensa pelas perdas anteriores. Um encerramento formidável que rebateu na questão de fazer a diferença. Bill queria saber se havia como impactar no passado ao ponto de alterar o futuro e isso rolou com sucesso. Ao menos, na libertação da criatura, outro ponto que ressaltou a questão de tratamento.

 

Os dois últimos episódios trataram o comportamento humano e como devemos tratar um ao outro. O 12º abraçou essa de que era frio e que não se importava com a humanidade, mas se abriu como um porta-voz que age sob o comando de quem chamou de boss. E foi lindo, uma baita lição.

 

Meramente porque é a questão do impacto. Um impacto negativo gerará coisas negativas. Bill ganhou seu final feliz graças ao seu impacto positivo e genuíno. Tinha o risco, mas a criatura que também sofria e que estava sendo maltratada quebrou o gelo.

 

E o que dizer do 12º? Ele se divertiu à beça e ri demais da obsessão dele pelo truque da moeda. Esse senhor aproveitou demais, mesmo que não queira admitir, com direito a trocar de roupa, ser o tutor de Bill e das crianças abandonadas. Mesmo sem querer, lá foi o personagem ganhar mais uma aula gratuita de compaixão e dar a lição de empatia. Mesmo que tenha o peso da morte ao seu redor e de tê-la testemunhado por 2 mil anos, o que se faz agora é o que relativamente interessa.

 

É o que muda o norte da história se, possível, por toda eternidade. Basta a iniciativa e o gesto.

 

Concluindo

 

Resenha Doctor Who - Bill

 

Amo esses episódios cheio de valores de Doctor Who, real e verídico. Foi incrível e o final então com o chá de Nardole nem se fala.

 

Bill experimentou que, apesar da raiva, a vida segue e é possível exercer uma diferença. Além disso, a personagem aprendeu uma das mais duras lições ao ser companion do Time Lord: confiar no cidadão. Apesar do choque e da tristeza de ver o garotinho ser engolido, foi preciso virar a página rápido. E isso começará a fazer uma baita diferença porque nem sempre o final é feliz ou justo.

 

A companion mostrou que gosta de alegria e de impacto. Quero nem ver quando chegar a leva da tristeza porque é quando o 12º tem a inclinação de expor seu dark side com mais propriedade.

 

Acompanhamos um arco de três episódios que serviram para introduzir a companion e para estreitar essa relação. Depois de passar pela magia da curiosidade sobre quem seria esse senhor, sobre as artimanhas entre o tempo e o espaço, sobre os lugares que podem ser visitados e mais outra penca de detalhes indagados pela companion, se abriu o instante de conflito de interesses. E do fim da romantização. A partir do momento que o Time Lord “se importa” mais com sua chave sônica, diante de uma criança que foi engolida gelo abaixo, precisamos conversar sobre isso.

 

Cada escolha traz uma mudança e esse episódio ensinou inteiramente. Uma grande decisão rebate nos nossos arredores. Como um tipo de humor. Independente da origem, precisamos respeitar mais uns aos outros e sermos solidários. Não importa a quem.

 

Agora, alguém abre esse cofre (sendo o 12º por alguns segundos)?

Stefs
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