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31/out

Este texto é daquela saga: escrevi e esqueci! Pensei seriamente em deixá-lo para trás, mas, como verei a 5ª temporada de Bates Motel em algum ponto do futuro, não pude furar as postagens que fiz sobre cada ano dessa série. Uma série que já morreu e só tenho a lamentar aqui em meu escritório.

 

E lá vamos nós!

 

A 4ª temporada de Bates Motel me deixou completamente sem palavras. Que ano maravilhoso, pela Deusa! A verdade é que nunca tive muito do que reclamar dessa série porque o timing dela é 100% respeitado e centralizado no desenvolvimento de Norma e de Norman. Há as falhas em forma de plots em paralelo, como o pobre do Dylan, mas deixei de me incomodar com isso.

 

Da mesma forma que me senti, à época, grata pela S4 de Orphan Black, o mesmo se aplica a este respectivo ano de Bates Motel. Sinto-me (ainda) gratificada por terem respeitado, na medida do possível, o desenrolar de uma trama que sempre me intrigou. A história que a inspirou é um dos meus suspenses favoritos, sem dúvida, e penso que esta temporada veio unicamente para provar que nunca houve crise de storyline. O roteiro seguiu estreitinho, muito bem focado em cima do que Hitchcock deu vida lá na década de 60. Norma e Norman transitaram satisfatoriamente em um timing que culminou no auge dessa vivência: a morte dela e o fincar do transtorno dissociativo de identidade dele.

 

Bates Motel ganhou vida na proposta da mãe viva e sua influência na mudança drástica na personalidade de um jovem Norman Bates. Daí, os roteiristas preencheram as lacunas e brincaram com nosso imaginário. Além disso, deram uma enriquecida em um enredo que não existia. Era um arco vazio, o prelúdio que o livro não deu. Um desafio e tanto, principalmente devido às suposições do quão cruel seria a figura materna. Inclusive, do que motivaria sua morte.

 

Nessa rodada, as suposições ganharam imagens. Assim, Norman Bates foi centralizado como único efeito colateral. Sem amarras. Sem interesse em obedecer a mãe. Ele queria ser apenas ele, uma reivindicação perigosamente assinalada ao longo de 10 episódios. O que rendeu o ápice da sua transformação, ou seja, a mãe como figura mental predominante.

 

Além da mãe, Norman teve sua caraterização fortalecida, especialmente com os tiques oriundos de Psicose. Foi um desenvolvimento gradativo e necessário. Um desencadeamento lento em resposta ao fato de que ninguém desenvolve dupla personalidade de uma hora para a outra. Os escritores foram responsáveis nesse quesito e aproveitaram muito bem dos anos anteriores para pincelar uma mudança que é o cerne da história. Neste ano da série, o telespectador foi atacado sem dó e deixado com o agridoce de uma atitude que é cobrada lá na S5, a temporada final.

 

Sério! Vera e Freddie mereciam todos os méritos.

 

Quem também precisou de pico de lentidão foi o desenvolvimento entre mãe e filho. Na S4, o intento foi nos deixar na saia justa, sendo que, definitivamente, não dá para defender nem um e nem outro. Esta temporada nos desafiou a ter empatia por um dos lados ou por nenhum. Sendo bem honesta, eu fiquei na zona neutra porque não tem como defender. Não quando a premissa deste ano de Bates Motel é tão decisiva. Tão cheia de mais escolhas erradas que certas.

 

Bates Motel S4 - Norma e Norman

 

Este ano de Bates Motel estabeleceu Norma com direito a sua chance de ter uma vida saudável. Só que sem o filho. Já Norman foi afastado pela mãe para tratar seus cada vez mais intensos apagões, mas a sensação de descaso e a necessidade de estar ao lado da Sra. Bates começa a perturbá-lo. No meio, lá estavam os personagens secundários que serviram apenas para nos representar no processo. Afinal, tudo foi unicamente sobre choque. Choque diante dos comportamentos e das escolhas fora do normal dos protagonistas. Não foi fácil sentir solidariedade, confesso. Esse relacionamento atingiu o extremo do abuso emocional e doméstico.

 

Não há muito o que dizer sobre Norma, pois ela não teve seus traumas desenvolvidos e sanados. Infelizmente. Lançaram a personagem no tão esperado romance com Romero e que rendeu certa redenção. Além disso, o desconstruir da “maluca”. Soa maravilhoso, mas esta história não seria história sem aquela dose de egoísmo. Ao usufruir o lado bom da vida, vemos essa mulher mais leve devido à ausência da responsabilidade de ser mãe. De uma forma empurrada por se tratar, inicialmente, de um casamento arranjado, ela se redescobre. Finalmente, ela tem tempo para si e encontra, tardiamente, amor verdadeiro. Um sentimento que nada reflete os abusos que sofrera.

 

Norma conta com bons episódios de maré mansa até o retorno brusco de Norman. Figura que lança o vislumbre de que, pela milésima vez, a personagem está sendo uma péssima mãe. É aqui que começa essa roleta do certo e do errado. E todo mundo segue errado.

 

Norman tem mais desenvolvimento de storyline. Embora ausente de início do cerne familiar, sua presença foi reforçada a cada semana que passava. Internado, ele dava pungência à expectativa quanto ao seu retorno para o hotel. Queríamos ver como o personagem reagiria ao descobrir o que Norma andou fazendo e claro que foi nada bom. Nesta temporada, há o desfecho da evolução mental de menino Bates. Há o reconhecimento do que ele é capaz de fazer com suas dissociações. Um processo igualmente gradativo como toda a mitologia dessa história.

 

Lá na S1, Norman começa a captar seus problemas com o sexo e a sexualidade, enfrenta a dissociação que ocorre apenas com a voz da mãe e apresenta a inclinação por taxidermia. Na S2, a mãe começa a ganhar silhueta, ou seja, os relances visuais da mente do personagem ficam mais vívidos e rendem apagões curtos. Os apagões se tornam a grande pauta da S3, com direito a mais rastros de sangue, e a S4 veio como tapa final dessa transição. Um ano riquíssimo quanto às referências a quem Norman Bates se transformará em um futuro não muito secreto para quem já viu Psicose.

 

Foi sensacional acompanhar essa transição, verdade seja dita. Compensou todo o esforço.

 

Bates Motel S4 - Norman

 

A S4 entrega, temporariamente, um plano de contenção para cima de Norman que casa com umas “merecidas” férias para Norma. É uma intervenção para que o personagem receba um tratamento adequado aos seus apagões e obviamente que isso falha. Em contrapartida, nos deliciamos com essas sessões, pois Freddie nos esbofeteia com mais uma ducha escaldante de excelente atuação. Sigo arrasada porque o Emmy nunca ocorrerá na vida desse jovem em nome de Bates Motel.

 

As sessões foram o ponto alto da S4, com destaque ao instante em que o psicólogo finalmente percebe que há duas pessoas conflitando no mesmo corpo. Quando o profissional chama a mãe e bate um papo com ela, caí pra trás. Essas cenas arrepiaram e a mudança de Freddie, sempre tão natural, tão convincente, e tão comicamente perigosa, me faz perguntar de novo sobre aquele Emmy.

 

Finalmente, Norman entendeu que a manipulação é sua cartada e jogou sabiamente em vários momentos. Seu lado dark foi mesmo ao dar voz à mãe, mas nada disso usurpou sua insanidade que foi ver Norma contente sem ele. Seu transtorno de identidade segurou 10 episódios regados de referências à Psicose e que me faz afirmar que o preencher desse prelúdio respeitou o timing do adolescente. Conforme a terapia avança, vemos o quanto os desdobramentos dos anos anteriores o mudaram.

 

Não há mais desvio quanto ao poder da mãe porque, neste ano da série, ele ganha consciência definitiva do que ocorre. O personagem usa essa parte de si para justificar seus atos e conquista autonomia para fazer o que não faria em sã consciência – ou porque a mãe não deixou.

 

Se na S3 Norma ficou aterrorizada com os apagões do filho, na S4 a coisa toda muda de figura porque Norman vira o jogo a seu favor. Saído da clínica, o adolescente começa a ser autoritário e passa a comandar a rotina do hotel. Se fosse só isso, tudo bem, mas, em reflexo da raiva de ter ficado internado enquanto Norma curtia a vida, ele a inferniza sem dó. O clima fica denso, demasiadamente sombrio, e ela sente na pele mais uma onda de abuso. No caso, emocional e assinado pelo próprio filho.

 

Norman a deixa acuada pouco a pouco. Um castigo por tê-lo deixado para trás. Isso vai se intensificando, especialmente com a presença de Romero. Se a relação dos Bates já estava ruim, as coisas só pioram nesta temporada.

 

Aparentemente indefeso, a história desse personagem intentou lhe dar o compasso do seu próprio destino. Não menos importante, a usar o que começava a ganhar ervas daninhas em sua própria mente. A sua petulância encontrou o auge, bem como a infelicidade de ter que dividir uma mulher que vê como sua. As reações dele diante do casamento, de não querer mais o tratamento, de querer ditar regra dentro da própria casa firmaram a vilanidade desse jovem adulto que deu muito mais trabalho.

 

O oposto de Norma que teve momentos preciosos que rimaram com sua despedida. Desde que Bates Motel começou, me perguntei como é que dariam fim na mãe. Além disso, como Norman recuperaria/manteria o corpo no quartinho. Pensei em assassinato, mas não em uma tentativa de suicídio duplo. Meu coração se partiu em mil pedacinhos quando o adolescente abre os dutos de gás em um ritmo dramático que me fez não querer a morte da Sra. Bates. A reação de Romero também me deixou bem mal porque, por mais que esse seja meu OTP do coração, sondei um possível envolvimento dele nessa fatalidade. Bem… O envolvimento acabou sendo outro.

 

Ver Norma sendo refém do filho foi a reafirmação de que ele manda e que mandará daqui para frente. Norman roubou a trama pouco a pouco, sendo inofensivo e perigoso quando pertinente. No fim, ele foi o último homem que controlou a mãe, que aplicou o abuso emocional, e decidiu o fim não só dela, mas dos dois. Porque os dois foram feitos para ficar juntos. Sem chance para terceiros.

 

O tão esperado OTP

 

Bates Motel S4 - Normero

 

O papel de Romero poderia não ter significado nada ao longo da S4. Ele perde um pouco das suas funções e fica mais centrado como o marido de Norma. Porém, sua presença significou o cerne desta temporada. Os problemas de Norman pesam para o sexual e o policial se torna um de seus gatilhos. Acho que nem preciso entrar em detalhes sobre o motivo, né? Bastam visualizar o recalque do adolescente sobre quem passa a dividir a cama com sua preciosa mamãe.

 

Com Romero entre os Bates, ficou bem claro que a relação mãe e filho atingiu o além do tóxico. Do dependente. Assim, o mozão se tornou um empecilho difícil de tirar do caminho e Norman tomou seu próprio partido para deixar claro que ninguém pertence ao seu mundo. Que a figura materna é apenas sua. O que deu ao Xerife o posto de ponto de partida de uma tragédia doméstica.

 

Sou difícil de convencer quando o assunto é romance e aguardei animadamente para Normero engatar de vez. Quando Norma aparece para pedi-lo em casamento, no intuito de dar ao Norman o tratamento, não consegui mais pensar em outra maneira que os botariam juntos. Ambos vivem em mundos diferentes e Romero tinha lá seus problemas com os federais que contaram com uma conclusão tão unicamente desesperadora em meio à dor de perder a mulher que ama.

 

Os roteiristas deixaram o amor Normero bem bom de assistir. Leve e despretensioso. Lamentei muito quando a brincadeira começou a dar indícios do fim porque vemos uma faceta não explorada de Norma. Ela precisava se sentir amada. Mais importante: normal em seu meio. Apesar de ter começado com uma intenção que parecia de boa índole, a personagem gostou da sua liberdade. O tenso é que, aos poucos, a mulher foi deixando o filho de lado e nem sei opinar sobre isso.

 

Antes de partir, os roteiristas deram a Norma a chance de realmente perceber que, depois de tantos abusos, há chance de recomeço. De se amar e de ser amada. Esta foi a temporada em que ela não hesitou em se abrir para o novo e agarrou a oportunidade. Foi fantástico vê-la não saber lidar com tudo que Romero passou a lhe proporcionar. Não apenas romanticamente, como também no companheirismo. A personagem ainda carregava as cicatrizes do que viveu para todos os lados e há uma cena nessa temporada bem arrasadora. Marcas que se intensificam tão quanto o medo de ser machucada a qualquer momento. Não por quem via como marido, mas pelo filho.

 

Foram bons episódios de puro romance até o retorno de Norman. Aquele gosto de férias de verão que culminou em um fim que me deixou arrasada.

 

Outros comentários

 

Bates Motel S4 - Dylan e Norma

 

Os problemas de Bates Motel, que não considero problemas de maneira alguma, é o fato de ter a história do Dylan. De novo, ele não contribuiu em absolutamente nada.

 

Porém, ele se saiu novamente como o apoio essencial do núcleo familiar disfuncional. O personagem dividia o peso e agia como a razão que Norma e Norman não têm. O jovem sempre foi aquele que abraça a tensão quando o bicho pega e não foi diferente na S4.

 

Dylan continuou apagado ao longo da S4, talvez mais que as temporadas passadas, mas o desenvolvimento da sua relação com Emma ficou na medida certa. Sem desespero amoroso, atropelos desnecessários e nem muito menos receio de seguir adiante agora que a menina respira sem os aparelhos. Ele foi outro que ganhou a chance de recomeçar e não perdeu essa oportunidade. Por isso, sua relação com Norma passou a ter um ponto em comum, o que os uniu mais.

 

E quem não curtiu isso? Ele mesmo, Norman Bates. Como assim geral está feliz e ele não?

 

Além de ser uma voz reconfortante à Norma, Dylan também ganha estrelinhas no critério romance. Item que Bates Motel acertou em cheio. Sem Norman por uns bons episódios, os personagens restantes contaram com amor e normalidade. E foi lindo de ver!

 

Concluindo

 

Bates Motel S4 - Norman e Norma

 

A S4 é totalmente focada em lapidar de vez esses personagens para assim justificar o grande desdobramento de Norma Bates. Quando a série entregou a deixa para a chegada de Marion, o que restou foi dar gritinhos. E gritei ainda mais quando soube que a deusa Rihanna a personificaria.

 

Outro ponto que vira e mexe acham ruim nesta série é a falta de conflito externo + a realidade de que, desde a S2, mais precisamente, Bates Motel é arrastada. Eu defendo esse arrastar com unhas e dentes porque falamos de um suspense psicológico. Nada pode ser dado rapidamente ou muita coisa se perderia no processo. Como o suspense e o drama. A escrita aqui é feita para nos aterrorizar lentamente e em instantes desavisados.

 

Sem contar que Norman e Norma são os conflitos e as reviravoltas da trama. Ambos são a série. Pelo peso de suas bagagens, mastigar cada episódio rendeu em mais uma temporada satisfatória – e decisória.

 

Tudo que Psicose respira estava presente na S4 e saltei de felicidade. O que me fez gritar, gritar muito, além de Norman personificar a mãe diante do psicólogo, foi o furo na parede para ver o quarto ao lado – o quarto que rendeu uma cena sexy sem ser vulgar entre Norma e Romero. Isso me fez feliz. Não só por ser um momento emblemático, mas por terem dado sentido a esse comportamento. Sério, costuraram muito mais todo o trabalho feito visualmente por Hitchcock.

 

Foi uma temporada cheia de ironias e de estilos de vida que nenhum dos personagens principais esperava ter. Norman não queria ser internado, mas aprendeu lá a ter autocontrole das suas facetas. Norma só queria um casamento para garantir o bem-estar do filho, mas se apaixonou e tirou o proveito que conseguiu – ao ponto de se chatear com o retorno da criança. Deram o palco perfeito, harmonioso, para desmantelá-lo do meio para o fim desta temporada. Esplêndido!

 

O maravilhoso de Bates Motel é que Norma e Norman nunca entregam a mesma coisa em cada temporada. Na S4, há o realce das facetas abusivas que foram decisórias. Tais como a tão aguardada morte da mãe e como fiquei chateada. Como disse, terminaram de desenvolver, de colocar na mesa, a mitologia de Psicose. Ainda não me conformo com mais uma esnobada do Emmy com relação ao Freddie (principalmente ele que tem comandado a série desde o início). E, poxa, a Vera, que veio de duas temporadas excepcionais (não que as outras não foram, mas a personagem estourou na S3). Lamento mesmo que uma série com interpretações estelares tenha sido reduzida ao trabalho de edição e trilha sonora – que merecem sim reconhecimento também.

 

A S5 é a temporada final e é onde mora a conclusão dessa história. Quero acreditar que Romero tenha se safado do seu cruel destino. Seria muito maravilhoso ser ele o policial que saca os problemas internos de Norman na versão Psicose. Na verdade, seria incrível, pois esse homem combina com a vingança necessária contra o ato do adolescente.

 

Só tenho amor por esta temporada. O potencial dela foi mais uma vez comprovado e logo menos farei a maratona da S5.

Stefs
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