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13/out

Na semana passada, comentei que uma das falhas do 5×02 foi a falta de relação anterior entre Burgess e Toma. Uma ponta do iceberg que encontrou seu acerto nos desdobramentos do 5×03 e estou um tanto satisfeita. Afinal, fazia tempo que isso não ocorria. Depois de dois episódios falhos, Chicago P.D. acertou a mão ao conectar detetive em destaque e tema – Dawson e os latinos.

 

A trama abriu com uma pequena discussão entre Dawson e sua filha. Papo que serviu para assentar o clima e o ponto de partida de uma história que transitou satisfatoriamente entre ação, drama e tensão. De quebra, deixou sua mensagem, outro ponto que destaquei na semana passada como ausente de Chicago P.D. há eras. A redação de Eva, como meio de garantir um futuro universitário, trouxe ao cerne do roteiro a questão das dificuldades que a comunidade latina sente na hora de tentar prosperar nos EUA. Além disso, o quanto uma pessoa que é latina pode se agarrar ao preconceito sobre sua própria comunidade em reflexo do sucesso atingido em solo americano.

 

Esse último fato serviu de motivo de impacto. Inclusive, da moral dada a uma investigação que contou com uma mulher latina como bússola. Nada anula a verdade de que o sucesso para minorias segue como uma dita questão de sorte em várias partes do mundo, o que ressalta a importância da fala de Antonio, direcionada à sua filha, sobre não se esquecer das suas origens. Independente do que for. O intento de focar na desconstrução de Eva, com base no fato da sua família ter se dado bem, resumiu todos os comportamentos seguintes que rebateram no grande acusado da vez.

 

Da ideia de mula de drogas, a trama se costurou até entregar o resultado do preconceito em nível mais brutal. Norte de pensamento que destacou uma soma de palavras que nem queria mencionar, mas é preciso porque fez parte da proposta: lixo latino. Uma colocação que empurrou Dawson a assumir o caso do departamento de homicídios. Uma atitude inspirada também ao contraponto de Eva, que sentiu o impacto do como um americano trata uma pessoa da sua comunidade.

 

Com esse comentário, vindo do policial que encontrou o cadáver de Gloria, se desenrolou a atuação da justiça quando o papo é cuidar de minorias em solo americano. E, honestamente, essa história teve um pouquinho mais de rigor em comparação às tentativas funestas de centralizar negros e Black Lives Matter. Arrisco a dizer que isso se deveu ao foco em Antonio, pois ele mostrou engajamento genuíno. Isso, confrontando o papel de Atwater que tem sua (não) representatividade usada para só dar discurso que calha de não remeter à proposta.

 

Chicago P.D. 5x03 - Burgess e Antonio

 

A afirmação de lixo latino criou atrito pelo simples motivo: latinos que se dão bem, ou qualquer grupo da minoria, não ganham o selo de “finalmente privilegiado”. Ainda mais em zonas em que a xenofobia é forte demais. Os Estados Unidos têm histórico de opressão e de racismo, o que isola essas pessoas a bairros que “são destinados apenas para esse povo”. Chicago P.D. sempre trafega por essas regiões e, dessa vez, não foi diferente. Vários personagens latinos pertenciam a uma espécie de outro mundo, não importando o tipo de sucesso adquirido na terra do Tio Sam.

 

Conforme visto neste episódio, latinos bem-sucedidos atendiam e permaneciam em sua comunidade. Um meio de lembrar de onde se veio. Além disso, de avisar que não dá para ir muito além do quadrado que se ocupa. Impressões que causam desconforto e que orientaram as atitudes de alguns personagens secundários no desdobrar da investigação. Pinceladas que fizeram lembrar de Trump, o anti-imigração – e o roteiro nem encaminhou uma mensagem mais direta.

 

Perto da conclusão, eu realmente acreditei que Chicago P.D. cairia no mesmo vício de entregar o crime para o homem branco. Não que isso me abale, mas parece que só há um tipo de meliante de acordo com esse universo. A série segue pecando em várias escolhas, especialmente quando calha de se envolver com temas mais sociais. Pelo milagre divino, o roteirista fez uma escolha que deu certo, pois deu sentido à proposta desta semana. O assassinato caiu nas mãos de um homem latino que não se via como latino devido às suas vitórias nos Estados Unidos.

 

Seus comentários enraiveceram, apesar de arrematar o que Eva comentou inocentemente na abertura do episódio. O cara deixou claro seu ódio por latinos em reflexo da imigração. Não tinha respeito algum por suas origens porque se via como americano. Julgava os ditos “aliens ilegais” porque tomavam empregos nos EUA. Esse último comentário é batido, me fez lembrar do nazismo, mas criou um assassino. Além disso, deu um dito motivo a esse mesmo assassino em se achar no direito de “limpar” o que “incomoda”. Quantos não se transformam dessa forma?

 

Chicago P.D. 5x03 - Antonio

 

Criar esse choque entre os latinos que batalham e aqueles bem-sucedidos, como os Dawson, foi o mesmo que levantar o questionamento sobre como algumas pessoas renegam seu passado sem a menor dificuldade. Que não se importam em preservar a memória. Deixam-se acumular uma xenofobia internalizada. Principalmente quando falamos de minorias. Lopez não é um caso à parte. Ele é apenas um exemplo de um grupo que menospreza suas raízes e que não gosta de ser incluso nessa dita minoria uma vez que se tem a sensação de privilégios oriundos do sucesso.

 

Uma vez no pódio, muitos não querem expor que um dia foram exatamente como aqueles que ainda lutam por um lugar ao Sol. Que ainda insistem no sonho. Lopez queria evacuar “seu” país dessa “escória”. Ele era o latino especial, imigrante legalizado e com um emprego digno. O embasamento para seus crimes e um convencimento que quase o fez sair imune.

 

A trama ganhou forma naturalmente e o peso emocional de Antonio fez toda a diferença. Inclusive, o posicionamento de Hank, todo cheio do shade. Ambos trouxeram o gosto da treta que rolava na S1 ao confrontar opiniões sobre os próximos passos de uma investigação que não arrematava uma evidência concreta. Rolou a antiga aflição que se expressa em quem sairia dos limites primeiro, mas, o intento da vez, foi solucionar um caso que não tinha solução no Voight’s Way.

 

O episódio conseguiu retratar dentro do possível a realidade que abala a comunidade latina. O foco maior foi na deportação, além da xenofobia internalizada, o que trouxe a essa história vários picos de drama. Foi muito bom ver a turma discutindo o caso, algo que não vinha acontecendo desde o retorno de Chicago P.D.. Os personagens estavam em seu eixo, influenciados pelo tema, com ataques pontuais. Mas nada valeu mais a pena que acompanhar um sensível Antonio focado em cumprir a palavra dada à sua filha sobre proteger os latinos. E ainda sim nem cumpriu.

 

Chicago P.D. 5x03 - Voight

 

Criaram uma boa narrativa que ganhou vida própria graças às pinceladas de drama e de ação. Não extrapolaram tanto os limites dessa vez e mantiveram a proposta firme na busca da justiça que Gloria merecia. Ou que Voight achou que merecia.

 

O sempre insistente heroísmo da UI se encaixou melhor em comparação às últimas vezes e fez diferença. Não houve assassinatos aleatórios, como na semana passada, apesar de não ter gostado de ver de novo mulher no mesmo plot – mas está aí um ponto que você “assina” ao ver procedurais.

 

A investigação quicou em pontos deveras pertinentes, tais como Oscar, o filho, que trouxe o tom do drama, na companhia de Platt, diante do gosto da desolação de uma criança ter que pagar por algo que ainda não tem o menor discernimento. Houve a irmã de Gloria que fortaleceu o clima deste episódio quanto ao medo dos latinos diante de prestar depoimentos à polícia e os riscos de deportação. E, o pior de todos, além de Lopez, o empresário que não se sentia na obrigação de ofertar boas condições de trabalho aos imigrantes e os denunciou para proteger seu próprio legado.

 

Não posso esquecer de mencionar que o adultério de evidências foi o marco deste episódio também. Uma competição de quem tapeava mais e saía ileso. O texto foi escalando sua tensão e se estreitou na medida final: o Hank Voight do passado dando uma resolução fora da lei.

 

Concluindo

 

Chicago P.D. 5x03 - Eva

 

Eu realmente gostei do episódio como um todo. Há uns adendos, mas optei por ignorá-los dessa vez. A estrelinha é possível de ceder devido à conexão entre Antonio e o caso. O personagem fez promessas que não cumpriu e viu do jeito mais cru como sua própria comunidade é tratada.

 

Não que ele não tivesse conhecimento disso. O detetive reconhece seu status bem-sucedido, mas se recorda de onde veio. O grande porém é que vivenciar é totalmente diferente de ler uma matéria no jornal. Eva afirmou que o papel deles era proteger os latinos, mas, de certa forma, Dawson foi falho. O caso que ele tomou do departamento de homicídios culminou em um completo fiasco.

 

A medida extrema largada por Voight no final do episódio trouxe aquele agridoce de não saber como se sentir. Assim, ao pensar no Trump, pensamos no quê? Justiça com as próprias mãos ou achar que se deve solucionar um conflito por intermédio de um ataque desumano. Atos que não beneficiam ninguém. A ideia de Lopez sair ileso e seguir com seu preconceito como motor para matar os “aliens ilegais” era revoltante. A fala final de Hank sacudiu as estribeiras, afinal, será mesmo que queríamos aquele ato e temos vergonha de admitir? Fica o questionamento!

 

Mas eu bem volto a dizer que queria o completo insucesso. De novo, fui trouxa porque torci demais por isso. O que Voight fez ainda deu credibilidade à UI. O santo departamento que não há humanos, mas robôs que não falham. Como digo, não há problema em mostrar que esses personagens fracassam. Dawson chegou perto do flop até Hank arrancar isso dele. Legal, mas…

 

Vale a ressalva para Gloria, cujo propósito não ganhou o destaque que merecia. Ela batalhava por melhores condições de trabalho e penso que isso deveria ter tido um pouco mais de atenção. A mulher se resumiu ao que lhe ocorreu, algo parecido ao desdobramento de Toma na semana passada. Da mesma forma que é difícil engolir a UI imbatível, o mesmo se aplica a dar estrela a quem morreu. Hora de parar com essa de que herói só existe depois que bate as botas.

 

O que cabe no que sempre comento de não dar voz a quem precisa quando Chicago P.D. nada por esses mares. Dava para conciliar as duas coisas. Muito além da deportação e da (suave) opressão latina.

 

De adulteração em adulteração, foi assim que Chicago P.D. entregou mais uma semana. Um caso que parecia mais uma repetição de mulas de droga, mas, no fim, se abriu margem para o debate sobre a imigração. Mesmo que sutilmente.

Stefs
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  • apenaseulu

    OOOOiiii tudo bem?

    Eu estou vasculhando na minha mente mas não encontro, o que aconteceu com a filha do Al, sem ser a que morreu, aquela atriz que fez uma participação em Arrow. Da ultima vez que lembro eles estavam morando no apartamento do Ruzek e depois não lembro mais, vc lembra rsrs??