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06/out

Chicago P.D. mal começou e já entrou no alerta vermelho. Esta semana, a série entregou um daqueles episódios que só valem pelo detetive em destaque. No caso, Kim Burgess e que mulher maravilhosa! A pegada de terrorismo não glorificou ninguém, a não ser a Unidade de Inteligência como sempre. Porém, abriu brecha para se cobrar algo que outrora costumava ser o core desse universo: os problemas pessoais dos personagens. Aonde estão? Aonde vivem? O que comem? Houve muito foco no caso, o que não deixou de ser bom, mas ver quase 40 minutos de estereótipos fortaleceu a falta de background que traz o drama. Não apenas isso, o tom de família.

 

Este foi aquele episódio muito sem propósito. A seco. Dependendo de uma ação de um único viés que engessou a equipe. Além disso, que foi perdendo o valor com a quantidade de estereótipos. Se os roteiristas pretendem seguir com narrativas verossímeis sem baixar a bola do time da UI, é de se esperar o mesmo nível de fiasco da temporada passada. Ok falar de terrorismo, de Black Lives Matter, o que for, mas foi triste demais acompanhar clichês esta semana. Parece até que Chicago P.D. quer usar desses temas como âncora de audiência. Ou seja, a famosa isca.

 

Se o intento é centralizar temas atuais e que envolvem vários cernes policiais, penso que também é importantíssimo tomar cuidado no como você representa quem é minoria. Algo que sempre comento por aqui, sem dó e nem piedade. Dessa vez, pegaram muçulmanos para ser o tema da semana. Lindo, mas para tomar a culpa do dito terrorismo que moveu a UI. Trabalharam em cima do alarde de um policial ter envolvimento com grupos radicais sendo que, no final, engataram uma reviravolta que o transformou em um agente disfarçado que queria combater esse sistema.

 

Bem interessante. Bateu na questão de heroísmo. Contudo, o estopim do meu ranço veio não apenas ao ver mais um muçulmano ser retratado como terrorista, como também do uso do suicídio como impulso do drama. Como impulso para humanizar Toma. Será que não poderiam tê-lo poupado e assim dar a ele os créditos pelo desmembrar de um grupo terrorista? Podiam, mas não fizeram. De novo, justamente pela necessidade de vangloriar a Unidade de Inteligência, o que tira o foco de quem merece. Uma necessidade que tem afetado demais nas escolhas determinantes de episódios que (tentam) retratam temas sociais. É preciso cautela, não canso de dizer.

 

Não menos importante, representações positivas. É pedir demais no mundo Chicago, eu sei. Porém, é fácil dizer que um projeto passará a abordar temas mais pontuais sendo que, na menor chance, retratam um personagem como a mídia costuma fazer. Só aumenta a sensação de negatividade sobre o conteúdo inteiro.

 

Em outras palavras, não adianta de muita coisa. Ainda mais quando se aposta no típico tom irrisório.

 

Volto ao meu exemplo mencionado na resenha anterior de Chicago P.D.: quem aguenta mulher falando unicamente sobre homem com outra mulher? Quem aguenta negro falando unicamente sobre criminalidade com outro negro? Quem aguenta muçulmano unicamente retratado como terrorista? Questionamentos que não ganham respostas, o que rende essa maré de clichês e de estereótipos. Detalhes que abateram este episódio, sem dúvidas, sendo que não há uma só pauta para cada um desses grupos. Há muito mais que se pode fazer nesses quesitos.

 

Resgato também o que comentei há eras sobre outra falha que tem ocorrido em Chicago P.D.: a ausência de mensagem. Lembram, lá na S1, quando cada finalização deixava o agridoce de um aprendizado? Pois bem. Essa Chicago sempre mostrou ser plenamente capaz de emitir uma moral positiva ao largar reflexão em fim de episódio. A escrita ainda não chegou no nível precário e o elenco é muito bom, mas o que aconteceu?

 

Chicago P.D. 5x02 - Toma

 

Os desdobramentos desta semana foram extremamente às avessas para não dizer um tanto vergonhosos visto que nem complexidade com o tema trouxeram à mesa. Bem tentaram empurrar a equipe em curvas estreitas, mas a quantidade de estereótipos em torno de Toma mais as frases prontas sobre mesquitas e grupos radicais não engataram interesse. Inclusive, o modo da investigação não fez essa turma pensar e se sentir em um beco sem saída. Foi tudo fácil, mas, essa parte, consegue ser irrelevante perto do tratamento do policial acusado de terrorismo. Após a explosão, não me foi nem um pouco surpreendente vê-lo como o principal acusado. Nada novo sob o Sol.

 

Ficou bastante incômodo, óbvio, a facilidade do destrinchar do que ocorreu esta semana. Entregas rápidas com aquele elogio para a UI já pré-preparado para ser recebido no fim da trama. Quem aguenta!? Um detalhe que faz parte do combo de muitas partes incômodas ao longo deste episódio e que nada tinham necessariamente a ver com mais uma figura da minoria ter péssima representatividade.

 

Como aconteceu várias vezes com episódios que intentaram trazer Black Lives Matter, Chicago P.D. caiu no clichê americano quanto à pauta exposta nesta semana.

 

Embora o ISIS assine vários ataques, e ser compreensível os roteiristas não mencioná-lo, houve muito homem branco que atacou inocentes. Sério mesmo que precisávamos desse mesmo tipo de narrativa sobre muçulmanos? Soa confortável sempre trabalhar da mesma maneira quando o assunto é ataque terrorista. Os americanos não se esqueceram do 11 de setembro e dar lembrete sempre parece bom.

 

Vejam bem o exemplo atual que dá em discrepância: nem conseguem chamar o atirador de Las Vegas de terrorista. Ele não estava interligado a um grupo radical (até a postagem desta resenha), mas existe o benefício do homem e branco.

 

E, que eu saiba, essa série não se chama Homeland, cuja proposta é combater o terrorismo.

 

Chicago P.D. 5x02 - interrogatório

 

Por citar Homeland, ficou irreal a UI ter tomado conta de um dito ataque terrorista praticamente por conta. O FBI estava representado por uma pessoa, o que foi um absurdo. Assim, a equipe não é focada em barrar a criminalidade das ruas de Chicago? Um questionamento que realça outro buraco nessa série: cadê a premissa central?

 

Chicago P.D. chegou em um ponto também que nem sabem como enaltecer essa turma diante de trabalhos diferenciados que, conforme a premissa, fogem totalmente de alçada. Inserções atrás de inserções que não ajudam em absolutamente nada. Ok que é chato só perseguir crime nas ruas, mas como a S1 funcionou tão bem nisso?

 

Para não melar a equipe de Voight, especialmente Burgess, optaram por caminhos simples. A cada evidência reunida, me restou revirar os olhos. Uma entrega dava em outra com extrema facilidade e, até onde sabemos, grupos terroristas são absurdamente articulados para não serem pegos. E, se forem, esses mesmos membros sabem o que fazer para não abalar a estrutura da qual pertencem.

 

O suicídio, “bastante comum”, foi lançado como isca da empatia. Para reforçar o fato de que Toma era agente disfarçado por conta própria. O que rendeu um desrespeito tremendo ao ponto de deixar os personagens também retumbando no exagero. Foi forçado demais acompanhar Jay e Upton interrogando cheios de marra. Pior que isso, só um dos suspeitos entregar a dita cabeça desse plano em um piscar de olhos. Ok ter língua frouxa, sempre há, mas foi ridículo. Principalmente o comportamento desses dois detetives que, desculpa, me arrancaram boas risadas.

 

E preciso frisar de novo minha sensação de que a caracterização da Hailey mudou bastante em comparação à sua introdução. Sei lá. Ela me parece estranha.

 

De tanto que focam em dar estrelinhas para a equipe, pecam no que é mais relevante a ser contado e mostrado. A pauta era muito boa, mas não souberam aproveitá-la. Tentaram limpar a singela opressão que rolou com Toma, especialmente da parte de seu parceiro Danny, assinante de vários casos de bullying contra o policial, mas nem um terço da complexidade que uma tramoia dessas exigia estava presente. Nem a força da empatia de Burgess fez diferença, embora deveras relevante visto que, hoje, estamos mais céticos. O clichê na abordagem desse tema desviou qualquer tentativa de mergulhar no drama – um drama que nem estava presente.

 

Eu escolho não lembrar deste episódio de Chicago P.D., mas o alerta vermelho foi acionado mais cedo que o esperado. Não houve profundidade, emoção, e por isso que comentei sobre a ausência de problemas pessoais dos personagens. Poderia ter alguém que se alinhasse com o passado de Toma, mas…

 

Lançaram Burgess, mas até o tom do seu posicionamento ficou a desejar. Meramente porque pontuaram a sua dita ingenuidade, a que “sempre a faz trabalhar mal por se cegar de sentimentos”, que também me pareceu fora de tom visto o que a detetive já passou. Vale lembrar do que rolou com a irmã dela, pelo amor da Deusa!

 

Neste episódio, além da ausência de drama e do relacionamento detetive-causante, faltou mensagem positiva. No fim, terminamos com suicídio e com Burgess descendo o verbo para cima do bully de Toma. O que acabou transmitido no final é que devemos repreender, correr atrás da justiça não dada, e isso também está completamente errado. Temos que agir diferente quando estamos expostos a um meio desses. Não podemos agir ferro a ferro.

 

Outros pontos a se comentar

 

Chicago P.D. 5x02 - Burgess

 

Burgess ganhou destaque, mas mais pela sua bondade que pelo seu talento como detetive. Esse disco já deveria ter virado há tempos, mas tudo bem. Sem dúvidas, o episódio valeu por ela, cuja entrega de Marina sempre beira ao impecável. A personagem foi a única a acreditar em Toma, manteve-se convicta em seu instinto de saber que o cara não era terrorista, mas não houve aquela união de reconhecimento entre acusado e polícia.

 

Digo isso porque Toma foi criado do nada. Seria muito mais interessante se dessem chance ao personagem em uma continuidade. Instigar o plano que renderia em um ataque – mas sem deixar de dar o heroísmo a ele por ser o policial que descobriu todo o plano, mas, infelizmente, não conseguiu interrompê-lo.

 

O problema deste episódio foi o mais do mesmo. Mais estereótipo, mais abordagem rasa, mais discurso que movimento. Os roteiristas não se aprofundaram ao ponto de fazer quem assiste se incomodar com a situação. Ou realmente duvidar dos desdobramentos seguintes à explosão. Foi uma repetição em que podemos acompanhá-la ao ler os comentários de uma notícia sobre terrorismo.

 

Reforçaram de leve a xenofobia mais a convicção de só quem é muçulmano é terrorista. E isso é representatividade negativa visto o momento do qual estamos vivendo. De novo, quem escreve manja muito de moldar o caso, mas se esquece de que, a essa altura do campeonato, precisamos de mais personagens que fujam desses clichês que trazem episódios como esse: sem sentimento e sem aprendizado algum. Não é esse o trabalho da ficção também?

 

Não rolou liga emocional e chegou em um ponto que o episódio se tornou extremamente maçante. Fora que achei um tanto bizarro não sentir os personagens. Eles estavam lá, mas foi como se não estivessem.

 

Se vale de algo, ver Dawson e Burgess juntos foi muito bom. Contudo, o empurrar de Antonio nesse universo segue carecido de qualquer reintrodução. Apesar de aparentar que ele nunca saiu, o cidadão está deslocado. Em contrapartida, deu para sentir que esses dois podem se completar e acho ótimo.

 

Concluindo

 

Chicago P.D. 5x02 - pais Toma

 

A exposição a representações negativas dos muçulmanos na mídia aumenta não apenas as atitudes negativas em relação a eles, mas também o apoio a políticas que os prejudicam a nível internacional e nacional.

 

Além de trazer a mesma caracterização para Toma, Chicago P.D. ainda teve a audácia de mencionar a orientação sexual do policial. Pergunto-me até agora o motivo porque não foi pertinente. Ficou a sensação de que tal ideia só estava lá para gerar, talvez, comentários preconceituosos. Ou para dizer que os roteiristas estão preocupados com essa outra minoria. Sou fã, mas não sou trouxa!

 

Com essa do namorado do policial, com certeza os roteiristas queriam confete. Nada mais que isso. A franquia segue branca e hétero, maioria masculina, e usar gay de isca ou à toa é falta de vergonha na face. Leslie Shay se retorce em seu túmulo, fatos reais.

 

Fora o caso da semana, não houve grandes desdobramentos. Porém, preciso citar um singelo incômodo que já me deixa de testa quente: Ruzek abalado com os namoros de Burgess. Ele me soou como Halstead querendo se meter na vida de Erin em fins de temporada passada, tudo querendo saber, tudo querendo resolver… O que esperar de CPD que não está sabendo moldar um romance em que o casal passe por todas as fases do relacionamento?

 

Enfim, não há muito mais o que comentar a não ser reforçar os elogios à Burgess. Nem parece que Marina passou um tempo fora porque a rainha está em absoluta boa forma.

 

E deixo um clique sobre má representação de muçulmanos.

Stefs
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