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08/out

Mesmo que a vida coloque diversos obstáculos. Mesmo que sinta falta de um beijo de boa noite. Mesmo que se esconda por trás de seu cabelo. Mesmo que camufle suas inseguranças com seu jeito valentão. Mesmo que faça xixi na cama. Mesmo que coma pasta de dente e sempre passe mal. Mesmo que acredite que sua mãe virá buscá-la de vez.

 

Jardim Secreto. A Princesinha. Matilda. Meu Primeiro Amor. A Árvore dos Sonhos. Conta Comigo. História Sem Fim. Até o final dos anos 90, minha vida fora marcada por histórias sobre crianças, mas hoje, já adulta, compreendi a diferença entre “para crianças”e “sobre crianças”. E cada um desses filmes foi muito mais sobre nós do que para nós. Certas produções vão além do seu aparente público-alvo, pois estas se preocupam em incluir o mundo que a cercam e nem sempre serão histórias regadas de aventuras e de brincadeiras.

 

Minha Vida de Abobrinha (Ma vie de Courgette/My Life as a Zucchini) estava no meu radar desde o ano passado. Principalmente por considerar os excelentes elogios da crítica e as crescentes indicações a prêmios. Dentre elas, Melhor Animação no Oscar de 2017. Dos indicados do ano passado, minhas animações favoritas foram Kubo e as Duas Cordas Mágicas – produção em stop motion dos Estúdios Laika, mesmo responsável por Coraline e ParaNorman. Infelizmente, o filme da resenha de hoje demorou para estrear nos circuitos abertos, mas consegui tirar minhas próprias conclusões. Valeu a espera! 

 

Recentemente, temos acompanhado uma onda crescente de animações com temáticas, digamos assim, mais adultas. Quem não chorou com Divertida Mente ou fisgou as sacadas sociopolíticas em Zootopia? Apesar da curta duração (1h06), Minha Vida de Abobrinha consegue balancear sua história de forma sensível e relevante. Causa impacto, mas não necessariamente no “público-alvo” que muitos esperam que este seja destinado.

 

Minha Vida de Abobrinha - Icare

 

Vivaz, e ao mesmo tempo estranho (no melhor dos sentidos), em sua concepção, acompanhamos a solitária realidade de Icare. Um tímido garoto, cuja mãe insistia em chamá-lo de Abobrinha (Courgette). Pouco a pouco, percebemos que seu jeitão introvertido tem muito haver com o comportamento explosivo e embriagado da própria figura materna e é em um desses momentos que a vida do personagem toma um rumo inesperado. O policial Raymond surge em sua vida e o leva ao Les Fontaines, lar adotivo que abriga crianças em condições similares as dele.

 

Inicialmente acanhado, Icare encontra dificuldades de se ajustar à nova rotina, como na presença constante de Ahmed, Béatrice, Jujube e Alice. Não posso esquecer de incluir Simon, o dito “líder valentão”. Como qualquer criança em um novo ambiente, nem sempre é possível ocupar seu espaço livremente. Foi no estopim das provocações de Simon, que pega sua pipa, o único bem material que preza junto com uma latinha vazia de cerveja (lembrança da mãe), que Abobrinha finalmente se impõe. O que acontece? Ele ganha o respeito do provocador e o conquista como aliado dentro do lar adotivo.

 

Por trás da carcaça valente e destemida, conseguimos enxergar um garoto inteligente e mega atento aos detalhes. Dentre eles, o reconhecimento do real motivo para cada uma das crianças estar ali. Simon e Abobrinha dividem confidências, do jeito mais espontâneo entre duas crianças. Mesmo tendo perdido tudo de mais valioso, ambos encontram um no outro a segurança e a confiança que a vida tanto os privou.

 

Minha Vida de Abobrinha - Crianças

 

Fluido e bem estruturado, o roteiro destaca as distintas personalidades dessas crianças em suas interações. Principalmente a partir da mudança que a chegada de Camille ocasiona. Destemida, a nova moradora já chega colocando Simon em seu lugar, o que torna a dinâmica do grupo muito mais leve. Ela desperta a atenção de Abobrinha e, gradativamente, os dois se aproximam. Os laços se estreitam mais após a viagem aos Alpes, onde os dois mentores do orfanato, que por sinal são um casal, levam as crianças para um final de semana na neve.

 

Temas como abuso, alcoolismo, drogas, lavagem de dinheiro e morte, como no caso da mãe de Abobrinha, são abordados. Sutilmente, vemos como tais cicatrizes movem o comportamento de cada um. Distribuído com censura 12 anos, a produção franco-suíça surpreende devido às conversas geradas, o que traz elementos ousados. Que conseguem preservar a esperançosa alma infantil. Por meio do olhar esbugalhado e fundo desses personagens, encontramos a porta para almas e corações sedentos por carinho e dedicação.

 

E dentre tantos e mesmo que, as crianças acabam por encontrar algo que podem se agarrar. Mesmo que ainda se sintam sozinhas, todas precisam de alguma forma acreditar que serão aceitas por serem exatamente como são.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento.

Mari
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