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13/nov

Em algum momento da minha vida, mais precisamente em 2012, li e resenhei O Ano da Leitura Mágica. Um livro que, com a passagem do tempo, acreditei que se manteria esquecido na minha estante, na companhia de tantos outros. Bem, não foi o caso, pois, em fins de março deste ano, o tirei do seu cantinho e o reli. Só não esperava que batesse a vontade de escrever sobre ele de novo.

 

Não é difícil eu reler um livro. Só preciso estar com o feeling para isso, algo que ocorre com certa frequência com O Apanhador no Campo de Centeio (e sinto que o lerei este ano de novo). No caso de O Ano da Leitura Mágica, foi o familiar caso de livro certo na hora certa. Aliás, percebi um tipo de padrão que me fez retirá-lo da minha estante duas vezes, só que em anos diferentes.

 

A primeira vez em que o peguei para reler foi depois do trauma acarretado pela maneira como uma das minhas cachorras falecera. A segunda, e mais recente, foi após enfrentar e quebrar no redemoinho que foi minha vida no segundo semestre de 2016. As circunstâncias figuram em sua diferença, mas o que me ritmou ao caminho deste título foi a mesma coisa: dor e desolamento.

 

Por mais que não haja semelhança alguma entre as minhas experiências e as de Nina, foi com esse livro que encontrei apoio emocional. Afinal, eu ainda não perdi nenhum alguém querido, mas tenho quase um MBA em me perder dentro de mim mesma.

 

Dessa forma, este texto não é uma resenha 2.0 (apesar de dar uma refrescada lá embaixo). É uma reflexão embasada em algumas experiências da autora e como elas me impactaram bem no início do meu processo de regeneração. Em outras palavras: no meu processo de volta à vida.

 

━━━ ❤ ━━━

 

É sempre uma experiência formidável revisitar um livro já lido. Mais precisamente aquele que moveu algo dentro de nós, em épocas diferentes. A primeira lida de O Ano da Leitura Mágica não me foi proveitosa. Engoli cada página no meu caminho rumo ao trabalho e vice-versa, em um ritmo frenético. Penso que não absorvi as palavras não por ser um texto desinteressante, mas, talvez, porque eu não sentia e nunca senti o que a autora propôs a contar. Só depois de passar pelos meus perrengues que o texto passou a ter mais clareza. Na segunda lida fiquei passada em incontáveis momentos, voltando a ter aquela sensação de conversa via autora.

 

A premissa de O Ano da Leitura Mágica é dada do ponto de vista de Nina Sankovitch. Ela conta como se desenrolou seus 365 dias de leitura de um livro por dia, sem interrupções. Uma meta estipulada para recuperar um emocional devastado devido à perda da irmã. Cada capítulo é uma experiência em cima de valores e de morais encontrados em cada título lido mais os desafios em manter um ritmo sempre combatido pela rotina familiar e interpessoal.

 

Tudo começa na perda e a narrativa transita nos pilares de regeneração de Nina por meio da leitura. Enquanto lê, sua mente busca repostas. Ela reflete sobre o quanto o luto é terrível e pode nos fazer questionar o por quê de vivermos.

 

Não é um livro complexo, embora um tanto denso por se tratar de um troca-troca entre a dor e as leituras. Por isso que não me espanto com desistências em torno deste título porque O Ano da Leitura Mágica exige do leitor uma experiência anterior com uma perda avassaladora. Ou qualquer interação com a desesperança, responsável em empurrar a contemplação do fundo do poço.

 

Embora o tenha amado na primeira experiência, eu o amei muito mais nessa última. Compreendi melhor o ponto de vista da autora e me relacionei com o desejo de enfrentar o luto à sua própria maneira. Lendo, fragmentei essa palavra em vários significados e o luto que reconheci se embasou no fato de que havia me perdido de mim mesma. Não há algo pior que você não saber se trazer de volta. Enquanto Nina encontrou na leitura a sua regeneração, eu criei o projeto Timshel.

 

Revisitei este livro em meio ao meu processo de recuperação emocional e mental, que tem, inclusive, uma âncora no Tumblr. Como contei aqui, no meio do ano passado eu larguei mão de tudo que me preenchia e, mais tarde, O Ano da Leitura Mágica deu na minha cara. Mais precisamente, em suas páginas finais:

 

Percebi que cabia a mim decidir se eu interpretaria o fim injusta ou insatisfatoriamente e sofrer por conta disso ou decidir se isso, e apenas isso, era o fim adequado.

 

Antes mesmo de chegar nessa frase, e até neste livro, passei fins de fevereiro me reorganizando para me resgatar. Para reencontrar o caminho de volta à vida. Isso só se daria ao me envolver com a escrita, a leitura, a música… A arte que me move. Sem isso, tudo que via, e veria, seria o vácuo que vivi por seis meses. Com isso, seria me maltratar de novo e só a Deusa saberia o que ocorreria. Ainda bem que minha história em 2017 está diferente e há certo conforto em reconhecer isso.

 

O fim adequado é determinado por como uma pessoa usa o que a vida lhe dá e não pelo que a vida lhe dá, outro tapão de fim de leitura que calha agora na principal razão de eu planejar uma revisita a esse livro mais vezes. Em várias e várias conversas, sempre digo que tenho algumas ferramentas e que nunca sei muito bem o que fazer com elas. Tenho pleno conhecimento dos meus talentos, mas a verdade é que a experiência do dito semestre criou uma retração. Eu internalizei demais em vez de externizar. Penso que isso dificultou bastante a minha saída do limbo.

 

Para ser honesta, eu ainda me sinto nadando em partes do limbo. A diferença de agora é que estou tentando preenchê-lo de novo. O processo me foi simples: retornar ao Random Girl, ao Bela as Feras, ao I Am That Girl e tentar criar um pouco mais. A meta era relembrar e recuperar o relacionamento com cada projeto engavetado e/ou qualquer outro fragmento que deixei para trás. Tem dado certo na medida do possível porque também brigo com meu horário de expediente.

 

É ruim demais quando você decide parar a sua vida e nem é porque você quer. No meu caso, foi um maldito piloto automático e o que se seguiu foi muito além dos problemas que me empurraram para o que chamo de projeto Timshel (obrigada Mumford and Sons). Além de informar que seguia viva para as pessoas próximas (desculpem amiguinh@s), eu tive que encontrar um meio de me regenerar. Nina encontrou seu meio para superar o luto ao determinar uma leitura por dia ao longo de um ano. Ato que me inspirou muito mais em comparação à primeira lida desse livro.

 

O que a autora fez me empurrou a me dedicar ao que amo com um pouco mais de afinco. Inspirou-me a criar um espaço de fácil acesso para tornar visual tudo que me faz feliz. Uma galeria para me fortalecer mais e que batizei de Limbovich – que faz parte do projeto Timshel e foi um gracejo oriundo de Os últimos 5 anos.

 

O resgate da soldada Stefs

 

Apesar do tema inicial ser luto, o grande questionamento de O Ano da Leitura Mágica é sobre a vida. Nina achou que era um bocado indigno ela viver em vez da falecida irmã incrível. Para buscar essa compreensão, essa conformidade, sobre a indagação do por quê viver, a autora se sujeitou aos 365 dias de leitura ininterruptos. Ela batizou esse processo como “fuga de volta à vida”.

 

As coisas que amo não deixam de ser minhas fugas também e é o que me dão vida. Que me trazem de volta à vida. Ao mesmo tempo em que me curam, essas coisas me tiram de uma circunstância para vê-la de um novo ponto de vista. Ameniza o peso do meu coração. O que amo me ajuda a colocar muita coisa no lugar, especialmente o emocional, e dar uma imitadinha na Nina foi uma solução ao meu alcance.

 

Eu decidi por um processo lento visto as decepções acumuladas no ano passado. Determinei que seria preciso mais cuidado nesse campo minado e essa parte tem sido um desafio. Sou aquela que ama corridas, mas na calma também há seu lucro.

 

Não me indaguei sobre o merecer viver. Questionei se eu deveria continuar com meus projetos e minhas ideias sendo que não obtive tantos frutos. Isso, depois do arco 2014-2015, que marcou minha saída da agência e minha meta de me dedicar ao que me importava à época (como escrever um livro). O rombo veio em 2016, o dito ano limite para ter um emprego e não consegui. O que veio? Desespero de uma pessoa irreconhecível.

 

Cada um se desespera por motivos diferentes. Meu caso foi o desemprego. Sem um salário fixo, fiquei na gaiola e perdi meu ânimo. Além disso, o contato com as pessoas. Não tinha grana para encontrar soluções externas, então, me voltei para dentro. Fui perdendo as forças e o interesse.

 

Entendi que eu tinha que passar por aqueles momentos até finalmente quebrar. Mas não queria quebrar e penso que não me permiti de início pelo medo. Meramente por temer que pessoa eu seria uma vez que me deixasse bater com a testa no fundo do poço. Acho que deu para perceber que a questão não era apenas voltar a ser CLT. Teve muito mais, gente.

 

Quando finalmente quebrei, me vi diante da escolha de me voltar para dentro ou de buscar remendos. Uma decisão difícil também porque eu ainda era escuridão. Embora, hoje, eu tenha retomado o volante da minha vida, ainda há oscilações na continuidade da minha saga. Mas desistir de novo não é opção.

 

Aceitar o fato de que eu deveria continuar com a minha saga e tentar iniciar meu resgate pessoal foi um tanto complicado. Porém, se tornou fácil uma vez que falei sobre o que rolava comigo. Decidi não remoer o que ocorreu no ano passado, mas esse desdobramento é o que me move. Pede um encerramento.

 

O Ano da Leitura Mágica me deu um viés de reflexão que não tinha tido nas leituras anteriores. Passei a consumir arte para ter norte. Muito do que Nina fez rima com o escapar das pequenas e de grandes pressões. Dos desapontamentos da vida. E eu precisava agir dentro dessa freagem. Desse limbo vazio. Sempre tive várias válvulas de escape e eu as abandonei em 2016. Em contrapartida, criei uma solução que perdurou por longos meses, sem eu querer.

 

Acampamento mental

 

Nesse ínterim das trevas, tudo que fiz foi jogar RPG. Esse RPG foi o meu hiatus, o meu preencher do limbo. Quando contei a uma amiga que voltei a brincar disso, ela me disse algo que jamais se passaria pela minha cabeça: enquanto você se distrai, sua mente encontrará soluções. Sem querer, eu criei uma personagem adorável que tinha muito de mim no arco 2015. Conforme seu desenvolvimento, ela virou minha mão direita. Meu bem mais precioso. Queria que ela fosse real.

 

Conforme essa personagem ganhava mais nuances, mergulhava de cabeça. Quando dei por mim, estipulei soluções, mas aos olhos dela. Jogar teve seu jeito de mimicar minha realidade e essa jovem me fez pensar em metas simples a serem cumpridas. Eu criei um ser fictício muito apaixonado por arte e afins, e ela me inspirou demais.

 

E não ousarei chamar isso de loucura, ok?

 

No RPG, tive uma fuga sem ver aquilo como uma fuga. Sempre gostei do jogo, mas, daquela vez, eu não tinha muito o que fazer. Eu não tinha nada a fazer na minha rotina, então, me entreguei, especialmente porque não pensava na nhaca ao meu redor.

 

Tal personagem, que chamarei de GT, foi minha âncora em fins de 2016. Penso que a experiência inusitada foi ótima em vários quesitos porque, se eu tirar isso, penso que não teria sobrado muito de mim. Eu interrompi minha capacidade de lembrar e de relembrar meu fracasso, de mastigar isso, e o que mais transcorria embaixo do meu teto. A própria fuga da vida me fez bem tão quanto os livros que Nina leu.

 

Ler um livro por dia foi uma fuga apesar de não merecer esse nome. Afinal, Nina é afeiçoada à leitura. Sem contar que a autora se propôs a resenhar cada um dos livros, então, ela simplesmente preenchia seu limbo. Enquanto esse processo se desenvolvia, a sua mente trabalhava em busca de soluções ao luto. No caso, o caminho de volta à vida para assim honrar a memória da irmã.

 

O RPG foi uma completa distração que acabou me anulando do meio caótico. Jogar evitava minha entrega ao problema, o que foi um tanto bom e ruim, não nego. Não me entreguei porque sabia que se me entregasse a coisa toda não seria bonita. Algo que não entravei por tanto tempo, pois a virada do ano tinha cheiro de promessa e a promessa foi botar a boca no trombone. É, parece sensacional, mas não foi. O importante é que, o que veio depois, foi a chance de refazer o 2016 em 2017.

 

O que era uma meta de reviver Harry Potter acabou sendo minha última âncora. Há ironia, pois a saga de Rowling foi a minha única força em vários momentos de minha juventude. Fanfics foram minha fuga dos perrengues da época.

 

O que Nina fez foi basicamente um processo de compreender de novo a sua realidade. Não menos importante, o que ela sentia sobre a perda da irmã e os motivos da vida arrancar as pessoas do nosso convívio. E por que não nós mesmos?

 

Como disse lá em cima, tenho formação em me perder dentro de mim mesma e, ao longo dessa releitura, passei a entender que o que fazia, incluindo o RPG, não era motivo de vergonha. Minha mente entorpecida estava sim buscando soluções e essa âncora me impediu de quebrar de uma maneira que eu sei que pioraria meu estado.

 

De certa forma, entendi meu interior conforme jogava RPG. A primeira passagem do meu diário em 2017 é sobre o quanto encontrei diversas possíveis soluções, mesmo que não notasse, enquanto brincava. Pode não ter nada relativamente ligado aos sites e à arte, mas se tratava de um outro mecanismo. Por meio desse passatempo, segui fazendo o que normalmente faria no piloto automático, em dias bons e ruins: escrever. E escrevi, muito, ao ponto de enxergar meus anseios que estavam camuflados em todos os problemas que vivi em quatro paredes.

 

Eu queria desligar meu sistema, mas sempre havia algo em mim que pedia meu retorno. O RPG me manteve na bateria reserva e vez e outra batia aquela vontade de fazer algo X. Fora dessa brincadeira. Porém, sou uma pessoa da intenção e de emoções positivas para se criar, então, não me atrevi. Havia uma parte de mim que avisava que me machucaria no processo. Que não valia a pena relar nas minhas coisas porque enxergaria o fracasso em sua latência – e fui deixando de lado.

 

Na escuridão, nos desfiguramos. No meu caso, foi como se nada valesse a pena e você não quer comprovar esse ponto de vista. Não quando ainda existe uma pequena noção da preciosidade ao seu redor. Não quando essa preciosidade é parte de quem você é. Eu não estava disposta a abrir mão disso, apesar de tudo. Nem das pessoas ao meu redor. Mas, fiquei presa na minha “punição”.

 

E o último capítulo com certeza me será relido mais que o próprio livro. Foi uma libertação. Foi a confirmação de que a escolha de me refugiar foi até que correta por respeitar a mim e aos demais. Independente da dor que eu sentia à época.

 

O contraste disso veio na história do pai de Nina. Ele passou um tempo no sanatório para se recuperar de uma tuberculose, entregando uma analogia ao hiatus. A pausa que todo mundo, em algum momento, precisa. Eu tive meu hiatus ao jogar RPG, o que calha em outro quote do livro:

 

Redefinir o que é importante (…) e o que pode ser deixado para trás.

 

Precisamos de espaço para deixar que as coisas se acomodem, diz Nina, um lugar para nos lembrarmos de quem somos e do que é importante. Um intervalo que nos permita que a felicidade e a alegria da vida voltem à nossa consciência.

 

Por meio do meu retorno a tudo que me agrada e me completa, descobri o que é viver novamente. É uma frase forte, com certeza, mas funciona para quem viveu sem expectativa de nada. É bom estar de volta e isso já faz uns sete meses.

 

Concluindo

 

O Ano da Leitura Mágica rendeu um rodopio mental. Foi uma companhia amiga até na hora de ir resolver BO no banco. Há a pincelada da importância das memórias, a importância de se ter um escape da dor de maneira que a mente e o corpo continuem trabalhando. Acima de tudo, perdoar a vida pelas mancadas.

 

Todos os dias, escolhemos e precisamos aproveitar o máximo o que temos no momento. Adoraria ter tirado um hiatus para viajar, mas o que me restou foram personagens e histórias. Um lar comum e seguro que nunca me deixou na mão.

 

O impacto dessa leitura ainda se mantém comigo. A inspiração causada pelas palavras de Nina tem norteado meu ano. Estreitar mais e focar no que tenho. As coisas sempre dão um jeito de sair do controle e temos que lidar e tirar algum aprendizado disso. Não é fácil, claro, mas, no meu caso, penso que a tarefa atual é eu pedir desculpas para eu mesma todos os dias. Além de saber que decepcionei muita gente, eu me auto-decepcionei também. Mas é assim, um dia de cada vez.

Stefs
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