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30/jan

Claire Fraser, ou Claire Beauchamp Randall Fraser, é uma das personagens que considero pacas nos tempos atuais. Não apenas por pertencer ao universo de Outlander (que amo bastante, a propósito), mas também por não permitir que sua personalidade fosse abafada em cada decisão tomada ao longo da sua jornada entre o presente e o passado. E é um pouquinho sobre isso que abordarei neste post, mais precisamente na questão do amor-próprio.

 

Até o momento, só li o primeiro livro dessa saga atemporal escrita por Diana Gabaldon, mas, se vale dizer, senti bastante a Claire dos livros na Claire televisiva (interpretada por Caitriona Balfe). Na série, as reações enérgicas dessa personagem são um tanto mais perceptíveis visto o tempo em que ela é lançada. Detalhe que provoca o exercício de relembrar, praticamente o tempo todo conforme se lê ou se vê Outlander, de que há um tremendo conflito secular. A lógica dela é dos anos 40, algo que não funciona na Escócia de 1700 dominada pelo regime de clãs.

 

Depois de ter terminado arduamente essa leitura (chegou uma hora que não aguentava mais porque fico agoniada de ler o mesmo livro por mais de um mês), percebi que ganhei novas justificativas que tornaram Claire ainda mais especial para minha pessoa. E esse amor começou com uma rebelião de cachos. Vocês não fazem ideia do quanto eu mesma me senti representada nesse singelo detalhe. Confesso que, no timing em que via a série, comecei a dar mais atenção aos meus caracóis.

 

Assim, a maioria das personagens tem cabelo liso, vamos combinar. E, normalmente, atrizes que têm cachos precisam passar pelo “alisamento”. Eu cresci vendo esse tipo de coisa e achando meu cabelo horroroso. Um maldito pecado!

 

Esse é um dos quesitos que me deixou grata pela existência de Claire Fraser. Isso antes de ler o livro. Ela não se importa com a bagunça dos seus cachos e nem com o fato de que seus cabelos são curtos (especialmente para a Escócia de 1700 que não comporta esse visual). Quando a personagem rebate comentários sobre seu cabelo, ainda mais em instantes em que se insinua que ela tem uma “aparência rebelde ou desleixada”, eu gritei demais de alegria.

 

O que rendeu um insight que combina muito com ela: amor-próprio. Um tipo de amor que não é acentuado em Outlander. Ao menos, não tanto no livro e tenho, de novo, que dar todos os créditos à Caitriona por personificar tão bem esse lado genuíno da personagem. Um lado que, apesar de não ser ilustrado em letras garrafais, se faz presente em instantes específicos, como no seu casamento forçado com Jamie e na vivência com os homens de clã que não respeitam a figura feminina de maneira alguma – nem ela própria. Dessa forma é preciso capturar esse ponto nas entrelinhas dos péssimos cenários que ela enfrenta ao longo da história.

 

Claire Fraser - Craigh na Dun

 

O amor-próprio de Claire é combatido e tremeluzido a partir do momento em que cruza as pedras de Craigh na Dun. Nos anos 40, ela tem autoridade de ir e vir, de tomar decisões, de seguir a carreira que deseja e de se impor. Além disso, é comprometida com um homem que a respeita, o que dá o tom de um casamento um tanto equiparado (e sei que nem é assim depois do primeiro volume de Outlander, mas vamos lembrar que só li este por enquanto). No seu presente, ela tem voz ativa. Presença. Alguns detalhes da sua personalidade que sentem demais o impacto de não poderem ser expressos em 1700. Período em que a mulher é extremamente subjugada. Tem que ser o famigerado bela, recatada e do lar.

 

Ela não é recatada, sendo dona de uma boca suja maravilhosa. E nem do lar porque, na sua vida anterior, ela serviu de enfermeira na Segunda Guerra e persegue uma carreira de cirurgiã mais pra frente. O problema mora na Escócia, lugar em que a personagem não pode ser nada disso. Não pode ser fiel a si mesma e percorre um caminho de espinhos pela sua autonomia e pela sua sobrevivência.

 

Claire é descrita como uma mulher à frente de seu tempo. Fato que a torna uma figura atemporal nata e que confere à sua caracterização certa dose de empoderamento (liberte os cachos!). A maior expressão disso vem da sua língua afiadíssima para dar cortada de vôlei, especialmente nos homens que ditam o que sua pessoa pode ou não fazer. As coisas se alteram quando seu presente é trocado pelo seu passado, pois, de início, a protagonista perde a voz. Ela não sabe onde está e quem são aqueles homens. Pouco a pouco, aquele mundo se desvenda e há a recusa da conformidade de ser a inglesa espiã codinome Sassenach (a ofensiva em gaélico escocês que cabe à sua pessoa e às suas origens). O que dá ainda mais contraste nesse posicionamento de manter quem se é e dane-se.

 

Algo que começa no fato de que Claire domina cuidados médicos. A ligação com seu presente e que traz artimanhas que nem existem na Era dos clãs. Ela ajuda os homens em guerra como se fosse uma curandeira (e curandeiras tão habilidosas caem na regra de serem bruxas). Lindo, mas, mesmo auxiliando-os – por motivos de sobrevivência –, sempre que há chance ela é “colocada em seu devido lugar”. Um lugar que, lógico, é o padrão para as mulheres escocesas dessa época. Elas não podem se expor. Nem se fazerem úteis a não ser que seja para uma figura masculina ou para cuidar de seu lar. Alguns exemplos que essa personagem combate e que lhe dá armas para fazer o oposto.

 

Um quadro que se repete muito além do tempo de Claire. Ainda vivemos com essa opressão muito embora há mulheres que lutem pela sua total liberdade. É a eterna luta contra o patriarcado.

 

No começo dessa aventura na Escócia, a troca entre séculos faz Claire penar bastante para se impor. Ela emudece nesse primeiro momento e tem que atravessar esse caminho desconhecido fiel a si mesma. Uma lealdade de si para si que lhe dá força. Que a impulsiona a ser vista e ouvida nem que seja a força. Ato que abre margem para a violência que é muito mais latente na série. Algo importantíssimo (infelizmente) que a personagem não reflete até o instante em que se vê nesse precipício. É quando Claire finalmente percebe que está em outro universo e que precisa rever alguns comportamentos e conceitos se quiser se manter viva.

 

Quem de nós nunca teve que se adaptar para se manter em algum lugar? Eu mesma já perdi as contas. Hoje, tento ao máximo lutar pela minha diferença, mas o teto de vidro dos homens segue intrínseco e sufocador. Dá vontade de sair quebrando tudo, real e oficial.

 

O posicionamento arisco de Claire é tratado como um ato de rebeldia para a época. Algo que poderia matá-la, mas acentua sua presença entre os homens de clã. O que parece bom, mas é perigoso considerando que a personagem está por conta própria e precisa retornar ao presente. Um presente extremamente longínquo do seu passado, uma soma que move o enredo de Outlander.

 

Claire Fraser - Outlander

 

Tanto no livro quanto na série, Claire é exposta a vários tipos de violência. Seja contra si ou contra Jamie – a figura do “segundo” interesse amoroso a quem passa dedicar bastante tempo. O estupro é o mais frequente, mas vale comentar o assédio que a personagem confronta de queixo empinado. Pequenos e grandes choques de realidade não enfrentados em seu presente, mas não demora muito para que ela note que as circunstâncias que a cercam estão ali para silenciá-la. Para mantê-la nas sombras. Principalmente quando é usada para ser a esposa encomendada do jovem Fraser – já que sua única opção é fazer o que é mandado se assim quiser sobreviver nesse novo mundo.

 

É quando a questão de época começa a bater muito forte. Não só isso, como a verdade que sua figura por completo é um lixo. A começar, claro, pelo mencionado fato de que Claire é inglesa. Uma inglesa imersa em uma treta entre seu povo e o povo das Terras Altas.

 

De início, ela é a vilã. Que sabe demais, diga-se de passagem. Quadro que não muda tanto assim justamente pelo fato de que Claire é mulher.

 

Em linhas gerais, Claire tem que enfrentar a diferença de realidades até chegar o tempo em que não fica mais quieta. Quando chega esse tempo, ela mexe com a virilidade masculina. O que é algo maravilhoso! Só que seus atos custam muito do seu mental e emocional porque ela se encontra em um campo minado. A personagem faz o que faz na chance de retornar às pedras e, obviamente, que as circunstâncias se alteram ao se apaixonar por Jamie. É quando seu foco de luta dá uma alterada. Uma outrora luta individual se torna uma luta de dois, mas seguimos vendo o furor dessa jovem.

 

O lado bom da escrita de Diana é que ela suaviza/respalda determinados instantes para que não fiquem escabrosos (eu considero a série muito mais gráfica). O livro é longo e torná-lo um circo de horrores seria ultrajante (e não posso responder pelos outros volumes porque não os li ainda). Felizmente, e considerando só o título que li até o momento, a autora respalda algumas situações antes mesmo delas ocorrerem. Ela prepara quem lê. Ainda assim, não tem como afugentar a indignação e nem o incômodo. Nem o indagar se tal ato era realmente necessário.

 

Penso que é o que se paga por gostar de drama histórico (e é aí que precisamos filtrar mais). Isso se ele for um tanto condizente à época, algo que Game of Thrones (a série) falhou e justificou como o dito único caminho para Sansa amadurecer no futuro.

 

Não que Outlander não erre. Sei bem o que Diana “programou” para os livros seguintes, o que muda bastante meu argumento sobre “suaviza/respalda determinados instantes para que não fiquem escabrosos”. Não entrarei em detalhes porque, como disse, não li os demais volumes. Porém, se vale de algo, passei a entender muita coisa quando dizem que algumas passagens violentas são chamadas de “sensíveis”. Com isso, elas são mais “aceitáveis”. Só que não né?

 

Claire-Fraser---julgamento-bruxaria

 

Tudo que ocorre com Claire ao longo dessa história rebate em seu amor-próprio. Ela se vê atordoada com a violência sendo que uma parte de si conhece aquele plano de fundo. Só que esse conhecimento não desperta de pronto visto que a personagem só quer saber de sair dali.

 

Amor-próprio se saiu como o escudo de Claire. A marcha de emergência. Detalhe da sua personalidade que é muito forte e que a sustenta entre esses homens. Por seus olhos, vemos o quanto perdemos esse tipo de amor justamente na dominância masculina. Em clima de extrema violência e de humilhação. Perdemos toda a nossa dignidade. Até digo o se sentir como o bode expiatório toda vez que um homem se vê abalado pela mulher e quer dar seu próprio jeito para “tirá-la de cena” – o que é irônico em Outlander porque é uma mulher que tenta tirar essa personagem de cena.

 

O choque de Claire atiçou o seguinte raciocínio dentro de mim: a realização do quanto o amor-próprio das mulheres, cultivado ou não, é uma das rédeas que seguem controladas pelo patriarcado e pelo sexismo. O amor-próprio é aquele ponto que nos assegura e que os homens sabem que podem usá-lo ao seu favor. Basta encontrá-lo e atingi-lo. Uma vez atingido, o que normalmente vem em seguida é manipulação para assegurar a mulher em seu dito lugar. Longe do destaque. Inclusive, controlada, pois, sem autoestima, não há a crença em si mesma.

 

Vale acrescentar sobre o quanto esse mesmo amor-próprio sofre influência do meio, onde pode ser abalado ou fortalecido. Esse amor é de nós para nós, mas sempre há pessoas que conseguem se intrometer nesse cultivo e nos fazer sentir menos de quem somos. Claire passa por isso várias e várias vezes. Só que sua situação pede uma adaptação visto que o conflito do primeiro livro é levá-la rumo ao caminho das pedras. Suas adversidades testam sua meta de retornar ao presente e o sucesso/insucesso disso vem do quanto ela não quer se ver à mercê desse impasse.

 

Foi nessa entrelinha de amor-próprio que Outlander mexeu com todas as estruturas de uma mulher que sempre teve consciência do espaço que ocupa e do respeito que tem por si mesma. Um amor de si para si que é sua defesa atemporal contra trolls. Apesar dos cenários serem diferentes, eu mesma me senti atacada pelo ocorrido com a personagem porque me lembrei das várias vezes em que meu valor foi lançado no esgoto por algum homem e o quanto isso me deixou indefesa. Desvalidada. Sem autoestima alguma. Além disso, do quanto passei boa parte da minha vida caçando validação.

 

Parece uma coisa: você tem que ser aceita pelo homem e só. Não!

 

Em muitos instantes, é esperado que a voz de Claire cesse. Porém, ela segue imparável (infelizmente isso não ocorre sem alguns instantes de violência). Aos poucos, a personagem muda o jogo e captura Jamie como seu aliado (nem tanto assim pelo que me consta). Fato que indica a transformação desse casamento encomendado, a começar por ela ganhar espaço entre os homens dos clãs. A contragosto, mas consegue.

 

Mulher é vista como perigo a partir do momento que tem consciência de seu espaço. Uma vez que tem consciência de quem se é e do que pode fazer. Uma vez que usa seu amor-próprio como sua melhor defesa. Claire deixa evidente, a partir do momento que decide se impor, que quem dita suas regras é ela mesma.

 

Ou, como dizemos no século 21: lugar de mulher é onde ela quiser.

 

Claire Fraser - Escócia

 

Outlander dá à sua protagonista todos os enfraquecimentos possíveis e inimagináveis para que ela realize sua própria diferença. Não é fácil, pois o cheiro de ameaça é pungente e frequente. Além disso, ela é, por umas boas 800 páginas, nada bem-vinda. Ainda sim, Claire dá seu jeito de ser sua própria heroína. Chega uma hora que nem a morte a faz hesitar para se proteger contra os homens, especialmente se essa possibilidade tem a ver com retornar para casa.

 

Ao estar por conta própria, Claire luta pela integridade. O velho comportamento de não tombar sem lutar. Quantas de nós não faz isso todo santo dia? Principalmente em ambiente de trabalho?

 

“Esta época ainda era, de muitas maneiras, irreal para mim; algo saído de uma peça teatral ou de um desfile de fantasias. Comparadas às visões de guerra mecanizada em massa, de onde eu vinha, as pequenas batalhas que vira — alguns poucos homens armados de espadas e mosquetes — pareciam-me pitorescas em vez de assustadoras. Eu estava tendo problemas com a proporção das coisas. Um homem morto por um mosquete estava tão morto quanto outro atingido por um morteiro. A questão é que o morteiro matava impessoalmente, destruindo dezenas de homens, enquanto o mosquete era disparado por um único homem que podia ver os olhos daquele a quem matava. Isso era homicídio, parecia-me, e não guerra. Quantos homens eram necessários para fazer uma guerra? O bastante, talvez, para que não tivessem que ver uns aos outros? E, no entanto, aquilo obviamente era guerra — ou ao menos uma questão séria — para Dougal, Jamie, Rupert e Ned. Até mesmo o pequeno Murtagh de cara de fuinha tinha razões para uma violência além de sua inclinação natural.”

 

Essa é uma das passagens mais significantes de Outlander e que desperta para a essência da problemática do primeiro volume. Claire, em seu papel de narradora, nos entrega o que não enxergamos conforme o andar da sua carruagem pela Escócia de 1700. A personagem passa em nossa face o choque de épocas, algo que ela não havia feito com clareza desde que seu tempo se alterara.

 

Um choque que é apurado em desconfortos que surgem ao longo da leitura. Vale dizer que até Jamie está incluso em vários problemas, mas ele não interessa no momento.

 

Como uma mente dos anos 40 confrontaria as de 1700 e tralala? Ainda mais em países diferentes? Sendo uma mulher? Ela afirma que Jamie nublou seus pensamentos desde o casamento e sua consumação, o que é aceitável visto que sua vida se transforma em curto espaço de tempo – e tal decisão serviu para mantê-la viva das garras de Black Jack Randall que tem uma obsessão doentia por Jamie e tem a cara de Frank (o marido de Claire no presente).

 

Aos poucos, Claire percebe que o meio do qual se encontra não é irrelevante. Ele tem grande influência sobre sua pessoa, especialmente na sua identidade. Chega o ponto em que ela não pode ignorá-lo e escolhe se moldar a ele. Porém, sem se perder no processo. Assim, ela desbrava suas qualidades sarcásticas, enérgicas e calorosas. Ela usa seus instintos, o que revela uma personagem extremamente imprudente – o ponto que culmina nos grandes problemas de choques de cultura.

 

A protagonista de Outlander é a mulher que testemunhou os horrores da Segunda Guerra e que se deu conta de que também pode lidar com um bando de marmanjo de saia (aka kilt). A começar pelo marido que, pouco a pouco, percebe que essa relação só será possível de ser mantida (inicialmente em sua mentirinha) a base da igualdade. Uma igualdade não social, mas de patamares. Ela demanda ser ouvida – e a parte do vista se dá facilmente pelo excesso de amor-próprio.

 

É fato que na altura dos seus desdobramentos mais trágicos Claire se vê muito ligada a Jamie. Conflitos e drama compõem o que se transformará em um amor que enfrenta as intempéries de dois tempos. O foco de Diana é fazer esse amor ocorrer e seguir ocorrendo. Tem suas nuances problemáticas, mas é preciso seguir a protagonista. A mulher que começa a exigir mais respeito e Jamie começa a escutar o que a inglesa tem a dizer.

 

São atitudes nada pontuais, pois Diana é prolixa. Descreve demais o ponto de vista de Claire, o que não deixa de ser bom, mas é cansativo. Em contrapartida, dá tempo para a autora traduzir o ínterim histórico para embasar suas decisões. Além disso, para assim vermos como isso move os personagens.

 

Para entender os posicionamentos de Claire é preciso estar muito ligada à história. Os cachos parecem uma menção boba, mas é aí que mora a sua diferença. O tanto que ela preserva sua identidade e sua personalidade. Independentemente do romance que nos cega, a proposta das entrelinhas está nesse amor-próprio do ponto de vista feminino e como ele sofre com os impactos do meio. Um meio que é puramente a figura masculina que toma tudo. Inclusive, a nossa integridade.

 

É essa a diminuta nuance de Claire que trafega quase imperceptivelmente no livro. Uma faceta que clama que autocuidado e amor-próprio somam belíssimos atos de protesto. É nesse ponto que me ative no decorrer da leitura do primeiro livro de Outlander porque é aí que a personagem se torna inspiradora.

 

Amor-próprio como nosso maior escudo

 

Claire Fraser - Piloto

 

O foco deste post é Claire e o que ela transmitiu para mim ao longo da leitura do primeiro volume de Outlander (e o mesmo vale para a série). Como ela age em meio a um universo que é o patriarcado. Tudo que ocorre com ela ao longo dessa história rebate em seu amor-próprio. Em quem ela é.

 

A expressão de Claire sobre amor-próprio vem do seu posicionamento diante de intempéries. Independentemente de ser casada com Jamie, ela precisa constantemente pensar em si mesma. Como sobreviverá em meio ao desconhecido e diante de pessoas que claramente a odeiam (vale dizer que ela sofre com acusações de ser espiã)? Como ela pode respeitar os homens sem se sentir ludibriada ou por que só precisa deles para ganhar um tipo de vantagem? Para todos os questionamentos, a soma é de uma personagem que tem noção de que sua vida depende de si mesma – e é meio triste ver isso sumir um pouco por motivos de mozão, mas nem tem a quem culpar porque a proposta do livro é enaltecer o romance.

 

Demora, mas, na Escócia, Claire volta a ter sua independência e vemos com clareza o quanto esse amor-próprio a empodera. Ela deixa claro que é sua própria companhia e que não há erro algum nisso. Nem em confiar e cuidar de si mesma. A protagonista se mune do que acredita ser seu melhor para se manter respirando pelo tempo de se abrir caminho de volta às pedras. Algo que não dura muito, pois logo a maior vantagem de todas se apresenta: ela conhece o futuro. O que a coloca como, além da estrangeira, a bruxa branca.

 

Claire passa pelo arquétipo de bruxa no primeiro volume de Outlander, pois a maneira como ela se comporta, pensa e se expressa não é o dito normal. Ela passa a ser vista, especialmente por outras mulheres (as poucas mencionadas no livro) como uma ameaça. Da mesma forma que é proibida de se impor, essa imposição encanta os homens. Um encantamento dissimulado porque suas ações impertinentes são vistas como afronta. E sabemos como homens afrontados reagem ao serem comandados por uma mulher. Querem esmagá-la.

 

E tudo começa com a expressão da aceitação de cabelos cacheados e revoltos. Apesar de se sentir inadequada de início, a personagem sabe do seu valor e tenta se manter fiel ao máximo a quem é. Fiel à sua versão de 1940 e assim ela segue a história. Unindo admiradores e odiadores que centralizam o foco não mais nela, mas na unicidade que o casal se transforma.

 

Claire me fez pensar bastante (pela milésima vez na vida) como nós, mulheres, precisamos lutar demais para ter o nosso espaço. Para sermos ouvidas. Para cultivarmos diariamente o amor-próprio que pode ser esmagado a qualquer momento. Que mesmo com a aceitação de cachos revoltosos ainda temos que brigar pelas nossas vozes e pelo nosso corpo. Que mesmo em postos de liderança ainda refletimos demais sobre pesos e medidas para não sermos retalhadas, humilhadas ou sofrermos com manipulações, especialmente em ambientes corporativos.

 

Isso não distancia também a mulher do lar, que tem muito da sua voz e dos seus posicionamentos roubados porque ainda há essa mentalidade de que o homem é o grande e único provedor da casa. O que aniquila quaisquer chances dessas mulheres de ter independência e de perseguir os seus sonhos (o que não inclui as mulheres que realmente se completam cuidando de seu lar, vale dizer).

 

Claire bate sutilmente nessas teclas e mostra sempre que possível a Jamie que as mulheres do futuro conseguiram ser um tanto mais empoderadas e que não há mal algum aplicar o mesmo pensamento entre as escocesas (vide a série). O que me faz mencionar Jenny, irmã do Fraser e outra personagem incrível, que ama seu papel de cuidar da casa e de ser mãe. Só respeito eu tenho por ela também.

 

Outlander não é uma bíblia de feminismo justamente por questões de época, mas não quer dizer que Claire não inspira. Várias de suas façanhas faz quem lê pensar, pois recriam a mencionada verossimilhança com o que vivemos há muito mais que a nossa existência aqui.

 

Apesar de ter lido apenas o primeiro volume, sei bem que Outlander não fica nessa camada “mais suave”. A saga aborda o estupro a torto e a direito. Pelo que li, ainda de maneira irresponsável. Tanto a série quanto o livro que inicia essa saga conseguem ser mais “sutis” com Claire, pois é Jamie quem carrega a maior cruz nesse arco inicial da história. Não sei se terei estômago para ler os demais, pois, conforme minhas pesquisas, o enredo segue por um destino ainda mais incômodo para as mulheres. Até para Claire.

 

Foi um tanto complicado tirar a mensagem de amor-próprio de Outlander e não nego certa influência de Caitriona nesse processo. Isso só foi possível graças ao meu amor pela personagem e pela atriz (que dá seu sangue para trazer o melhor de Claire para a TV).

 

Também não sei o quanto Claire se transforma no futuro, mas sigo curtindo sua representação, especialmente na série.

 

Enfim. Todos os dias batalhamos para sermos vistas e ouvidas. Para contornar o outrora “hábito” de depender de validação masculina – que não faz nenhum favor a nós. Amor-próprio cabe a nós cuidar e cultivar diariamente, pois é nossa melhor defesa. Algo que venho descobrindo muito recentemente.

 

É difícil, mas não devemos abaixar a cabeça e nem aceitar menos do que podemos. Não devemos ceder uma das rédeas mais delicadas da nossa existência: o amor que damos a nós mesmas.

 

E delicadamente Claire trafega esse caminho e bebe muito male tears. Mostra o quanto tem que haver essa manutenção de amor-próprio porque é a fonte da confiança e da defesa moral. Uma soma que nos dá um escudo atemporal. Duradouro e imbatível, que nos dá força para brigar por quem somos. Pelo que queremos. Para mostrar que esses ditos conflitos de época não são razões para nos botar para baixo. Temos que seguir de queixo empinado e sempre adiante.

 

Claire Fraser é sim uma mulher à frente do seu tempo. Ela tem um autoconhecimento profundo de si mesma e a vida a endureceu para ser sua própria defensora. A própria protagonista da sua história, mas não minimizando sentimentos positivos, como amar e se deixar ser amada. Ela é uma personagem que pode até caber no conceito de personagem completa, mas não ouso entrar em detalhes sobre isso. Preciso ler os livros conseguintes para retornar a esse ponto da conversa.

 

De qualquer forma, essa mulher não deixa de ser um exemplo de aceitação de si para si. Ela se ama e busca nesse amor a sua força para sobreviver a uma Escócia que não a reconhece. Que a minimiza por ser mulher. Apesar desse reconhecimento vir com certo peso da parte de Jamie, o que conflita essa autoridade da personagem no seu próprio enredo, há muito que se aprender com Claire Fraser. A começar que, independentemente do meio, temos que nos colocar em primeiro lugar. Parar com essas adaptações para deixar o patriarcado mais confortável.

 

A regra de sobrevivência de Claire é uma só: manter viva a verdadeira chama de quem somos. No fim, dependemos de nós mesmas. O que não necessariamente significa que estamos sozinhas. Porém, é em nossa própria companhia que descobrimos nosso melhor e nosso pior. É nessa mensuração que nos protegemos e, com a glória da Deusa, saberemos como seguir adiante. Saberemos como cuidar e cultivar do nosso amor-próprio. Que assim seja!

Stefs
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