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30/jan

Claire Fraser, ou Claire Beauchamp Randall Fraser, é uma das personagens que considero pacas nos tempos atuais. Não apenas por pertencer ao universo de Outlander (que amo bastante, a propósito), mas também por não permitir que sua personalidade fosse abafada em cada decisão tomada ao longo da sua jornada entre o presente e o passado. E é um pouquinho sobre isso que abordarei neste post, mais precisamente na questão do amor-próprio.

 

Até o momento, só li o primeiro livro dessa saga atemporal escrita por Diana Gabaldon, mas, se vale dizer, senti bastante a Claire dos livros na Claire televisiva (interpretada por Caitriona Balfe). Na série, as reações enérgicas dessa personagem são um tanto mais perceptíveis visto o tempo em que ela é lançada. Detalhe que provoca o exercício de relembrar, praticamente o tempo todo conforme se lê ou se vê Outlander, de que há um tremendo conflito secular. A lógica dela é dos anos 40, algo que não funciona na Escócia de 1700 dominada pelo regime de clãs.

 

Depois de ter terminado arduamente essa leitura (chegou uma hora que não aguentava mais porque fico agoniada de ler o mesmo livro por mais de um mês), percebi que ganhei novas justificativas que a tornaram ainda mais especial para minha pessoa. E esse amor começou com uma rebelião de cachos. Vocês não fazem ideia do quanto eu mesma me senti representada nesse singelo detalhe. Confesso que, no timing em que via a série, comecei a dar mais atenção aos meus caracóis.

 

Assim, a maioria das personagens tem cabelo liso, vamos combinar. E, normalmente, atrizes que têm cachos precisam passar pelo “alisamento”. Eu cresci vendo esse tipo de coisa e achando meu cabelo horroroso. Um maldito pecado!

 

Esse é um dos quesitos que me deixou grata pela existência de Claire Fraser. Isso antes de ler o livro. Ela não se importa com a bagunça dos seus cachos e nem com o fato de que seus cabelos são curtos (especialmente para a Escócia de 1700 que não comporta esse visual). Quando a personagem rebate comentários sobre seu cabelo, ainda mais em instantes em que se insinua que ela tem uma “aparência rebelde ou desleixada”, eu gritei demais de alegria.

 

O que rendeu um insight que combina muito com ela: amor-próprio. Um tipo de amor que não é acentuado em Outlander. Ao menos, não tanto no livro e tenho, de novo, que dar todos os créditos à Caitriona por personificar tão bem esse lado genuíno da personagem. Um lado que, apesar de não ser ilustrado em letras garrafais, se faz presente em instantes específicos, como no seu casamento forçado com Jamie e na vivência com os homens de clã que não respeitam a figura feminina de maneira alguma – nem ela própria. Dessa forma é preciso capturar esse ponto nas entrelinhas dos péssimos cenários que ela enfrenta ao longo da história.

 

Claire Fraser - Craigh na Dun

 

O amor-próprio de Claire é combatido e tremeluzido a partir do momento em que cruza as pedras de Craigh na Dun. Nos anos 40, ela tem autoridade de ir e vir, de tomar decisões, de seguir a carreira que deseja e de se impor. Além disso, é comprometida com um homem que a respeita, o que dá o tom de um casamento um tanto equiparado (e sei que nem é assim depois do primeiro volume de Outlander, mas vamos lembrar que só li este por enquanto). No seu presente, ela tem voz ativa. Presença. Alguns detalhes da sua personalidade que sentem demais o impacto de não poderem ser expressos em 1700. Período em que a mulher é extremamente subjugada. Tem que ser o famigerado bela, recatada e do lar.

 

Ela não é recatada, sendo dona de uma boca suja maravilhosa. E nem do lar porque, na sua vida anterior, ela serviu de enfermeira na Segunda Guerra e persegue uma carreira de cirurgiã mais pra frente. O problema mora na Escócia, lugar em que a personagem não pode ser nada disso. Não pode ser fiel a si mesma e percorre um caminho de espinhos pela sua autonomia e pela sua sobrevivência.

 

Claire é descrita como uma mulher à frente de seu tempo. Fato que a torna uma figura atemporal nata e que confere à sua caracterização certa dose de empoderamento (liberte os cachos!). A maior expressão disso vem da sua língua afiadíssima para dar cortada de vôlei, especialmente nos homens que ditam o que sua pessoa pode ou não fazer. As coisas se alteram quando seu presente é trocado pelo seu passado, pois, de início, a protagonista perde a voz. Ela não sabe onde está e quem são aqueles homens. Pouco a pouco, aquele mundo se desvenda e há a recusa da conformidade de ser a inglesa espiã codinome Sassenach (a ofensiva em gaélico escocês que cabe à sua pessoa e às suas origens). O que dá ainda mais contraste nesse posicionamento de manter quem se é e dane-se.

 

Algo que começa no fato de que Claire domina cuidados médicos. A ligação com seu presente e que traz artimanhas que nem existem na Era dos clãs. Ela ajuda os homens em guerra como se fosse uma curandeira (e curandeiras tão habilidosas caem na regra de serem bruxas). Lindo, mas, mesmo auxiliando-os – por motivos de sobrevivência –, sempre que há chance ela é “colocada em seu devido lugar”. Um lugar que, lógico, é o padrão para as mulheres escocesas dessa época. Elas não podem se expor. Nem se fazerem úteis a não ser que seja para uma figura masculina ou para cuidar de seu lar. Alguns exemplos que essa personagem combate e que lhe dá armas para fazer o oposto.

 

Um quadro que se repete muito além do tempo de Claire. Ainda vivemos com essa opressão muito embora há mulheres que lutem pela sua total liberdade. É a eterna luta contra o patriarcado.

 

No começo dessa aventura na Escócia, a troca entre séculos faz Claire penar bastante para se impor. Ela emudece nesse primeiro momento e tem que atravessar esse caminho desconhecido fiel a si mesma. Uma lealdade de si para si que lhe dá força. Que a impulsiona a ser vista e ouvida nem que seja a força. Ato que abre margem para a violência que é muito mais latente na série. Algo importantíssimo (infelizmente) que a personagem não reflete até o instante em que se vê nesse precipício. É quando Claire finalmente percebe que está em outro universo e que precisa rever alguns comportamentos e conceitos se quiser se manter viva.

 

Quem de nós nunca teve que se adaptar para se manter em algum lugar? Eu mesma já perdi as contas. Hoje, tento ao máximo lutar pela minha diferença, mas o teto de vidro dos homens segue intrínseco e sufocador. Dá vontade de sair quebrando tudo, real e oficial.

 

O posicionamento arisco de Claire é tratado como um ato de rebeldia para a época. Algo que poderia matá-la, mas acentua sua presença entre os homens de clã. O que parece bom, mas é perigoso considerando que a personagem está por conta própria e precisa retornar ao presente. Um presente extremamente longínquo do seu passado, uma soma que move o enredo de Outlander.

 

Claire Fraser - Outlander

 

Tanto no livro quanto na série, Claire é exposta a vários tipos de violência. Seja contra si ou contra Jamie – a figura do “segundo” interesse amoroso a quem passa dedicar bastante tempo. O estupro é o mais frequente, mas vale comentar o assédio que a personagem confronta de queixo empinado. Pequenos e grandes choques de realidade não enfrentados em seu presente, mas não demora muito para que ela note que as circunstâncias que a cercam estão ali para silenciá-la. Para mantê-la nas sombras. Principalmente quando é usada para ser a esposa encomendada do jovem Fraser – já que sua única opção é fazer o que é mandado se assim quiser sobreviver nesse novo mundo.

 

É quando a questão de época começa a bater muito forte. Não só isso, como a verdade que sua figura por completo é um lixo. A começar, claro, pelo mencionado fato de que Claire é inglesa. Uma inglesa imersa em uma treta entre seu povo e o povo das Terras Altas.

 

De início, ela é a vilã. Que sabe demais, diga-se de passagem. Quadro que não muda tanto assim justamente pelo fato de que Claire é mulher.

 

Em linhas gerais, Claire tem que enfrentar a diferença de realidades até chegar o tempo em que não fica mais quieta. Quando chega esse tempo, ela mexe com a virilidade masculina. O que é algo maravilhoso! Só que seus atos custam muito do seu mental e emocional porque ela se encontra em um campo minado. A personagem faz o que faz na chance de retornar às perdas e, obviamente, que as circunstâncias se alteram ao se apaixonar por Jamie. É quando seu foco de luta dá uma alterada. Uma outrora luta individual se torna uma luta de dois, mas seguimos vendo o furor dessa jovem.

 

“Furiosa, transtornada e fisicamente desconfortável demais para dormir, eu passara a maior parte da noite acordada, remoendo o que Jamie dissera e com vontade de me levantar e chutá-lo em algum ponto sensível. Se eu fosse objetiva, o que não estava com a menor disposição de ser, teria admitido que ele tinha razão quando dizia que eu não levava as coisas com a devida seriedade. Mas ele estava errado quando dizia que era porque as coisas eram menos precárias no lugar de onde eu vinha — onde quer que fosse. Na realidade, pensei, o mais provável é que o contrário é que fosse verdadeiro”.

 

Claire se sente humilhada com um episódio que transcorreu devido a um ato impetuoso que fez o grupo de Jamie cair em uma cilada. Pelo caos provocado, a personagem precisa “pagar” para que ele seja enaltecido pelos homens que o acompanha. Em outras palavras, ela precisa responder pelo erro. Ação que visa recobrar o respeito que ela tirara do seu marido (sim, ela é casada duas vezes). É neste instante que ela cai na real visto que não tinha sequer parado para refletir sobre onde estava. Na negação, a protagonista crê em uma encenação teatral sobre a Era dos clãs com grande verossimilhança. Uma ilusão que se quebra no momento que aquele tempo revela sua verdadeira faceta.

 

O quote acima se refere a um capítulo inteiro de negociações que refletem o horror de Claire em ser subjugada (e tem mais só que não darei spoilers). Ela vê que, na Escócia comandada por clãs, mulher deve obediência e serventia (em todos os âmbitos). Caso quebre essas regras, a mulher paga com pulso de fogo. É nesse choque que começamos a refletir sobre as questões de época. Uma justificativa que não é aplicável a todo o momento na ficção.

 

O lado bom da escrita de Diana é que ela suaviza determinados instantes para que não fiquem escabrosos. O livro é longo e torná-lo um circo de horrores seria ultrajante. Felizmente, a autora se usou disso para respaldar algumas situações antes mesmo delas ocorrerem. Ainda sim, não tem como afugentar a indignação e nem o incômodo. Penso que é o que se paga por gostar de drama histórico. Isso se ele for um tanto condizente à época, algo que Game of Thrones (a série) falhou e justificou como o dito único caminho para Sansa amadurecer no futuro.

 

Vocês me respeitem!

 

Claire-Fraser---julgamento-bruxaria

 

Tudo que ocorre com Claire ao longo dessa história rebate em seu amor-próprio. Ela se vê atordoada com a violência sendo que uma parte de si conhece aquele plano de fundo. Só que esse conhecimento não desperta de pronto visto que a personagem só quer saber de sair dali.

 

Amor-próprio se saiu como o escudo de Claire. A marcha de emergência. Detalhe da sua personalidade que é muito forte e que a sustenta entre esses homens. Por seus olhos, vemos o quanto perdemos esse tipo de amor justamente na dominância masculina. Em clima de extrema violência e de humilhação. Perdemos toda a nossa dignidade. Até digo o se sentir como o bode expiatório toda vez que um homem se vê abalado pela mulher e quer dar seu próprio jeito para “tirá-la de cena” – o que é irônico em Outlander porque é uma mulher que tenta tirar essa personagem de cena.

 

O choque de Claire atiçou o seguinte raciocínio dentro de mim: a realização do quanto o amor-próprio das mulheres, cultivado ou não, é uma das rédeas que seguem controladas pelo patriarcado e pelo sexismo. O amor-próprio é aquele ponto que nos assegura e que os homens sabem que podem usá-lo ao seu favor. Basta encontrá-lo e atingi-lo. Uma vez atingido, o que normalmente vem em seguida é manipulação para assegurar a mulher em seu dito lugar. Longe do destaque. Inclusive, controlada, pois, sem autoestima, não há a crença em si mesma.

 

Vale acrescentar sobre o quanto esse mesmo amor-próprio sofre influência do meio, onde pode ser abalado ou fortalecido. Esse amor é de nós para nós, mas sempre há pessoas que conseguem se intrometer nesse cultivo e nos fazer sentir menos de quem somos. Claire passa por isso várias e várias vezes. Só que sua situação pede uma adaptação visto que o conflito do primeiro livro é levá-la rumo ao caminho das pedras. Suas adversidades testam sua meta de retornar ao presente e o sucesso/insucesso disso vem do quanto ela não quer se ver à mercê desse impasse.

 

Foi nessa entrelinha de amor-próprio que Outlander mexeu com todas as estruturas de uma mulher que sempre teve consciência do espaço que ocupa e do respeito que tem por si mesma. Um amor de si para si que é sua defesa atemporal contra trolls. Apesar dos cenários serem diferentes, eu mesma me senti atacada pelo ocorrido com a personagem porque me lembrei das várias vezes em que meu valor foi lançado no esgoto por algum homem e o quanto isso me deixou indefesa. Desvalidada. Sem autoestima alguma. Além disso, do quanto passei boa parte da minha vida caçando validação.

 

Parece uma coisa: você tem que ser aceita pelo homem e só. Não!

 

Ao passar o que passou, era plausível esperar que a voz de Claire cessasse. Porém, ela seguiu imparável. Aos poucos, a personagem muda o jogo e captura Jamie como seu aliado. Fato que indica a transformação desse casamento encomendado, a começar por ela ganhar espaço entre os homens dos clãs. A contragosto, mas consegue. Alguns a odeiam. Outros a apreciam de longe. Ademais a desejam impropriamente. Mesmo depois de vários cenários consumados ou não de violência, a estrangeira refuta abaixar a cabeça – e o resultado é colocar todo mundo em perigo.

 

Mulher é vista como perigo a partir do momento que tem consciência de seu espaço. Uma vez que tem consciência de quem se é e do que pode fazer. Uma vez que usa seu amor-próprio como sua melhor defesa. Claire deixa evidente, a partir do momento que decide se impor, que quem dita suas regras é ela mesma.

 

Ou, como dizemos no século 21: lugar de mulher é onde ela quiser.

 

Claire Fraser - Escócia

 

Outlander dá à sua protagonista todos os enfraquecimentos possíveis e inimagináveis para que ela realize sua própria diferença. Não é fácil, pois o cheiro de ameaça é pungente e frequente. Além disso, ela é, por umas boas 800 páginas, nada bem-vinda. Ainda sim, Claire dá seu jeito de ser sua própria heroína. Chega uma hora que nem a morte a faz hesitar para se proteger contra os homens, especialmente se essa possibilidade tem a ver com retornar para casa.

 

Ao estar por conta própria, Claire luta pela integridade. O velho comportamento de não tombar sem lutar. Quantas de nós não faz isso todo santo dia? Principalmente em ambiente de trabalho?

 

“Esta época ainda era, de muitas maneiras, irreal para mim; algo saído de uma peça teatral ou de um desfile de fantasias. Comparadas às visões de guerra mecanizada em massa, de onde eu vinha, as pequenas batalhas que vira — alguns poucos homens armados de espadas e mosquetes — pareciam-me pitorescas em vez de assustadoras. Eu estava tendo problemas com a proporção das coisas. Um homem morto por um mosquete estava tão morto quanto outro atingido por um morteiro. A questão é que o morteiro matava impessoalmente, destruindo dezenas de homens, enquanto o mosquete era disparado por um único homem que podia ver os olhos daquele a quem matava. Isso era homicídio, parecia-me, e não guerra. Quantos homens eram necessários para fazer uma guerra? O bastante, talvez, para que não tivessem que ver uns aos outros? E, no entanto, aquilo obviamente era guerra — ou ao menos uma questão séria — para Dougal, Jamie, Rupert e Ned. Até mesmo o pequeno Murtagh de cara de fuinha tinha razões para uma violência além de sua inclinação natural.”

 

Essa é uma das passagens mais significantes de Outlander e que desperta para a essência da problemática do primeiro volume. Claire, em seu papel de narradora, nos entrega o que não enxergamos conforme o andar da sua carruagem pela Escócia de 1700. A personagem passa em nossa face o choque de épocas, algo que ela não havia feito com clareza desde que seu tempo se alterara.

 

Um choque que é apurado em desconfortos que surgem ao longo da leitura. Vale dizer que até Jamie está incluso em vários problemas, mas ele não interessa no momento.

 

Como uma mente dos anos 40 confrontaria as de 1700 e tralala? Ainda mais em países diferentes? Sendo uma mulher? Ela afirma que Jamie nublou seus pensamentos desde o casamento e sua consumação, o que é aceitável visto que sua vida se transforma em curto espaço de tempo – e tal decisão serviu para mantê-la viva das garras de Black Jack Randall que tem uma obsessão doentia por Jamie e tem a cara de Frank (o marido de Claire no presente).

 

É nesse momento que Diana justifica o que ocorre e por que ocorre. Ela testa, muito perceptivelmente, a mente do leitor nesse quesito. Penso que especificamente das mulheres. Afinal, eu sou uma mulher nascida na década de 80 e que viveu os anos 90. Hoje, vivo um tempo com as ondas do feminismo contemporâneo e que me abriram os olhos sobre quase tudo que passei antes de chegar à vida adulta. É um choque também porque há coisas que passei que sempre considerei normais. Ou, na pior das hipóteses, que foram minha culpa.

 

O ocorrido com Claire avisa que as épocas conflitam e que ela não pode inserir suas crenças/comportamentos de 1940. Sejam quais forem. O mesmo vale para o meio. Um meio masculino que pouco se importa com as mulheres. A mensagem aqui fica muito clara de uma mulher vs. vários embustes (à primeira vista). E são esses embustes que a personagem precisa convencer se assim quiser sobreviver.

 

De novo, a questão da adaptação que é excruciante para Claire.

 

Com essa passagem, Diana libera o espaço para vermos como Claire se desenvolve a partir dali. Ela seguirá submissa? Obedecendo a Jamie cegamente? Temendo os homens que vivem em peso ao seu redor? Fechar-se para pagar teatralmente de esposa-escocesa e sobreviver?

 

Claire Fraser segue seu percurso indesculpavelmente e não aceita menos do que acha que merece. Depois desse choque, o que ocorre é o auge do desenvolvimento de uma personagem que seguirá lutando pelo seu espaço. Não interessa em que linha do tempo for arremessada.

 

“E quanto às razões? Um rei em vez de outro? Um Hanover em vez de um Stuart? Para mim, não passavam de nomes em um diagrama na parede da escola. O que eram, comparados a um mal inimaginável como o Reich de Hitler? Fazia diferença para os que viviam sob aquele reinado, suponho, embora as diferenças pudessem me parecer triviais. Ainda assim, quando o direito de uma pessoa viver como deseja foi considerado trivial? Uma luta para escolher o próprio destino valeria menos do que a necessidade de pôr fim a um grande mal? Revirei-me na cama, irritada, esfregando delicadamente meu traseiro dolorido. Olhei com raiva para Jamie, enroscado como uma bola junto à porta. Respirava regularmente, mas de leve; talvez ele também não conseguisse dormir. Esperava que não. No começo, ficara inclinada a considerar toda essa notável desventura como um melodrama; coisas assim simplesmente não aconteciam na vida real. Já sofrera muitos choques desde que atravessara o círculo de pedra, mas o pior até o momento fora o dessa tarde.”

 

Eu concordo que esse evento de Claire é o pior. Mexeu com as minhas estruturas. O lado “bom” é que, até onde li e vi Outlander, Diana parece destemida a evitar o estupro, seja com qualquer mulher da sua saga. Algo que considero ótimo, se querem saber. É uma ínfima prova de que, até para dramas históricos, há outras maneiras além dessa pauta de mostrar que a mulher foi vulnerável nessas épocas. Nesse caso, a autora partiu para a obediência matrimonial e que não deixa de ser horrendo.

 

É um instante estarrecedor e transformador. Principalmente para o casal. É aqui que Jamie passa a se transformar em aliado e é convidado a compreender a realidade de Claire. Há um processo de desconstrução, por assim dizer, voltada a ele. Sutil, mas tem. Ato que é a chave de sobrevivência dela – mas não pensem em algo formidável porque menino Fraser é uma porta.

 

Por viver nesta época, eu mesma não consegui olhá-lo com indiferença. Eu quis esganá-lo! Porém, tenho que me lembrar dessa questão de choque cultural. Além disso, que Claire negociou até ver que não haveria chance a não ser “ceder” (“ceder” porque a bicha lutou até mesmo na hora do pulso de fogo).

 

“Jamie. Jamie era real, é verdade, mais real do que qualquer coisa já fora para mim, até mesmo Frank e minha vida em 1945. Jamie, amante terno e pérfido patife. Talvez esse fosse parte do problema. Jamie preenchia meus sentidos tão completamente que o ambiente em que vivia parecia quase irrelevante. Mas eu não podia mais me dar ao luxo de ignorá-lo.”

 

Claire percebe que o meio do qual se encontra não é irrelevante. Ele tem grande influência sobre sua pessoa, especialmente na sua identidade. Chega o ponto em que ela não pode ignorá-lo e escolhe se moldar a ele. Porém, sem se perder no processo. Assim, ela desbrava suas qualidades sarcásticas, enérgicas e calorosas. Ela usa seus instintos, o que revela uma personagem extremamente imprudente – o ponto que culmina nos grandes problemas de choques de cultura.

 

A protagonista de Outlander é a mulher que testemunhou os horrores da Segunda Guerra e que se deu conta de que também pode lidar com um bando de marmanjo de saia (aka kilt). A começar pelo marido que, pouco a pouco, percebe que essa relação só será possível de ser mantida (inicialmente em sua mentirinha) a base da igualdade. Uma igualdade não social, mas de patamares. Ela demanda ser ouvida – e a parte do vista se dá facilmente pelo excesso de amor-próprio.

 

É fato que na altura dos seus desdobramentos mais trágicos Claire se vê muito ligada a Jamie. Conflitos e drama compõem o que se transformará em um amor que enfrenta as intempéries de dois tempos. O foco de Diana é fazer esse amor ocorrer e seguir ocorrendo. Tem suas nuances problemáticas, mas é preciso seguir a protagonista. A mulher que começa a exigir mais respeito e Jamie é quem passa a aprender essa “equiparidade” entre os sexos (um sonho que não existe em 1700 e alguma coisa). E é interessante porque o rapaz escuta o que a inglesa tem a dizer e passa a respeitá-la (mas não quer dizer que ele não retruque porque retruca sim. Homens!).

 

São atitudes nada pontuais, pois Diana é prolixa. Descreve demais o ponto de vista de Claire, o que não deixa de ser bom, mas é cansativo. Em contrapartida, dá tempo para a autora traduzir o ínterim histórico para embasar suas decisões. Além disso, para assim vermos como isso move os personagens.

 

Ao menos no primeiro volume, há pouco sobre como a mulher se sente entre esses brutamontes. Claire se interpela para sobreviver e as reflexões da protagonista sobre o que a cerca são apresentadas em instantes de precariedade ou de violência – que demoram um bocado para ocorrerem. É ruim, mas não podemos negar que é na precariedade e na violência que tudo de nós vem à tona e ao mesmo tempo é roubado. É quando nos damos um tanto mais de conta de onde estamos e o que devemos fazer – ou simplesmente nos perdemos no processo.

 

Para entender os posicionamentos de Claire é preciso estar muito ligada à história. Os cachos parecem uma menção boba, mas é aí que mora a sua diferença. O tanto que ela preserva sua identidade e sua personalidade. Independentemente do romance que nos cega, a proposta das entrelinhas está nesse amor-próprio do ponto de vista feminino e como ele sofre com os impactos do meio. Um meio que é puramente a figura masculina que toma tudo. Inclusive, a nossa integridade.

 

É essa a diminuta nuance de Claire que trafega quase imperceptivelmente no livro. Uma faceta que clama que autocuidado e amor-próprio somam belíssimos atos de protesto. É nesse ponto que me ative no decorrer da leitura do primeiro livro de Outlander porque é aí que a personagem se torna inspiradora.

 

 

Amor-próprio como nosso maior escudo

 

Claire Fraser - Piloto

 

A expressão de Claire sobre amor-próprio vem do seu posicionamento diante de intempéries. Independentemente de ser casada com Jamie, ela precisa constantemente pensar em si mesma. Como sobreviverá em meio ao desconhecido e diante de pessoas que claramente a odeiam (vale dizer que ela sofre com acusações de ser espiã). Como ela pode respeitar os homens sem se sentir ludibriada ou porque só precisa deles para ganhar um tipo de vantagem? Para todos os questionamentos, a soma é de uma personagem que tem noção de que sua vida depende de si mesma – e é meio triste ver isso sumir um pouco por motivos de mozão, mas nem tem a quem culpar porque a proposta do livro é enaltecer o romance.

 

Demora, mas, na Escócia, Claire volta a ter sua independência e vemos com clareza o quanto esse amor-próprio a empodera. Ela deixa claro que é sua própria companhia e que não há erro algum nisso. Nem em confiar e cuidar de si mesma. A protagonista se mune do que acredita ser seu melhor para se manter respirando pelo tempo de se abrir caminho de volta às pedras. Algo que não dura muito, pois logo a maior vantagem de todas se apresenta: ela conhece o futuro. O que a coloca como, além da estrangeira, a bruxa branca.

 

Claire passa pelo arquétipo de bruxa no primeiro volume de Outlander, pois a maneira como ela se comporta, pensa e se expressa não é o dito normal. Ela passa a ser vista, especialmente por outras mulheres (as poucas mencionadas no livro) como uma ameaça. Da mesma forma que é proibida de se impor, essa imposição encanta os homens. Um encantamento dissimulado porque suas ações impertinentes são vistas como afronta. E sabemos como homens afrontados reagem ao serem comandados por uma mulher. Querem esmagá-la.

 

E tudo começa com a expressão da aceitação de cabelos cacheados e revoltos. Apesar de se sentir inadequada de início, a personagem sabe do seu valor e tenta se manter fiel ao máximo a quem é. Fiel à sua versão de 1940 e assim ela segue a história. Unindo admiradores e odiadores que centralizam o foco não mais nela, mas na unicidade que o casal se transforma.

 

Afinal, Jamie passa a ouvi-la. Com isso, aparece a autoridade de Claire entre os homens de clã.

 

O que é problemático se colocarmos nos tempos atuais. Uma mulher precisa ser ouvida só quando um homem lhe dá atenção? A ponte influente para outros homens levá-la a sério? Infelizmente, isso ainda ocorre e há quem normatiza.

 

Claire me fez pensar bastante (pela milésima vez na vida) como nós, mulheres, precisamos lutar demais para ter o nosso espaço. Para sermos ouvidas. Para cultivarmos diariamente o amor-próprio que pode ser esmagado a qualquer momento. Que mesmo com a aceitação de cachos revoltosos ainda temos que brigar pelas nossas vozes e pelo nosso corpo. Que mesmo em postos de liderança ainda refletimos demais sobre pesos e medidas para não sermos retalhadas, humilhadas ou sofrermos com manipulações, especialmente em ambientes corporativos.

 

Isso não distancia também a mulher do lar, que tem muito da sua voz e dos seus posicionamentos roubados porque ainda há essa mentalidade de que o homem é o grande e único provedor da casa. O que aniquila quaisquer chances dessas mulheres de ter independência e de perseguir os seus sonhos.

 

Claire bate sutilmente nessas teclas e mostra sempre que possível a Jamie que as mulheres do futuro conseguiram ser um tanto mais empoderadas e que não há mal algum aplicar o mesmo pensamento entre as escocesas (vide a série). O que me faz mencionar Jenny, irmã do Fraser e outra personagem incrível, que ama seu papel de cuidar da casa e de ser mãe. Só respeito eu tenho por ela também.

 

Outlander não é uma bíblia de feminismo justamente por questões de época, mas não quer dizer que não inspira. Dá cócegas sobre a questão do amor-próprio feminino. Várias façanhas de Claire faz quem lê pensar, pois recriam a mencionada verossimilhança com o que vivemos há muito mais que a nossa existência aqui.

 

Todos os dias batalhamos para sermos vistas e ouvidas. Para contornar o outrora “hábito” de depender de validação masculina – que não faz nenhum favor a nós. Amor-próprio cabe a nós cuidar e cultivar diariamente, pois é nossa melhor defesa. Algo que venho descobrindo muito recentemente.

 

É difícil, mas não devemos abaixar a cabeça e nem aceitar menos do que podemos. Não devemos ceder uma das rédeas mais delicadas da nossa existência: o amor que damos a nós mesmas.

 

E delicadamente Claire trafega esse caminho e bebe muito male tears. Mostra o quanto tem que haver essa manutenção de amor-próprio porque é a fonte da confiança e da defesa moral. Uma soma que nos dá um escudo atemporal. Duradouro e imbatível, que nos dá força para brigar por quem somos. Pelo que queremos. Para mostrar que esses ditos conflitos de época não são razões para nos botar para baixo. Temos que seguir de queixo empinado e sempre adiante.

 

Claire Fraser é sim uma mulher à frente do seu tempo. Ela tem um autoconhecimento profundo de si mesma e a vida a endureceu para ser sua própria defensora. A própria protagonista da sua história, mas não minimizando sentimentos positivos, como amar e se deixar ser amada. Ela é uma personagem que pode até caber no conceito de personagem completa, mas não ouso entrar em detalhes sobre isso. Preciso ler os livros conseguintes para retornar a esse ponto da conversa.

 

De qualquer forma, essa mulher não deixa de ser um exemplo de aceitação de si para si. Ela se ama e busca nesse amor a sua força para sobreviver a uma Escócia que não a reconhece. Que a minimiza por ser mulher. Apesar desse reconhecimento vir com certo peso da parte de Jamie, o que conflita essa autoridade da personagem no seu próprio enredo, há muito que se aprender com Claire Fraser. A começar que, Independentemente do meio, temos que nos colocar em primeiro lugar. Parar com essas adaptações para deixar o patriarcado mais confortável.

 

A regra de sobrevivência de Claire é uma só: manter viva a verdadeira chama de quem somos. No fim, dependemos de nós mesmas. O que não necessariamente significa que estamos sozinhas. Porém, é em nossa própria companhia que descobrimos nosso melhor e nosso pior. É nessa mensuração que nos protegemos e, com a glória da Deusa, saberemos como seguir adiante. Saberemos como cuidar e cultivar o nosso amor-próprio. Que assim seja!

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