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19/jan

De quando em quando, nos deparamos com pessoas que viveram além de seu tempo. Tais pessoas desafiaram a gravidade. Quebraram barreiras. Exploraram realidades e previram eventos que, hoje, se tornam cada vez mais reais. Nada coincidentemente, existem três autoras que se encaixam nesse perfil.

 

Suas vozes ecoam dentro de milhares de pessoas. Principalmente de mulheres visto que essas incríveis e desbravadoras autoras decifram e dissecam a alma feminina com toda a simetria imperfeita presente em cada uma de nós. Jane Austen, Virginia Woolf e Clarice Lispector, sendo a última a que mais tive contato com as obras.

 

Recentemente, outro trio visionário me deixou sem chão (no melhor sentido da expressão). Margaret Atwood, Maya Angelou e Madeleine L’Engle – autora do livro que me motivou a escrever este post. Cada uma me tocou e me transformou. Me fez crer ainda mais que somos sim capazes de ser aquilo que quisermos e que nos dispomos a ser.

 

Detentoras do dom de contar histórias, sejam fantasiosas ou baseadas em uma realidade não tão distante de ser concretizada, escolhi citá-las porque cada uma de suas obras, seja O Conto da AiaMaya Angelou: The Complete Poetry e Uma Dobra no Tempo, possibilitou que eu expandisse um pouco minha visão de mundo. Principalmente quando questionam o que é ser mulher e qual é seu papel na sociedade. Seja por Angelou, que tem um tom muito mais acentuado, ou por meio do meu amor incondicional por universos fantasiosos.

 

Hoje, a meta é um universo fantasioso.

 

Uma Dobra no Tempo (A Wrinkle in Time) foi publicado em 1963 e faz parte da quintologia Time Quintet. Este livro é o mais popular, considerado um clássico da literatura infantojuvenil norte-americana, que conta com a construção de um universo único e amplamente vasto. L’Engle explorou, de maneira atemporal, temas que hoje dão arrepios na nuca de quem reflete os caminhos aos quais nós, como seres humanos, decidimos trilhar. Ela mesclou fantasia e ficção científica no enredo. Apresentou conceitos que nos remetem a teorias matemáticas e à ciência.

 

Poderia propriamente dizer o que acontece linha por linha no decorrer das aventuras de Meg Murry, Charles Wallace Murry e Calvin O’Keefe rumo à Camazotz. Além disso, sobre a importância do papel dado ao trio Mrs. Ws. Mas, o que realmente importa, é se manter fiel à real intenção da autora. No caso, abrigar questionamentos positivos e exploradores dentro de seus leitores.

 

Mesmo que tenha vivenciado tal experiência anos depois de sua publicação original, digo com propriedade que a intenção de L’Engle se mantém intacta. Ao ler essa curta primeira aventura, entendi porque ela escreveu para crianças, mesmo tendo mais experiência com literatura para adultos.

 

A autora encontrara um novo nicho de escrita e deu forma a novos mundos que apenas uma criança seria capaz de usufruir. Contrária a qualquer geração, ela possuiu o genuíno entusiasmo por novas ideias, principalmente por não ter fechado as portas e as janelas da sua imaginação.

 

“The theme in A Wrinkle in Time is one that is vital to all of us in the age of cybernetics: we face the challenge of a de-humanized existence where the computer make all our decisions for us unless, like the children in A Wrinkle in Time, we hold on to the power of words, to great literature, art and music, to moral precepts, and to our capacity to reasoning and for love”.

 

Quantas vezes nos vemos dominados pelas telas? Sejam elas pequenas, que seguramos na palma da mão? Ou pelas maiores, que convivemos no ambiente de trabalho ou em nossas casas? Basta olhar para o lado, para frente e para trás, seja no transporte público, restaurante, cinema, entre outros lugares públicos, que veremos pessoas vidradas em seus respectivos mundos virtuais.

 

Com a famosa resposta na língua que “não temos tempo”, vivemos cada vez mais dentro de nós mesmos. Por vezes, lidando com episódios de extrema solidão, ansiedade e estagnação.

 

Foram essas algumas das reflexões tiradas após a leitura deste precioso marco da literatura infantojuvenil. Por si, o livro fala muito sobre o que faz de nós quem somos e o poder que a nossa personalidade tem perante nossas escolhas. Mesmo que elas sejam, por vezes, dominadas pelo excesso de confiança ou de insegurança que nos assombra em diferentes estágios da vida.

 

“We can’t take any credits for our talents. It’s how we used them that counts”.

 

A citação acima simboliza essa história. Além de suas discussões filosóficas e da exploração temporal e espacial, o principal elemento do livro é fazer com que seu trio central entenda que: quem eles são é o bem mais precioso que possuem. Que cada uma de suas especificidades os ajudará a entender a missão. Não só em busca de um ente querido, mas em busca de si mesmo.

 

Graças à explicação de Mrs. Who, parte integrante do trio sobrenatural composto também por Mrs. Which e Mrs. Whatsit, que Meg, Charles Wallace e Calvin compreendem que deverão viajar por uma dobra no tempo. Um trajeto que será feito por um tesseract. Meio que pode ser interpretado como um buraco negro dimensional. Para a geometria, seria como um cubo analógico de quatro dimensões. Dentro da história, seria a quinta dimensão. Bugou? Relaxa que vocês não estão sozinhos!

 

Mesmo falando sobre enigmas em boa parte do tempo, dado que se expressa com analogias ou citações literárias/filosóficas, Mrs. Ws impactam no comportamento das crianças. Curiosamente, os presentes dados fogem do conceito material atrelado.

 

Mostrando a diferença entre qualidades e defeitos, o trio é presenteado com aquilo que representa sua maior força. Mesmo sem compreenderem inicialmente do que se trata, tais presentes serão essenciais para que enfrentem o que encontrarão além da dobra no tempo. Calvin é presenteado com um upgrade em seu talento como comunicador. Meg ganha suas próprias falhas que ela mesma diz que tenta se livrar, mas Mrs. Who insiste ao dizer sobre sua utilidade. Por fim, Charles Wallace, que ganha a sua infância e a resiliência agregada a ela.

 

“We do not know what things LOOK like, as you say”, the beast said. “We know what things ARE like. It must be a very limited thing, this seeing”.

 

Uriel é o primeiro planeta que o trio chega antes do destino final. É nesse utópico local que eles se deparam com amáveis e positivas criaturas, semelhantes a centauros. Lá, descobrem as verdadeiras identidades das Mrs., que viviam na carcaça humana para se ambientarem na Terra.

 

Mrs. Ws tiveram um papel importante para combater uma crescente força maligna intitulada The Black Thing que, gradativamente, toma conta de diversos planetas, como a Terra. Graças à visão da Happy Medium, as crianças têm o primeiro vislumbre daquilo que as aguarda em um lugar totalmente dominado pela escuridão. Um lugar que representa, de uma maneira atemporal, tudo que há de errado em uma civilização.

 

Camazotz tem uma atmosfera escura e fria. Totalmente oposta às nuances encontradas na Terra. Fato que faz com que as crianças sejam constantemente desafiadas. São os irmãos Murry que enfrentam as maiores dificuldades visto que suas personalidades são exaltadas. Consequentemente prejudicadas neste arrepiante planeta, onde tudo parece funcionar no mesmo passo e ninguém sente dor e nem mesmo tem a capacidade de pensar e tomar decisões, elas acabam por descobrir que esse lugar está tomado pelo IT, o cérebro gigante.

 

Entre a constante teimosia de Meg e a arrogância de Charles Wallace, Calvin se sai como uma bússola mediadora do trio. Tranquilo e boa parte do tempo positivo, o garoto sempre tenta manter os pés no chão. Mesmo quando Charles Wallace cai na influência de poderes hipnóticos, sua lealdade e seu poder de persuasão, presentes em seu dom de comunicação, ajudam o grupo a decifrar um dos enigmas deixados por Mrs. Who.

 

Uma Dobra no Tempo - Resenha

 

Mesmo se tratando de um universo fantástico, Uma Dobra no Tempo consegue, no mais direto linguajar, nos transportar para uma realidade na qual dificilmente gostaríamos de viver. E é nessa sacada que os protagonistas abraçam seus presentes, especificamente Meg, cujo propósito de criação de L’Engle fica visível.

 

Todo pensamento crítico, analítico e emocional não existe em Camazotz. Uma matéria escura toma conta de cada fio de existência e prega um mundo sem sofrimento e sem diferenças. Aqui, o padrão é a ordem constante. Por mais surreal que pareça, é o que permite as pessoas que ali vivem de continuar. Afinal, alternativas foram retiradas de seu cotidiano.

 

A ordem natural das coisas é alterada com a chegada de Meg, de Charles Wallace e de Calvin. Mesmo que eles tenham sido afetados pela normativa do planeta, são suas ações que mudam a narrativa. O poder da comunicação, a interpretação e o inerte amor que nutrem são a chave para concluir essa emocional e compartilhada aventura.

 

É exatamente essa a mensagem que consegui tirar após a leitura dessa curta e reveladora obra.

 

Uma Dobra no Tempo e uma segunda chance

 

Uma Dobra no Tempo - Resenha

Imagem: via EW.

 

Uma Dobra no Tempo ganhará uma nova adaptação que será produzida pela Disney. Porém, e anteriormente, uma versão foi exibida no canal ABC em 2003. Diferente do material original e da riqueza de temas abordados, recriar a visão de Madeleine L’Engle não foi uma tarefa muito fácil. Ainda mais quando, naquela época, se careceu de recursos. Tanto criativos quanto financeiros.

 

Certos projetos precisam ter acesso a recursos, como efeitos visuais, investimento financeiro e a equipe correta. Em frente e atrás das câmeras. Philip Pullman é um exemplo de autor que não teve seu livro honrado nas telonas quando a Warner Bros. decidiu adaptar A Bússola de Ouro, primeiro volume da trilogia Fronteiras do Universo. Mesmo caso da saga Percy Jackson e de Eragon, que possuem uma imensa fanbase e foram alvos certeiros para adaptações.

 

Uma soma de fracassos que caiu nos mesmos erros de seus estúdios. Sejam pelas interferências ou pelas mentes responsáveis em dar vida a essas histórias. Foi por essa razão que a Disney tentará se redimir com uma adaptação mais elaborada de Uma Dobra no Tempo. Inclusive, aparentemente de acordo com que se espera de uma obra como essa.

 

Gostando ou não, diversidade e representatividade devem ser levados em conta. Devem ser cada vez mais parte das produções até se chegar ao ponto de não ser mais preciso usar tais palavras. Patty Jenkins rompeu barreiras ao dirigir o tão aguardado filme sobre a heroína mais popular da cultura pop – Mulher-Maravilha. Ato que se transformou em um grande marco, independente da inclinação de vocês para a invasão nerd na grande telona. Vê-la ressurgir após um longo break, desde Desejo Assassino (2003), e carregar nas costas um filme que custou mais de 100 milhões, deve sim ser comemorado.

 

Bom, não deveria ser. Afinal, existem talentosas diretoras em ascensão que só precisam que alguém aposte nelas e as reconheçam na indústria.

 

Uma Dobra no Tempo - Resenha

 

Mencionei a redenção da Disney com a adaptação de Uma Dobra no Tempo. Desta vez, o estúdio apostou em uma promissora mulher que ficara nos holofotes durante o Oscar de 2015, após o início da conversa que gerou a hashtag #oscarsowhite: Ava DuVernay. Famosa por Selma, seu maior desafio até então considerando que sua carreira, esta iniciada em 2006, fora sumamente focada em curtas e documentários.

 

Eis então que a diretora se junta à Patty Jenkins no hall seleto de mulheres em produções milionárias. Pode parecer um mero grão de areia em uma vasta praia, mas elas podem e devem abrir portas para que mais mulheres tenham oportunidades. Não só com blockbusters, mas em filmes independentes ou de médio orçamento.

 

Essa nova adaptação de Uma Dobra no Tempo expandirá o universo criado por L’Engle e um dos pontos positivos foi como escalaram a protagonista Meg Murry. O papel ficou a cargo da jovem Storm Reid, a primeira representação não caucasiana da personagem até então.

 

Representatividade importa e lhe darei um exemplo que vivi na pele quando assisti Matilda – The Musical em Londres. Bom, em linhas gerais, o livro de Roald Dahl embalou minha infância. Além de ter sido o primeiro livro que li, também criou meu fascínio por fantasia e, consequentemente, por magia. A personagem sempre foi representada, tanto nos desenhos do livro quanto na adaptação para o cinema, como uma menina branca. Independente da quantidade de revezamentos entre as atrizes no musical, o dia em que assisti minha personagem amada representada por Zaris-Angel Hator, uma escolha que hoje ainda é “chamada de ousada”, me emocionei.

 

Sim, sou branca. Talvez, não seja meu direito falar sobre outras representatividades, mas sei reconhecer o quão importante é se sentir parte de algo. Representado. Ainda mais em um veículo que impacta e vislumbra tantas pessoas ao redor do mundo.

 

Dentre universos paralelos, lições de vida e representatividade, Uma Dobra no Tempo, que tem estreia prevista para 9 de março nos EUA e 29 de março no Brasil, pode se tornar um grande sucesso de bilheteria. A aposta da Disney é grande para a produção, que conta com um estelar elenco que, desta vez, servirá como coadjuvante. A ação recai sobre o trio de jovens atores.

 

Mas o que realmente conta no fim é que barreiras foram quebradas. Não apenas a caminho da quinta dimensão, mas também no mundo real, onde pessoas devem cada vez mais ser vistas e escutadas. Independente de gênero e de raça.

 

“The only thing faster than light, is the darkness”.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento.

Mari
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