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05/fev

Esta resenha/reflexão sobre Frankenstein estava esquecida na minha pasta de arquivos de 2016 (salvo engano) e resolvi publicá-la antes que eu me convencesse de que deveria excluí-la por ter sido deixada de lado por tanto tempo. Tal leitura foi feita no decorrer do clube do livro do I Am That Girl (que morreu) e gostei bastante da experiência. Principalmente porque, se também não me falha a memória, compartilhei de muitos feelings porque tinha terminado a última temporada de Penny Dreadful (saudade eterna da minha seriezinha).

 

Antes de partir para a pergunta crucial do encontrinho do clube, Frankenstein tem Mary Shelley como sua autora. A mulher que assina o primeiro livro de ficção científica da história. Mesmo sem querer, ela revolucionou uma dita panelinha exclusiva para homens e há homens que se esquecem/esqueceram da sua importância nesse âmbito. Nem preciso dizer que o motivo é gênero, né?

 

Em meus passeios pela internet, descobri que esta obra clássica é um sci-fi soft. Uma classificação da ficção científica que aprecio muito e que denuncia o quanto eu realmente curti me aventurar na companhia de Frankenstein. Seu enredo amarra experimento e a moral do desejo de Victor Frankenstein em confrontar a linha tênue entre a vida e a morte. Ato que dá origem ao Monstro de Frankenstein e que abre margem para a questão: até onde você iria para ter o que quer? O protagonista foi longe dentro de um ideário de ser melhor que os cientistas que chama de rasos e se deu muito mal no processo.

 

“Eu jamais poderia imaginar-me envolvida em aflições românticas ou acontecimentos maravilhosos; contudo, eu não ficava presa à minha própria identidade, e eu podia povoar aquelas horas com criações para mim muito mais importantes, naquela idade, do que minhas próprias sensações”.

 

Shelley não teve uma educação formal. Ela se alimentou dos livros que o pai escritor tinha na biblioteca, válvulas de escape para uma pessoa descrita como detentora de uma mente aguçada. Uma fuga quase necessária devido à época que vivia. Ler automaticamente dá insights para a escrita e foi aos 19 anos que ela começou seus rascunhos, sem nenhum tipo de pretensão, até nascer Frankenstein. Obra escrita entre os anos de 1816/1817 e que foi publicada em 1818 – obviamente aos moldes de Jane Austen, sem o nome da mulher na capa do livro.

 

Há um ponto interessantíssimo no background de Shelley: a mãe feminista. Figura que publicara Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher (The Vindication of the Rights of Woman). Ambas não chegaram a se conhecer porque Mary Wollstonecraft falecera no parto. Duas mulheres que poderiam ter influenciado uma a outra, mas quem acabou empurrando a autora de Frankenstein para o mundo literário foi o marido.

 

O marido de Shelley foi quem a inspirou a continuar Frankenstein, conquistando o posto de grande participante na reputação literária dela. Ele queria que ela migrasse das páginas para a fama a fim de honrar os pais. Demorou um bocado para que ela realmente levasse essa nota a sério, pois a vida marital e o papel de mãe a consumiam por boa parte do seu tempo.

 

Na vida há sempre brechas e foi em uma brecha que Frankenstein nasceu. Mais precisamente na Suíça, em um dia de péssimo clima que deixou todo mundo em casa e que abriu espaço para um desafio. Cada pessoa presente escreveria uma história sobre fantasmas. Um grupo de 3 homens contra 1 mulher. Alguns, já publicados e outros consagrados. Ela? Vamos dizer que fazia da escrita seu hobby secreto.

 

Shelley queria que sua história abordasse o medo da nossa própria natureza e contasse com uma dose de horror. Uma soma que pudesse congelar quem lê. Tirar o sono de quem lê. A meta era cumprir essas sensações. Até que finalmente encontrasse seu enredo, tudo que ouvia na casinha era a pergunta que, penso eu, deveria ser muito irritante: encontrou a história?

 

O insight para Frankenstein veio em uma conversa do marido com um dos homens na casa. Ambos discutiam as experiências de Darwin e a natureza do princípio da vida. Shelley trabalhou bastante até chegar à ideia de reanimação de um cadáver. Quando bateu nessa quina, ela via com ricos detalhes o estudioso das artes profanas de joelhos ao que tinha criado e aterrorizado com seu sucesso. A partir daí, nasceu o que era para ser apenas um conto já que, como mencionado, o marido inspirou-a a seguir adiante.

 

Eis que nasceu um dos maiores clássicos da literatura inglesa.

 

A obra

 

“Referi-me ao meu desejo constante de encontrar um amigo, alguém com uma afinidade de espírito que até então não me foi dado encontrar, o alter ego, em suma; e exprimi a convicção de que ninguém pode dizer-se realmente feliz se não encontrar essa amizade.”

 

Frankenstein é um livro consideravelmente curto e que começa com cartas de Robert Walton. Homem que narra sua jornada em alto mar que nada mais é o emendo do desdobramento conclusivo da obra. A princípio, o que o personagem relata parece desimportante, mas é ele quem dá voz a um desesperado Victor Frankenstein. Duas vidas que se encontram e que preenchem as lacunas de uma clara perseguição que ameaça a vida do famoso Criador.

 

Até entendermos o que ocorre, Victor encontra refúgio na embarcação e é onde se dá início ao retrospecto dessa história aterrorizadora, muito bem narrada em 1ª pessoa, sobre o Monstro de Frankenstein. Fato que abre a mente de Walton para o achado de seu alter ego, pois, para ele, Victor está sozinho e precisa de amigos. Não apenas amigos, mas pessoas que são seus semelhantes. A chegada de Frankenstein dá uma ocupada no vazio e aguça uma imaginação outrora abatida pela viagem.

 

Nessa interação, há a grande questão do pertencer que, nem sempre, tem a ver em se misturar com a multidão. Pode ter a ver com a necessidade de ser compreendido, nem que seja por uma pessoa exclusivamente. E está aí duas figuras completamente abandonadas.

 

Conversa vai, conversa vem, e Walton vê em Victor a sua dita afinidade de espírito. Ponto de vista que afirma que ninguém é feliz se não encontrar uma pessoa que nos reconhece de primeira. Um respaldo para as cartas que situam a experiência da solidão e a necessidade quase excruciante de ter uma companhia que se assemelhe em ideias e em aptidões. Afinal, “somos criaturas brutas, apenas semiacabadas quando nos falta alguém mais sábio, melhor do que nós mesmos, para ajudar-nos no aperfeiçoamento da própria natureza, débil e falha”. Isso pode ser um tanto perigoso, não? Pois eu acho!

 

Rola uma impressão de que uma grande nhaca acontecerá nesse encontro porque Walton discute o quanto é prestativo, paciente e atencioso. Informações que entregam Shelley como uma autora que traz muito de seus poucos personagens por meio de adjetivos. Nesse encontrinho dá para ver que esse senhor tem a mesma linha de pensamento de Frankenstein e que, possivelmente, não pensaria duas vezes em criar seu próprio Monstro. Há certo júbilo em ser quem são, o que não é nada absurdo porque autoestima arrasa. O que estraga é a arrogância de se achar melhor que geral. Fator esse que é o grande impasse porque Victor não foi o maioral ao desdobrar seu empreendimento (e ele se achava o maioral).

 

Essa singela troca volta a ser resgatada no final do livro, mas, nesse primeiro instante, mostra uma concordância de pensamentos e de comportamentos entre Walton e Victor. Uma discussão que assenta a personalidade do protagonista, que abre o coração sobre os capítulos que originaram a Criatura. É quando vemos que Walton até parece muito gente fina, muito bem intencionado, altruísta, mas é tão quanto arrogante e egoísta. Ambos se simulam, inclusive, pela busca de glamour, só que de perspectivas erradas.

 

Vejam bem: Victor cria seu próprio ser humano para provar que é bom. Walton se sente ludibriado por tamanha grandeza.

 

Vale mencionar a questão de sacrifício em nome de um empreendimento (esse nome usado a torto e a direito no livro) por algo que cada um considera maior que si. A grande missão revolucionária. Walton menciona várias vezes a sua empresa e a história de Victor alimenta o Kraken.

 

Depois das cartas, as páginas seguem por capítulos que remontam a vida de Victor. A infância, a adolescência e depois a fase jovem adulta – a época em que ele resolveu brincar de Senhor da Morte. Passagens que mostram quem são os vínculos mais especiais do protagonista que não estão ali à toa, como a querida Elizabeth e Clerval. Perfeito, mas confesso que as partes narradas por ele são um tanto quanto chatas. A arrogância não tem limites e fiquei ainda mais nervosa porque pensei no Victor de Penny Dreadful.

 

Frankenstein - Victor

 

Pior que a escrita da Shelley é tão boa que você quase cai nessa de que Victor é inocente. Que fez tudo na pureza de seus pensamentos. Que ele só queria testar uma hipótese como não quer nada. Que ele só queria aprimorar a ciência que tanto ama por meio de um leve teste de suas habilidades. Quem é que nunca pensou assim, não é mesmo? Faz parte de quem somos tentar quebrar barreiras, mas a coisa toda muda quando conversamos sobre a vida e a morte que não pedem interferência.

 

Século 18 e temos Victor Frankenstein, o autodidata nas ciências que chama de naturais. Ele reconta sua predileção científica e dá para notar que ele é bastante bitolado. Quanto mais lia, mais ele queria saber. Um curioso nato. Normal, mas daí volto a mencionar o segredo dos adjetivos de Shelley. As aventuras desse personagem partem da obsessão. Característica que se revela como a verdadeira faceta dele e que suprimi a docilidade que existe para cima de quem ama. É aí que notamos que seu lado analítico quer se infiltrar nos lados ocultos da natureza. E esse mesmo lado analítico é seletivo quanto às pessoas que deseja ao seu redor.

 

O mega divisor de águas do livro é a questão da índole. No começo, Victor parece inofensivo. Dono de um interesse genuíno. Só que ler sobre a natureza oculta é diferente de praticá-la com tanto afinco. É aqui que rola a quebra dessa característica. Inclusive, há o desmanche da empatia porque vemos que seus intentos partem de um tipo de temperamento que se resume em paixões impulsivas. Somando interesse + paixão, o personagem não passa de uma arma que pode causar uma catástrofe se estiver com o material certo em mãos.

 

Interesse + paixão deram vida ao Monstro, a maior catástrofe. Dessa forma, o resultado confronta Victor sobre algo mencionado nessa obra e que é de extrema relevância para os desdobramentos seguintes: a profundidade das causas. Estava ali, diante dele, o que nascera de suas mãos. Porém, o personagem se viu como os cientistas que desprezam o que criaram. Ele mesmo se incluiu em um nicho que não queria pertencer, justamente por se achar grandioso demais. Houve a quebra da linha tênue, em que seu cuidado em dissecar e em analisar tornou inviável a reflexão sobre a profundidade. Em outras palavras, como essa infusão da vida seria tratada nos instantes seguintes.

 

Victor despachou seu experimento e espera que tudo fique por isso mesmo. Pela vergonha do insucesso. Barrando a profundidade científica. Barrando a importância do que criara.

 

Victor sente a decepção do seu empreendimento que se transforma em repúdio e em uma ofensiva à sua maravilhosa inteligência. Isso fragmenta sua paixão. Como uma pessoa tão dedicada, tão envolvida e tão impelida a fazer tal experiência dar certo acaba criando algo tão horrendo e descoordenado? Como alguém que diz que aprendeu tudo se vê diante de um resultado catastrófico? A famosa questão de expectativa vs. realidade, o que soa extremamente justo, mas a vida desse personagem se resume ao que se tem no cérebro. Por se considerar o suprassumo da ciência, seus autoelogios acabam como piada interna ao nascer da Criatura.

 

Ah, mas o senhor não é tão impressionante?

 

Frankenstein - Victor e Monstro

 

Essa metidez dele pode muito bem passar despercebida, especialmente quando se chega ao ápice, dos ápices de Frankenstein: o relato do Monstro. Essa é a melhor parte da obra. De encher os olhos. A narrativa da Criatura é a ilustração do que foi feito sem medir as consequências. É quando não conseguimos mais (se é que é possível) ter empatia pelo impetuoso Victor. Um cientista que despacha sua Criação para o mundo, sem mensurar pesos e medidas a não ser a própria reputação.

 

A mente de Victor não abre para o fracasso e é quando vemos o quanto sua grandiosidade é deveras limitada. Sua paixão se limita ao analítico da ciência, o que reflete na ausência de compaixão. Afinal, esse cidadão queria a melhor experiência de todos os tempos e falhou miseravelmente.

 

A parte narrada pelo Monstro é a hora da verdade. Há confissões sobre a criação e o abandono. Inclusive, a falta de conhecimento do mundo externo e da sua própria aparência. Por serem confissões que pesam no peito, é de se esperar que Victor se compadeça pela Criatura no instante do reencontro. É esperado que o cientista se esforçasse para ir atrás do que criou e assim tornar sua vida melhor. É esse o grande desafio da obra que, claro, não culmina no resultado esperado.

 

O único instante sensato do Criador se prova ao recusar o pedido da criatura. Decisão que abre uma nova margem de burradas que são meramente egoístas. Frankenstein poderia ter optado pelo melhor, mas continuou a se nortear pelo óbvio. Já o Monstro tornou todos os personagens secundários, aparentemente desimportantes, como seus tiros de rebote contra quem o criou.

 

Devido a um mundo que não lhe abriu portas, o Monstro de Frankenstein saiu da inocência para a corrupção de caráter. O primeiro baque foi o abandono, mas o ato nunca lhe foi compreensível até ver as pessoas que tanto queria se aproximar, por ter certa consciência de que não seria tão ruim assim, se afastarem de horror diante da sua presença. Situação que deixou meu coração estilhaçado. Senti-me como se tivesse dentro do corpo da Criatura, observando a família mencionada pelos olhos dele. Uma incorporação, que me ocorreu durante a leitura, que me custou alguns dias para sair dessa sintonia. A maior prova do quanto à escrita de Shelley é envolvente.

 

Shelley ainda vende que Criador e Criatura poderão ter uma vida à parte. Porém, ao ter seu pedido recusado, o Monstro alarga o espaço de tragédia. A sua vingança. É quando a história cresce e reencontra seu ponto frio quando a narrativa retorna para Victor. Se a ideia era impactar empatia, eu mesma não caí nessa. Não via a hora de chegar ao fim porque não queria mais estar na companhia desse personagem. De novo, queria furar os olhos dele, na boa.

 

Prestes a terminar a leitura, lá estava a amarração de Victor com Walton. Eles querem amizades, mas desde que sejam do mesmo patamar. Eles não querem riquezas, mas glória. Frankenstein se sente um eleito ao penetrar os segredos ocultos da natureza, principalmente porque não se conformava com as conclusões dos trabalhos rasos de outros cientistas. No fim, o personagem se tornou tão raso quanto a quem julgava. Ele até criou algo grandioso, mas não se preocupou em cuidar do que fez e nem seguir com os estudos. O que ele fez foi fingir que nada daquilo existiu porque era o marco da sua vergonha. Do seu fracasso. Palavras que não rimam com prestígio e tudo que lhe coube foi esconder o resultado embaixo do tapete.

 

Por querer exatidão, por ter acreditado que a ciência é exata, o Monstro é sua mancha curricular. Nada que parte do analítico ganha o formato imaginado e essa foi a lição supostamente aprendida, especialmente quando Victor decidiu não ler mais sobre ciências naturais. Uma decisão que o norteia a grande recusa diante da sua criação, mas que soa igualmente injusta depois do que fez.

 

A glória na ciência

 

Frankenstein - Victor

 

“O perigo que representa a assimilação indiscriminada da ciência”.

 

O quote acima resume perfeitamente este livro. Há o uso indiscriminado da ciência, pois Victor se acha dono da linha tênue entre a vida e a morte. O que o personagem queria era criar uma espécie de seres felizes, puros e que deveriam a ele sua existência. Foi o arrebatamento dessa ideia que o norteou e o seu dito grande empreendimento, sua empresa, foi por água abaixo.

 

Sua ideia não atendeu suas expectativas e Victor nunca soube explicar o motivo. Vejam bem, ele focou nesse empreendimento por meses. Coletou as partes do corpo a dedo. O cara agiu como se fosse o grande salvador da humanidade. Não havia como dar errado. Dois anos o consumiram para dar vida a um corpo inanimado que, no fim, não foi digno do seu apreço. Muito embora tenha conseguido infundir vida a um cadáver, o que o deixou frustrado foi ver que o resultado estava longe do bonito e do perfeito. O resultado não foi nada glorioso. Na verdade, foi um poço de horror.

 

E por ser um poço de horror, lá se vai a chance de se expor como o maior cientista do século.

 

Ao reencontrar sua Criação e saber como ela viveu, era de se esperar uma mudança de comportamento de Victor. Porém, o que ocorre é uma perseguição cega com gosto de vingança por parte do Monstro. Ato que traz a ironia do fato de que Frankenstein se negou a repetir o mesmo processo científico, algo digno de dar estrelas. Porém, uma vez quebrada essa linha tênue entre a vida e a morte, não há mais como fugir da hipótese confirmada de infundir vida a um cadáver.

 

Juro que fiquei inclinada a aceitar a dita genialidade de Victor, que deu vida a outro ser que não representava em nada a raça humana. Todo mundo foi jovem e imprudente, ludibriado pelo poder, só que, em vez desse personagem aprender com os próprios erros, muito embora se negue ao pedido da Criatura, ele praticamente dá motivo para ser destruído. Não só pela vergonha do que fez, mas porque aquilo que o persegue não o deixará em paz pela privação de uma vida positiva.

 

“A riqueza era uma finalidade secundária, mas quanta glória haveria de coroar a descoberta que permitisse banir a doença do organismo humano, tornando o homem invulnerável a todas as mortes, salvo a provocada pela violência!”

 

Fato é que ainda há uso indiscriminado da ciência. O que me faz pensar na pergunta principal da discussão desse livro lá no clube: vale mesmo tudo para conseguir o que quer?

 

Isso é ao mesmo tempo uma variante e uma constante porque não há mal algum confiar no próprio taco e dar pontapé em projetos. Só que o que acontece em Frankenstein é que Victor pisou em cima de outra análise científica. Faltou responder as perguntas essenciais – ele fará isso em benefício de quem? No que romper os mitos da vida e da morte beneficiaria a humanidade? Esses preceitos foram até pensados, mas o personagem os respondeu conforme seu desejo por glória. O benefício era para ele. O motivo era para ele. A ciência é visada para ajudar o humano e ele a usou para massagear o ego.

 

Como disse lá em cima, Walton parece personagem aleatório, mas ele é o reflexo do quanto às decisões de Victor trouxeram a ruína devido ao ego. Há uma demonstração do quanto o conhecimento pode ser destrutivo e penso que o que acabou com a empatia que poderia ser dada a Frankenstein foi o tratamento com  o seu empreendimento. Se a Criatura fosse bonitinha, é quase certo que a história seria diferente. Além disso, certeza que ele teria a tão glória desejada.

 

A Criatura

 

Frankenstein - Monstro

 

O ápice de Frankenstein é a narrativa do Monstro (algo que mencionei lá em cima). Melhor parte da experiência com a leitura, pois foi como ouvir alguém me contando sobre os preconceitos que sofrera durante a vida e o que fizera para se adaptar. Pelos olhos da Criatura, aprendemos que a bondade é corrompível. Tudo é corrompível, na verdade, devido ao reflexo do meio. Se um homem não aceita sua criação, não há quem a aceite também.

 

Tudo que o Monstro quer é ser tratado de igual para igual. Receber calor humano. Sozinho, ele testemunha alegrias e tristezas de uma família e praticamente treina para ser parte dela. Tudo que aprendeu foi a base da observação, principalmente das emoções humanas. Ele passa a sentir como a gente. Admirar como a gente. Comparar-se ao outro como a gente. Seu problema maior é a aparência o que não o torna incluso. Sua personalidade e caráter absorvido da observação da família não são relevantes em comparação ao seu visual inumano. Ele pode sentir como humano, mas é um monstrinho.

 

O Monstro mostra que preconceitos são atemporais e que se intensificam com o passar dos anos. Por ele, vemos o quanto a aparência dita muito para as pessoas. Vemos como uma linha de pensamento influencia de uma a várias pessoas. Mas, assim como todos nós, ele só quer pertencer.

 

Daí, entramos no benefício da dúvida. A Criatura não tem esse benefício e só lhe restou a revolta. Mesmo que seja horrendo, ninguém pergunta o motivo. Nem ele sabe o motivo. A conclusão é que ninguém aceita o diferente e a resposta vem da família que observa – e a sacada do patriarca cego foi demais para minha saúde. Por não ser visto, a criação de Victor é ouvida. Sente a piedade de ter sido excluído da vida social e reforça o ditado: o que os olhos não veem, o coração não sente.

 

Ao não receber a atenção do homem que o criou, se iniciou um processo de retaliação particular com base na vingança, no desalento, na inveja. A criatura, demônio e afins, retribuiu maldade com maldade. Não ser aceito transformou todo seu interesse e sua cumplicidade para o mal. O que inicia, bem no meio da leitura, um jogo de caráter entre Criador e Criatura. De aceitar o interior e não o exterior. Briga em que o polo negativo venceu, o que causou a ruína dos dois personagens.

 

Nisso, voltamos ao estilo de escrita de Shelley. No primeiro momento, você consegue gostar de Victor. Considera o gosto dele pela ciência muito relacionável porque somos apaixonados por alguma coisa. De alguma maneira, quereríamos fazer uma diferença com nosso talento. Ele parece ser bastante compassivo, algo que se reflete nas relações com a família e os amigos, mas tudo é superficial e falso. Ele diz que ama todo mundo, mas sempre se bota em primeiro lugar e é exatamente isso que acontece no primeiro bote da Criatura.

 

Há outra questão: só podemos ser felizes entre nossos iguais? Imagina viver entre várias versões de si para ter companhia e a dita compreensão/match de ideias. Eu mesma não queria!

 

Victor baniu o Monstro porque ele não atendia suas expectativas. Não era um alguém a quem se orgulhar. Não era visualmente bonito. Não era seu reflexo, por assim dizer. Podemos achar absurdo tal posicionamento, mas ele existe. É quando as emoções da Criatura tomam conta de muitas pessoas e se inicia a briga com o mundo exterior que sempre diz que você pode ser quem quiser, não importando sua aparência, mas, na menor oportunidade, mostra o oposto. É o puro sentimento de inadequação.

 

O que o cientista queria era esse mundo de glória e só restou a ele também a inadequação. Meramente porque ele não atingiu a meta de ser o grandioso cientista. Além disso, de superar todos os cientistas já consagrados. Sempre há alguém que pode quebrar esse paradigma. No caso, Waldo, sempre muito atento aos retrocessos de Frankenstein que, magicamente, condiziam com o que ele buscava.

 

Concluindo

 

“Inventar, deve-se admitir humildemente, não consiste em criar algo do nada, mas sim do caos; em primeiro lugar, deve-se dispor dos materiais; pode-se dar forma à substância negra e informe, mas não se pode fazer aparecer a própria substância. Em tudo o que se refere às descobertas e às invenções, mesmo aquelas que pertencem à imaginação, lembramo-nos continuamente da história do ovo de Colombo. A invenção consiste na capacidade de julgar um objeto e no poder de moldar e arrumar as ideais sugeridas por ele”.

 

A leitura de Frankenstein me fez lembrar de Policarpo Quaresma. É, um livro não tem nada a ver com o outro, mas a precisão na continuidade dos relatos é um ponto que sempre me impressiona. Não dá aquela sensação de interrupção/truncagem por causa da troca de capítulo, pois o enredo é extremamente fluido. Uma situação é criada propositalmente para se encaixar a outra, como se fosse meant to be, naturalmente. Há um fluxo de ideias bastante coeso e consistente.

 

Shelley não criou situações grandiosas, porém, elas se encaixam e se complementam. A autora foi sucinta ao desenvolver a dramática em torno da Criatura, mas não significa que tenha poupado suas palavras. Ela é intensa e delicada. Sua narrativa encanta até nas partes chatas de Victor. Essa mulher tinha completo conhecimento de cada peso de seus personagens e se usou de descrições muito bem escolhidas para entendermos sua obra em sentimento e não em ação.

 

O livro todo é muito bom. Por ser um sci-soft, ele nos empurra mais diretamente para uma reflexão. Nesse caso, a ambição e a glória humana. Do quanto essa busca por grandiosidade pode ser nociva. No quanto precisamos pensar no outro também em vez de nos laçarmos exclusivamente em uma equação. Há muito aprendizado em Frankenstein e só lendo para ser arrebatado por essa lição entre humanas e ciências. Tão quanto sobre índole diante do apelo da aceitação.

 

Imagens: ilustrei o post com a versão dos personagens de Penny Dreadful (que vale a pena acompanhar!).

 

 

Para anotar ❤

Título: Frankenstein

Autora: Mary Shelley

Gênero: Literatura gótica, Terror e Sci-fi soft

Editora: L&PM ou DarkSide

Stefs
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