Menu:
27/fev

Em 2013, tive algumas revelações sobre as coisas das quais gostaria de me dedicar nesse ínterim de tempo. Tudo por causa das minhas experiências no Random Girl, que abriram minha mente para o que chamam de utopia: faça o que ama.

 

Lendo textos sobre esse assunto e pondo algumas dicas encontradas em prática (nessa mencionada época), logo me vi ensandecida pelo desejo de atuar com minhas inspirações. Vi-me com uma vontade imensa de não querer mais ficar à mercê de clientes que só sentam em cima do que faço (e essa vontade persiste). Ato que passou a ganhar forma lentamente e, de quebra, a conflitar com meu trabalho cotidiano. Via-me sedenta em passar pelo processo de fazer o que amo, então, decidi que era hora de parar tudo. Só assim para ter o tempo de criar e de cultivar meu mundo.

 

Eu não queria uma fração do tempo, mas o tempo em suas 24 horas. Com sorte, poderia definitivamente me encontrar e passar a viver sem retornar ao CLT.

 

Então, em 2014 decidi largar um emprego que não me agregava em nada e que me trazia várias nuances de infelicidade. Uma vez nessa rotina de fazer tudo que amo, logo estava ali o fato universal de que o que está no começo tende a ser bom. Esse foi o caso. Sem contar que não consegui relaxar como imaginei que relaxaria. Não demorou para eu ir atrás de um emprego e tive que me forçar a lembrar de que aquele ano em específico era meu e apenas meu. Pelo conflito de emoções, me vi dispersa do foco várias e várias vezes. Meramente porque tenho um sério drama com inutilidade.

 

E meu senso de ser útil é ter um emprego. Ou qualquer atividade que renda dinheiro. Esse capitalismo nosso de cada dia nos destruiu, real e oficial. Afinal, você pode ser útil de várias maneiras, sem precisar de grana para provar um ponto ou coisa parecida.

 

Não nego a excelência da experiência de centralizar minhas ambições pessoais, mas não cumpri metade do que imaginei ao me dar essas 24 horas por dia, inserida nesse contexto. Porém, valeu a pena. Ainda continuo sendo CLT porque preciso de dinheiro para alimentar meus amores – que não parei de dar atenção apesar de 2016 ter sido extremamente decisivo para mim – e sigo nessa caminhada como uma equilibrista entre o que amo ou não.

 

Saída desse emprego, aprendi algo extremamente importante: percebi que funciono melhor em tempo fracionado. Muito tempo disponível trouxe procrastinação. O que isso significa? Que com o trabalho rotineiro eu lutava um tanto mais para fazer as minhas coisas. Para passar um tempo com o que amo. Detalhe que tem se repetido, embora ainda brigue contra o relógio e o cansaço.

 

Esse pensamento de fazer o que ama deve pipocar na mente de um milhão de brasileiros, especialmente aqueles que não suportam seus trabalhos rotineiros. Deve ocorrer agora mesmo, em alguma pausa do dia, com direito aquele suspiro profundo e triste. Tudo bem, apesar de parecer que reclamamos de barriga cheia. Afinal, deveríamos ser gratos por trabalhar e ter um salário todo mês. Um raciocínio que, aos meus olhos, só gera culpabilidade porque todo mundo tem o direito de querer algo mais além do prático. Precisamos sonhar e perseguir sonhos ou nada faz sentido.

 

2012/13 foram marcos de uma situação que também envolve milhões de brasileiros. Eu mantinha um emprego que, ao longo do tempo, deixou de me preencher. Como geminiana nata e uma introvertida em descoberta, se a rotina não se altera, tédio entra em cena. Dependendo de onde estou, logo vem a insatisfação que crava a frustração (e me pergunto o que diabos faço da vida!). Vi-me dessa maneira em 2013, período em que surgiu a ideia da demissão, martelando até eu efetivamente sair de cena. Normalmente, não hesito em minhas decisões, mas não quer dizer que nunca pense em um plano B. E meu plano B ao me dar esse hiatus foi juntar grana para ficar bem tranquila.

 

The Bold Type - Sutton e Kat

 

Claramente os responsáveis por aquela agência não se importavam comigo. Não era impressão só minha porque havia um mar de insatisfeitos (e muitos vazaram quando eu vazei) por lá. As minhas tentativas, como mudar de área e ter corrido atrás de cursos para que isso acontecesse, não foram suficientes. Ainda penso que não me mudaram de posto pela preguiça de contratar uma redatora nova mais o fato de que a turma de SEO era cercada em maioria por homens. Vivi em indigestão sem um up na carreira, mas logo veio o estopim. O embate com meu chefe, outro que provou que não dava a mínima ao que eu fazia e que me deixou malzona por questões de ego.

 

Como aprendi recentemente, cada um é responsável pelo lugar que ocupa. Eu abri mão dessa responsabilidade ao decidir cair fora daquela agência. Com dinheiro guardado, nem olhei para trás.

 

Mas, antes de passar pela última vez por aquela porta, esse trabalho começou a me deixar com um razoável tempo livre. O que era desanimador. Contudo, descobri que poderia usar desse tempo para me dedicar ao que gosto de fazer fora do expediente. Coisas que me deixavam feliz e que me davam senso de propósito. Coisas que não deixavam a frustração, tanto pela impossibilidade de fazer algo mais quanto pela escassez que o jornalismo se tornava dia após dias, me dominar. Foi o ano que efetivamente me empolguei com o Hey, Random Girl, que aumentei meu número de resenhas e que comecei a me empenhar em escrever um livro pela primeira vez.

 

Os espaços da rotina pacata no trabalho começaram a me dar certo reconhecimento de voz. Com o passar dos meses, o que fazia de segunda a sexta não mais me apetecia. Eu queria viver as minhas paixões e os sites motivadores alimentaram um Kraken. Esbaldei-me com eles, especialmente os que impulsionavam a ir atrás do que amamos.

 

Resultado: quis ser essa pessoa e botei na cabeça que precisava pedir demissão. Queria tanto ficar longe dali que nem me importei de tirar umas férias de cinco dias para ter, à época, esse diminuto instante de prazer.

 

Cinco dias foram o suficiente para engrossar a faísca que envolvia minha decisão de cair fora dessa agência. Foram dias frutíferos. Dias em que me senti importante, pois realizava tarefas que me eram extremamente relevantes. Retornar à agência cinco dias depois foi um peso horrível, mas segui mantendo o comportamento de dar atenção ao que me completava. Isso me ajudou a cumprir a meta, ou seja, esperar o ano virar para pedir demissão.

 

Cinco dias me foram o bastante para terminar o segundo livro do que pensei ser uma trilogia. Cinco dias me tiraram do ócio e da repetição de tarefas. Cinco dias me serviram de respiro para me convencer de que 2014 seria o ano de me ouvir, de encontrar essa coisa chamada propósito. Alguns viajam para se redescobrir e eu só quis parar meu mundo. Uma decisão que me apavorou por motivos do CLT. Mas eu precisava sair e encontrar minha identidade.

 

The Bold Type - Sutton e Lauren

 

A incerteza da demissão se deu logicamente pelo dinheiro. Não ganhava muito, mas me sustentava. Falando assim, parece até que fui um poço de ingratidão, mas sou muito grata por ter tido esse emprego. A começar porque foi um amigo muito querido que me indicou. Além disso, a vaga veio colada com a minha graduação, dando um curto espaço de tempo de martírio sobre o que faria com um diploma que segue não prestando para muita coisa.

 

Mas, se eu não era mais útil, se não me davam chance de crescer, por que ficar? De novo, ocupamos o espaço que queremos. O que combate a geração da minha mãe, com seus 10 anos de empresa. Se me sinto inútil, é fato que começo a bolar planos de saída no futuro. Não tenho vergonha de admitir e sei que sou muito privilegiada nesse quesito. E sou grata e sempre espero tirar o melhor disso.

 

Eu oscilei demais nessa ideia de demissão até ocorrer aquele impasse que já contei a vocês sobre o eu vs. o chefe. Foi nessa situação que eu percebi que tinha que ir embora porque, além de não quererem meu crescimento, eu era um nada. Minha opinião não importava. Compreendi essa situação como o sinal do universo.

 

Achei que anunciar a demissão seria difícil, mas foi a coisa mais fácil do mundo. Passada essa meta, me vi sorrindo no meu último dia. Meramente porque sabia que passaria meu 2014 centralizada em tudo que amava. Juntei todo dinheiro possível para ficar de boa e assim segui por um ano que foi extremamente revelador.

 

Um ano que me fez ainda mais apoiadora de quem quer fazer o que ama. Inclusive, conhecedora do meu modo de operação ao trabalhar no que me importa. De fato, aqueles cinco dias foram ótimos porque havia uma singela pressão. Eu determinei tarefas a serem cumpridas nesse curto prazo e corri atrás de fazê-las. Com 365 dias disponíveis, deixar para depois foi bem fácil e ocorreu várias vezes.

 

Esse um ano me fez ainda mais apoiadora do chute o seu emprego se ele só traz infelicidade (algo que sei que não é possível em algumas realidades e queria ser fada madrinha para solucionar isso, fatos reais). Algo que, não nego, houve certa influência desses sites motivacionais sobre largue tudo e faça o que ama. Eles me alimentaram e não senti culpa nisso (e sou grata por existirem).

 

De certa forma, imaginei que essa decisão teria consequência – porque tudo tem consequência na vida – e essa consequência veio precisamente em 2016. 2015 ainda consegui me manter, embora tenha sido o marco da minha tentativa de encontrar um novo emprego – e foi o auge da crise no BR. Independentemente, não me arrependo do que fiz e faria de novo – com mais preparo e consciência visto que obtive a experiência em 2014/2015.

 

Mas por quais motivos contei toda essa história (em grande resumo) para vocês? Meramente porque essa foi a essência deste 2º episódio de The Bold Type.

 

Lição número dois: qual é seu sonho?

 

The Bold Type - Sutton

 

Ao contrário do Piloto que circulou no tema sobre encontrar sua voz, o segundo episódio centralizou Sutton Brady e sua intenção de deixar de ser a assistente multitask de Lauren. Neste episódio, conhecemos um pouco do background dessa personagem e o quanto suas decisões profissionais foram, supostamente, práticas.

 

Práticas? Sim. Pensadas para se manter e/ou em reflexo de algum evento que muda o curso da vida abruptamente.

 

E quando digo abruptamente é a questão de não termos a escolha do onde ir.

 

Sutton escolheu administração como carreira, mas ela não queria seguir por esse caminho (e muitos de nós passa pelo mesmo). A escolha se deu porque sempre tem alguma vaguinha no mercado financeiro. Não há como ficar na mão ao seguir essa profissão. Algo verossimilhante entre quem já se formou e quem entra em crise existencial no último ano da faculdade. Basicamente foi isso que ocorreu neste episódio de The Bold Type, com a diferença de que a personagem deixou de mão as escolhas feitas em modo prático.

 

Essa lindinha é uma personagem preciosa que tem uma carga dramática extremamente interessante e relacionável. Como todas as mulheres desta série, claro, mas Sutton evoca aquele sentimento de saber exatamente o que se quer da vida, mas a vida ainda não se lembrou de dar essa chance. Por vezes, acreditamos que a vida tem que dar essa chance quando podemos simplesmente criá-la. Mas também nem sempre as chances somos nós quem criamos, pois elas tendem a surgir quando menos esperamos e precisamos abocanhá-las. Brady passa por isso e ventila seu conflito para Alex.

 

Meramente porque o sol nasceu e sorriu para essa jovem. Mais precisamente na forma de um cargo na área de publicidade da Scarlet. Algo feliz, mas não é o departamento de moda, ramo almejado e ainda não alcançável para ela. Ao menos, é o que a personagem acredita piamente e evita esse sonho por medo da decepção.

 

Com essa premissa, o episódio centralizou esse embate pessoal entre fazer o que é seguro ou ir atrás do que ama. O cargo de vendas não passa de mais uma decisão prática de Sutton devido ao aumento do salário. Um fator que a tem incomodado bastante, especialmente por ainda não ter a famigerada estabilidade financeira.

 

De quebra, há o acréscimo de outros atritos internos que a deixam irrequieta. Manter o trabalho rotineiro ou trilhar o caminho rumo ao trabalho dos sonhos? Tentar conciliar os dois enquanto a vida em si não lembra de dar aquela chance ou partir para a escolha fácil? Vias de mesmo tema, mas ainda desconexas, que só coube a Sutton escolher qual perseguir. Ela chegou perto de ser prática de novo em nome do capitalismo, mas os lembretes constantes sobre moda a deixaram na defensiva. Inclusive, criaram um emaranhado de pensamentos confusos.

 

The Bold Type - Jane e Sutton

 

Entre Jane e Kat, que conseguiram trilhar seus caminhos rumo a cargos influentes na Scarlet, Sutton ficou para trás. Ela é assistente de Lauren, outra chefe que chega perto de representar a temerosa versão Miranda Priestly. Porém, essa mulher incrível também se revela apoiadora dos desejos da sua colaboradora, mesmo sendo distante e um tanto aterrorizante. Impressão que cai por terra quando Brady é impulsionada pelas mãos da própria patroa a uma entrevista com o responsável pela área comercial (Richard, amiguinhas). A partir daí, começa essa jornada de mudança de carreira. Uma carreira que ela não quer, mas precisa por ser prática. Além disso, para ter o salário digno para seus sonhos de princesa.

 

Ao longo deste episódio, Sutton parece extremamente decidida nessa evolução profissional. Porém, as coisas mudam quando compreendemos que há uma problemática. Uma nuance mais delicada por trás dessa decisão de deixar o posto de assistente. A personagem teve que crescer muito rápido. Ela se tornou adulta antes do tempo devido à mãe. Endividou-se para ter uma formação superior e foi para NY atrás de oportunidades melhores. Como Jane e Kat, a moça ama a Scarlet, mas tem completa consciência de que poderia render muito mais em um ambiente mais promissor.

 

A parte mais tocante dessa revelação, muito bem inserida em uma conversa entre Richard e ela (e que contribuiu para mostrar que ele é um homem apoiador e fanboy de Sutton), vem da nota de 100 dólares enfiada em um envelope e que ela carrega dentro da bolsa. O motivo? Trata-se de um valor correspondente a uma passagem de ida para casa em caso de completo fracasso. E a última coisa que essa personagem quer é fracassar. Por isso, ela segue o fluxo que, obviamente, não a apetece. Meramente porque não é seu propósito.

 

O ticket de retorno é a solução caso falhe no seu propósito, que é moda. Algo que as amigas indagam diante da novidade do cargo em publicidade. O que gera o mencionado conflito, pois a personagem se vê sendo alimentada pela verdade de que precisa ir atrás do que seu coração pede. Só que ela diz que “não pode se dar ao luxo agora”. Por quais motivos? Grana!

 

Embrenhado a esse fato, há um singelo complexo de inferioridade que vem do fato de que Kat e Jane estão muito bem financeiramente e em cargos que adoram. As amigas não precisam pensar em dívidas o tempo todo e são claramente realizadas onde estão. O que torna a presença delas a representação do inferno para Sutton. Soa negativo, mas não passa de ter que enfrentar a adversidade. Não há inveja entre o trio, mas muito apoio. Só que nem sempre estamos dispostos a ouvir a real e Brady se comportou dentro do esperado quando Kat foi sincera sobre esse dito salto na carreira.

 

Afinal, fica óbvio que Sutton não está convencida de que quer trabalhar na área comercial. Não é à toa que a pergunta sobre moda dá seu próprio jeito de retornar ao cerne da conversa, o que a deixa à flor da pele.

 

Enquanto esse conflito sobre o cargo gira, a personagem busca essa aprovação para assim se convencer no processo. E quem não faz isso, né? Ir atrás dos amigos para tentar encontrar aquele argumento final de que suas escolhas são corretas. Kat, sempre direta, manda que a ideia é boring as fuck. Jane age como uma neutralizadora que desanima ainda mais uma amiga que claramente  afunda seu verdadeiro sonho por intencionar o caminho mais prático. De novo.

 

Não é o que fazemos todo dia? Independentemente das nossas paixões? Sempre caminhando pelo campo mais seguro?

 

No caso de Sutton, ela mesma dá várias desculpinhas sobre a ideia de viver o seu sonho. De correr atrás do que ama. Rangi os dentes quando a personagem cria seu próprio empecilho, dizendo que quem entra na área de moda pena e que não tem como ela se submeter a isso por… Motivos de dinheiro. Rentabilidade e reconhecimento nesse ramo surgem a longo prazo. Demora e nem sempre ocorre. É preciso trabalhar duro para, ao menos, ter seu nome lembrado. Nem que seja por meros quinze segundos. Obstáculos que a mocinha impõe como verdades universais. E não fazemos isso também?

 

Só que a personagem quer o imediato e são nos imediatismos do cotidiano que também não ouvimos nossos instintos sobre perseguir sonhos. Perseguir aquilo que nos deixará em completude. Nisso, criamos ladainhas que nos deixam igualmente tristíssimos.

 

The Bold Type - Sutton e Alex
 

Sutton acha que moda é impossível visto seu status financeiro. Sem contar que nunca há vaga na Scarlet para essa área. A perseverança do esperar sobre uma grande trajetória passível de decepções, mas penso que sempre é importante fazer a deixar de lado por motivos práticos. Praticidade uma hora cansa. Precisamos de desafios.

 

E foi mais ou menos esse sentimento que me norteou a pedir demissão. Eu queria, sumariamente, escrever. Eu queria ficar com a minha escrita e vi várias curvas de falhas. Mas eu me ouvi e fiz o que meu âmago queria. Eu queria ver como seria minha vida fazendo o que mais amava. Além disso, se esses amores eram realmente reais para querer lutar por eles. Por essas e outras que este site ainda existe. Ele é meu projeto que nasceu em uma época difícil. Há muito dessa fase difícil aqui, o que tornou este cantinho meu segundo lar – especialmente para ventilar pensamentos.

 

Sutton percebe que precisa dar voz ao que ama quando recebe a notícia de que conseguiu a vaga na área comercial. Ela não ficou contente. Uma reação da qual me assemelhei, mas, dessa vez, eu tive consciência de que não poderia negar. Eu cedi à praticidade por motivos de dinheiro. Porém, o que pesou realmente foi a liberdade. Fazia muito tempo que não tinha uma vida. Eu precisava urgentemente sair de casa. Precisava voltar a pegar o metrô todo santo dia, muito mais que o salário mensal. Precisava me mover para assim me reativar e retornar a ser quem eu era – porque 2016 me fez parar completamente no tempo e largar tudo de mão.

 

Pensando mais ou menos dessa forma, Sutton compra o champanhe mais caro e gasta a famosa nota de 100 dólares. Ela clama pela sua libertação. Sua resposta para o fim de decisões práticas. A moça se vê diante do muro que diz que é melhor fazer a não ter feito. Nunca saberemos o que há do outro lado se não nos arriscarmos.

 

O prático mencionado neste episódio de The Bold Type nada mais é que a maldita zona de conforto. Já diziam estudiosos que não saberemos sobre uma determinada magia se não a saltarmos para ver além. Para ver o que podemos fazer muito além do que já fazemos. No meu caso, meu respiro pós-demissão veio um ano depois, o I Am That Girl. Uma experiência que rendeu em autodescoberta. Algo que sou extremamente grata e que me direcionou a quem sou hoje.

 

Às vezes, ficamos tão presos nas nossas rotinas que não vemos além da linha tênue. Eu já estive nessa posição. Às vezes, até volto. Mas se há uma coisa que aprendi nesses últimos anos, especialmente quando me demiti para me dedicar ao que amo em tempo integral (sempre quis dizer isso), é que não podemos ignorar o que há fixo em nossa mente. Não podemos ignorar o que pensamos o tempo inteiro. Uma hora a loucura precisa sair.

 

De vez em quando, é preciso dar voz ao que pensamos e ao que sentimos. Libertar essa voz para vermos o propósito. Isso tudo pode começar em um pequeno sonho que pode escalar montanhas das quais nunca imaginamos.

 

2013 eu estava muito focada em pedir demissão e ir fazer o que amo. O Random Girl serviu de espelho sobre esse assunto. Escrevi até mesmo sobre o desespero de não se dedicar full time ao que ama. Não nego que, em parte, havia muito calor da frustração no meio, mas foi esse calor da frustração que me fez sair do prático. Na época, eu tive que sentar com minha mãe para dizer que largaria tudo para escrever e que ela poderia ficar despreocupada porque grana guardada eu tinha. Ela confiou em mim e essa validação foi tudo.

 

Agora, a pergunta séria: o que aprendi dentro dessa ideia de se dedicar ao que ama? Honestamente, ainda acredito que todo mundo deve e precisa fazer isso. Nem que seja cinco minutos ao dia.

 

Aprendi que esse full time pode realmente não existir e/ou é relativo. Há quem tem essa sorte. Eu ainda não tenho e não cheguei perto de conquistar essa tal autoridade. Talvez, porque ainda não tenho uma grande ideia concreta já que sou movida por várias paixões. Ainda sim, aprendi bastante porque passei muito tempo comigo, o que foi o inferno e o céu, não nego. Percebi que essa de ficar inteiramente centrada no que amo não me ajuda tanto assim. Preciso de uma rotina que intercala tarefas. Que me desafie. Que me faça ter uma vida dupla. Minha vida em uma via não funciona.

 

E acho que em 2013 fui um tantinho mimada sobre o “faça o que ama”. Aprendizado é isso aí! Agora estou mais elucidada.

 

Eu poderia dizer mais sobre Sutton, mas é zona de spoilers (e logo menos vocês saberão o que ocorre). Mas, ela realmente se ouviu e seguiu adiante. Uma transição extremamente fácil, algo que credito ao fato de que The Bold Type poderia ser cancelada. Quanto mais movimento para as personagens, melhor, algo sentido nos 10 episódios da S1, e não reclamei um só segundo. Ao menos, prepararam zonas extras de dramas profissionais e eu amo isso.

 

A personagem foi atrás e deu o pontapé a um novo capítulo. Mesmo consciente de que a grana ficaria apertada e/ou que tudo poderia dar errado. Penso que, se você acredita, não é uma primeira experiência ruim que parará o seu percurso. Que interromperá seu sonho. Posso soar ingênua, mas ainda acredito nisso e espero chegar lá. Não é fácil porque soa sempre mais fácil desistir, mas desistir se tornou um vício para mim e o que quero agora é seguir adiante.

 

Depois que reassisti a este vídeo, me toquei do quanto absorvi o ideal de trabalho tendo meus pais como exemplo. No caso, passar anos na mesma empresa. Ater-se às regras. Apenas acenar e concordar. Não sou essa pessoa e não me envergonho de ter pedido demissão para focar no que amava. Nem muito menos agora que tenho usado o “não” como minha melhor resposta. Vim de uma geração da repetição e repetição não rola comigo.

 

Mas sou agradecida por essa geração da qual minha mãe pertence. Ela lutou demais por seus postos de trabalho e, às vezes, me vejo indagando onde está a herança dessa fibra em mim. Às vezes, acho que não a tenho porque parece que desisto demais das coisas. Esqueço-me que a decisão é minha porque eu preciso por haver a pressão da sociedade que sinaliza que sair de um emprego por se sentir infeliz é fazer corpo mole (ok que há casos que é sim, mas não é o tema de hoje). Sem contar que fazer o que ama é a isca perfeita para nos deixar um tantinho pior porque, dependendo da sua rotina, essa tarefa é esporádica.

 

Antes, uma carreira era para o resto da vida. Agora, podemos ser extremamente versáteis. Podemos sim manter o trabalho do dia a dia, aquele que paga nossas contas, mesmo que não nos deixe contentes, enquanto cuidamos do que realmente amamos fazer. O importante é sempre criar um mundo do qual amamos em paralelo.

 

Aprendi que criar o que amamos é um processo recompensatório. Que não me faz pensar tanto no quanto minha área é uma piada. Eu não preciso me incluir nessa piada, algo que minha mente era muito acostumada a fazer até eu realmente me encontrar no que amo fazer. Posso muito bem usar de tempo vago para criar o que eu quero.

 

O que tenho agora é: vestir a minha própria camisa. É isto.

 

Eu tinha 27 anos quando comecei a pensar sobre fazer o que ama. Tem gente que nasce com isso enraizado, mas, como disse, eu tinha muito esse reflexo dos meus pais. Mais tempo de casa, mais chance de subir. Bem, tudo se provou não ser assim. O que é necessário agora é se por no centro, como Sutton fez neste episódio. Ninguém fará isso por nós.

 

Nisso, entramos na pessoa que mais utilizei como referência no referido ano de 2013: Neil Gaiman.

 

“Your work is going to fill a large part of your life, and the only way to be truly satisfied is to do what you believe is great work. And the only way to do great work is to love what you do. If you haven’t found it yet, keep looking. Don’t settle. As with all matters of the heart, you’ll know when you find it. And, like any great relationship, it just gets better and better as the years roll on. So keep looking until you find it. Don’t settle.”

 

Ele estava certo o tempo todo, mas eu precisava patinar antes de sacar isso.

 

O que me faz ainda grande fã deste manifesto:

 

 

“Encontre algo mais importante que você e dedique sua vida a isso.”

 

Isso calha no quote que defini como tema de 2017 para o Random Girl: onde você investe seu amor, você investe sua vida (Mumford & Sons). O que combina com esse quote acima que destaquei em 2013. Emendando ao Gaiman, o trabalho ocupará grande parte do nosso tempo, algo que me faz mencionar uma colega que me disse a mesma coisa. Ela me disse que passamos horas no mesmo lugar e o mínimo que podemos fazer, uma vez fora dessa rotina, é curtir com o que gostamos. Ela é toda empenhada no seu projetinho pessoal, a recompensa ao focar no que se ama depois do expediente. Ao fazer o que acreditamos ser um ótimo trabalho.

 

O que calha no que Jacqueline disse neste episódio, mais precisamente sobre Jane (parafraseando): aonde você se encontra?

 

Aonde você se encontra? Se souber, vá em frente. Caso contrário, vá descobrir. Lembre-se que, mesmo no mundo prático, você pode ter não apenas um sonho, mas vários. O importante é saltar a linha tênue.

 

Para quebrar a linha tênue, Sutton rasgou a nota de 100 dólares. Dinheiro que remetia a uma emoção negativa. E emoção negativa nos empaca. Como estar em um lugar que você não está contente.

 

Este episódio de The Bold Type inseriu essa reflexão sobre fazer o que ama com sucesso. A trama passou embaixo do nosso nariz o quanto podemos ser ousados ao abandonarmos o que é prático para corrermos atrás do mais complexo.

 

No caso, os nossos sonhos.

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3