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27/mar

Assisti Miss Representation pela primeira vez em 2015. Uma experiência que coincidiu com o início da minha saga como Chapter Leader do I Am That Girl. Praticamente dois anos depois de assisti-lo (pela terceira vez) novamente, não foi nem um pouco espantoso notar que as mesmas emoções angustiantes vieram à tona. O motivo? A sub-representação da mulher na mídia.

 

Graças a este documentário que direcionei meus estudos dentro do feminismo, compreendi parte do que ocorrera comigo na adolescência e fundei o A Bela e as Feras. Há muito crédito que gostaria de dar à Jennifer Siebel Newsom, idealizadora deste projeto que ainda circula na internet, batizado com esse mesmo nome.

 

Miss Representation é um documentário lançado em 2011. A premissa parte do anseio de Siebel quanto ao mundo em que sua filha será criada. Vários questionamentos são levantados, dentre eles como a menininha lidaria com o retratamento da mulher na mídia. Medo que a fez criar este projeto que mostra como a cultura (não) representa o feminino e ainda se usa do sexismo e de incontáveis estereótipos para vender.

 

O roteiro configura bem essas e outras questões ao se apoiar em vários exemplos que deixaram meu cérebro em um estado frenético de descontentamento e de desespero. Ver escancarado na sua face que a aparência, em vez da habilidade de liderança da mulher, é o que mais conta, algo que, de fato, nunca foi surpresa para algumas pessoas, com ricos detalhes gráficos e justificativas visuais/vocais, doeu lá no fundo do coração. Digo por mim: eu tinha uma noção muito rasa dessa situação.

 

O tema central deste documentário é a representação, mas tal pauta não seria possível discutir sem a denúncia da objetificação da mulher. A ferida do roteiro e que moveu uma leva de flashbacks que remeteu a minha adolescência graças às vozes de figuras extremamente influenciadoras, entrevistadas para este projeto: Katie Couric, Rosario Dawson, Gloria Steinem, Margaret Cho, dentre outras. Um grupo que esbofeteia. Que ajuda a deixar as emoções à flor da pele a cada cicatriz cutucada. Cicatrizes que passam batidas, pois, infelizmente, ainda vemos algumas coisas sem desconstrução. A começar por determinadas caracterizações de personagens femininas.

 

Pelos olhos deste documentário se vê que a mídia trata a mulher como uma trivialidade. O que segue não sendo uma novidade também. “Abordagem” que tem seu malefício, como o apoderamento feminino. Inclusive, masculino. Por não sermos levadas a sério, não há bons exemplos. Detalhe que o patriarcado segura com unhas e dentes porque narcotizar meninas e mulheres supostamente garante que elas nunca cheguem a reconhecer seu próprio poder. Inclusive, nunca cheguem a colaborar entre si porque esse mesmo sistema quer garantir que sejamos rivais. Ocupadas com o que a outra acha de nós e com a nossa aparência, nos esquecemos do nosso empoderamento.

 

Item muito bem pontuado neste documentário e que frisa que a mídia é a mensagem e o mensageiro. Corretíssimo! Está aí a fonte da qual “nos educamos”. Passamos boa parte do nosso tempo em sua companhia e não filtramos o que acompanhamos. Com isso, aderimos certos comportamentos “porque vimos na TV”. Resultado que se vê entre crianças e adolescentes que são expostos a essas mídias e os pais acreditam que fazem um bem danado. Às vezes, não faz nem um pouco.

 

Para expressar a influência midiática, Miss Representation destrincha seu poder, sem fugir da tese que é a representatividade da mulher. Além da objetificação, há uma abordagem política também, o que não machuca menos. Pontos de vista que concluem um único viés: meios de comunicação ainda são dominados por homens e homens contratam seus próprios espelhos. Para piorar: produzem o que acham correto. A visão que ainda existe da mulher é inspirada no cérebro de ameba de muitos homens (para não dizer outra coisa). Eles aplicam suas idealizações e não se sentem mal por isso. Eles se acham corretíssimos.

 

Por isso, ainda temos uma lista longa de estereótipos de todas as mulheres em várias mídias. Sem contar que não é garantia que uma mulher na direção, por exemplo, honre a figura feminina em uma série de TV (e tenho alguns argumentos em que, às vezes, o material recebe o sexismo internalizado da mulher).

 

Quando vi este documentário, o que restou foi a sensação de fracasso. As mulheres são objetificadas e hiperssexualizadas, exalando padrões inalcançáveis, especialmente para crianças e para adolescentes. Eu compareci a esse ciclo degradante. Enquanto as garotas aprendem que seu sucesso é sobre como a enxergam por fora, homens são “treinados” para alcançar poder e dominância. Alguns fatores que Siebel explicita com base em outra abordagem: estereótipos de gênero. Um fato que não tive conhecimento até uns anos atrás e que incitou em mim uma necessidade excruciante de fazer alguma coisa. Um novo péssimo mundo se abriu para mim.

 

Vejam bem: poucas pessoas têm a visão tão ampla e tão limpa quanto aos estereótipos de gênero, representatividade, objetificação, etc. A Stefs adolescente achava toda aquela hiperssexualização muito normal ao ponto de querer correr atrás para ser como aquelas mulheres loiríssimas e magérrimas também. Muito nova, me dei o fardo de trabalhar para pertencer a todos aqueles padrões. Soava correto. Hoje, estou em processo de desconstrução, que não ocorre de uma hora para a outra, e Miss Representation foi um grande pontapé para mim nesse quesito. Principalmente para compreender o que rolou comigo a mais de 10 anos.

 

Você não pode ser o que não pode ver

 

Miss Representation - Falta de protagonistas

 

O que seria representatividade? Sendo óbvia, é ser representada. Na mídia, é se reconhecer no conteúdo. Na TV e no cinema, é se reconhecer na história da mulher, que pode ser protagonista ou não, e essa história precisa ser relevante e fora de qualquer viés que a faça “agradar” o personagem masculino.

 

A lógica de hoje sobre esse quesito é apenas colocar uma mulher como protagonista, mas não há mudança na narrativa. Ou ela depende do homem ou tem poucas falas ou morre em nome do manpain. Por não termos tanta diversidade feminina em cena, nos é dado o que a mídia vê como a “mulher perfeita” e muitas acreditam nisso.

 

A mídia é depreciativa com a mulher e não perde a chance de ser assim. Vê-se melhoras, mas, nas vezes em que vi Miss Representation, senti que nada realmente mudou. É como estourar uma bolha, toda vez, e sair do conformismo.

 

O que ganhamos dia após dia são apenas nuances nubladas da verdade. A prestação de serviço temporária só para silenciar a fonte do burburinho. De um lado, a coisa toda parece até fluir (como mulheres na direção), mas, do outro, sempre há o estopim de alguma coisa ruim (como whitewashing e apropriação cultural). Em ambos os casos, a internet tem sido muito válida nos tempos atuais. Com ela, é mais fácil ter acesso às empresas e boicotar suas ações. Algo já visto com a Dove, por exemplo, que até acerta em algumas coisas, mas em outras…

 

Hoje, temos mais facilidade de ver além da vitrine que a mídia nos entrega. E essa vitrine é carregada de estereótipos de gênero, assinada com amor pelo patriarcado.

 

Só que não né, preciosos?

 

Miss Representation - Objetificação

 

Além dos estereótipos de gênero, Miss Representation comenta sobre a desconfiguração do papel da mulher. O texto explica, ao destacar criança, adolescente e mulher adulta, o quanto somos ludibriadas pelas expectativas da mídia. Há uma imposição de comportamentos, por exemplo, e parece normal aceitar isso. Há conformidade porque é difícil encontrar alguém que nos diga o oposto. Principalmente em tão tenra idade, período do qual fomentamos nossa identidade.

 

No documentário, é pontuado que objetificação é o maior dos problemas em torno das mulheres. O reflexo disso é expressado no print acima, em que o padrão não alcançável diante desse tipo de abordagem feminina traz vergonha, ansiedade e autodepreciação. Sentimentos que se estendem de geração em geração. O que talvez mude é a intensidade do consumo e da exposição midiática. E, claro, do como um alguém se sente ao ver tanta coisa que não corresponde à sua existência.

 

A mídia dita identidades também. Quem você precisa ser para chamar a atenção. O que você precisa ter para ser aceita. Foi nessa que me ferrei toda sem ao menos me dar conta do estrago. A busca incansável pela validação externa, ponto também salientado em Miss Representation. Uma das partes que também doeu e que me fez retornar à minha infância.

 

Lembram do filme Little Miss Sunshine? Não há um instante em que não me lembre desse filme depois de ver esse documentário. O que faz de Miss Representation um alerta também quanto à distorção da nossa imagem. Algo que começa muito cedo. São os pais os grandes responsáveis em ajudar a podar essa visão. Uma responsabilidade e tanto que, por vezes, é entregue de mão beijada para a quantidade de consumo e de exposição midiática. Como comentei, o bem que pode fazer mais mal que o esperado.

 

Mesmo com as intempéries da minha adolescência quanto à autoimagem, ainda vivo em um mundo que diz “nossa como você emagreceu”, com direito a happy face, e ao “nossa como você engordou”, com aquele olhar julgador e um risinho de que a “gordinha” estava em cena (o “gordinha” foi mais para a Stefs adolescente). As rodas de mulheres da minha família só sabem falar sobre a aparência de fulana e etc., mas a coisa toda muda quando falamos de crianças, cuja única função é ser criança.

 

Mas há pais que colocam suas crianças em circuitos de beleza. Uma pressão desnecessária e que cultiva a baixa autoestima. Duvido que esses responsáveis pensem no trauma que provocam em suas filhas. Tudo ganância do “minha filha é mais bonita” que só gera irresponsáveis.

 

O mesmo vale aos meninos. Um público que Miss Representation também conversa. Essa de alimentar poder e músculo denigre tão quanto “inspirar” uma menina a emagrecer aos 10 anos porque só assim ela será a mais bela de todas. Os pais poderiam parar com isso, né?

 

Viés que mostra que não é só a mídia que carrega parte do problema. O lar também. Pais podem transmitir de geração para geração essas expectativas machistas para meninas e para meninos. Só que essas expectativas vêm de onde?

 

Da mídia, claro, que age também como o reforço do que dizemos e do como agimos em casa e no social. De novo, o cultivo de comportamentos. É fato que replicamos o que vemos na TV/internet e há pais que são extremos – como esses concursos de beleza desnecessários. Atitudes que desconfiguram a visão do que é ser mulher. Até mesmo do que é ser homem.

 

O que resulta na dita beleza. Tema que é a âncora que abre alas para a incansável venda de que a mulher precisa de validação masculina para sobreviver. Por vermos a identidade feminina sempre tão sexual, tão impecável, tão alucinada pela sua felicidade que só existe por meio de um romance, queremos nos igualar a esses padrões. Uma vez nessa briga, fica difícil nos encontrar porque não há exemplos positivos. E sem identidade não podemos ser exemplos. E sem exemplos outras garotas patinam. O patriarcado se estabelece em botar a mulher para baixo e ficamos para baixo porque somos convencidas diariamente de não podemos ser poderosas e independentes. Meramente porque somos nubladas pela feminilidade que não passa de construção social.

 

O homem é tratado pelo poder. A mulher é tratada pela aparência. Dois olhares que parecem universais e que fazem com que homens e mulheres não se enxerguem nessa bagunça. Vide o peso da propaganda, outra responsável também, que existe para mover nossas infelicidades. O que resulta em uma mídia que não quer inspirar autoconfiança. Ela quer que almejemos o impossível. Com isso, temos grandes graus de ansiedade e de insegurança. Porque é impossível ser o que vemos. Ao menos, quando falamos do grande glamour masculino e da hiperssexualização feminina.

 

Se eu for pensar em uma hierarquia, a mídia está no topo da minha lista de culpados pela minha depreciação juvenil. Ela quem emite o que está na moda, qual é o “tipo” de mulher que os caras dão atenção e que carros os caras precisam ter para serem os grandes dominadores – e conquistadores de mulheres. Nisso, há a criação de estereótipos que outros meios de comunicação abraçam. Eis os padrões.

 

Não vemos diversidade feminina e nem muito menos mulheres multidimensionais. O que vemos é uma mulher para todas.  Normalmente branca. Normalmente para baixo. Normalmente que fica contente ao encontrar o homem – que pisa nela quinhentas vezes antes do romance se desdobrar. Tem rolado melhoras, mas, como de costume, há um leque de primeiras opções e muitas delas não incluem a preciosidade chamada representatividade.

 

Miss Representation - Mulheres nas séries

 

Nisso, caímos no falso protagonismo e na falsa representatividade. Miss Representation traz esse recorte perfeitamente. Mulheres que parecem donas de si em uma série quando, na verdade, estão ali porque agregaram a si traços masculinos ou porque se tornaram amargas depois do término do casamento. Alguns exemplos do leque de estereótipos.

 

Linhas de pensamento que também transmitem a mensagem de que a mulher só será dona de si nessas circunstâncias. Ela precisa ser amarga pelo homem para ser independente. Ou precisa usar macacão de couro para ser uma protagonista de qualidade. Alguns exemplos que o documentário trata e que me deixaram sem chão. Até porque eu acreditei que a mulher divorciada e com uma carreira nas alturas era um exemplo a ser seguido. Só que a mudança na vida dela se deu devido a um homem.

 

Há outros pontos bem legais neste documentário como a voz que a mulher emite para a mídia. O que me fez lembrar das Eleições. Homem afirma e mulher reclama – o que calha no estereótipo emocional. Sem contar o fato da mulher se masculinizar para ser aceita.

 

Tem muita coisa “bacana” em Miss Representation. “Bacana” porque o resultado é de muita verdade. Muita verdade tende a ser dilacerante e foi exatamente assim que me senti no fim.

 

Concluindo

Miss Representation - Quote

 

Além de mostrar a verdade nua e crua, Miss Representation pontua que a mídia é uma construção. Está ali para ser um reflexo do qual não precisamos. Ainda sim, ela é o reflexo que remonta a sociedade, motivada pela economia que dita o que é relevante para o momento e como todas as pessoas devem pensar/se portar. O documentário traz uma pesquisa pertinente com uma linguagem simples, que pode ser adequada a uma sala de aula, a uma noite de filme e para ser material de estudo.

 

Dentre tantas coisas que se conclui depois desta experiência é que vivemos ainda em um extremo e passivo consumo da mídia. Ainda somos narcotizados. E este material nos dá um olhar mais aproximado do quanto essa narcotização tem nos custado.

 

Principalmente para meninas e mulheres.

 

Seja qual fragmento desta pesquisa você se identifique, não tem como não ficar enraivecida o tempo todo conforme Miss Representation se desdobra. Mesmo com as indicações para acabar com a sub-representação, o apoderamento feminino e a objetificação, no final do documentário, tudo que eu quis foi rasgar o mundo. Depois, veio aquela tristeza que nem sei explicar.

 

Este documentário foi um achado. Foi o primeiro que vi englobando feminismo e representatividade, dois fatores que compuseram minha vida em 2015. Ele tem seu próprio jeito de mexer com meus sentimentos, pois, assim como muitos jovens, eu passei horas e horas em frente à televisão. Eu consumia a MTV como uma religião e, aos poucos, algo em mim passou a corresponder àquela inverdade de que eu não era como as garotas dos videoclipes. Quando tive acesso à MTV gringa, via TV a cabo, aí que as coisas começaram a sair um pouco do meu controle. Eu já não tinha a melhor da autoestima, algo provocado pelo lar, e a partir daí só ladeira abaixo.

 

A mídia me estilhaçou de todas as maneiras possíveis e inimagináveis. Pior que não há controle, ainda mais quando seus pais concordam que TV é distração. Mesmo pensamento de hoje sobre a internet. Porém, nenhum responsável sabe o que se passa na mente de uma garota com a autoestima baixa, com desvalidação forte e com o desejo estridente de ser como a garota do Tumblr. Entramos em uma competição injusta com nós mesmas e nem sempre há quem nos ajude.

 

Eu persegui um padrão inalcançável e ver as adolescentes do documentário entoando esses problemas, como mudar o cabelo, ter uma irmã com baixa autoestima, partiu meu coração. Porque eu estive aí. Não apenas uma, como duas vezes. E é impressionante como ainda dói.

 

Ver uma das raízes de onde meu tormento com a aparência começou me deixou triste, mas me deixou sedenta para fazer algo. E tenho feito algo. Como escrever esta resenha.

 

Miss Representation vale demais do seu tempo. Acreditem em mim.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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