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11/abr

Para: Simon Spier.

 

Assunto: Com Amor, Simon.

 

Gostaria primeiramente de agradecer a pessoa responsável por sua existência. Não, não estou a falar de seus adoráveis e embaraçados pais. Existe alguém que compartilhou você e cada uma das pessoas de sua vida, com cada um de nós. Quando digo nós, me refiro aos fanboys e fangirls do Simonverse. Quem está familiarizado com essa dimensão, sabe o que estou falando. Aqueles que ainda não conhecem, tal universo foi criado por Becky Albertalli. Nascida e criada em Atlanta, clinicou psicologia infantil e juvenil durante anos e decidiu escrever seu primeiro livro depois do nascimento do seu filho primogênito.

 

Sabe o porquê falo isso? Porque esse livro é sobre você, Spier. Anos de experiência com crianças e adolescentes fizeram com que a Mrs. Albertalli se direcionasse ao universo Young Adult. Gênero literário com temática jovem. Ela desde então lhe deu um lar para chamar de seu, uma família compreensiva e amigos para toda a vida. Mas também lhe presenteou com a mais bela possibilidade: de abraçar seu verdadeiro eu.

 

Desde pequeno, você sabia que era diferente, mas quero pedir que não use essa frase para lhe definir. Quem você é e sempre será, é você mesmo. Por mais assustador, confuso e por vezes solitário, nada e nem ninguém deveria dizer o contrário.

 

Virar as páginas de sua história foi uma das experiências mais gratificantes e encantadoras dessa minha longa jornada como devoradora de livros. Acredito que, assim como qualquer outra pessoa, você merece ter sua grande história de amor.

 

Tudo bem se achou que até então esteve sozinho com seu segredo. Nem todos encontrarão pessoas esclarecidas pelo caminho, dispostas a respeitar e abraçar alguém, independentemente de como foram criadas. Ou do que de fato acreditam.

 

Família Spier

 

Nesse aspecto você teve sorte. A começar pelos seus pais, Jack e Emily. Seu núcleo familiar é adorável e inclusivo como todos deveriam ser. Preenchido por momentos em conjunto e com muito diálogo, mesmo que alguns sejam comicamente desconfortáveis. Ambos estão ali por ti e por sua irmã caçula, Nora.

 

Por falar nela, mesmo sem conhecer muito sobre essa pequena grande aventureira da cozinha, ela causou impacto. Assim como você, ela é única e pode ser quem ela quiser ser.

 

Aqui, a importância do diálogo foi a chave para destrancar os sentimentos confusos que habitavam dentro de ti. Mesmo que a marmota manipuladora sem escrúpulos do Martin tenha arrancado sua verdade a força, espalhando-a aos quatro cantos, a partir de agora você pode recuperar o direito que lhe foi tirado. Reapresentando a si mesmo e aqueles que ama.

 

Sua experiência beira os limites da realidade e da fantasia. É como se você, Leah, Nick e Abby tivessem saído diretamente de um clássico coming of age do John Hughes (Clube dos Cinco), propulsor do gênero na década de 80. E quão revigorante é assistir a evolução de um gênero que marcou tantas pessoas naquela época. Afinal, Hughes ficou conhecido por engrandecer e fantasiar esse período da vida que é turbulento e cheio de reviravoltas.

 

Mas, hoje, a história é sua.

 

Squad

 

Nem todos os jovens recebem o mesmo nível de aceitação, de tolerância e de diálogo que você recebeu. Tanto dentro de casa quanto fora dela. Até mesmo seus amigos, aqueles que não conseguiria, durante anos, contar seu segredo, acabaram por compreender. Aliás, mesmo depois dos jogos de manipulação no qual se envolveu, Leah, Nick e Abby – que por sinal foi a primeira pessoa a saber – se mantiveram ao seu lado.

 

“Não é justo só gays terem que assumir. Por que hétero é a norma?”

 

Desde que o mundo é mundo, fomos confinados em padrões de comportamento, ciclos de vida, escolhas pessoais, profissionais e familiares, entre outras coisas. Somos cobrados a todo instante, seja direta ou indiretamente, a exceder nos diferentes campos de nossas vidas.

 

Será que estamos mesmo fadados a seguir somente uma norma?

 

Por exemplo: nascer, crescer, trabalhar, casar, procriar e morrer? Sei que falando assim parece que limito os estágios. Sim, qualquer um tem o direito de seguir esse padrão, mas gosto de acreditar que também pode-se criar algo novo. Independentemente do que os pais, familiares e a fadada sociedade espera de ti.

 

Existem diferentes tipos de normas. Além da sexual, existe a de gênero, a racial, a religiosa, a cultural e assim por diante. Tudo que foge da “regra” exige mais disposição, energia e maior investimento, principalmente caso queira ser respeitado, ouvido e aceito.

 

Estranho dizer “ser aceito”, certo? Por que essa exigência somente se aplica a determinados grupos de pessoas? Soa como utopia acreditar que ninguém deveria ser colocado numa caixa, somente por fugir da “norma do mundo”.

 

Somos individualistas por natureza, pois muitas vezes nos falta empatia. Seria mais uma vez utópico pedir que nos colocássemos nos “pés” do outro?

 

Metáforas à parte, muitos se protegem atrás de seu privilégio. Nem sequer questionam como é estar do outro lado. Independentemente do que se acredita como certo ou normal, a partir do momento que se depara com algo ou alguém que não vivencia o mesmo que o seu, deveria parar por aí e refletir. Caso não consiga, que tal seguir com sua vida? Sabe o famoso não ajuda, mas também não atrapalha? Infelizmente, desde que o mundo é mundo, as coisas não são tão simples assim.

 

Agora você deve pensar mais uma vez os motivos de eu falar tudo isso, não é mesmo Spier? Decidi escrever este e-mail a ti para parabenizá-lo pelo seu renascimento, que teve seu início a partir do momento que decidiu apertar ENVIAR E-MAIL para um certo alguém chamado Blue. Um alguém que, assim como você, carregava um segredo. Dentre segredos em comum, foi essa pessoa misteriosa que o transformou dia a dia numa versão mais orgulhosa de quem és, especialmente em relação ao que sente.

 

Diferente de muitas histórias, você não deixou que lhe resumissem a apenas o garoto dentro do armário, que fora arrancado a força para todo mundo ver. Seu momento na roda gigante chamada vida abriu possibilidades a diversos jovens e até mesmo adultos que um dia foram jovens. Sua realidade habita esse universo fictício criado por Mrs. Albertalli, mas, olhando com carinho, traz uma brisa nova e revigorante. Não só para essa geração, mas para iniciar um diálogo para todos que vivem este momento.

 

Sua história de amor deve ser vista pelo que és: uma história de amor. E ninguém mais apropriado do que Greg Berlanti para dirigir sua jornada das páginas de Simon Vs. A Agenda Homo Sapiens para as telonas, na nova produção da 20th Century Fox.

 

Confesso que sou uma Berlanti fangirl declarada, independentemente dos narizes tortos que ele recebe graças ao seu envolvimento como produtor da DC TV no canal The CW. Nossa jornada data aos tempos de Everwood, drama familiar da WB Channel, um dos mais respeitados até hoje. Só que Berlanti já fazia parte de minha vida de seriadora, sem ao menos imaginar naquela época.

 

Berlanti trabalhou por duas temporadas como escritor em Dawson’s Creek e ali quebrara barreiras ao bater na mesa sobre o direito de Jack, interpretado por Kerr Smith, em dividir um beijo romântico com outro rapaz. Diferente dos estereótipos e das piadas presentes em diferentes produções desde então, a série deu o primeiro passo rumo à representatividade na televisão.

 

Com Amor, Simon é uma celebração em forma de filme, pois, além da doçura, encantamento e leveza, a história consegue balancear as diferentes facetas de seu protagonista. Ele que, no final do dia, deseja ser um pouco mais Simon Spier. Ou, como você diria, ser efetivamente Simon Spier.

 

Fora os rótulos de “gay teen movie” que alguns o remeterão, esse é o tipo de filme que abraça sua identidade, deixando de fora os estereótipos e o famoso “preenchendo a cota” de muitas produções nos últimos anos. Seu tom fantasioso balanceia o realismo vivenciado pelo protagonista, responsabilidade colocada no jovem ator Nick Robinson (Jurassic World), que se dedicou com honestidade e maturidade para representá-lo.

 

Divertido, tocante, musical e contemporâneo são alguns dos adjetivos positivos que Com Amor, Simon merece receber. Tratado com carinho e entregue na mesma medida, sem dúvida poderá ser considerado um dos grandes feitos da atualidade. Exagero o meu? Jamais, afinal, como lhe disse no começo deste e-mail, navegar no Simonverse foi uma aventura digna da roda gigante que chamamos de vida. Dentre altos e baixos, encontramos a batida em nossos selvagens corações e você, meu caro, sem dúvida encontrara o seu ritmo.

 

Com amor, Lady Maricota.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Mari
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