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24/abr

Este post teve como insight aquelas listas que dizem: “10 coisas incríveis que personagem X fez”. Na época, eu analisava a repercussão do fim de The Vampire Diaries e pensei: que maneira mais nonsense de se recordar das mulheres que passaram pela série, especialmente a protagonista. Algumas listas foram sensatas, mas, a maioria, só recordou a parte do romance.

 

Deixando bem claro e bem bonitinho, as listas mencionadas deram relevância para Elena Gilbert unicamente do ponto de vista de seus relacionamentos. Sendo que um deles foi o suprassumo do relacionamento abusivo.

 

Então, lanço a pergunta que nomeia este post. De quebra, uso o papo de romance como respaldo da minha argumentação sobre o fato de que várias personagens femininas ainda são centralizadas nesse quesito e não são valorizadas. Além disso, “morrem” no inesquecivelmente lembrada por ficar com fulano de tal.

 

Vale dizer que meu foco de exemplo é o amor heterossexual/personagens brancas da TV.

 

Ultimamente, vivemos em uma onda que, em um passado não tão distante, eu achava muito maravilhosa: a questão de shipper. Achava porque agora eu sou um tantinho mais cautelosa quando sinto meu coração palpitar por um casal. Afinal, eu quero saber se ele é tóxico antes de levantar a bandeira. Claro que esse critério não nasceu pronto em mim. Tive que pedalar muito. Fui adolescente e fiz todas as escolhas erradas. Principalmente sobre OTP.

 

E não quer dizer que ainda siga imune. Eu ainda erro pra caramba, gente!

 

Do meu ponto de vista, o assunto de shipper tem mais estardalhaço hoje em comparação aos anos 90 – período em que rolou minha adolescência. Época da qual não tinha essa internet potente, nem a facilidade de fazer campanha em forma de hashtag e etc. para que assim alguma parte de um respectivo fandom fosse ouvida. Algo que acontece demais atualmente e isso muito me incomoda. Meramente porque se abre margem para o fanservice. Inclusive, a coisa toda sai do controle ao ponto de um ser humano ficar extremamente bitolado e ser incapaz de ter uma discussão que não beire a agressividade.

 

Criadores da década de 90 capturavam massivamente o buzz de seus trabalhos por meio da audiência (o que de fato não mudou, embora os fãs sejam o maior termômetro dos tempos atuais). Havia cartas também, que foi o ato comum para se entrar em contato com as pessoas e isso incluía celebridades. Posso mencionar os blogs e os fóruns de discussão que realmente se popularizaram em fins dessa referente década e contribuíram para fortalecer o que chamamos hoje de fandom e de cultura de fãs. Vide Harry Potter. Lindo, mas tudo isso contava com um tantinho mais de dificuldade. Como a internet que era discada – e nem havia redes sociais como o Twitter.

 

Essa dificuldade também afetava a proximidade entre criador e fã. Ambos os lados tinham que correr atrás para saber o que estaria pegando porque era tudo um tanto mais omisso. O calor do fandom era extremamente fragmentado, ao contrário de agora que é concentrado. Antes, você tinha que ficar muito tempo online para achar o que gostaria e nem sempre encontrava. Hoje, está tudo ali de bandeja.

 

E essa acessibilidade atual dá a sensação de controle. Uma parte de um fandom acha que controla quem cria e quem dá vida a uma história. O primeiro caso é fatídico, o que calha no mencionado fanservice.

 

Com tamanha abertura e proximidade, é possível sentir mais o poder de um grupo de fãs. Muito mais em comparação aos anos 90. Hoje, a fatia mais calorosa de um fandom consegue mudar diretamente na fonte vários cursos de uma série (às vezes nada disso ocorre, claro). Como as mencionadas questões românticas, que contam sempre com uma dose de estardalhaço online (e nem sempre é bom).

 

Joey e Pacey - Dawson's Creek

Joey e Pacey (Dawson’s Creek). Um dos primeiros shippers dos anos 90 que enlouqueceu o fandom da série.

 

Pelo que minha mente recorda, o romance nos anos 90 se desenrolava de uma maneira mais orgânica. Justamente por não contar com a influência direta de um fandom massivo. Como disse, para saber o que pegava, era necessário procurar, mas não era assim tão simples. Não quer dizer que era tudo perfeito nessa época porque rolava fanservice também. E os roteiristas tinham umas ideias que indignavam porque não fazia sentido. Só que hoje, devido ao acesso da mágica internet, se vê uma notória piorada.

 

Literalmente, se uma parte do fandom não curte algo X, lá vai ela xingar muito no Twitter. Às vezes, é justo. Às vezes não. E é esse não que, infelizmente, os roteiristas ouvem.

 

Um dos grandes, e piores, resultados disso é ver muitas personagens femininas da TV condenadas ao romance. Por meio do romance, muitas vezes elas perdem seu protagonismo. A jornada individual delas é deixada de lado para que representem eternamente a garota apaixonada por um cara que, geralmente, é abusivo. Dependendo dos casos, esse mesmo romance não passa de um artifício de trama para gerar angústia – que na maioria das vezes é angústia exclusivamente masculina (e nem precisa se inclinar para ser uma relação tóxica).

 

Muitos escritores ainda usam de vários tropes que giram em torno de romance e os desenrola ilogicamente. De forma que não casam com o compasso da trama ou com a premissa ou com o ponto da vida que a personagem se encontra. O romance se torna um faniquito que precisa existir, como se todo o conteúdo do planeta precisasse, por exemplo, de um triângulo amoroso. É hora de mudar essa mentalidade.

 

Antes que perguntem, não sou anti-romance. Gosto desse drama, mas desde que seja bem construído. Desde que faça sentido para ambas as partes. Desde que não atrapalhe o desenvolvimento individual dos personagens. Desde que não destrua a personagem feminina central ou as coadjuvantes em nome da angústia masculina (manpain). Desde que não se torne válvula central ao ponto de desvalorizar o resto do elenco.

 

Esse papo de shipper (e tantos outros) tem condenado muitas séries hoje em dia e é deveras irritante. E isso inclui séries que já vêm com a proposta do romance embutida e que têm o talento de se perderem na hora de colocar o casal principal junto. Por quais motivos? Bem, com a internet, o consumo é rápido e o mesmo vale para o desenrolar de certas storylines. Como as de romance, pois os fãs querem que isso ocorra o mais depressa possível. Não interessando quantas queimadas de etapa ocorrerão para que o OTP fique junto (e nem sempre é um OTP).

 

O fandom tem pressa. Ótimo! Mas o fandom também contribui para a queimação de etapas e a descaracterização de quem está em cena. Isso ninguém comenta porque basta ter o endgame e tudo fica bem.

 

E o mesmo se aplica a quem escreve esses conteúdos. Para manter a sobrevivência de uma série, fanservice muitas vezes entra em cena. Algo assim que considero extremamente antiético. Se é seu trabalho, quem curte tem que aceitar e é isto. O máximo é aceitar sugestão.

 

Quando a parte de um fandom que só pensa no shipper é ouvida pelos roteiristas nada fica bem. Romance em exagero e sem construção precariza e desgasta uma série que outrora se enquadrava na lista de muito boa de assistir. A própria The Vampire Diaries que viu seu fim antes do fim quando cada escritor e as duas showrunners simplesmente socaram romance em cada brecha. Sem contar que a equipe cedeu ao que gerava buzz por meio do “subir uma hashtag”.

 

Fato que costumeiramente ocorre com conteúdo adolescente. O fandom aqui é mais caótico.

 

Gabby Dawson - Chicago Fire

Dawson e Casey (Chicago Fire). Atualmente, ambos estão sem desenvolvimento que preste, mas os amo.

 

Séries adultas também não fogem dessa premissa que rima com filme de terror da pior espécie. Muitos roteiristas chegam a tratar o casal como uma dupla de adolescentes, com uns tipos de conflitos que você desacredita da audácia. Ou então há o mesmo tratamento que normalmente é dado para um casal teen em uma série teen: o buzz enquanto o resto do elenco chupa o dedo.

 

Ainda bem que existem séries positivas. Com relacionamentos saudáveis e bem construídos, né?

 

O que ocorre é que o acesso à internet facilitou o tratamento dos shippers como o paredão do Big Brother. Aquele que tem mais buzz acaba à frente dos outros. O famoso e já citado fanservice. Algumas séries acertam ao inserir seus romances, graças à Deusa, mas há outras que apenas aguardam a oportunidade. Vez e outra essa oportunidade vem do fandom e ah! pronto. Assim, se inicia o ciclo de dois personagens que ficam juntos do nada e não desenvolvem nada a não ser a arte de dizer “eu te amo” – e, às vezes, soa tão falso que nem sei. Contexto que mostra que esse mesmo buzz faz a cabeça de roteiristas que empurram casais que nem sempre são os mais corretos.

 

Só porque um fandom “pediu”.

 

Lembram quando comentei que representatividade não é só mulher no centro? É isto. Tudo bem ter o romance, desde que a personagem não perca todas as suas características por causa de um homem (o caso de Elena Gilbert). Nem que essa personagem perca seu posto de heroína porque só quer saber do homem (o caso de Elena Gilbert). A felicidade da mulher não é só o homem, algo que várias séries, livros e afins ainda vendem.

 

Está errado!

 

A CW é um exemplo de emissora que possui roteiristas que ainda deslizam no que citei acima. Não sei o quanto melhorou, pois larguei de mão a queridona (e morro de vontade de ver Black Lightning, me ajudem!). Enfim, o comportamento aqui deveria, a essa altura do campeonato, ser outro. Nada de seguir dando pouca bola para as personagens femininas, independentemente de shipper. Agora há as heroínas da DC que meio que provam o contrário (nem tanto assim porque eu apenas acompanho de longe), mas…

 

Ao engatar o dito romance certo, muitas séries se esquecem dos outros personagens e a série toda fica à deriva (o caso de The Vampire Diaries). Meramente porque focam no shipper e o desgastam até o caroço. A premissa fica de lado e, quando se dão conta, é tarde demais. Em vários casos, não há mais como construir ou reconstruir a trama e não resta nada a não ser “escrever qualquer coisa”. Ou engatar os casais possíveis com os personagens restantes.

 

Mulheres como meros artifícios de romance

 

Brooke e Peyton - One Tree Hill

Peyton e Brooke (One Tree Hill). Dizimadas pelo hate feminino + 100% arrasadas por romance.

 

Muitos de vocês já devem ter ouvido falar de One Tree Hill. Sim, uma série antiga, porém, finalizada. Lá, havia duas garotas que começaram sua saga competindo pelo mesmo cara. Um trope nem um pouco novo e que está muito longe de morrer. Ainda assim, e mesmo não querendo dar muita bola para essa série no momento por motivos de seu criador-embuste, a conversa de uma parte do fandom se deu sobre os pontos positivos das personagens. Brooke era espirituosa e sempre corria atrás do que queria. Peyton emanava seu amor pela arte e a crença de que a música tornava o mundo melhor. E Haley cativava pela resiliência que apaziguava as tretas que, por vezes, eram bem idiotas.

 

Lindíssimo, mas o papo mais pesado veio de outra parte do fandom: os relacionamentos amorosos e só os relacionamentos amorosos importavam. A inesquecível redução da personagem feminina devido a que cara ela beija no momento. Em One Tree Hill rolou demais.

 

Além de uma parte desse mesmo fandom queimar a importância dessas três personagens, ainda se cultivou o ódio isolado por uma delas – Peyton Sawyer. Não nego que estava nesse grupo, embora meu impasse com a Peyton não tivesse nada a ver com a série em si. Seja como for, aqui esteve o típico estímulo de um conteúdo que frisa que todas as manas precisam morrer por um cara. Amém que no futuro de OTH as coisas se acalmaram, mas não duvido nada que ela teria seguido como The Vampire Diaries, encerrada em seu mar de shippers, sem nenhuma moral em sua conclusão.

 

OTH pode não ter dado voz aos relacionamentos abusivos (mas não quer dizer que tenha sido positiva porque houve sim muita violência  gratuita contra suas personagens), mas temos Gossip Girl. Blair e Chuck formaram o suprassumo do relacionamento abusivo e tóxico, mas virou hit na CW. Uma empreitada surpresa dos roteiristas tornou a série em um completo inferno. Absolutamente impossível de assistir. Vários pontos da história da personagem foram esquecidos em nome da angústia Chair, como o transtorno alimentar. O mesmo vale para a Serena que contou com vários níveis de slut-shaming, sendo lembrada apenas por quantos boys havia se envolvido.

 

Gossip Girl nasceu na época em que as redes sociais começaram a bombar. Talvez, ela pode ser considerada a primeira experiência em que um fandom sentiu que tem poder sobre os roteiristas (e essa série perde a majestade de influência diante de Pretty Little Liars). Infelizmente, por todos os motivos errados. Afinal, mais um relacionamento abusivo virou endgame. Uma opção que se repetiu com The Vampire Diaries, em que o lado barulhento era Delena e Delena marcou mais um relacionamento abusivo e tóxico que teve “final feliz” pela mesma emissora (CW).

 

Dei esses exemplos porque as séries estão finalizadas (e seria mais complicado discutir esse tópico com série em andamento porque as coisas podem mudar no ínterim de publicação deste post). Sem contar que é a fatia do mundo das séries que tenho mais contato. E a conclusão é a mesma: Blair e Elena só são recordadas pelos caras que ficaram. E se você se atrever a dizer o contrário, como mencionar que elas viviam um relacionamento abusivo, lá vem treta.

 

A verdade: não existia vontade própria da parte dessas personagens uma vez envolvidas com seus interesses amorosos. Elas perderam a voz. Mudaram drasticamente. Eles podiam terminar, mas elas não. Eles podiam seguir em frente, mas elas não. Elas tinham que implorar enquanto eram humilhadas e eles pagavam com mais humilhação para mostrar quem era o superior (o sonho bom demais para ser verdade). Todas as oportunidades dadas para que elas seguissem em frente foram apenas viés de angústia em nome do cara. Nada as beneficiaram até o fim de suas histórias porque era mais importante o endgame do shipper que qualquer outra conquista pessoal.

 

E repito que me refiro ao lado mais hardcore-fissurado-em-shipper de cada fandom. Há humanos sensatos sobre isso.

 

Eu, particularmente, acho insano. Mas temos um problema de cultura. Muito se diz que o cinema tem que mudar, por exemplo, mas o mesmo cabe à TV e ao que lemos. Se Hollywood assina um compromisso de cuidar melhor da representação feminina, trazer mulheres com histórias relevantes em cena, o mesmo vale para as emissoras que precisam parar de contribuir para que relacionamentos abusivos sejam endgame. O mesmo vale para livros que também vendem o mesmo tipo de trope tóxico e contribuem para que ele seja normalizado. Não é romântico o homem stalkear a mulher, gente! É insanidade de primeira linha.

 

Um dos problemas é que a mídia alimenta esse ciclo nada saudável quando falamos sobre romance. As personagens femininas sofrem demais ao serem empurradas para esses tipos de relacionamentos (dentre outros plots ridículos) que não contribuem para seu desenvolvimento individual. Um sofrimento que é confundido com angústia, quando é evidente que ela é abusada física e psicologicamente. E essa cegueira vem do fato de ser uma “ficção”, que não é para levar a sério. Ou “que você tá vendo demais”. Bem. Isso meio que resulta na normalização da cultura do estupro e na romantização do abuso – citando alguns exemplos.

 

E sua heroína tá bem?

 

Elena Gilbert - The Vampire Diaries

Ela mesma, Elena Gilbert.

 

Quando Nina Dobrev anunciou sua saída de TVD, tudo que cobraram dela não foi a importância de sua personagem. O heroísmo de Elena Gilbert. Cobraram dela o fato de não tê-la mais para meu shipper ocorrer. Isso é grotesco, mas essa sou eu adulta dizendo. Penso que se tivesse nessa mesma fase, estaria no meio do caos de ao menos um relacionamento problemático. Afinal, eu shippei Bella e Edward e aqui está outro exemplo de abuso.

 

Tudo que queriam de Nina era o compromisso com um casal. Logicamente, Delena. Não pensaram na sua escolha de carreira. Simplesmente a julgaram como se comandassem sua vida.

 

De quebra, desconsideraram toda a trajetória de Elena Gilbert. Uma trajetória que foi incrível por 3 anos da série, pois, depois disso, o que acompanhei foi o descarado fanservice.

 

Daí, voltemos às listinhas. Saída da série, houve muitos especiais sobre os melhores momentos de Elena Gilbert. Em uma lista de 10, ao menos uns 8 itens eram sobre Stefan ou Damon (e Julie Plec também fez a mesma coisa e me matou de vergonha). Sendo que essa personagem teve instantes extremamente preciosos, como:

 

❤ Arrancar força sabe-se lá de onde para ver sua tia Jenna ser sacrificada;
❤ Lutar pelas suas amigas hipnotizadas por Damon;
❤ Dar vida à Katherine Pierce e mais uma penca de doppelgangers;
❤ Sua fase quase certa de ser caçadora (e deveriam ter investido nisso, pela Deusa);
❤ Quando salva várias vezes seu amigo Matt;
❤ Sempre ter sido uma boa amiga (e a tornaram uma má amiga em nome do romance nocivo);
❤ Quando ela enfrentou Katherine (o que fez Nina bem famosinha por dar vida a duas personagens ao mesmo tempo);
❤ A preocupação singela com seu irmão Jeremy (que deixou de ser uma preocupação em nome do romance nocivo).

 

Mas tudo que elencaram foi a importância de Elena em estar com Damon. Ou Katherine com Stefan ou algum vampiro Original. Para quê pensar na trajetória da heroína?

 

Além do relacionamento abusivo, Elena foi hiperssexualizada. O que frisou outro problema: a personagem de Nina, em um determinado período de TVD, passou a ser resumida a sexo também. Porque excesso de sexo é sinônimo de amor verdadeiro. Só que não, né?

 

Algo que ocorreu com a Blair apesar dela ter tido mais personagens de apoio ao seu redor, o que lhe dava um tanto mais de movimento. Em contrapartida, Gossip Girl tinha o dever de, além do romance, ser sexy. Detalhe que não evitou que Waldorf também fosse hiperssexualizada mais ter toda sua storyline em torno de vários coadjuvantes e Chuck.

 

Nessa, caímos no papo de que relacionamentos frufru são chatos. Sendo que eles tendem a ser mais saudáveis. Contam com empecilhos mais verossímeis que criar coleira sobrenatural para uma garota. Algo que ocorreu em The Vampire Diaries, o famigerado sire bond. A tática para aproximar Delena por meio da troca de sangue entre ambos. Sendo que era um controle da parte dele sobre ela. Ele tinha consciência de que o que fazia era errado, mas não fez questão de quebrar essa “magia” já que seu amor finalmente era recíproco.

 

Me poupa, né?

 

Obviamente que para eu chegar a essas conclusões houve muito processo de desconstrução. Mas, ao menos com TVD, eu comecei a ver o problema mais cedo e assim pude retroceder a outras histórias, como Gossip Girl. Além disso, ver o quanto às personagens femininas seguem mais valorizadas pelos seus arcos românticos. Claro que isso não cabe a toda circunstância, pois, atualmente, há conteúdo que faz tanto a personagem quanto o romance pertinentes. Contudo, em maioria, o que temos é essa escalada romântica que cega pela euforia de uma parte do fandom. Com sorte, só quem fica em posto neutro enxerga a zona criada.

 

Erin-Lindsay - Chicago P.D.

Erin Lindsay, a injustiçada.

 

Mencionei séries adultas e Chicago P.D. é um exemplo de vários. Lindsay e Halstead sempre tiveram sua individualidade na série, mas está aí algo que sumiu assim que encontraram a brecha para o casal se tornar um casal. Pior que estava aí um desenvolvimento muito legal. Gradativo. Sólido. Contudo, os roteiristas perceberam que não tinha como fazê-los ficar juntos devido a uma regra imposta na 1ª temporada e foi necessário apressar o processo.

 

Não nego que a sacada dos roteiristas foi até que eficiente, mas o que veio depois representou com dignidade a nave da Xuxa. Todas as problemáticas que ambos poderiam passar eles não passaram. Sem contar que o foco excessivo no casal começou a apagar os outros personagens. Além disso, o shipper recebeu uma divulgação extremamente massiva, passou a falar por todos da série e ter sua história-não-mais-história exposta à frente daqueles que não tinham mais background.

 

Quando Sophia Bush saiu dessa série, algo igual ao caso da Nina ocorreu. Ela estava abandonando o shipper e não fazendo uma escolha profissional. De novo, uma parte do fandom se achou dono da vida dela e no dever de cobrar sua permanência para o OTP não morrer.

 

Eu realmente adoraria saber onde está o problema porque culpar o acesso à internet é fácil. Mas está aí um ciclo vicioso que emissoras não interrompe. Nem interromperá porque é de onde se garante renovação, o dinheiro circulando e o interesse.

 

Mas que mensagem isso emite ao público, especialmente o jovem? Em primeira mão, que o cara que claramente abusa da personagem feminina é o melhor cara para se ter por perto. Que mulheres só são felizes se viverem um romance. Que sofrer demais é a maior expressão de amor. Não, gente. Apenas não.

 

Personagens femininas devem ser respeitadas em todos os quesitos. O cinema pode ter os seus problemas para resolver, mas o mesmo vale para a TV. O mesmo vale para editoras de livros que seguem vendendo romantização do abuso, dando ibope para o assunto – e eu tento não ser tão crítica quanto a esse assunto, mas é impossível, serião.

 

Se dizem que Time’s Up é uma ação hipócrita, o mesmo vale para emissoras que, no menor buzz, se vendem. O mesmo vale para editoras que vendem o abuso, mas logo se “redimem” ao traduzir e vender livros feministas.

 

Enquanto a personagem feminina for apenas um meio para um fim romântico, que normalmente é gerar manpain e sofrer abuso, não há mesmo como ajudar a desconstruir uma geração que está sendo engolida por uma quantidade imensa de mídia. Um exemplo simples desse impacto negativo é ainda ouvir que tudo é culpa da mulher. Até quando o cara lá sofre (sendo que é a maior forçação de barra). Vamos lembrar que a mídia é a mensagem e o mensageiro, e a mensagem é que mulheres precisam dar tudo de si por um cara que as tratam como lixo.

 

E isso está longe de ser o correto.

 

A mídia nos influencia de todas as formas possíveis e inimagináveis. E com a cultura voltada para adolescentes não é diferente. É uma propagação de informação injusta e irreal. Por vezes, tremendamente errônea. E essa observação pode começar em um ato simples: como você enxerga as suas heroínas nas séries da vida?

 

Sua heroína te inspira só no romance? Ainda mais o abusivo?

 

Ou sua heroína te inspira empoderamento? Te inspira a ser melhor? Te inspira coragem e bravura para escrever sua própria história? Te faz acreditar em possibilidades? Te liberta?

 

Independentemente da sua resposta, fica a reflexão de como você enxerga suas heroínas. Dependendo da resposta, você pode contribuir para falso protagonismo, falsa representatividade e uso do mesmo trope que anula a mulher no cerne de qualquer trama. Mesmo que seja o algo dito “muito de leve”. Afinal, você emite a mensagem do que é mais importante e isso, preciosos, é o famoso poder que se tem uma grande responsabilidade.

Stefs
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