Menu:
26/abr

Quando penso na palavra silêncio, me remeto a minha infância emocionalmente introspectiva. Desde então, descobri que ao mesmo tempo que o silêncio me acalmava, também me aterrorizava. Dentre a ausência de palavras, me deparava frente a frente comigo mesma. Pra mim sempre foi assim. Muitos evitam isso, mas, no meu caso, resolvi abraçar o silêncio de maneira instintiva, durante parte da minha infância e adolescência.

 

Muito disso tinha uma razão: temia que, se abrisse a boca, meu grito adormecido nunca sanaria.

 

“Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso.”

 

Apesar de não conhecer sua obra de cabo a rabo, Clarice Lispector marcou minha vida durante a adolescência. Sua honestidade crua e a maneira com que disseca a alma humana, principalmente a feminina, me embasbaca até hoje. Foi então que pensei: o que Clarice já disse a respeito do Silêncio? E a citação acima foi a mais pertinente para resumir a sensação vivenciada durante toda a exibição de Um Lugar Silencioso (A Quiet Place).

 

Ouvir o silêncio parece contraditório, não é mesmo? Mas sua presença implica em uma série de significados, de expressividades e de interações. Silêncio pode ser preenchido com um olhar, com a presença ou com um simples gesto de solidariedade. Silêncio pode ser solitário, mas, de certa forma, ele passa a ser preenchido quando compartilhado. Silêncio pode ser usado como uma ferramenta para organizar pensamentos. Silêncio pode ser corriqueiro ou permanente.

 

E como seria se esse mesmo silêncio fosse vital para a sua sobrevivência? Como seria se dependesse dele para viver mais um dia? Foram esses questionamentos que deram início a este projeto. Um dos mais ousados e específicos já produzidos.

 

Bryan Woods e Scott Beck, amigos desde a infância, idealizaram o roteiro de Um Lugar Silencioso em 2013. Ambos se inspiraram em Iowa, região rural da qual cresceram. Somente em 2016, quando John Krasinski (The Office US) leu a versão especulativa, que a colaboração entre os três nasceu. Inspirado por seu potencializado instinto familiar, dado que Krasinski e Emily Blunt (O Diabo Veste Prada) acabaram de ter sua segunda filha, o ator propôs sua ideia para a dupla. Além da nítida homenagem ao cinema mudo e ao gênero terror, a história trataria também a relação de uma família e a voraz determinação dos pais em proteger seus filhos.

 

A Paramount Pictures comprou o roteiro especulativo do longa-metragem e a contribuição de Krasinski, que também foi contratado para dirigi-lo, fizeram com que Um Lugar Silencioso ganhasse sinal verde. Houve também o apoio financeiro da Platinum Dunes, empresa de Michael Bay (Transformers), e dos produtores Brad Fuller e Andrew Form.

 

Focado em suma no gênero terror, a Platinum Dunes está por trás de filmes como a franquia Uma Noite de Crime, Horror em Amityville, Ouija, O Massacre da Serra Elétrica, entre outros. Sendo assim, abraçar esse novo projeto soou como o casamento perfeito. Bastava saber se o público compraria tal ideia.

 

Família

 

Comparações com a franquia Cloverfield, também da Paramount, surgiram. Inclusive, foi algo que passou pela mente dos roteiristas lá no início das negociações. Porém, com o potencial para criar sua própria atmosfera, Um Lugar Silencioso seguiu como um projeto único, desassociado da franquia cult indie produzida por J.J. Abrams.

 

A produção construiu um iminente e alarmante perigo já que a criatura de Um Lugar Silencioso remete a diversas outras presentes em produções sci-fi. Desde as mais clássicas, como a quadrilogia Alien, até as de canais streaming, como Stranger Things. Independentemente de encontrar semelhanças físicas e comportamentais, esse monstro caça através do som. Assim como golfinhos e morcegos, sua audição é aguçada, intensificada, dado que é cego e não possui olfato.

 

Considerando o budget de 17 milhões, creio que boa parte disso foi destinada para os VFX, que contou com a Industrial Light & Magic. Fundada por ninguém menos que George Lucas, o grupo, divisão da Lucasfilm, pertence à Walt Disney Company. E aqui ficou nítido o profissionalismo na concepção e na entrega da temida criatura sonora.

 

Caso tenham lido sinopses do filme, saibam que ele traz uma família de quatro integrantes que tenta sobreviver a criatura que caça através do som. Como o trailer mesmo diz, se eles não podem te ouvir, eles não podem te caçar. Seguindo tal premissa, sem explicar como tudo ocorreu, entramos em contato direto com o cotidiano dos personagens. Tudo indica que o mundo todo sofreu uma invasão alienígena, mas pouco desse universo é explorado.

 

Em Um Lugar Silencioso, vemos o tempo passar consideravelmente. Desde o momento em que a família nos é apresentada. O roteiro escolhe não citar o nome dos personagens, o que pode soar como óbvio já que poucos diálogos existem. Porém, uma simples busca pela internet resolve esse problema.

 

Mesmo sem diálogo, é possível se sentir conectado com cada um dos personagens. Independentemente do quanto conhecemos essa família, vê-la sempre no limite provoca uma relação de empatia. Dentre uma perda e uma nova chegada, todos tentam seguir, mesmo sabendo que aquilo não é viver.

 

Apesar da dinâmica familiar, tudo gira em torno da relação do pai com a filha. Luto e culpa cresceram entre Lee e Regan devido a um inocente equívoco que causara a perda do filho caçula, Beau. Vista como uma responsabilidade redobrada, principalmente pelo que aconteceu, vemos um pai que não consegue lidar com a limitação da filha. E, com isso, se acaba criando mais um silêncio abismal entre ambos.

 

Em paralelo a essa difícil relação, temos Marcus que, mesmo com medo, acaba tendo que abraçar a responsabilidade de ajudar o pai. Aprender a se virar sozinho e, consequentemente, cuidar da mãe numa eventualidade são as pressões colocadas sobre ele. Mesmo que indiretamente, o roteiro aborda as diferenças de criação de um filho e de uma filha.

 

John Krasinski

 

Um Lugar Silencioso poderia ticar as caixas correspondentes aos gêneros que homenageia e sair satisfeito com o resultado. O que aconteceu ao final foi exatamente o contrário. Vemos nitidamente que incorporar Krasinski ao projeto trouxe mais profundidade e humanismo. Seu papel como ator, diretor, roteirista e produtor é sentido a todo instante, mesmo com a pressão em trabalhar e, consequentemente, dirigir sua esposa pela primeira vez.

 

Vale lembrar que foi Emily quem o convenceu a sentar na cadeira de diretor. Ela também sugeriu uma amiga para interpretar a Mama Abbott, mas, após ler o roteiro, acabou se sentindo conectada imediatamente com a história daquela família. Hoje, sem revelar quem era a potencial candidata, ambos brincam que tiveram que telefonar e demiti-la.

 

O grande desafio de Um Lugar Silencioso foi como apresentariam um filme às audiências ao redor do mundo. Afinal, 95% de sua duração é silenciosa. Linguagem de sinais, expressões faciais, olhares intensos e gritos reprimidos são os principais recursos apresentados. A maneira com que o elenco consegue expressar picos de calmaria e de tensão, por vezes em frações de segundos, é extraordinária. Ali, vemos indivíduos vivendo com o que parece ser todo o tempo do mundo, dado a escassez de recursos, de comunicação e de interatividade com o meio. Porém, é justamente no como e no para que eles usam desse tempo disponível que ditará sua existência.

 

Nós, como seres humanos, somos suscetíveis à adaptação. Por exemplo, muitos hoje se perguntam: como vivíamos sem celulares Smartphone? Simples assim: VIVENDO! Ao mesmo tempo que nos comunicávamos de um jeito, passamos a nos comunicar de outro. Já para a família Abbott, o presente que nos foi dado como comunicadores teve que ser adaptado.

 

Pais a proteger seus bens mais preciosos, independentemente das escolhas que podem ser erroneamente humanas. São dilemas familiares que questionam a criação, a culpa, a abnegação e a supressão de sentimentos. Sejam dos mais simples, como ao interagir durante um jogo de tabuleiro, até como usufruir dos recursos que os cercam. Não importando a iminente ameaça.

 

A todo instante, apesar do universo surreal do qual a história habita, questionamos como seria se nós estivéssemos no lugar daquela família. Só de estar ali no cinema, a mastigar meu salgadinho, fazendo aquele barulho, já me causou pânico. Agora imagina como seria viver na pele dos pais e de seus filhos?

 

Potencializando a interação e o convívio constante, vemos os Abbott tomarem decisões. E são essas decisões que ditam toda a jornada. Um simples ato puro e ingênuo deixa uma sombra. Com isso, desencadeia traços comportamentais em cada membro da família. O mais importante é como os personagens visualizam suas fraquezas, o que impulsiona a força desesperadora que os motiva a viver. A vulnerabilidade se torna a maior força, o grande superpoder, e os paralelos em relação a essa concepção são explorados durante o filme. Principalmente no arco final.

 

Irmãos

 

Falando em superpoderes, ficou impossível não se deixar engolir pela presença e pela atuação de Millicent Simmonds (este é seu segundo trabalho como atriz profissional). Cinema se tornou, desde que o mundo é mundo, uma das ferramentas mais mágicas da humanidade. Dentro de salas de cinema, ou mesmo em nossas casas, somos transportados para universos reais ou fictícios. Os personagens ecoam dentro de nós, provocando diferentes sensações, e o que essa jovem, de apenas 15 anos, agrega é a mais pura definição do que significa ser representado nesse grande universo.

 

Acompanhamos diversos castings errôneos, seja a esbranquiçar etnias até mudar gêneros representados em produções. Aqui, vemos o exemplo de uma escolha acertada que, com o tempo (desejo muito), não precisará ser mais destacada ou usada como isca de matérias nas redes sociais. Representatividade deve, passo a passo, se tornar algo natural e normal.

 

Embarcar no seu mundo sem som, esse já habitual a personagem, muito antes ao que acontecera a toda população global, nos faz explorar seu desenvolvimento e a caminhar de certa forma junto com ela. Durante uma simples alteração sonora, quando a câmera muda o foco entre os membros da família, percebe-se o quão importante é mostrar sua realidade e sua percepção. Diferente dos parentes, o silêncio é sua normativa.

 

Aqui, o design de sound age como o grande protagonista. Muito mais que a família e a criatura. Ele ressoa, impacta, juntamente com a abertura da câmera. Seja para ressaltar a mínima presença do som ou para potencializar as interferências dos barulhos externos. A primeira cena de Um Lugar Silencioso mostra claramente esses picos de calmaria e de distúrbio, que trazem catastróficas consequências.

 

Ter Millie no elenco agregou imensamente ao processo criativo. Afinal, ela vivencia seu próprio Lugar Silencioso. E saber que Krasinski brigou para tê-la no filme, só mostra quão comprometido ele esteve com este projeto. Dar tal plataforma para atriz valida que, independentemente de suas limitações, nada a impediu de continuar. Além de representar toda uma comunidade, por meio de sua personagem, conseguimos nos colocar nos seus pés. Mais precisamente, em seus ouvidos.

 

Seu maior tempo em cena é ao lado de Noah Jupe, que interpreta Marcus, o irmão mais novo. Talentoso ator britânico, com apenas 13 anos, já coleciona importantes títulos em seu currículo. Para os amantes de adaptações literárias, em específico que leram e assistiram Extraordinário, lembrarão dele como o melhor amigo de Auggie, Jack Will. Gracioso e natural, Jupe abraça como gente grande tal responsabilidade, além de aprender a falar a linguagem de sinais com Millie. Soma que contribuiu para o êxito do filme. Cada aflição, arrependimento e até mesmo a sensibilidade direcionada à irmã, potencializa a tensão e o sentimentalismo alcançado.

 

Emily Blunt

 

Blunt não é a atriz que muitos esperariam para esse gênero graças às escolhas profissionais que fez desde seu big break com O Diabo Veste Prada. Muito menos Krasinski, marcado por seu papel na versão norte-americana de The Office. Mesmo assim, o projeto ao cair nas mãos dele consequentemente surtiu efeito nela. Mesmo que relutante, principalmente com a fase que estava em sua vida, ela se sentiu sugada pela dinâmica familiar.

 

Vale dizer que Blunt sempre foi uma atriz que escolhe com cuidado seus papéis, mas aqui ela assumiu um risco imenso. Como imaginar que a mesma mulher que dará vida à Mary Poppins é a mesma mulher que entregou uma das cenas mais agonizantes já feitas? Sua Evelyn mantém o funcionamento da família e serve de pilar de sustentação. Mesmo que Lee seja mais ativo fora da casa, ainda mais durante a gravidez da esposa, é ela quem dita o ritmo familiar. É ela quem tenta estabilizar as emoções de todo mundo.

 

Causa e efeito possuem diferentes interpretações, tanto na afirmação de que um evento pode desencadear outro quanto por questões religiosas. Enquanto uns acharam que a primeira parte do filme foi mais lenta, logo se percebe o motivo. E a expectativa que só crescia, chega ao seu ápice, trazendo uma sequência de eventos que estavam fadados a acontecer. Se havia dúvidas sobre o hype, a metade final comprova porque os elogios a Um Lugar Silencioso são mais que merecidos.

 

Tal realidade lhe transporta para uma jornada introspectiva na qual questiona e reflete como nos comportamos, interagimos e incorporamos o ambiente que vivemos dentro de nossa rotina. Como somos suscetíveis a mudanças caso elas estejam atreladas, especialmente a nossa existência. Afinal, criamos laços inquebráveis com aqueles que amamos e que nos ama incondicionalmente.

 

Sem entregar o melhor momento, mas já entregando, muitos conhecem o ditado tinha uma pedra no meio do caminho. Pois é, substituam a pedra por um prego e se preparem pra embarcar nos minutos mais horripilantes e claustrofóbicos que poderão vivenciar. No melhor exemplo de efeito dominó, acompanhamos na primeira fila, uma sequência de deslizes e de atitudes isoladas. Tais escolhas atrapalham a estabilidade e o convívio como um todo.

 

“Que tipo de pais nós somos, se nem sequer conseguimos proteger nossos filhos.” 

 

Como é esperado, numa situação atípica e extrema como a enfrentada, pais questionam sua capacidade como pais. Existe limites até onde se iria e o que se enfrentaria para salvar aqueles que ama? Por maior que seja o instinto de preservação e de sobrevivência, tudo se torna pequeno perante à abnegada escolha de estar e de fazer pelos seus. E esse se torna o grande ponto de virada de Um Lugar Silencioso.

 

Um projeto colaborativo e criativo disposto a expandir os sensores e as sensações de sua audiência. Sentimental e tenso na medida certa, é a grande aposta do momento para os amantes do gênero e também para os amantes da magia proporcionada dentro de uma sala de cinema.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento.

Mari
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3