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10/abr

Hoje, trago um texto sobre um evento que escolhi deixar rolar para depois soltar algum tipo de opinião. Pela foto que abre este post, vocês já devem saber quem é a pessoa envolvida.

 

Não lembro exatamente onde estava quando recebi a notícia de que Sophia Bush sairia de Chicago P.D.. Poderia entrar em detalhes, mas o que importa é que o sustão sobre esse assunto escalou e finalmente se calou. Só não calou o motivo da sua saideira que segue à deriva. Em outras palavras, com apenas uma advertência e com o protagonismo da mesma série em questão.

 

Quem acompanhava suas entrevistas, desde o início dessa jornada em um dos hits (que nem considero mais hit, me desculpem) da NBC, tem conhecimento de que ela sempre sonhou em trabalhar no mundo de Dick Wolf. Inclusive, contracenar ao lado de Mariska Hargitay. Não muito recentemente, a atriz reafirmou essa mesma declaração, mas não havia tanto ânimo em sua voz quando o motivo da sua saída de Chicago P.D. se apresentou na forma de Jason Beghe.

 

Eu fiquei pau da vida para não dizer outra coisa.

 

Quando comecei a acompanhar as matérias que circularam sobre sua saída, a primeira coisa que me veio à mente foi uma declaração que ela fez na companhia de Bethany Joy Lenz, em um evento de One Tree Hill (deverei o ano, mas, salvo engano, foi em Paris), sobre ter batalhado sempre para que sua personagem (Brooke Davis) contasse com storylines decentes. Considerando que Sophia é uma argumentadora nata, especialmente quando não está feliz, foi nessa causa que me apoiei enquanto aguardava a verdade nua e crua sobre tal desdobramento que marcou Chicago P.D..

 

Foi muito fácil acreditar que esse era o ponto, pois Erin Lindsay, sua personagem em Chicago P.D., começou a perder muito em storyline a partir da S3. A detetive não contava nada de bom a não ser seu romance com Halstead + repetições de casos investigativos.

 

Então, refleti: se Sophia não tinha liberdade para fazer questionamentos que envolvessem melhorias no executar do seu trabalho e na storyline da sua personagem, bem, era melhor sair mesmo. Convenci-me disso, pois estava aí um fato que pode realmente ter acontecido.

 

Meses depois, o que se contou é que Jason tornou o set de filmagem impossível devido aos seus assédios verbais. Tão quanto por suas atitudes violentas. Pela forma como essa verdade veio à tona, tenho certeza de que impasses contratuais barraram o verbalizar no instante em Bush saiu de cena. Sem dúvidas, a emissora foi o maior dos entraves, mas nem isso a impediu de ser furtiva. No podcast do site Politico, a atriz fritou cérebros ao alegar que alguém havia chegado ao ponto de erguer a mão em direção ao seu rosto.

 

Não fiquei nem um pouco surpreendida com a entrelinha do assédio visto a maneira como a franquia trata suas personagens femininas. Elas são descartáveis e contam com raríssimos bons momentos – e quando digo bons momentos é não estar conectada a um homem.

 

Erin Lindsay saiu de Chicago P.D. espelhando a infelicidade de Sophia. E, antes de tudo isso, sempre indaguei qual era a dificuldade da atriz em defender essa personagem como defendeu Brooke no passado. Qual seria o problema? Ela não tinha liberdade? Ainda mais ela que pertencia ao elenco regular e foi uma peça-chave para toda a divulgação da série? É. Sempre há algo mais perto do que imaginamos…

 

Quando digo que o desenvolvimento dessa personagem careceu é porque careceu. Seu fim de arco foi tão vergonhoso que até hoje finjo que nem existiu.

 

Sophia pode ter debatido em defesa da sua personagem no mesmo exato instante em que deu o prazo de uma temporada para os produtores de CPD resolverem o problema no set que, meses depois, se revelou ser Jason Beghe. Agora, sem tanta influência e rebobinando alguns episódios, concluo que a insatisfação sempre esteve lá, mas nada como um shipper para dar aquela ofuscada no que ocorria (uma conclusão particular porque se embasa em uma suposição). Ofuscada que a NBC voltou a repetir ao escolher limpar a imagem de Jason.

 

E o que Jason fez? Foi acusado de assédio verbal e de cunho sexual. Além disso, de comportamento inapropriado (que inclui assédio sexual). Tanto pela Sophia como por parte da equipe que conduz a série. A salvação desse embuste foi tornar tudo uma questão de “anger issues”.

 

O embuste apenas endereçou o que ocorreu com Bush como grave. Disse que sentia muito e que procuraria ajuda para seus “problemas de temperamento”. Um comunicado à imprensa que tenho certeza que não teria rolado se Mark Schwahn não tivesse sido denunciado em massa na mesma época – e Sophia endereçou calorosamente. Um comunicado à imprensa que tenho certeza que estava prontinho desde a partida da atriz, só esperando o instante propício para vir à tona.

 

Por isso que menciono os possíveis entraves contratuais. Ela poderia ter feito um cartaz de denúncia tranquilamente, mas a NBC estava lá, o tempo todo. O silêncio de Bush acabou sendo confortável para todas as partes envolvidas no caso Beghe porque deu tempo de criar um plano de contingência para o embuste sair por cima em vez de ser demitido.

 

O que dá a real de que Sophia sempre quis falar na hora o que houve, mas não podia. Algo meio esclarecido quando ela mesma contou que foi um parto quebrar seu contrato e assim sair da série sem olhar pra trás. Dessa forma, o que lhe restou foi justamente o que mencionei: ser furtiva.

 

O resultado dessa denúncia foi sim de se indignar. É muito fácil afastar ou dizer que fulano vai fazer tratamento. É de assédio que estamos falando, gente. Beghe tinha que cumprir a advertência, ou o que diabos fosse, longe de Chicago P.D..

 

Tirando minhas próprias conclusões, a NBC mostrou o popular “medo” de achar que só homem segura uma franquia. Quando dizia que o mundo Lobo viveu e ficou nos anos 90, aqui está a prova de que não é mentira. Nessas horas que penso que SVU pertence a um universo paralelo. A série mais velha da produtora de Dick não serviu em hipótese alguma de exemplo na hora de tratar a denúncia de Bush. E todos os envolvidos ainda se empenham para sinalizar normalidade.

 

E não incluo o elenco no que mencionei acima. Nem eles devem ter tido opção de ficar ao lado da Sophia.

 

Quando a revelação sobre Jason veio à tona, eu ri de nervoso. Ele não deu as caras, deixando tudo nas mãos da sua maravilhosa assessoria junto com a NBC. O pedido de desculpa foi pontual, com cheiro de manchild, para que assim o cidadão fosse perdoado tão rápido quanto à nota que caiu completamente no esquecimento. Quando a poeira baixou, não quis crer que usaram anger issues para deixá-lo bem na fita.

 

Assim, ele pode até ter anger issues, mas a nota veio dentro de um padrão. Spacey usou da sua orientação sexual para desviar o problema. Schwahn nem deu as caras porque sabia que se ficasse quieto as acusações morreriam com a mesma força com que nasceram (mas ele foi afastado de The Royals, vejam bem). E há vários outros que se apoiam em falsos transtornos mentais para ganhar empatia. Não aqui em minha casinha e, devido a essa revelação, eu mesma larguei CPD.

 

E sabem o que incomoda mais? É que Sophia falou sozinha! Por ser só ela, soou como se nada mesmo pudesse ser validado. Ao contrário da chuvarada que ocorreu com Schwahn. Até mesmo com Spacey em que um homem sozinho fez a denúncia – até outras aparecerem.

 

What’s happening to the world?

 

Além da clara mentira para desvirtuar o clima de assédio verbal e moral, Jason, em conjunto com a NBC, foi esperto. O grupo usou o timing de retorno de Chicago Med mais a semana de hiatus de Chicago P.D. – em que automaticamente ninguém do elenco estaria acessível – para se mostrar responsável diante da acusação de Bush. Essa parte me deixou inconformada tão quanto o posicionamento da emissora que, mesmo ciente dessa notificação, estampou o personagem desse cidadão no pôster estelar de “sua” série. Em vez de endereçar o problema e tirar o problema de cena, simplesmente tomaram mais um pouco da voz da Sophia.

 

Ainda bem que Sophia não é essa pessoa e segue cobrando resultado.

 

A verdade é que ocorreu nada novo sob o Sol: ficaram ao lado do assediador. Montaram um teatro em cima de Jason para que o mesmo saísse ileso. Ele segue ileso e só a Deusa sabe o que continua a ocorrer no background de CPD. De acordo com Sophia, o set é precário demais. De quebra, conviver com alguém que não tem um pingo de respeito pelo próximo é absurdo.

 

Como disse, o mais bizarro nisso tudo é que a “resolução” da saída da Sophia de CPD veio quase emendada às acusações para cima de Mark. Fato que me dá um pouco da certeza de que Jason continuaria no cantinho se não fosse o pavor dos “absolvedores” dele diante do caos que a atriz causava ao endossar vários casos de assédio no set de One Tree Hill. Não tiro da minha cabeça que foi estratégia. Pena que o método protegeu mais um embuste que fere a integridade física e psicológica das mulheres – e de quem está ao redor.

 

Em vez de darem cartão vermelho, deram um pôster heroico ao Beghe mais uma temporada que encontra seu próprio jeito de torná-lo de novo o herói que deixou de ser. Até a postagem deste texto, nunca mais se ouviu falar do seu tratamento e etc. Palhaçada não é?

 

É bastante decepcionante saber que o cara ainda está no elenco e que as fotos dos bastidores apenas representam a tentativa de dizer que está tudo bem, tudo nos conformes. A forçada de barra segue ultrapassando limites.

 

Chega dessa coisa de mimizenta

 

Sophia Bush e elenco de Chicago P.D.

 

Agora a gente precisa conversar. E muito sério!

 

No meio desse fuzuê, foi um tanto triste ver tantas mulheres tomarem partido de Jason. O que apenas afirmou o quanto deveria ter campanha para dissolver machismo/sexismo internalizado. Independentemente de quem você é na noite (e isso me inclui também, por que não?).

 

E o que seria isso? Mulheres que reproduzem o discurso machista. E esse discurso machista pertence ao patriarcado. E o patriarcado é encabeçado por homens (em sua maioria machista).

 

No que isso deu? Na Sophia, a mimizenta.

 

Quando mulheres não dão força uma para a outra e acha que tudo que ela diz é para chamar a atenção, especialmente sobre assédio e abuso, há um grande hematoma nesse ciclo. Não apenas sobre empatia e sororidade, mas pelo fato óbvio de que se protege um homem que deve pagar pelo que foi feito. Ele não deve ganhar uma flanelinha na cabeça e assim sair impune.

 

Ao dar a flanelinha para um cara como o Jason, você compactua com esse ciclo. Você fortalece a ação dele sair impune. Você é conivente e normatiza abuso e violência. Você desacredita a vítima.

 

Eu trabalhei em alguns ambientes e vivenciei assédio verbal. Disso, eu entendo como ninguém, mas não significa que as experiências sejam as mesmas. Aos 20 anos, atuei em um escritório de uma empresa que vendia tecidos e o patrão, inclusive sua esposa, não tratava humanamente seus colaboradores. Perdi as contas das vezes em que fui chamada de burra, de incapaz, de ter o mouse tomado para passar por mais um episódio de mansplaining. Todos os dias eu ia trabalhar com horror no peito. Com medo. Subia aquelas escadas orando para que nada desse errado naquele dia. O mais tenso é que, no escritório, só havia mulheres, mas nenhuma se apoiava.

 

Era divertimento ver uma, no caso as mais novas como eu, ter a “atenção chamada”. E as mulheres com mais tempo de casa agiam como os patrões, outra morte terrível. Era violência verbal escrachada de todos os lados.

 

Sem conhecimento, achamos que merecemos ouvir isso. Achamos que temos que agarrar essas informações para assim melhorarmos profissionalmente. Mas, para manter o emprego, nem notamos que isso nos bota lá embaixo. E, claro, que vivenciamos um tipo de assédio.

 

Esse trabalho tratava o erro com uma “punição verbal”. Criou-se em mim a neurose de não poder errar e o erro sempre vinha. Fosse pelo nervosismo. Pelo foco em não errar e acabar errando. Quando acertava, bem, obviamente que não recebia um elogio sequer.

 

Poderia ter saído do emprego? Poderia! Mas era meu primeiro emprego e eu precisava da grana e do registro.

 

Então, vamos entender uma coisa:

 

“Homens como um grupo têm e se beneficiam ao máximo do patriarcado, da suposição de que eles são superiores às mulheres e que devem governar sobre nós. Mas esses benefícios vêm com um preço. Em troca dos mimos que eles recebem do patriarcado, eles são obrigados a dominar as mulheres, a explorar e a nos oprimir, usando da violência se tiverem que manter o patriarcado intacto.” – Feminism is for Everybody de Bell Hooks.

 

Sophia cutucou o teto de vidro do ramo que atua. E o teto de vidro é o patriarcado. Ela, assim como várias mulheres, pontuou que irmãs juntas fazem estrago e destroem monstros. Só que, infelizmente, não é sempre que isso ocorre. Isso depende da vida que uma mulher tem no momento. Infelizmente, muitas ainda têm a perder ao denunciar seus agressores.

 

Essa não foi minha primeira experiência com homens desse naipe. Houve um em uma agência, cujo ambiente não era tão nocivo assim visto que o único problema era o dono da casa. Ele tratava melhor os homens que as mulheres. Em um belo dia de sol, houve um impasse de um cliente com relação a um produto e tínhamos que resolver essa crise, o que incluiu um texto de blog. Eu escrevi sobre essa história aqui e a reação desse homem me fez ter coragem de me demitir. Felizmente, não experienciei o assédio verbal como no meu primeiro emprego, mas ele me colocou para baixo duvidando da minha inteligência. Eu mesma não deixei que isso ocorresse e o que restou ao jovem foi tentar achar erro só para ter o prazer de passar na cara – e foi na cara de uma colega minha e foi ridículo.

 

Lá, eu não precisava mais do registro e já tinha guardado uma boa grana para poder cair fora e me sustentar por um ano. Foi a gota para mim. Quando anunciei a demissão, dei um mês para me substituírem (e não conseguiram me substituir no começo e apenas achei muita graça).

 

E vale dizer que esse mesmo homem julgou como TPM geral quando muitas outras pediram demissão depois da virada do ano. Alguma coisa estava errada não é? E não era dentro dos departamentos que tinham gerentes até que muito bacanas.

 

Há mulheres que realmente não conseguem ver o assédio que sofrem no ambiente de trabalho porque consideram normal ser tratada de forma X e Y. Eu estive aí e pedalei muito para desconstruir minha mente. Para ver o quanto isso é errado. Um homem dizer coisas de baixo calão a você, erguer a voz e a mão, se dar ao trabalho de explicar o que você já sabe, não é normal. E denunciar esses fatos não é mimimi.

 

Poderia continuar a lista, mas penso que tudo isso serve de exemplo na hora de apenas achar que uma mulher faz mimimi quando esse patriarcado do nosso dia nos oprime em qualquer lugar. Um patriarcado que é o teto de vidro e o teto de vidro são os homens. Eles se protegem nele e é por isso que caras como Beghe seguem com seus empregos. Vejam Johnny Depp.

 

Jason foi apenas advertido sendo que Sophia não foi a única vítima e pessoa vocal sobre as atitudes desse homem (há mais gente, mas não nomearam as crianças). Qual é a dificuldade de tirá-lo da série como tantos outros atualmente? A franquia Chicago já perdeu seu glamour há mais tempo que a morte de Chicago Justice. Uma franquia dominada por homens que giram nas mesmas histórias e que não têm a menor credibilidade em sair da caixinha. Eu mesma a pessoa exausta!

 

Honestamente, ninguém precisa passar por esse tipo de coisa para ser mais empático. O mundo do entretenimento tem sido uma bela lição de casa ultimamente. O ano passado foi um tanto estelar por ter tirado monstros debaixo da cama. Foram momentos horríveis, mas, ao mesmo tempo, pertinentes para a conversa atual sobre essas e outras pautas que afligem a mulher diariamente.

 

A posição da Sophia não é mimimi algum. Para quem não sabe, o âmbito profissional é igualmente cruel conosco. Além do mais, agressão contra a mulher não é apenas a sexual. Há várias, como a verbal.

 

O mais triste é ver mulheres compactuando com os caras e considerar isso como mais um episódio regado de abobrinhas. Quer exemplo maior que J.K. Rowling?

 

Ouvir mulheres dizendo que sem Jason a série acabaria me deixou angustiada. Gente, sério, há incontáveis talentos nesse universo, que provaram seu valor ao longo desses últimos cinco anos. Como a Marina Squerciati, belíssimo exemplo. Essa de que troca de protagonista não mantém a mesma qualidade é lorota porque, se os produtores quiserem, as coisas são plenamente capazes de seguirem sozinhas. E esta série em específico bem que anda precisando de uma repaginada…

 

Manter Jason com apenas uma advertência é a pior desculpa da vila. Protegeram o cara e é isto. Porque ele é bom demais para ser verdade e aí a gente perdoa o assédio. Stop!

 

Infelizmente, Hollywood se baseia em lucro, mas nem isso pode ser usado como argumento. Afinal, canais maiores demitiram assediadores e abusadores. A Netflix perdeu uma soma enorme de grana pelo Kevin Spacey e tomou a medida mais sensata de todos os tempos. Uma medida que é um exemplo e que deveria ser seguida com afinco. Se há confirmação de acusação, apenas tirem o embuste de cena. O mesmo vale para mulheres que também assediam e cometem violência.

 

Se é para limpar, que limpem tudo.

 

Parem de julgá-la pelo dito passado

 

Sophia Bush e Jesse Lee Soffer

 

“Positivamente, sabemos que, se uma mulher tem acesso à autossuficiência econômica, é mais provável que ela deixe um relacionamento em que a dominação masculina é a norma quando ela escolhe a liberação. Ela sai porque pode.” – Feminism is for Everybody de Bell Hooks.

 

Sophia afirmou em seu Instagram que saiu de CPD porque quis. Embora ela não tenha dito nada detalhado, seu comportamento calha na independência que ela possui em tomar tal decisão. Ela paga suas próprias contas, não tem dependentes e tem uma carreira consolidada.

 

Ao contrário dos demais do elenco de CPD que não chegaram nem na metade dessa trajetória. Dá aquela impressão de que compactuaram com Jason? Dá, especialmente porque ninguém se manifestou. O que esperar da emissora que lançou uma nota tão redondinha e “incontestável”?

 

Eu ficaria bem feliz se as outras mulheres do cast dissessem alguma coisa, mas, se foi um parto para Sophia sair por questões contratuais, essas mesmas questões contratuais são capazes de garantir o silêncio. E essa realização, que é uma suposição, fere tão quanto ouvir a mulherada defendendo o homem agressor, abusador, estuprador e assediador.

 

É preocupante e requer, feliz ou infelizmente, uma desconstrução fulminante.

 

“Eu não tenho nenhum drama sobre a minha vida pessoal. E, tipo, vocês são literalmente idiotas. Todas as suas teorias sobre minha vida estão sempre erradas. E, P.S., vocês geralmente descobrem que estou solteira um ano depois. Eu estou dando um tempo para eu mesma há um ano, e todos vocês estão chateados? Eu não me importo se vocês estão chateados; não é a sua vida, sabe? Então, de certa forma, você tem que rir. Mas também é difícil ler milhares e milhares de comentários de pessoas que apenas dizem: “você não tem respeito por nós e não nos contou”. Sabe de uma coisa? Eu tive que me respeitar em uma situação em que não me senti respeitada.” – Sophia Bush para o podcast do Refinery29.

 

Esse comentário da Sophia calha perfeitamente no mesmo que ocorreu com a Nina Dobrev. Antes do anúncio furtivo quanto ao set abusivo de CPD, declarado ao Politico, tudo que se disse sobre a saideira de Bush é que se tratou de uma medida por motivos de Jesse Lee Soffer. Por motivos de não conseguir ser profissional porque toda vez ela tem que se envolver com alguém do elenco.

 

E são essas pessoas que se dizem muito fã dela e feministas. Eu acho que pousei na nave especial errada!

 

Nina passou pelo mesmo impasse ao anunciar sua saída de The Vampire Diaries. Tudo que se lia era acusação dela sair porque não namorava mais com o Ian. Inclusive, que ela precisava ficar porque o “meu ship morrerá por sua causa”. Até quando as decisões femininas serão julgadas pelo que elas fazem romanticamente? Pela sua liberdade de se relacionar com quem quiser e terminar quando quiser? Ou pela verdade de que elas são mais que suas personagens imersas no romance?

 

É um pesadelo ver a saída de mulher ser resumida por um cara.

 

Ou, pior, pelo shipper.

 

Ambas foram acusadas de sair e assim destruir o “ship dos sonhos”. Primeiro: as atrizes não têm obrigação alguma de manter o casal de ninguém. Segundo: o fandom não domina a vida dessas atrizes e deveriam parar de agir como se dominassem. Sophia foi categórica nesse último quesito e fez meu coração mais feliz. Como fã, você precisa respeitar o artista e é isto.

 

Ninguém sabe da vida das celebridades a não ser o que aparece, sei lá, no Just Jared. Diminuir a decisão da mulher a um relacionamento é extremamente baixo. E só piora quando começa a roleta de slut-shaming e de injúrias sendo que, de novo, ninguém sabe o que há do outro lado.

 

As personagens de Nina e de Sophia não estavam com as melhores histórias em suas respectivas séries. Dobrev não sofreu com nenhum tipo de assédio, saiu por decisão própria. Mas, supondo, sinto que ela saiu insatisfeita com seu trabalho em TVD – Elena Gilbert chegou ao ponto de vivenciar um relacionamento abusivo e de ser hiperssexualizada. Ao contrário de Bush que saiu pelo assédio e não porque se envolveu com alguém. Cenários diferentes, mas que refletem o mesmo auê que nem deveria ocorrer porque a causa é evidente: elas decidiram pela carreira e pelo bem-estar. Infelizmente, há sempre o grupo da malice que destoa do restante do fandom.

 

Sendo clara: Sophia Bush não existe em função de seus romances e de Linstead. Superem.

 

Da mesma forma que rolou com Nina, que foi apedrejada ao anunciar sua saída no Instagram, o mesmo aconteceu com Sophia que simplesmente teve que se impor e dizer que saiu porque quis. E isso ainda não foi o suficiente para muita gente, o que cai de novo na dificuldade das pessoas em separar a pessoa celebridade da pessoa que é como a gente em off. Para piorar, Bush ainda teve que aguentar marcações do tipo: você é culpada pelo fim de Linstead. Uma afirmação que vem rolando desde o suposto término da relação dela com Jesse.

 

Então Jesse não tem culpa de nada? Ian também não teve culpa de nada? Me respeitem!

 

Então quer dizer que Nina e Sophia só eram boas por manter seu shipper vivo? Me poupem!

 

Eu lancei essa pergunta no post sobre a Nina e aqui ela calha de novo: de que adianta ter um emprego sensacional se chega uma hora em que você deixa de aprender? De evoluir?

 

Agora acrescento: em que você sofre com assédio?

 

Erin Lindsay vivia o mesmo ciclo vicioso até chegar ao ponto em que só estava com Halstead. A mania de tornar a mulher sombra do homem em nome de um relacionamento fictício. E o mesmo se aplica quando o romance vai para a vida real. Não está nada correto. Bastou mexer no casal ou o relacionamento acabar que a mulher não vale mais nada. É esse seu apoio?

 

Considerando que queremos mulheres protagonistas, sem co-dependência masculina, foi um tanto magnífico ver tanta mulher bastante retrógrada quanto às decisões dessas duas atrizes. Só que ao contrário.

 

I will not set myself on fire to keep you warm

 

Não me botarei no fogo para manter você aquecido. Lindíssima, Sophia, disse tudo em um quote (que ela mesma não chegou a dar o crédito por não saber na hora do podcast do Refinery29).

 

Embora atrizes distintas, Nina e Sophia tomaram decisões em nome de si mesmas. Isso é, sem sombra de dúvidas, inspiração para muitas mulheres. Infelizmente, não são todas que conseguem sair desse sistema opressivo e assim denunciar o que ocorre contra elas embaixo desse teto de vidro. Eu torço para que nenhuma mulher passe por tais perrengues e sou grata quando histórias vêm à tona. Meramente porque demonstram que não estamos sozinhas e que podemos buscar uma vida sem medo e longe de qualquer controle masculino. Dobrev e Bush foram atrás disso e estão de parabéns, apesar de uma circunstância ser terrível e não contar com uma solução decente.

 

O que fica de aprendizado com essas histórias é que nós mulheres podemos sim não nos lançar no fogo para manter os homens aquecidos. Para manter um grupo de pessoas aquecido. É difícil se colocar em primeiro lugar em determinadas situações e Sophia foi lá e fez. A atriz é uma vítima de constantes formas de assédio durante sua carreira e agora tem combatido.

 

Como ela mesma frisou no podcast do Refinery29, o cast de CPD postava os momentos felizes e o fandom se alimentou desses momentos felizes. Normal. É o que todo cast faz. Mas ninguém sabe o que rola do outro lado e a falta de empatia com esse outro lado foi igualmente frustrante quanto ao episódio da Nina.

 

Lembrem-se: celebridades são seres humanos. Também nos decepcionam e nos fazem felizes. Porém, é como nos posicionamos diante do que se desdobra com essas mesmas celebridades que revela muito de quem somos. Por isso digo que o que vem acontecendo é uma das maiores lições de casa sobre os monstros de Hollywood mais o feminismo.

 

E, claro, outros sentimentos que deveriam ser obrigatórios a qualquer humano: compaixão.

 

Para as mulheres que criticaram a Sophia, que a chamaram de mimizenta, e tantas outras pessoas, só digo uma coisa: mind your language.

 

Sophia tem seu privilégio e tem consciência disso. Ela tem suas falhas, como todo mundo. Já pagou vários micos (e deu umas bolas fora que pela Deusa) nas redes devido ao seu calor ativista. Ainda sim, nada minimiza o fato de que ela teve que sair de um trabalho que sempre sonhou, que sempre falou muito bem, especialmente do que conquistara, devido a um assediador.

 

E é duro ver o assediador imune. Com apenas uma advertência e uma mídia desinteressada demais em enterrar sua caveira. Isso porque Sophia ainda deu um novo shout-out. Resultado? Foi totalmente ignorada.

 

Sempre sinto que tenho mais a dizer sobre determinadas pautas, mas encerro por aqui. Deixo abaixo os links dos podcasts mencionados, ok?

 

Para ouvir: Sophia fala ao site Politico. Sophia fala ao Refinery29.

Stefs
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