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15/maio

Estava com saudadinha de escrever posts inspiradores e o assunto de hoje vem direto de Pretty Little Liars. Mais precisamente, do episódio 7×02.

 

(e aproveito para dizer que tenho até saudade da seriezinha apesar daquele final terrível).

 

Quem tem a voz é Aria Montgomery, uma das minhas Liars favoritas. Confesso que este post estava perdido na minha pasta de futuras publicações – sendo mais um da série antes tarde do que nunca. O texto calha bastante no meu tempo atual, o que posso considerar como sinal, e espero que gostem!

 

Mas, antes, uma história.

 

Houve um momento da minha vida em que não aceitava tudo que aconteceu comigo no passado e acreditei por certo tempo que isso me definiria para o resto da vida. Às vezes, é difícil se aceitar por inteiro quando se passou por momentos difíceis e quando temos uma seleção de traumas. É um tanto mais fácil se desvencilhar desses instantes ruins e desses traumas em vez de bater de frente com eles.

 

Há uma parte de nós que trava ao relembrarmos desses episódios ruins e desses traumas. Uma parte que meio que exige que eles sejam bloqueados para assim seguirmos adiante. Falsamente adiante, vale dizer. Supostamente, só assim, se desviando da bagagem negativa, seremos uma pessoa, digamos, plena. Não é verdade. Tudo isso possui seu jeito de nos puxar para trás, a qualquer instante da vida, com o intuito de nos fazer enfrentar aquele capítulo ruim que possivelmente nos definiu e assim seguirmos realmente adiante.

 

A vida tem lá suas cobranças e ela se lembra bastante dos problemas/traumas que não ultrapassamos. Independentemente do status atual que nos encontramos.

 

O realmente adiante faz menção ao fato de que podemos sim nos enganar com a sensação de que caminhamos sem dívidas passadas. Meramente porque caímos na cilada de não nos atentarmos à bagagem negativa porque, bem, já lidamos né? Não pesa tanto assim para se preocupar. Mas arrastamos esse fardo e sempre somos expostos a falsa segurança de que passado é passado e que o passado não nos define sendo que ainda temos uma canela presa lá atrás.

 

A verdade é que uma hora ou outra empacamos e somos forçados a espiar por cima do ombro. E vemos ali a poeira negra nos perseguindo, aquele pedaço do passado que quer nos definir (ou já nos definiu), e querendo nos engolir por saber que ainda carregamos cicatrizes meio abertas.

 

Daí, fugimos ou contornamos o percurso para não lidar.

 

De uma forma estranha, há um botão que nos faz sentir vergonha, receio, tristeza, entre tantas outras emoções capazes de nos deixar para baixo. Que nos faz julgar quem realmente somos. Indagar em quem o passado nos transformou. O que tiraríamos desse passado na tese de que sem isso seríamos pessoas melhores. Quem seríamos se nada daquilo tivesse acontecido. Uma ilha de suposições e de sensações, por vezes, excruciantes.

 

É muito difícil fazer as pazes com fatos que estão enjaulados a sete chaves, o que gera a constância de um questionamento em específico: até quando? Até quando tudo aquilo pesará sobre nós sendo que, aparentemente, estamos bem com tudo que ocorreu.

 

Como disse, é a cordinha presa no calcanhar que nos puxa na tentativa de fazer lembrar que ainda há alguns assuntos inacabados. Na maioria dos casos, apenas escolhemos caminhar na bifurcação.

 

De tanto que li, de tanto que acompanhei notícias na TV, de tanto que assisti séries, de tanto que convivo com seres reais, sempre me vi pensando sobre o quanto cada um tem a opção de ser bom. Isso não é válido apenas para o humano que tem uma vida estável e/ou muito confortável, mas também para o humano que sofreu com as piores intempéries, que tem trauma, que tem um lado obscuro, que não perdoou. Nós somos responsáveis por nossas escolhas e nossas escolhas definem quem somos. O agora nos define mais que o ontem.

 

Ao menos, é o que dizem e eu acredito nisso. É o raciocínio lógico que não anula a necessidade de escolhas.

 

Muitos dizem que alguém é ruim porque o passado foi ruim, mas, quando olho para minha mãe, por exemplo, sei que ser ruim é uma opção. Ela sofreu bastante e, ao testemunhar seu sofrimento, me questionei sobre o caráter das pessoas. Assim, criei minhas próprias defesas. Ficava enfurecida (ainda fico) pela maneira da qual ela se doava (e ainda se doa) mesmo tomando na cara, tendo sua bondade aproveitada. Ela continua do mesmo jeito, não importa quantas vezes a magoem. É uma bondade bonita, inspiradora, mas a machuca no processo. O que também me influenciou a ser uma adolescente com o emocional do tamanho de uma colher de chá (vamos dizer que hoje assumo mais o balde de emoção).

 

Ninguém nasce corrompido, embora acredite que alguém esteja destinado a fazer coisa X e Y, boa ou péssima. Acredito sim em destinação. Acredito também que há certas entrelinhas da nossa vida que são intraduzíveis e que só serão traduzíveis quando tomarmos coragem para nos voltarmos para nós mesmos. Sendo esse um dos caminhos para a poeira negra se dissipar.

 

Anna Kendrick

(Eu costumava ser meio… Furiosa? E esse gif tirei do Tumblr)

 

Digo isso porque tive lá meus momentos de pensar que tudo de ruim na minha vida necessitaria de uma versão da Stefs igualmente ruim para pagar a dívida. Por certo tempo, mais precisamente na adolescência, eu fui essa pessoa. Meus pais me magoaram demais, em vários âmbitos, e um lado de mim passou a maquinar a ideia de que se eu não estava bem, então, ninguém mais poderia estar.

 

Adolescente tem seu próprio jeito de ser mesquinho e, pela Deusa, eu fui várias vezes mesquinha. De um jeito que, quando paro para refletir, desacredito da pachorra. Ainda bem que essa bagagem eu deixei de lado, pois penso que não me suportaria se tivesse abraçado meu pior lado como minha própria verdade. Fui a própria “aborrecente” que poderia ter sido tirada de uma novela mexicana.

 

O retrato mal falado: nas partidas de handebol, não perdia a chance de machucar uma menina; no banheiro para trocar o uniforme, se houvesse treta, eu me metia no meio; se havia visita em casa, agia como a adolescente insolente que botava a vassoura atrás da porta para a pessoa ir embora; também fui a pessoa que sabotou várias outras, várias vezes, porque o dementador dentro de mim queria esse efeito em cadeia negativo.

 

Tudo isso me deixava falsamente satisfeita, mas teimava que estava tudo bem.

 

Pessoas machucadas demais tendem a ser absurdamente egoístas. Fui dessas também.

 

Nada das minhas “maldades” me preenchiam, mas se tornaram mecanismos de defesa. Mecanismos que tiveram o poder de me definir por muitos anos. Um poder em forma de rancor – e que me mantinha longe das pessoas. Havia a consciência em algum lugar sobre meus atos, que trazia a gota de vergonha, mas eu me apressava a ignorar. Reagia com base no que me aconteceu, devolvendo maldade por maldade.

 

Mas, dentro de mim, havia a outra Stefs que sabia que aquelas ações me faziam mais mal que bem, mas a ignorei. O que rendeu em caminhos perpetuosos na transição para a vida jovem adulta e só fui me acalmar quando fiquei doente (graças ao transtorno alimentar).

 

Conclusão: além de ser a dita ruim, eu estava sendo minha própria inimiga.

 

Literalmente, tive que escolher: vai querer ser heroína ou vilã, bonita?

 

Houve um tempo em que quis muito apagar tudo que vivi no passado. Uma parte de mim sempre buscou se reinventar em cima do que me aconteceu e achei que estava no controle uma vez que consegui atingir o dito corpo perfeito e ganhar elogios das pessoas e atrair os meninos. A Stefs de 16 anos até diria que foi a melhor parte da vida dela, ser aceita, ainda mais porque ela tinha ingressado em uma escola nova.

 

Porém, essa beleza, esse perfeccionismo, esse controle, foram meus outros mecanismos de defesa, além da “maldade”, para não ter que pensar no que me aconteceu aos 13/14 anos. De certa forma, essa “embarreiragem” se traduziu em manter as aparências. E estar “bonita” não passou de um caminho meio andado. As pessoas acreditam em certas ilusões.

 

E vale dizer que a mean girl faleceu aos 16 anos. Uma época em que enfraqueci, por assim dizer, devido às mudanças bruscas conseguintes ao divórcio dos meus pais. Além disso, foi nessa fase em que fiquei “centrada” no transtorno alimentar.

 

Com 13/14 anos eu não tinha discernimento de quem eu era. Ninguém tem, mas tudo que rolou nessa época representou/representa minha vida. Quem me transformei hoje vem em peso desse período. Escolhas que não vieram fáceis. Basicamente, acho que tive que ser jogada no limbo e aprender a me virar (um fato da mudança de escola que ficava do outro lado de SP).

 

Conforme crescia e amadurecia, me vi diante do fato de que tinha que encontrar um meio de vencer os capítulos ruins, que mudaram a maneira como tratava as pessoas e como me tratava. Como me via e via as outras pessoas. Por anos, tentei isolar essas experiências. Como, por exemplo, ao tentar me reinventar em um trabalho que abusou de mim emocionalmente. Só que estava ganhando bem pra tanto sofrimento.

 

Depois, veio a faculdade, que pareceu ser meu mais novo canto seguro. Nem tanto assim. E eu me sentia uma fraude completa.

 

Dia após dia, me via negando meu passado porque sim, tinha muita vergonha dele. A ideia de dizer sobre meus pais, sobre meu transtorno alimentar, sobre as saraivadas de mancadas embrulhavam meu estômago. Não queria me expor como mais uma pessoa com a vida danificada, que fez coisas desagradáveis e até desrespeitosas consigo mesma. Não queria abrir a fase da minha vida marcada por tentativas inúteis de manter as aparências e de magoar quem prezava por mim.

 

Sério, eu tive a fase da menina que se poupava de chamar as amigas em casa porque não era classe alta como elas (e porque eu tinha que limpar a casa). Bota complexo nisso!

 

Enfiei muita coisa debaixo do tapete e passei anos sem revisitar o estrago. Se eu não estivesse melhor hoje, diria que tenho mais de dez anos de estragos não solucionados. Algumas coisas seguem sem solução, mas em outras estou bem resolvida. Ainda vivo na corda bamba, mas tenho um poder de escolha muito mais clarificado em comparação ao período em que banquei a “aborrecente”.

 

Timeline em que minha identidade, que nem chegara a ser propriamente construída na adolescência, foi sugada e simplesmente me abandonei. Fazia as coisas mais porque precisava e não por interesse. Fiz coisas mais para me provar que para me satisfazer. Eu segurei a máscara da menina má e, mais tarde, do “exemplo da família” (os benefícios de se preocupar com uma faculdade, de acordo com os Santos Lima). Quando as tirei, não sabia quem eu realmente era. Não sabia que tipo de pessoa queria ser.

 

50/50 Filme

(Ok, a situação parece macabra, mas a mensagem é sensa. E esse gif também não é meu é do Tumblr)

 

Quando decidi ficar longe da civilização em 2014, passei muito tempo comigo mesma (dois anos + desemprego). Era algo que eu precisava e só descobri isso durante esse período de hiatus. Meio mundo acha besta esses anos sabáticos, mas, ao menos para mim, a pausa funcionou. Não, não fui viajar, mas o tempo em “inércia profissional” me fez ver com novos olhos tudo aquilo que me importava.

 

Passei um ano escrevendo para este site e meus livros lindos e cheirosos. Antes disso, já me via inclinada a participar de alguma organização e só um ano depois me engajei de verdade com o I Am That Girl. Coisas que me representam fortemente. Mais que as pirraças e sabotagens que um dia fiz – e todas essas pirraças e sabotagens agora servem de material para meu trabalho de conscientização.

 

Essa pausa foi sim meu ano sabático porque tive tempo de curar algumas partes de mim. De realmente rever coisas do meu passado e de repensar outras que me prendiam. De me redescobrir. Consegui lidar com as coisas ao meu alcance, como o impasse eterno com meu pai. Hoje, há uns traumas, uns gatilhos, que precisam de apoio psicológico porque ainda me afetam bastante.

 

Só sei que é um desafio se autoanalisar. De parar e refletir sobre quem somos vs. quem éramos. Recentemente, ouvi que tenho um bom conhecimento das minhas brechas, falhas e traumas, o que ajuda demais caso eu inicie uma terapia. Eu tenho noção dos meus estragos e, apesar do peso que ainda sinto vez e outra, eu reconheci duramente que tudo isso é meu. E que preciso transformar.

 

Muita gente ainda sobrevive de validação externa e não suporta a ideia de ficar consigo mesmo. Seja porque não há autoestima ou porque as marcas do passado ainda são tão tangíveis ao ponto de ser insustentável ficar na própria companhia. Sei bem, porque fui essa pessoa. A que externava.

 

Até que uma coragem começou a ser alimentada em mim. Tudo a partir do momento em que passei a me dedicar ao que me importa. Vale dizer que, em 2015, surgiu a oportunidade de abrir parte da minha bagagem passada. Compartilhei esse peso com uma roda de meninas em um encontro do IATG.

 

E eu meio que me senti livre.

 

Agora: onde quero chegar com essa história toda?

 

(e perdoem o uso da Anna Kendrick, mas ela é meu spirit animal).

 

No episódio 7×02 de Pretty Little Liars, Aria Montgomery disse:

 

Aria

 

“Eu sou eu por causa do que aconteceu, do que fiz e de quem eu amo. Eu gosto dessa pessoa.”

 

A situação:

 

Quando Aria disparou essa afirmação maravilhosa, ela estava diante do seu novo ex-namorado (que não era o Ezra). Em meio à discussão, a personagem trouxe à tona o dilema vivido com A, que lhe rendeu traumas, perdas e decisões das quais a envergonhavam. Depois de 5 anos, ela lançou essa verdade e ainda complementou ao dizer que um dia desejou ter um botão para apagar seu passado.

 

Isso, com o intuito de recriar uma vida em que não teria magoado, mentido e impedido pessoas de morrer devido à dinâmica criada por A. Com esse botão, a Liar diz que teria uma vida limpa, um reinício limpo, mas, de quebra, levaria a si mesma no processo. Um ato que remontaria a outrora negação sobre desdobramentos que, pelo tempo da temporada, Aria ainda lida e sempre lidará.

 

Conversas consigo mesma

 

Ainda Aprendendo

Imagem: retirada do Pinterest

 

Depois de lidar um pouco mais com meus dramas particulares, percebi, duramente, que tudo que sou representa uma grande bagagem de histórias. Sejam boas ou ruins. Estava meramente em minhas mãos decidir quem eu queria ser. De ninguém mais. Muitas vezes, pensei nas possibilidades de apagar capítulos e de tentar ignorar as coisas que fiz, mas, feliz ou infelizmente, o meu passado sou eu. O real desafio é saber o quanto ele pode me definir ou me prender.

 

Eu fui por muito tempo definida e empacada pelos conflitos pesados da minha vida. Um combo de coisas que, por anos, norteou meu percurso. Um percurso cheio de espinhos e de fatos espiralados.

 

Há sim muitas pessoas que carregam o passado. Acham que, sem ele, não haverá nada. Muitas se tornam amargas, azedas, sentem orgulho de magoar os outros e de serem vampirinhos da vida alheia por terem esse ponto de vista. Afinal, o passado se tornou um escudo. E eu já fiz isso. Pergunto-me se essas pessoas realmente se aceitam. Não apenas externamente, mas internamente.

 

É muito fácil aceitar a aparência quando se está maquiada, com o cabelo na chapinha, depois de malhar por horas. Mas queira vocês ou não, o que é válido é quem você é por dentro. Há muitas maçãs podres na humanidade, que realmente têm o botão reinício que Aria citou para ter uma “vida sem remorsos”. Pergunto-me, sempre, como conseguem dormir. Daí, me lembro da falsa sensação de segurança que vem do constante ciclo de coletar vitórias e de ignorar a empatia. A maldita necessidade de viver das aparências que não afeta um, mas todos que possivelmente amamos.

 

Aceitar-se internamente é um dos maiores desafios da vida e não é todo mundo que o topa. Soa como ficar parada na frente do espelho, completamente nua, em um ambiente trancado propositalmente para que você não saia sem refletir sobre quem você é. Quem é que se colocaria nessa situação que tem como intuito se descobrir? Tanto o lado bom quanto o ruim? E, com isso, talvez ser um humano melhor?

 

Não fiquei nua, mas chegou uma fase em que comecei a me indagar: você realmente quer levar sua vida presa ao passado? Confesso que, às vezes, volto para lá. Daí, preciso refletir no favor que isso me trará. No que fiz de bom ou de ruim ou os dois. Preciso analisar como me sinto sobre me enfiar nessa bagagem negativa sempre que o presente precisa de mim. Respostas que não vêm aos 14/15 anos. E nem na primeira experiência com registro na carteira. Vem vivendo. Permitindo a autodescoberta.

 

Último fator que é um exercício constante. Nos descobrindo, evoluímos. É o que dizem.

 

Na série, Aria passou por perrengues devido a uma stalker cibernética que a foçara, bem como as amigas, a tomar decisões baixas para que o jogo seguisse indiscriminadamente. Elas foram peças em um tabuleiro e cada movimento obrigava essas adolescentes a acatar várias ideias mirabolantes. Mentir para os pais e para os colegas. Ou usar esses colegas para desencadear mais mistério ou mortes. O quarteto de PLL viveu nessa espiral durante o ensino médio. No salto temporal de 5 anos, vemos ainda o duelo contra essa stalker, mas há pinceladas no assunto identidade. Poucas sabem o que realmente querem. Poucas aceitam o passado. Poucas lidaram com os traumas.

 

Situações que poderiam ter feito Aria uma pessoa amarga e descontar no universo tudo que lhe aconteceu de ruim. Fui essa adolescente, engatilhada pelo rancor. Por sentir tanto rancor, tanta raiva, não conseguia pensar que tudo aquilo que passei precisava ser lidado de alguma forma para que eu me tornasse quem eu sou agora. Não descontando por aí – até porque isso não me fazia se sentir melhor, embora jurasse que sim. Agora, vejo que, se não tivesse lidado, ainda estaria presa na espiral negativa. Muito provavelmente, sendo a pior pessoa.

 

Lidar com péssimos acontecimentos e com os próprios defeitos não rendem a mais fácil das tarefas. Sem querer, tomei essa decisão na minha colação de grau. Evento que não senti aquela felicidade toda porque me vi abordada pela bagagem ruim e temia o que viria depois daquele capítulo.

 

Sentadinha ali, segurando o capelo, em meio a discursos bem chatos (não sou obrigada a ser mentirosa nesse quesito, de nada), me vi no fim de um ciclo, pensando o que seria do próximo. Eu seria a mesma pessoa? Eu carregaria os mesmos problemas sendo que cumpri minha missão de ir mais longe que o esperado? Só havia um jeito: me abrir para o perdão.

 

Foi difícil. Sou orgulhosa, mas tive que começar a alinhar isso dentro de mim ou repetiria um novo ciclo carregando nem que fosse a alça daquela bagagem negativa. Assim, eu meio que empurro seres humanos da minha vida sem pestanejar e foi algo que fiz bastante nessa época também.

 

Não que tenha mudado, mas agora eu tenho critério.

 

De novo, me vi sem identidade depois da minha graduação e meio que segui as regras de uma vida feliz – trabalhar e quem sabe estudar para ter uma oportunidade de emprego melhor no futuro. Só que nunca fui pessoa de regras. Sempre busquei por coisas pela minha intuição, traço que sempre me leva para caminhos inusitados e que, com sorte, me preenchem. Como já citei, essa intuição pulsava para que eu buscasse um trabalho voluntário ou entrasse em uma ONG. Demorou, mas consegui.

 

Para não deletar meu passado, eu tive que encontrar o perdão. Ainda há camadas de mim que precisam desse perdão, mas estou bem mais leve em comparação a cinco anos atrás. Só sei que, de maneira geral, chegou um ponto que não queria relembrar as dificuldades com ódio, mas como aprendizado. Das tretas com meus pais até o transtorno alimentar. Além disso, precisei me desavergonhar de tudo que pesava no meu background. Penso que esse foi meu primeiro passo para a desconstrução da Stefs porque só assim poderia construí-la de novo e, quem sabe, melhor.

 

Eu estava trincada. Em várias partes. Me faltava coragem de bater o martelo para ver tudo se espatifar para analisar os cacos e recolher aqueles que valiam a pena ainda.

 

E requer muita coragem fazer isso consigo mesma. Ainda sim, eu recomendo.

 

Sua história importa

 

Sua História Importa

Imagem: http://lucidi-tea.tumblr.com

 

“Não tenha vergonha da sua história. Ela inspirará outras pessoas.”

 

Voltar-me para dentro me fez reconhecer algo muito importante: a minha bagagem de vida também importa. No início desse novo ciclo, fora das regras típicas, escolhi meticulosamente os cacos que carregaria comigo e quais deixaria na caixinha de Pandora por não precisar mais deles. Uma vez que escolhi os cacos que carregaria, tive que refletir sobre o que faria com eles. Daí veio a conclusão: vamos contar histórias sobre cada um, um passo de cada vez.

 

Meu GPS emocional é um perigo, mas continuo a lidar com meus cacos mais complexos.

 

Desses cacos que salvei, encontrei histórias que me importavam. E passei a ver que as outras pessoas são histórias também. Por mais difíceis, fáceis e tenebrosas que sejam.

 

Aria disse que apertar o botão a levaria junto, e isso vale para o que aconteceu comigo e pode valer para vocês também. Nem todo mundo tem o passado ruim e, muitas vezes, por causa disso, não tem um pingo de sensibilidade com o outro. O mesmo vale para quem teve o passado ruim e só quer causar discórdia. Em todos os âmbitos, é preciso se enfrentar. É preciso descobrir empatia em si. É preciso ser bom com quem você é.

 

O passado é uma história de vários capítulos. Da infância até o início da transição para a vida adulta – o ponto que você normalmente talha o futuro com base no que viveu. Algo que fiz até apertar o botão de pausa. No final de cada dia, está em nossas mãos quem queremos ser. E isso inclui o passado que pode ser ruim o quanto for, mas não pode nos definir tanto assim.

 

Na verdade, eu acredito que o passado deve nos ensinar. E demorou muito para eu chegar a essa conclusão.

 

Amar esse passado pode ser impossível, mas é possível aceitá-lo e pensar nele como uma lição de como seguir, realmente seguir, adiante. O que aconteceu pode estar ou não interligado a situações negativas ou traumáticas, mas parte de nós aceitarmos esses fragmentos para sermos pessoas melhores. Para atravessarmos o caminho rumo ao nosso melhor. Acredito que há coisas destinadas para cada um, mas o volante da vida é nosso. Se você escolhe o mal, colherá o mal e vice-versa.

 

E eu estava cansada de colher o mal. Ser rancorosa, ruim ou megera nunca me fez bem, mas sempre fui ótima em segurar a fachada. Sempre fui ótima em fingir dor interna. Não me colocava em primeiro lugar e nem no sapato do outro. Por fazer nada disso, o sinal que se deu foi que nada e nem ninguém era importante. Nem mesmo a minha bagagem negativa. Sendo que tudo isso é.

 

Posso ter perdoado, nem que fosse as camadas mais espinhosas, mas não significa que queira as pessoas que me magoaram perto de mim. É questão de energia, porém, não irei maltratá-las. Desde que lidei com vários problemas, que bati de frente com eles e continuo a bater (grande crédito disso vai para o I Am That Girl, melhor coisa que aconteceu na minha vida), agora posso dizer que gosto da pessoa que vos escreve. Obviamente que esse sentimento não vive em mim todo dia, pois tenho, por exemplo, a famigerada Síndrome do Impostor (para praticamente tudo).

 

Dizer que gosto dessa pessoa não é algo deste ano, mas de três anos atrás. Meio recente, eu sei, mas fui minha própria corretora. Hoje, busco mais ajuda em vez de optar me fechar no quartinho escuro.

 

Eu queria tudo pra ontem a fim de me provar para a lupa alheia e não tive pausa para pensar em quem eu sou e em quem eu queria ser. Penso que se não tivesse decidido frear minha vida por um tempo, não teria aberto mão da ideia de apagar todo meu background.

 

E apagar meu background é o mesmo que me apagar. Aria corretíssima.

 

Tudo que aconteceu e tudo que fiz me representa. É a minha história e eu tive que decidir que capítulos de luz gostaria de contar para suprimir os capítulos ruins. O passado me ajudou a evoluir e a aceitar mais quem eu sou. Fez-me aceitar que tive uma infância e uma adolescência comum e depois incomum, que me formei mais pelo outro que por mim, que todos os meus percursos calejados se tornaram histórias que posso contar. Ainda há muitos traumas, esses que deixam minha saúde mental moída, mas cabe a mim decidir, todos os dias, se levantar e enfrentar.

 

Por ver o meu passado agora como uma bagagem importante, nada me resta a não ser abri-la de vez em quando. Sei que haverá alguém que passou ou passa por algo parecido e poderá se ver em mim. E vice-versa.

 

Lidar com certas coisas é tão importante. Gostaria que alguém tivesse me dito isso antes, mas há certas coisas que você precisa descobrir sozinha. Há coisas que você definitivamente precisa passar. Eu sou confusa, mas, hoje, não me trocaria por ninguém. Eu agora adoro falar sobre determinados problemas passados e criar um comparativo com quem tenho me tornado todos os dias.

 

Eu gosto de quem me tornei. Sou muito mais eu agora, sinto orgulho das coisas que faço mesmo quando existe a famosa insegurança. É lindo sim se gostar, mas tem lá suas fases que não são regadas de unicórnios. Nem sempre a gente consegue se manter zen, né? Tem horas que você simplesmente perde o controle. E é normal. Somos humanos, certo?

 

Ainda há dias ruins. Ainda há tempestades. Ainda há escolhas que me fazem retornar aos cacos da caixa de Pandora para me ferir. Peneirar-se é algo que todo mundo deveria fazer, nem que seja uma vez por mês.

 

O que se aprende com Aria é: você é seu passado, mas ele pode não te definir. Ao menos, não totalmente. Você é uma história a ser contada. Não peça desculpas por ser quem é e não tente se moldar à sombra do outro só para afugentar rancor, vergonha, qualquer sentimento negativo. Arremesse uma pedra contra si, se deixe desmantelar, e recolha os cacos que valem a pena. Depois disso, siga, mas sem se esquecer de que tudo que a/o empurrou para frente pode torná-la/o uma pessoa melhor.

Stefs
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