Menu:
09/maio

Entramos em mais um episódio do “antes tarde do que nunca”, estrelando a resenha geral da 5ª e última temporada de Bates Motel. E repito o que disse na resenha da S4: que temporada!

 

Após esta experiência, fui acometida por uma crise tremenda. Apesar de considerá-la uma baita temporada, demorei um bocado para saber se gostei ou não do que vi. Se aprovei algumas alterações que afastaram a série das medidas tomadas em Psicose ou não. A única verdade que carreguei comigo, antes de escrever este texto, é que sentirei falta de Norma e Norman Bates.

 

Maratonar Bates Motel sempre foi um tanto difícil porque há episódios e episódios. Isso, no quesito de haver muita ação/desdobramento em um e um arrastar quase sonolento no outro. Um misto que nunca me incomodou, mas mudou a maneira como passei a acompanhá-la. Desde o início, respeitar os processos de entrega de storylines foi necessário. Inclusive, mastigá-los. Não menos importante, lidar com os que claramente nada tinham a ver com a premissa geral – quando de certa forma tinham. Modo de transição que não esteve tão presente nesta temporada, pois pisaram um tantinho no acelerador. Medida que não comprometeu o compasso desse encerramento.

 

Uma verdade que traz um diferencial quanto a minha experiência com a S5: consumi-a muito rápido. Fato que me faz dar cinco estrelas logo de cara para o último capítulo de Norman Bates no ápice do seu transtorno dissociativo de identidade. Meramente porque conduziram tudo com excelência. Não esqueceram ninguém e ainda buscaram a moral dessa relação mãe e filho no piloto. Poucas séries obtêm nexo em seu desfecho e Bates Motel é um belíssimo exemplo de sucesso.

 

Assim, só para vocês terem ideia do meu engajamento (e do meu amor), comprei o box das 5 temporadas na euforia da maratona. Sério, é a coisa mais linda do mundo (e ainda nem vi os extras). Ação que transparece o fato de que BM se tornou relevante para mim. Desde caracterização até construção de trama. Sinto-me feliz por ter visto, dentro do compasso do presente, este bolo tenebroso crescer. Foi puro deleite, especialmente quando penso em Vera e Freddie. Ambos podem ter saído de cena totalmente injustiçados pelas maiores premiações da TV, mas conquistaram todos os prêmios dentro do meu coração (que de vez em quando é bem peludo).

 

Pois muito que bem. Vamos falar do que interessa agora!

 

PS: este texto tem spoilers.

 

Cozinha dos Bates

 

Como disse, esta temporada trouxe Norman Bates no ápice do seu transtorno dissociativo. O que fez deste ano um ano entregue à dominação total da Mãe. Sem Norma, o personagem passou a ser acompanhado pela imitação da figura materna que, logicamente, tinha face e voz da adorada falecida. Porém, não a mesma personalidade por se tratar de uma resposta mental a vários traumas que seguem perpetuando o garoto que não tem ninguém a quem contar.

 

Ao longo dos anos de Bates Motel, aprendemos que Norma nada mais é a resposta para Norman agir em sua faceta assassina. Ela foi o tiro que fazia o protagonista retroceder de seus desejos pela vergonha. Como os sexuais em que acabava reprimido. A Mãe, que sempre esteve atrelada aos apagões, foi conquistando espaço para proteger o garoto. Conquista feita temporada por temporada até chegarmos aqui. No capítulo final que trabalhou esse embate interno a fim de trazer a verdade sobre Norman sofrer a dissociação.

 

Apesar das mortes ocorrerem na S5 também, os roteiristas não seguiram pelo percurso Psicose de mostrar o assassino que Norman se tornou. A escolha foi a causa da existência da Mãe, algo que o filme não explora – apesar de deixar suas entrelinhas.

 

Resultado: um Norman Bates sendo completamente sufocado pelo seu próprio mental.

 

Logo no primeiro episódio, recebemos o clima postmortem, em que o não mais adolescente acredita que ainda vive sob a aba da matriarca. Um sonho multicolorido, com café da manhã regado a panquecas e uma figura materna amorosa que dá beijo na testa. Sendo que, na realidade, Norma não existe mais. Por ela não existir, a vida dele é de completo desalento e de muita imaginação.

 

Sabem quando a gente quer tanto uma coisa ao ponto de torná-la tão verídica em nossa mente? É bem isso que ocorre com Norman. O garoto tem uma “imaginação fértil”, por assim dizer já que é fruto do seu transtorno mental. Pelos olhos dele, tudo parece verdade. Tudo parece tangível. E o melhor e o pior de tudo é que a deixa da S4 fica nas mãos de quem assiste. O segredo que o menino Bates não sabe.

 

Um segredo que acompanhamos episódio por episódio cobrar sua verdade.

 

Norman Bates

 

O garoto ficou isolado no salto temporal de dois anos, sem envolvimento algum com a comunidade e sem contato com os familiares – aka Dylan e Emma. Ele simplesmente “se deixou” afundar, mas, ironicamente, não no luto por Norma. O personagem transita rapidamente para recriar sua mãe, dando força a Mãe que está ali, na sua mente, a todo o momento. Espreitando. Criticando. Causando.

 

A Mãe é a personagem principal e toma o resto dos buracos da vida de Norman e os cobre. Ela é o simbolismo do truque da mente que cria defesas depois de um evento traumático (algo que se torna uma bola de neve se não for tratado). Essa proteção intercepta os gatilhos como maneira de não vivenciá-los, por exemplo. No caso do personagem, a figura materna entra para suprimir a culpa, sentimento relacionado ao que se vê na 1ª temporada (e que é explicado no season finale).

 

Quem tem um trauma sabe precisamente como isso funciona. Do nada, as memórias vêm com tudo e o muro de proteção sobe tão rápido que desorientação é apenas um dos sintomas. Ou a memória do trauma fica tão fundo na mente ao ponto dela ser “esquecida” sendo que uma das respostas para tal proteção é dissociar. Esse último fato é a própria vida de Norman Bates nesta temporada.

 

A figura materna nada quista pulula na imaginação do garoto e na nossa. Ela deixa de ser furtiva para ser mais agressiva, distraindo do verdadeiro terror que começa a engrandecer no decorrer dos famigerados 10 episódios da S5. Não diria que o ritmo foi alucinante, mas o compasso do mistério venceu demais nesta temporada. Tudo se tornou mórbido. Estressante. Perigoso. Até o fim, não sabíamos quem apareceria para cobrar a morte de Norma e dar o cabo da vez.

 

Isso é muito bem expressado quando vemos os homens de Norma lidando com a perda de maneiras diferentes. Norman vive em negação, mergulhado em seu transtorno dissociativo de identidade. Romero está na cadeia e destemido a se vingar de Norman. Dylan, como sempre, fica de fora, mas exerce seu papel de apoio quando a história se estreita. Caleb, o peso pesado devido ao histórico com a falecida, tem suas contas “acertadas”. Vários homens que, anteriormente, pareciam desimportantes. E cada um deles arremata o resultado final em cima dos desdobramentos ruins vividos por Norma Bates.

 

A prova de que esta temporada foi direto ao ponto está no 5×01. O primeiro conflito da temporada é dado muito rapidamente com a morte de Jim, o contratado por Romero para dar fim em Norman. Ato que sinaliza que os apagões persistem e que Bates depende demais da sua identidade em forma de Mãe para ter respostas. Para se proteger dos “vilões”. A partir daí, só excelente compasso acompanhado do cheiro já mencionado de abandono e de desespero. Tudo sem se esquecer das bases de inspiração tiradas de Psicose. Como o nada estimado quarto 1 e a tão esperada cena do chuveiro.

 

Norma e Norman

 

Nessa relação bizarra entre o real e o imaginário, fica claro que o personagem está totalmente dominado por essa sombra mental. O que representou certa importância para os desdobramentos finais já que o garoto parece inofensivo. Bastava cuidar para que a voz na sua cabeça se calasse. Só que seria muito fácil e perderia toda a graça. Ainda assim, não deixei de pensar como um tratamento ajudaria. Ver sua saúde mental despencar parte o coração.

 

O que Norman traz nesta temporada final de Bates Motel é a experiência de viver em um pesadelo. Ele reage como a Mãe e, no dia seguinte, está estatelado em algum ponto da casa sem lembrar de nada. Ele mesmo faz indagações que dão o tom desse capítulo final, como não saber a que sonho pertence. Além disso, o personagem esfrega na nossa face de novo de que Norman e Norma foram feitos para ficar juntos. Ponto de vista reforçado pela Mãe, que diz isso milhões de vezes para explicar que há uma necessidade de protegê-lo de verdades que ele não suportaria encarar.

 

O que vai reforçando o papel da Mãe como uma estratégia mental de defesa, embora empurre Norman para as piores decisões que marcam o tom macabro desta temporada. Ela é todo o peso que o deixa culpado e que o faz recorrer a saídas que só Romero tem raso conhecimento.

 

O que calha em um pensamento que ficou comigo: a felicidade é uma criação da mente? One Tree Hill uma vez me contou que felicidade é um estado de espírito. É temporário. Para Norman, a Mãe é sua representação de felicidade. Porém, a partir do instante em que ele começa a despertar para o que ocorre, a escassez de vida e de apoio se contrasta com a realidade de que esse garoto precisa de ajuda. Conforme ele se toca do domínio mental, bate um desespero porque você pensa em mil e uma formas de ajudá-lo e dá uma xingada em Norma por ter negligenciado sua criança.

 

Negligência que não afeta Norman de acreditar demais no que vê porque é sua expressão pura de felicidade. Ter Norma ao seu redor era basicamente tudo e ela fez questão de enraizar isso na vida do menino. O problema é que esse amor e essa proteção começaram a sufocar e a deteriorar a conexão de ambos. Resultando em uma relação abusiva ao extremo e no transtorno mental dele.

 

Muito me perguntei no como ele entra nessa realidade nada real na companhia da mãe falecida, pois os roteiristas entregam a nuance colorida e cheia de mimos. Era claro que ele não comia, por exemplo, o que automaticamente o deixava em um plano sem vida. Para piorar, ele não toma medicamentos, o que impulsiona uma visão que se torna cada vez mais complexa e vívida para a compreensão dos reles mortais. Algo muito bem solucionado pela figura de Chick, que vê Norman discutindo sozinho e dá seu jeito de se inserir nesse meio. É nesse instante que compreendemos como é essa dinâmica imaginária. Freddie merecia todos os prêmios e os aplausos!

 

O sistema de cope do personagem foi recriar a mesma convivência com a mãe, o que deu a Bates Motel muito do climinha visto em outras temporadas. A diferença foi alguém ver os surtos dele, pois só assim seríamos despertados para o que realmente acontece após a perda de Norma. Um tapinha aqui e outro ali, logo ele é norteado a reconhecer que a Mãe o impelia a matar indiscriminadamente.

 

Mesmo sem Norma, Vera como Mãe tomou a S5 para si. Essa figura é sentida a todo instante e rende familiaridade. Mesmo que estivéssemos conscientes de tal perda, os roteiristas engataram a falsa sensação de que tudo seguia normal. Detalhe que se perde, inclusive, na presença de Madeleine Loomis. Personagem que é o retrato da única mulher que o protagonista amou. Em outras palavras, ela é o gatilho.

 

Loira platinada e mesmo figurino. Madeleine é uma presença que não traz muito de background, apesar de ser uma referência à Sam Loomis. Ainda assim, ela testa criador e criatura. De quebra, resgata a angústia de Norman quanto ao sexo. Pauta sempre muito controlada por Norma e que a Mãe não deixa nem um pouco barato.

 

Madeleine Loomis

 

Com Madeleine, Norman espreita como ocorreu com Bradley e a Mãe espreita por cima para evitar que “algo ruim” aconteça. Um pouquinho do mais do mesmo para atiçar os ânimos dessas duas figuras e que rebate na temática constante sobre desejo sexual. Foi uma iniciativa mais pertinente em comparação a todas as mulheres que surgiram para testar a animosidade entre ambos. A inserção dessa personagem foi perfeita e vemos ele se debater porque a deseja, mas não pode tê-la.

 

Esse é apenas um dos momentos em que Norman se frustra pela suposta falta de liberdade em ter um relacionamento e em se relacionar sexualmente. Algo que já vimos nas temporadas passadas, mas é importante nesta S5 por trazer o estopim do controle da Mãe. Conforme o desenrolar da história, se vê que ele não aguenta mais, mas não consegue viver sem essa presença. A mulher que não existe insiste nessa de proteção e lá se vai o mesmo argumento que só faz sentido no finale.

 

A Mãe parece um espírito que ficou preso ao hotel. Carregadíssima. E é de um realismo tremendo que parece que Norma Bates segue vivíssima. As brigas são tão verdadeiras que, quando cortam e mostram que é Freddie quem leva a cena sozinho, só me restou de novo aplaudir.

 

Vale mencionar que rolaram vários apertos no coração diante da angústia do personagem. Ele não sabe o que acontece e chega a tentar se desvencilhar. Sem sucesso, claro. A vida dele está em função da segunda identidade, mas temos que nos lembrar a todo o momento que quem suja as mãos de sangue é o próprio Norman Bates. Anteriormente, o cidadão apenas tem uma “experiência fora do corpo” quando cometia suas atrocidades. Agora, ele se veste como a Mãe de tão forte que é a presença dessa figura em sua vida e não há como desobedecê-la.

 

Em contrapartida, é relevante comentar o quanto a falta de saúde mental esmaga o garoto. Esse é o sofrimento sentido ao longo desta temporada e não há um meio de ajudá-lo a sair dessa. Quanto mais o personagem “participa dessas interações” com sua outra identidade, mais ele se degrada. E é aí que Dylan mostra sua pertinência, o auxílio que veio tarde demais e não há a quem culpar.

 

Somos só nós dois é uma afirmação muito ouvida e é impossível não se perguntar até quando Norman aguentará essa corda no pescoço. Aos pouquinhos, os roteiros nos dão o modo de operação da criatura e da criação, e o parco controle do personagem se perde em todos esses processos. Ao chegar do quinto episódio, o vemos em completa estafa mental. O que abre o território perigoso para a chegada de Marion. Ela, introduzida do jeitinho que Psicose fez.

 

Apesar das menções à Psicose, o planejado foi fazer desse sofrimento de Norman o impulso para retroceder ao ponto em que a Mãe foi criada. O mecanismo para lidar com o trauma que vem desde o instante em que mãe e filho deixaram o último marido para trás. Tal fuga que os levaram para White Pine Bay. O retorno ao clima do piloto não foi apenas um adeus da série, como também o instante em que o controle da Sra. Bates se tornou predominante sobre o filho. Essa relação foi sobre proteger um alguém da verdade, mas o quanto somos responsáveis pela vida do outro? Pelo bem-estar do outro?

 

Temos mesmo que perder o controle para proteger o que seria melhor ser visto e lidado?

 

No series finale, a quebra de Norman, depois de lidar com Romero, foi justificada como o instante da revelação. Um dos pontos de virada importantíssimo que rendeu o questionamento: ele seria essa pessoa se tivesse digerido o ocorrido com sua família antes de ir para White Pine Bay? Saúde mental é um assunto sério e vemos, de uma lupa mais esclarecida, que o que Norma achou correto não deixou de ser negligente.

 

E a figura da Mãe é o resultado dessa negligência. Ela representa uma consciência que ninguém quer. Ninguém quer ser perseguido por alguém que usa e abusa do nosso psicológico. Ou que tem uma falsa preocupação que é o que essa “persona” assombrosa representa.

 

O argumento de proteger nos amolece, mas temos que lembrar que essa mulher não é Norma. A Mãe não quer que Norman fique bem, especialmente quando sua presença é ameaçada. É quando se vê a deturpação de emoções e de interesses. Ela “acha” que fica para o bem quando é totalmente o contrário.

 

Uma participação que só é mantida porque Norman não compreendia o significado do piloto de Bates Motel. Quando ele vê a luz, a história muda. Pela falta desse apoio, desse interesse, ele padece nas mãos de quem não queria cuidar, mas sim mantê-lo fechado em um mundo multicolorido. É assim que “ambos” terminam. Juntos. Em um plano que honra a repetição de os dois nascerem para ficar juntos. Uma realização que veio às custas de muita gente. Até do próprio Norman.

 

A chuveirada contrária

 

Sam

 

A Mãe fica mais forte que Norman até a chegada de Marion. O ponto de virada mais importante da S5 e que define todo o percurso rumo ao fim da série. Houve muita expectativa ao redor desse encontro clássico e quando tudo se desdobrou fiquei um tanto decepcionada com a escolha de Sam Loomis para replicar a cena do chuveiro. Foi aí que tive que dar uma pausa na maratona e refletir para entender o propósito dessa escolha.

 

A quem pergunte: evito ao máximo spoilers feat. entrevistas para não estragar a experiência.

 

Além de várias repetições sobre proteger, há um instante em específico que começa a debater sobre o quanto Norman depende da figura da Mãe para se punir e punir “quem merece”. Impasse visto na participação de Caleb, em que a Mãe empurra Norman em sua real faceta para dar cabo nele. Sem sucesso, algo que se altera quando a Mãe consegue empurrar Norman para matar Sam inspirado na memória do homem que abusou de Norma e que empurrou a fuga deles para White Pine Bay.

 

Foi aí que a mensagem nessa troca ficou claríssima. Além disso, fortaleceu o background de Norma.

 

Ao fazer essa ligação, aceitei a troca que os produtores optaram. Fez jus à trajetória dos Bates. Pensando bem, recriar o já criado se sairia muito como mais do mesmo. Sem contar que, pelo transcorrer desta temporada, o resultado seria extremamente truncado. Foi interessante ver essa inovação, pois assim se notou que os Loomis tinham desde o início sua rasa história conectada a de Norman. Mais precisamente, ao efeito Norma Bates em seu próprio filho.

 

Vi-me chocada quando dei conta dessa junção de storylines. Algo muito sutil que se transformou em um plot twist estarrecedor. Não apenas por Norman matar como Norman Bates, mas também pela ligação com os abusos sofridos por Norma. Ações que o filho viu e absorveu, apesar das mentiras dela para afugentar o que se tornou um trauma que conquistou uma defesa mental. Ela, em qualquer forma, colocou a cerca ao redor dele e os desdobramentos entre Marion/Sam/Madeleine mostram que não há mais caminho de retorno.

 

A cena do chuveiro era a que eu mais esperava, não nego. Cheguei pronta para ver a recriação e sigo contente com a mudança. A S5 veio para amarrar todas as pontas e Norman só poderia ter a realização do que faz/fez, especialmente por ele ter sido a causa de Norma ter morrido, se agisse sem a personificação. Sem seu mecanismo de defesa.

 

Sam foi o estopim de uma vingança que ornou com o contexto da série sobre Norma. Marion e Madeleine saíram meio que justiçadas, pois ambas lidavam com um maldito traidor. O que é o suficiente para Norman esfaquear Sam como Norman e não como a Mãe. Atitude que rebateu no que é mostrado desde o início, do ponto de vista de Norma, que homens são lixo e merecem pagar. Amarraram as pontas do gatilho do personagem e ele matou efetivamente pela primeira vez.

 

Efetivamente, pois, como disse, ele não se personificou como a Mãe. Outra oposição à Psicose.

 

E nem abrirei para o que Norman fez com Norma na S4 porque o intento e o sentimento eram outros.

 

Em Bates Motel, há uma justiça para todas as mulheres, pois grande parte dos homens bate as botas. O que não é poético, vale dizer. É crime apesar de ter sido pertinente para a storyline de Norma. Mulher que até tem sua memória meio que justiçada porque tudo que é podre padece. Salvo Romero que é um assunto bem delicado visto que foi o homem que a amou até o fim (e que ela amou de volta).

 

Poético foi ver Marion viva. A série traz o background dessa personagem dentro do apresentado em Psicose. O compasso em torno dela não gerou enrolação. Se é que posso colocar dessa forma, pois depende do ponto de vista. Considerando que a grande expectativa era vê-la + a cena do chuveiro, foi possível imaginar que preencheriam esse percurso ou como a adaptação cinematográfica ou com várias histórias em paralelo para suprir esse tempo. Mas Norman esteve em cena a todo o momento e nem mesmo a storyline de Dylan gerou o famigerado rolar de olhos. Fragilidade é a liga que reúne quem ficou fora dos desdobramentos no hotel e tudo orna à sua maneira.

 

No fim, Sam quem tinha que pagar por ter traído duas mulheres que Norman criara elo afetivo – e que eram prato cheio para morrer aos olhos da Mãe. Além disso, representar a podridão masculina que tanto afetou a vida de Norma Bates.

 

Alguns highlights

 

Emma e Dylan

 

É difícil enumerar os highlights desta temporada, mas fico com todas as cenas em que Norman é a Mãe. Sem precisar da roupagem, como no 5×05 em que há uma briga entre esses dois e a Mãe some. Há muito realismo nessa troca e a típica confusão porque a mente fica não pode ser!

 

A trajetória de Romero me deixou de nariz torcido algumas vezes. O cara comete burrice atrás de burrice, mas até entendi a busca pela vingança. As pessoas tendem a ficar muito cegas quando mergulham nessa emoção. Infelizmente, ele ficou apagadaço desejando uma justiça que não conseguiu. O personagem rendeu o acerto de contas, em que tudo eclodiu de uma vez só.

 

E todo mundo praticamente morreu, a não ser Dylan e Emma. Fiquei extremamente aliviada. Quando o meio-irmão retorna ao lar e assina a conclusão, me vi prontinha para xingar se o matassem. Apesar de achá-lo por muitos anos um desinteressante, o personagem sempre esteve ali de apoio e finalizou seu papel dessa forma. Mesmo gerando mais uma catástrofe, o que entregou o quanto Norma e Norman se esqueceram de ter uma vida externa que poderia ter sido capaz de ajudá-los com antecedência.

 

Concluindo

 

Hotel Bates

 

Esta temporada de Bates Motel veio com o foco de dar um desfecho e um respaldo ao que foi mostrado na primeira temporada. A premiere veio atravancada em assentar o clima Psicose, com o quarto e a mãe no quartinho. Tudo muito intentado a não perder tempo.

 

Obviamente que manter o clima mais fiel possível à sua trama de origem era essencial, mas não tanto quanto o questionar da origem desse pesadelo. Norman patinou em cima dessa indagação e tudo que a Mãe respondeu é que ela estava ali para protegê-lo da verdade.

 

Pelo personagem viver sempre apagando, dá aquela sensação de que milhões de dias se passaram. Principalmente porque sentimos a latência da exaustão física e psicológica de Norman. Sofrimento que não lhe dá inocência. Ele tem picos de irritação, não quer que ninguém macule seu hotel, ainda controla o cadáver da mãe e quer saber de Romero morto. Tudo isso e mais um pouco são palco de conversas imaginárias. Muito do que se cria mentalmente dá a essa S5 a carinha muito parecida da relação entre mãe e filho, mas com mais terror e mais probabilidade ao pânico.

 

Foram cinco anos muito proveitosos para Bates Motel. Um desenvolvimento de premissa e de personagens extremamente impecáveis. Com atuações impecáveis. Freddie diluiu toda a sua lembrança do ator mirim fofinho de Em Busca da Terra do Nunca e A Fantástica Fábrica de Chocolates e provou que tem sim muito talento. Estou bem feliz com os feedbacks positivos de The Good Doctor. Ainda não vi a série, mas essa criança merece reconhecimento.

 

O mesmo vale para a Vera que distanciou totalmente Norma da Mãe com maestria. Amo-a ainda mais e seguirei no grupo das magoadas por ela ter sido ignorada pelas grandes premiações.

 

Bates Motel ensinou em cima de um mecanismo de enfrentamento ao trauma com uma pitada do macabro. Norman criou a Mãe para não lidar com seus próprios crimes e os crimes contra Norma. Uma dominância desesperadora. A série mostrou sua capacidade de aprofundar seu appeal psicológico ao nos colocar de novo na saia justa sobre escolher lados. Sobre sermos empáticos.

 

Algo que funciona a certo modo, mas precisamos recordar que ninguém ali é inocente. Nem mesmo quem não participava diretamente do núcleo dos Bates. Emma foi a real fada ao longo dos cinco anos da série, pois os problemas moravam com todos homens de White Pine Bay.

 

O que se conclui: tudo em Bates Motel também foi sobre como figuras masculinas veem e tratam as mulheres. O que respalda demais os episódios que destacaram os abusos de Norma, que Norman presenciou e encontrou seu poder para impedir que machucassem sua preciosa mãe no presente.

 

Apesar de ter sido inspirada em Psicose, a série conquistou sua própria personalidade. Os produtores e os roteiristas entregaram um trabalho digno de recordar e de sentir saudade. Digno de sentir bastante orgulho. Considero esta série muito inteligente em sua dissimulação e são poucas que conseguem esse talento. Principalmente se diferenciar ao ser baseada no que já existe.

 

Foram cinco anos muito bem gastos. Conscientes do começo e do limite para o fim. Bates Motel ensinou como lentidão pode ser ótima para construção de storylines. Ensinou a respeitar o tempo de seus personagens ao mesmo tempo que preservava o que Hitchcock criou visualmente. Correram riscos, mas encontraram o ponto certo de término que foi feliz à sua maneira.

 

Nada seria mais digno que Norma e Norman terminarem juntos. Não importa como.

 

Bates Motel agora mora no meu potinho de séries favoritas. E recomendo sem pestanejar!

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3