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22/maio

Este episódio de The Bold Type sinalizou para vários pontos de virada que ocorreriam no finale desta temporada. Depois de uma discussão sobre jornada, e do nosso trio lindo e maravilhoso confidenciar o que querem da vida, o desdobramento deste 8º capítulo veio prontinho para testar se esses desejos são possíveis de alcançar ou se foram ditados da boca para fora. O que rendeu zero desafios, pois investiram em gotas sutis e precisas de drama para desnorteá-las.

 

Tudo parece normal na vida da tríade que começa o dia falando de seu recente status de solteirice. Encontros no Tinder são combinados entre as três e para as três, o que deu aquela sensação de que só romance seria abordado neste episódio. Afinal, vamos lembrar que Jane terminou suas ficadas com Ryan, Kat ainda segue sem Adena por perto, e Sutton e Richard interromperam o namoro às escondidas. Não foi esse o viés absoluto porque a boataria de demissões tensionou o clima na Scarlet.

 

Para que esse tema funcionasse, as três personagens tiveram sua rotina mexida e remexida. Jane é abordada por Jacqueline, em que se comenta sobre o buzz de suas postagens. Sutton conquista a oportunidade de ser a número 2 no preparo de um ensaio fotográfico já que Oliver está preso em Cuba. E Kat é a destacada da vez porque o lado digital da Scarlet está garantido (automaticamente seu emprego) antes mesmo do boato de demissões se tornar uma verdade a se temer.

 

Com esse tabuleiro de mais um dia de trabalho arrumado, tudo que acompanhamos é muito receio e muita preocupação de Jane e de Sutton. Ambas vivenciam a incerteza profissional apesar de ser o lado impresso que está mais na corda bamba perto do departamento de moda. Enquanto isso transcorre, Kat carrega o peso das amigas, especialmente quando recebe a missão secreta de realizar uma noite de leitoras para testar o termômetro da revista. Fato que logo balança os ânimos da tríade.

 

Jacqueline, que volta a ter um merecido destaque, entra nesse redemoinho incerto para nos relembrar os motivos dos quais é uma chefe maravilhosa – que sigo achando que toda mulher merece ter. Sua presença é pertinente, pois mostra seu compromisso em salvar a maior quantidade de colaboradores possível. O que reforça sua imagem de ótima líder. A personagem segue preocupada com tudo e com todos, o que lhe rende também um dia complicadíssimo.

 

A começar pela bomba de Alex, outro redator da Scarlet que ganhou mais espaço no episódio passado. Ele recebe uma proposta de entrevista em um veículo chamado Incite, papo que parece aleatório, mas é o início de um conflito que atinge Jane. Somando esses dois personagens e suas evidentes chances de sair da revista, o alarde da demissão força uma visão para o futuro pessoal e profissional dos demais envolvidos. Situação que traz o mote: ser corajosa.

 

Sutton

 

Forçar uma visão rumo ao futuro calha na verdade de que, supostamente, nos acomodamos quando estamos bem em um emprego. Uma vez aparentemente confortáveis, nem pensamos nas chances de tudo dar simplesmente errado, como rola com a Scarlet. Um veículo imenso que passou pelo problema que dá para remeter à Editora Abril. Várias revistas extintas porque mantê-las online é um tanto mais recompensador (leia-se: fácil acesso e mais barato por não precisar de impressão). É nessas que aprendemos a ficar em alerta (ou não), mas não quer dizer que lidamos bem com qualquer virada brusca da vida (como o desemprego). Eu mesma preciso melhorar nesse quesito.

 

Ninguém garante o dia de amanhã, né?

 

Confesso que demissão não é uma palavra da qual sou familiarizada. Uma situação que ainda não vivi porque eu mesma sempre decidi sair dos meus empregos quando me via no famoso “já deu tudo o que tinha que dar”. É meu privilégio que não significa que me faz bem no fim das contas. Afinal, eu sempre me vejo acompanhada do agridoce de não ter encontrado uma função bacana e que, com o passar dos meses, se revelou desgastante, igual, sem aprendizado algum.

 

Apesar de me sentir radiante em todas as vezes em que tive o poder de eu mesma me demitir, ao baixar da adrenalina me vejo um tantinho triste. Mais pelo fato de que, logo menos, terei que começar de novo. Provavelmente, em outro lugar que não me encontrarei.

 

Sigo nessa novela, caso perguntem.

 

Jane e Alex

 

Novela que rebate nos desdobramentos que acompanham Jane. A pergunta sobre seus números é um reflexo de que a pauta da qual ela ama escrever (e prefere) na Scarlet não tem rendido a repercussão esperada. O que a traz verdadeiramente ao trabalho não funciona, o que é frustrante. Especialmente quando você não se importa com quantidade. Você só quer fazer de coração e só!

 

Este é o momento que comentei na resenha passada, pois a personagem quer sua própria verdade inspirando outras pessoas por meio de seus textos. A moça não quer saber de likes e nem de compartilhamentos, o que incita uma aflita Kat a aconselhá-la. Edison diz que dar uma variada não faz mal a ninguém de vez em quando, mas, como também já comentei por aqui, Sloan tem seu orgulho jornalístico. É difícil vê-la aceitar mudança.

 

Porém, o jogo se altera com a chamada de atenção de Jacqueline sobre seu buzz. Não é à toa que Jane não se propõe a escrever algo diferente neste episódio na tese de que corre o risco de ser demitida.

 

E não fazemos isso na tentativa de garantir nossa vaga? Mudamos nosso comportamento por certo tempo até essa aparente maré negativa se dissipar?

 

E quando digo não se propor a escrever algo de diferente, faço referência ao fato de que Jane sempre contorna assuntos que considera fúteis – e Jacqueline os dá mesmo assim. A personagem faz o oposto neste episódio e aceita “de boa” a pauta sobre esfoliação de bumbum.

 

Daí, vemos o caminho rumo ao fundo do poço. Por assim dizer. De matérias um tanto mais significativas, como a do câncer de mama, aqui a personagem se vê tratando a importância de esfoliar o bumbum. O que, de novo, nos faz navegar na relevância do que fazemos. Não apenas pessoalmente, mas profissionalmente. Afinal, não é com esse tipo de pauta que Jane se sente relevante.

 

O que casa com a situação de Sutton que, sem querer, conquista um espaço ao assumir o ensaio fotográfico de Oliver. Definitivamente, essa é a única personagem que faz o que ama e que conseguiu ter seu cargo salvo justamente por ter assumido um compromisso que a outra assistente nem sequer se preocupou – e ainda tentou roubar os créditos, o que trouxe o melhor de Jacqueline.

 

Kat

 

Lá no limbo da salvação, Kat se dá conta de que ser uma chefe melhor requer mais responsabilidade. Também por assim dizer. Com todo esse caos na Scarlet, a jovem percebe que não gosta tanto assim da sua função. Essa personagem é um sucesso aos 25 anos, mas, com a garantia do lado online da revista, se abriu caminho para que ela refletisse se essa promoção automática vale a pena.

 

Kat é a pessoa que curte buzz e números. Ela se esforça para fazer as mídias sociais da Scarlet mais populares e atraentes. Em contrapartida, a moça acumula tarefas e não vive direito. Sem contar que a personagem já sentiu que não dá para ser mais política nesse veículo – e vamos lembrar que a própria já confrontou certas decisões na marra. No fim, o que se recebe nessa storyline é um balde de água fria. Jacqueline acha que salvou sua colaboradora quando a mesma se sentiu bem infeliz com a promoção relâmpago.

 

Há decepção da parte de Kat na hora de saber que sua área será salva dos cortes. E que, de quebra, aumentará suas funções porque tudo agora é digital. É uma emoção que transparece em seu rosto – e que retorna como ponte definidora no season finale.

 

Da mulher confiante sobre seu trabalho, Kat se vê para baixo. Pelo simples motivo de que ela realmente reconhece algo que não havia passado pela sua cabeça: seu desejo de desbravar a vida de outra maneira. O que abriu bastante espaço para Adena, que se encontra em Paris, e que fortaleceu o sentimento de ver coisas novas que Edison se diz não ser corajosa para tanto.

 

Uma dança que trouxe um episódio que não passou de espelho sobre o quanto nos importamos realmente com o trabalho que fazemos diariamente. O quanto ele é realmente importante. O quanto ele agrega realmente em alguma coisa. O quanto ele traz realmente certa felicidade. O quanto é bom ocupar realmente determinado cargo de poder. As três personagens conduziram perspectivas diferentes sobre esse assunto e é possível se identificar com cada uma delas.

 

Óbvio que fiquei mais com Jane, mas, depois de assisti-lo de novo, percebi que há um pouco de mim em cada situação. Principalmente na de Kat. Eu mesma acho que não desbravo o suficiente.

 

Lição número oito: seja corajosa

 

The Bold Type - Trio

 

Pedir demissão não é algo fácil, especialmente porque você não sabe o que fazer com o espaço que ficará vago (isso se você não tiver nada em vista porque eu mesma nunca tive em todas as vezes em que me demiti). Ficar desempregada é um pesadelo e esse é um fato que acomete bastante o mundo da comunicação.

 

As meninas discutiram o que fariam caso fossem demitidas e o aperto no meu coração foi muito real. Está aí algo que me castigou por três anos (e considero castigo porque “ousei” sair de um job para cuidar do que é meu, estou ligada universo) e eu ainda considero um milagre ter conseguido um emprego depois de tanto tempo parada. A ideia de freela me faz ranger os dentes, real e oficial.

 

Tão quanto o papo de jornalistas serem contratados como PJ. Eu não suporto esse tipo de contratação, me enfurece demais. A área da comunicação já não paga bem e não ter benefício e segurança é sofrível. Eu tive sorte de conquistar um emprego CLT quando achei que nunca mais conseguiria algo assim e na minha área (e nem é na minha área, vale dizer). Sorte mesmo porque a primeira proposta foi PJ (e agora dou amém de ter rolado uma reviravolta).

 

Hoje, tenho trabalho e segurança, mas nada disso me impede de pensar como Jane e Kat. Será que é bom mesmo aceitar o espaço que ocupamos porque ele é justamente benéfico e seguro? Sendo que é esse mesmo espaço que, provavelmente, nos impede de ver o que há do outro lado? Ou fazer o que realmente nos importa, independentemente de sermos bem-sucedidos no processo?

 

A gente passa muito mais tempo com as pessoas e com a rotina da firma. Até quando isso é bom?

 

E por quais motivos há pessoas que abraçam a firma e se esquecem das pessoas que estão em casa?

 

Eu mesma não sei e não cabe a mim chutar motivações (embora uma seja romantização workaholic).

 

O episódio me fez lembrar de muitos capítulos da minha vida. Eu tenho poucos registros na carteira, mas passei um tempo considerável em cada um desses jobs. Se eles me fizeram feliz? Acho que o mais perto de feliz foi quando trabalhei na redação de uma revista, mesmo não atuando nas pautas que me deixam mais felizinha (gente, eu queria ter trabalhado na Capricho e nunca realizarei este sonho – e foi bom assim). Senti-me importante. Parte de algo especial. Porém, terceiros têm o talento de roubar algo muito bom de você. Se tivesse a cabeça de agora, jamais teria pedido demissão por causa de um ser claramente infeliz. Eu teria confrontado e permanecido.

 

O que me faz comentar sobre propostas tentadoras. A Incite chegou em Jane e trouxe um sonho a ser vivido por jornalistas ativistas. A personagem pode até não se importar com likes e compartilhamentos em cima dos textos que direcionam para o que ela realmente se importa – e me identifico, vejam bem –, mas de que adianta escrever e manter na caixinha? Ou não escrever de maneira alguma? A Scarlet é um lugar incrível, mas, como todos os empregos, nem sempre oferece o que aquece o coração. Não é à toa que Sloan não pensou duas vezes em ceder à entrevista nesse possível novo job. O que culminou em uma proposta absurdamente tentadora.

 

Com o passar dos anos, passei a ser a pessoa mais duvidosa uma vez diante de propostas tentadoras. Propostas que dizem exatamente o que você quer ouvir e que coincidentemente se encaixam no que você precisa em dado instante. Quem já passou por tanta experiência ruim, pensa mil vezes antes de nadar em uma nova experiência profissional. Principalmente se elas prometem o universo inteirinho (e, às vezes, nem há o que pensar porque você precisa trabalhar e simplesmente vai). Na Incite, Jane foi arrematada com a proposta de ser Jane Sloan. Lá, ela terá chance de ser realmente uma voz influenciadora que trabalhará em cima de pautas políticas.

 

Nada de escrever sobre esfoliação no bumbum. Não é um sonho? Situação da qual me identifiquei. O que me faz engatar um fato não tão recente.

 

Não muito recentemente, me vi diante do que parecia ser a proposta que reviveria meu espírito. Um trabalho de escrita que abordaria praticamente tudo que me importo. Informação que cutucou a jornalista sempre esquecida (e que prefiro manter dessa maneira) que ama pautas voltadas para o ativismo. Vi-me quase radiante porque estava perante a mais uma proposta tentadora – e que eu sabia que seria dor de cabeça. Recuei. O que me faz calhar na falta de coragem de ver o que há do outro lado.

 

Se é que posso colocar dessa maneira, pois confio na minha sensatez. Onde estou agora é benéfico e seguro, e, talvez, eu precise dessa segurança. Mas e os desafios? Era sim uma proposta que me fez imaginar vários desafios, mas a dinâmica do processo não me foi atraente. Cobraria de um tempo que não cederia porque amo horários e cronogramas (e estar em casa lá pelas 20hrs e cuidar dos meus projetos).

 

Não nego que sou um tantinho relutante a mudanças. Principalmente quando farejo a possibilidade de afetar minha vida pessoal (e não mexam com a minha vida pessoal até porque eu não sou workaholic e não tenho a menor intenção de ser). Mas, se há uma coisa que acredito também, é que se algo fica muito fixo em sua mente é porque é para ser.

 

Ou porque simboliza uma ínfima faísca de arrependimento.

 

E digeri essa situação pelos dias conseguintes. Estou bem com minha relutância, por assim dizer. Tornei-me minha própria “evitadora” de ciladas depois de tanta experiência ruim e infeliz.

 

Ser corajosa no âmbito profissional, e até mesmo na vida em geral, requer coragem obviamente. Minha falta de coragem nem pesa no meu emprego CLT, mas na quantidade de planos que vive na minha mente. São muitos e, por vezes, eles me chateiam. Há projetos que até boto para circular, mas deixo na moita. Não me expor é uma proteção, mas ao mesmo tempo uma maldição. Se eu não mostro, ninguém saberá o que faço. Tudo bem que faço muita coisa mais por mim, aprendi minha lição depois da formatura na faculdade, mas eu quero que outras pessoas sejam alcançadas.

 

Uma parte mental extremamente funcional porque tudo que botei por aí fluiu natural e organicamente. A maior prova disso é este site. Atualmente, o Bela e as Feras.

 

Eu faço as coisas, mas abrir as portas para que tudo aconteça segue como meu maior desafio. É onde falta um pouco mais do bold que essa série quer tanto cultivar em quem a assiste.

 

Como meu horóscopo disse dias desses: eu só tenho feito os pôsteres e não tenho mostrado os filmes. O que significa que acho que não sou a melhor pessoa para dar algum conselho dessa vez. A não ser que vocês precisem de impulso para se demitir. Aí estou sempre pronta.

 

O emprego nos cega porque ocupa todos os espaços da nossa vida. É uma necessidade que não deixa de entravar o cotidiano de muita gente. Ainda mais na questão de ir atrás de novas experiências, especialmente pessoais. Agora, já não tê-lo, talvez, seja a chance de nos reinventarmos – o que é embaçado por motivos de capitalismo e, ainda assim, penso que não é impossível. No geral, não devemos abrir mão de quem somos. Do que acreditamos. Da nossa personalidade. É difícil porque chega uma hora que nos transformamos no lugar que trabalhamos e isso não ajuda ninguém. É por isso que precisamos lutar mais por nós.

 

O importante e acessível é não deixar que essa rotina profissional, ainda mais se não traz alegria, nos aniquile no processo. Como Kat bem demonstrou ao receber mais responsabilidade. É importante que saibamos quais são nossos limites. Atitude que, infelizmente, pode aniquilar oportunidades. Afinal, o capitalismo acredita em workaholic e pró-atividade.

 

Por enquanto, sou corajosa na miúda e espero ser corajosa para sair da criação dos pôsteres.

 

Espero que vocês sejam mais corajosos que eu. Uma hora eu chego lá, prometo! ❤

Stefs
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