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10/maio

Este episódio de The Bold Type deu uma destoada do seu tema de inspiração. No caso, de você reconhecer quem você é e qual é o propósito que você quer perseguir. Ao contrário dos anteriores que renderam essa soma de descoberta, este veio com o tom de desafio. Na verdade, como um entrave para que Jane, Sutton e Kat sentissem na própria pele a dificuldade de fazer o que fazem. Além disso, de seguirem com suas escolhas. Vieses que trouxeram essas heroínas em um nível de estresse altíssimo visto que nem sempre a vida é cheia de sorrisos.

 

O normal caso de um dia ruim só que multiplicado por três.

 

Precisou-se de um bocado de esforço da minha parte para chegar a um aprendizado porque o episódio em si não me inspirou. Ao menos, não até chegar ao derradeiro final. No geral, os desdobramentos trouxeram muito da questão de julgamento e de obstáculo já que o trio estava à flor da pele.

 

Jane apareceu cheia de si com seu artigo sobre Morgyn, a personagem da sua matéria que trocou a vida no Wall Street para ser uma stripper. A todo o momento, ela menciona como seu texto é justo, inspirador e totalmente feminista. Lindíssimo se não fosse a ultrapassagem de limite que muitos jornalistas se esborracham: o respeito com a fonte.

 

Resultado? Um processo jurídico. Não é porque a pauta soa extremamente empoderadora que você tem que revelar tudo sobre a vida da entrevistada. Praticamente o que Jane fez.

 

É para isso que, antes da publicação, existe algo como aprovação da matéria via fonte. Algo que Jane não fez, o que a coloca em uma posição delicada – e ela também não se ajuda até o ponto de virada desse trecho da sua trajetória.

 

A proposta do episódio destoou do seu título. Sem contar que foi uma trama bastante fragmentada, pois, a essa altura da série, as três personagens estão muito bem apresentadas. Jane, como sempre, rendeu um pesinho graças à treta com sua fonte, especialmente porque ela dá a entender que já está mais do que confortável com seu papel de jornalista da Scarlet (apesar do flop do 4º episódio). Dessa forma, a personagem aparentemente colhia mais frutos do seu trabalho, mas acabou recebendo uma intimação. Fato que honra com certa timidez a questão de ser má feminista – o que me fez lembrar de Roxanne Gay e teria adorado uma citação.

 

Por meio desse impasse, que afunda muitas carreiras jornalísticas (ou as tira do limbo), Jane escuta coisas pertinentes. Tais como o fato de que nem todas as pessoas apreciarão seus textos e que ela não precisa pedir desculpas em determinados casos. Embora exista o iminente processo em suas costas, a personagem escreveu com genuinidade sua matéria. É assim que ela funciona. Porém, embrenhada à sua concepção feminista, ela falhou com uma mulher que acabou idolatrada demais. Não que isso seja ruim, mas, no contexto da trama, Sloan rasgou a maior seda para a fonte e perdeu sua imparcialidade. O erro foi escancarar uma vida que acabou prejudicada no processo.

 

Nem tudo que parece inocente é inocente. Ainda mais quando mulheres ainda vivem sob a lupa constante do machismo/sexismo. Infelizmente, a nossa desconstrução ainda briga com um imenso teto de vidro. Jane enfrentou esse teto de vidro, mas quem pagou o pato foi Morgyn.

 

Vale até dizer que é neste episódio que vemos que há orgulho demais em Jane. Ela bate o pé até o fim para provar que está correta. Como a maioria dos jornalistas, o ego dela não cede. Algo que só ocorre quando a personagem volta a pisar na bola e Jacqueline fica de testa quente.

 

Jane

 

De uma matéria que Jane estava crente de que era superfeminista, lá foi ela terminar com seu ego ferido. Ao ponto de chamar Morgyn basicamente de mercenária. A pessoa que só queria faturar uma graninha extra e conquistar visibilidade em cima de um trabalho que chamou de irresponsável (Jane’s voice: mas foi tudo dedicado e coerente!). O aspecto humano da situação só se apresentou quando Sloan descobre que o filho da sua entrevistada foi expulso da escola devido à vida que essa mesma mulher levava. O instante em que a proteção extrema da personagem com o próprio texto acaba dissipada.

 

Houve um tremeluzir na linha tênue que bate no fato de que o que fazemos não é da conta de ninguém. Jane poderia ter freado mais no aspecto da figura de stripper, mas caiu na liberdade que o feminismo dá para as mulheres. Inspirada pelo empoderamento, a personagem expôs o que deveria ser mantido a sete chaves. Era o correto a se fazer em nome da preservação da fonte, pois, infelizmente, o mundo ainda é consumido pelo patriarcado. Vide a expulsão da criança.

 

Ser má feminista, como o título propõe, acontece. E Jane passou por isso, digamos, da pior maneira possível. Quem é que quer ser processada, né? Somos falhas, vamos combinar. Ainda não passei por algo desse tipo, pois, caso não se lembrem, sou a renegada do jornalismo. Por outro lado, minha faceta de má feminista me escapa tem horas no ambiente de trabalho. É quando me vejo mais dominada pela falta de sororidade e chego perto de perder o controle.

 

Não tenho paciência para quem implora por biscoito. Independentemente do gênero. Tão quanto ouvir a mulherada xingando outra mulherada ou conviver com uma mulher que não me inspira confiança (traumas nesse quesito que, dependendo das circunstâncias, coloca um pezinho meu para trás). Não consigo bancar a falsinha!

 

O plot de Jane se amarrou aos desdobramentos das outras manas. Vamos lembrar que Sutton conseguiu o emprego dos sonhos, mas a descoberta do salário ser abaixo do esperado (mais em comparação ao job de assistente) se revelou como um novo empecilho. Do outro lado, Kat colheu os frutos do que pareceu o nascimento da relação lindíssima Kadena, mas rolou a tempestade. Soma de impasses que resumiu esta trama em altos e baixos. Os espinhos as cutucaram até o fim do dia, o que inspirou uma conclusão que serviu de tapa na face.

 

O episódio foi a dois extremos sobre ter voz demais ou voz de menos. Ou agir mais ou agir de menos. Jane fazia muito barulho ao contrário de Sutton que não sabia como discutir sobre seu contrato – e que, de novo, ganhou mais relevância no quesito lutar pelo que é importante. Inspirada pelas amigas, e por Nora Ephron, a personagem foi lá e exigiu o que merece, com um fundo narrativo arrepiante.

 

No caso, a narrativa da pedalada que libertou Kat da burrice de ter destratado Adena. Este foi o momento que, na primeira vez que o vi, não chorei. Apenas fiquei arrepiada. Sem fôlego. E chorei dessa vez ao notar que aquelas palavras contrastaram com as dificuldades dessas personagens.

 

E com as minhas próprias dificuldades, por quê não?

 

Lição número cinco: essa é sua jornada

 

Sutton

 

Ao assistir este episódio pela segunda vez, concluí que ele empilhou dificuldades para mostrar que nenhuma jornada é fácil. Independentemente de você saber o que quer, as coisas não serão tão simples. Sempre haverá adversidades, desânimo… Sempre haverá algo para nos tirar do percurso.

 

E adivinhem só? Ninguém pode se reinserir nesse percurso a não ser nós mesmos.

 

Jane tinha que passar por essa experiência que é muito comum no ramo jornalístico. Especialmente quando se atua em veículo grande. A personagem só não esperava que isso um dia fosse acontecer porque, do seu ponto de vista, tudo foi muito bem trabalhado. Tudo foi minuciosamente feito. Sem contar o cuidado na hora de escrever (e suas anotações estavam borradas, vale mencionar). O problema foi o calor da emoção. O calor de ter aquela fonte incrível. As coisas se atrapalharam no processo, mas, humanamente falando, não quer dizer que devemos nos limitar diante de um erro. Como Jacqueline bem pontuou, devemos seguir sempre adiante.

 

O mesmo serviu para Sutton que não estava confiante em enfrentar o seu perrengue salarial. Ela poderia fazer como vários humanos fazem: aceitar as condições. Nessas horas, a ficção é muito linda porque tudo simplesmente dá certo. Essa personagem tem as melhores amigas do mundo como suporte e demandar o que é justo soa mais possível quando se tem esse suporte. Eu mesma me identifiquei porque sou famosa em trocar de emprego quando sinto que já deu tudo que tinha que dar. E essa transição é um privilégio porque eu tenho um suporte que não me deixará na mão caso eu opte por ficar desempregada de novo – mas não significa que seja algo que goste porque abre para a dependência.

 

Kat ficou na borda do romance, mas ela também contou com sua adversidade. A questão dela girou em torno do se relacionar mais sua orientação sexual. Ela se viu estressada com o descarrilar da montanha-russa codinome feelings por Adena, o que serviu de ilustração perfeita para a sobrecarga emocional. Da versão tranquila do início do episódio, a vemos partir para uma mais tensa. Mais preocupada até alcançar o ponto de ebulição – ao longo da pedalada.

 

Kat

 

“Independentemente da adversidade, do obstáculo, nós fazemos a nossa jornada. Nenhum entrave é menor que o outro porque é ele que nos norteará adiante. Está em nossas mãos. Sua jornada em direção ao melhor começa agora. É hora de testar do que vocês são capazes. A jornada é tão importante quanto o destino, então aproveitem a subida.”

 

A narrativa da pedalada foi o marco do divisor de águas para essas personagens. Separadamente, mas caiu como uma luva. Palavras que também servem para a nossa realidade. Mais precisamente no como lidamos com esses divisores de águas que estão na nossa vida todo santo dia. Todo dia há um obstáculo diferente e, às vezes, não vemos que determinado drible nos leva para mais perto de quem queremos ser. Do que queremos. É difícil encarar adversidades com esse ponto de vista porque somos resmungões natos. Sempre comentamos sobre o que deu errado e não sobre o que mudou de positivo. Raramente tiramos o tempo para ver que a mudança no percurso foi justamente para alterar o tom do prisma. Mudar o foco do leme que está sob nossa responsabilidade.

 

Eu mesma acredito que nada acontece por acaso. Eu acredito que cada curva me levou rumo ao ponto do qual me encontro agora. Um ponto que posso não estar satisfeita, mas que me deixa segura e mais aberta em refletir e me dedicar a quem eu quero ser. Ao que eu quero. Eu preciso parar para ver o desenvolvimento da jornada porque eu também sou a julgadora. Também sou aquela que se esquece do que se pode tirar de aprendizado, de inspiração, em determinada circunstância.

 

Eu ainda lamento primeiro sendo que é tão melhor centralizar a mente na gratidão, por exemplo. Interromper-me, ainda mais quando estou cheia de angústia, é o freio de mão para que eu possa compreender o quadro geral.

 

“Sendo que devemos pensar no que podemos alterar com isso. Encontrem suas forças. Não importa o obstáculo que precisarão ultrapassar.”

 

Jane, Sutton e Kat acordaram em um dia em que tudo deu errado, mas isso não foi o suficiente para silenciar seus poderes de decisão. Se tudo continuará a dar errado, ninguém sabe já que a graça da jornada é sempre tentar alguma coisa nova e positiva. É uma ação aterrorizadora, muito mais fácil em botar em palavras, mas, todos os dias, precisamos de força para ultrapassar os obstáculos.

 

“Você não pode mudar a não ser que supere o que está na sua frente. Não importa o que começaram. O que importa é como escolheram terminar. Se puderem fazer isso. Podem fazer tudo. Essa é sua jornada. Sua vida.”

 

E cada ultrapassagem, é uma nova virada. Jane conseguiu não ser processada. Sutton conseguiu seus benefícios. Kat pagou pelo universo ao recolher o fruto do seu veneno para cima de Adena. O que importa é realmente escolher, sair da contemplação do obstáculo e realmente enfrentá-lo. O que também não é fácil, mas, em algum momento, precisaremos pedalar. E essa pedalada pode ser libertadora, como ocorreu neste episódio de The Bold Type.

 

Uma cena belíssima que uniu essas três personagens em seu drama e em sua resiliência. O trio decidiu seguir adiante, não importando a curva, e colheram mais frutos para moldar um futuro melhor. Nada pode ser alterado se sentamos e assistimos. Precisamos agir para que a jornada fique cada vez mais próxima da vida que queremos.

 

E a jornada é a nossa vida aqui. Cada um de nós tem seu próprio leme e cabe a nós tomarmos decisões, das mais simples as mais drásticas. O percurso é de nossa responsabilidade.

 

Como disse na resenha passada, revisitar The Bold Type tem mexido com meus feelings e, dessa vez, não foi muito diferente. O único episódio que lembro de ter chorado foi o finale e eis meu momento de revelação com este. Parece que ouvi o conselho do qual precisava e espero seguir adiante com ele. Ser inspirada por ele.

 

A responsabilidade da nossa vida é, bem, nossa. Um clichê assertivo que precisamos ponderar todos os dias, mesmo que não queiramos. Porque cabe a nós a mudança. Cabe a nós a aventura seguinte que está escondida na próxima virada de página da nossa jornada.

Stefs
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