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13/maio

Este episódio ocupa o segundo do meu pódio de favoritos de The Bold Type (e logo menos vocês saberão qual é o primeiro). É muito raro um conteúdo da ficção abordar um assunto urgente e tratá-lo com delicadeza, mas sem se esquecer de sua pertinência. Este foi o caso em que ouvimos um tanto sobre câncer de mama. Pauta que trouxe mais do background de Jane.

 

No piloto, uma atmosfera densa se apresentou assim que a mãe de Jane foi mencionada. Abordagem que ficou nas entrelinhas, mas que não deixou de expressar um tom agridoce. Neste episódio, sabemos o que efetivamente ocorreu: ela faleceu devido ao câncer de mama. Assunto que casou com a campanha de Kat sobre a prevenção dessa doença e que conquistou um viés meio político. Ela se usou do momento para enfatizar a libertação feminina por meio da exposição dos seios, o que acabou expondo mamilos masculinos a fim de provar o ponto de que o Instagram só censura tudo que envolve o corpo da mulher.

 

Tudo parecia uma storyline única até se fragmentar entre Jane e Kat. O que trouxe dois pontos de vista relevantes e com conclusões que podem ser levadas para a vida. Isso, de acordo com Jane, a única que sabia de fato o que é ver alguém lutar contra o câncer de mama.

 

Claro que a matéria da vez na Scarlet abordou o assunto e que Jane foi incumbida de escrevê-la. Foi um rodopio da vida que encontra seu próprio jeito de sinalizar, em momentos inesperados, que precisamos lidar logo com algo antes que se torne uma incontrolável bola de neve. Investida que situou um dia nada normal para essa personagem que teve que cutucar suas próprias feridas e reviver memórias das quais escolheu afugentar em alguma parte obscura do seu cérebro.

 

Jane refutou a princípio a ideia de Jacqueline em lhe dar a pauta, mas, no fim, ela mesma se achou capaz de cumprir o que foi pedido. A personagem seguiu adiante, mesmo ruminando uma dor que mudou seu comportamento no horário de expediente. Além disso, que a deixou impaciente porque ninguém sabia dos detalhes do que acometeu sua mãe, como a própria chefia que empurrou seus botões – já que tratar esse assunto é delicado, precisa de averiguação e etc.

 

Engolindo em seco, Jane segue com seu trabalho e faz dessa matéria uma grande missão de escrita. Afinal, é o meio encontrado para a personagem fazer jus a um assunto que recebe todo ano o mesmo tipo de tratamento que é visto em uma empenhada Kat. A rainha das mídias sociais que faz sua campanha de conscientização dentro do “dito normal”. Ato que deu seu tom discrepante que cegou uma e aflorou os sentimentos de indignação da outra.

 

Ações como as de Kat tendem a ser, infelizmente, temporárias. Só quem é extremamente ativista ou viveu/conviveu com o assunto se dedica de alma e de coração, independentemente do período do ano. Jane pode não ter se saído como a militante, mas sua mensagem cutucou diretamente essa falta de compromisso anual das pessoas, em cima de um assunto que tem matado mulheres cada vez mais jovens.

 

Jane

 

A missão de Jane começa ao visitar uma médica que afirma que exames precoces, antes da idade recomendada, é uma forma de saber com antecedência o risco de se ter câncer de mama. O primeiro conflito que mexe com suas opiniões particulares e que reforça a escolha de Jacqueline de ela ser a jornalista ideal para desenvolver tal matéria. O roteiro não aprofunda o conceito médico/genético, mas sinaliza com certa responsabilidade de que a hereditariedade vale também de sinal sobre doenças que podemos ter no futuro. No caso deste plot, ter alguém na família que já faleceu devido ao câncer deve ser visto como um indício de prevenção. Não importa a idade.

 

Em conversa com a médica, vemos um outro lado de Jane. Outrora sempre sorridente e espirituosa, a personagem surge afrontosa, distante, retrucadora e cética. O câncer de mama ainda a assombra e a conclusão dessa entrevista é a recusa de fazer o exame. Essa foi sua forma de resistência, especialmente por ter 25 anos. O que é cedo demais visto que esse exame é pedido após os 30 anos.

 

Acompanhamos Jane em uma angústia que me fez pensar. Principalmente quando a médica pontua dois comportamentos que precisamos ter constantemente com a nossa saúde: vigilância e prevenção. Esta trama é um tapa, um aviso de que precisamos cuidar melhor do nosso corpo. Não importa se temos alguma hereditariedade cancerígena. Precisamos ser atentas a nós mesmas.

 

Além disso, o roteiro manda a mensagem sobre essas preocupações temporárias. Campanhas que têm sua duração curtíssima e que cativam algumas pessoas apenas por esse período de tempo. Viés que Kat falhou miseravelmente e sem querer.

 

Detalhe também sentido no comportamento de Jacqueline em pressionar Jane, o que trouxe uma das melhores cenas desta temporada de The Bold Type: a própria Jane Sloan dizendo as verdades sobre o que lhe importa e que acaba sufocado em uma profissão que, querendo ou não, futiliza os sentimentos das pessoas.

 

A partir do momento que Sloan pega a pauta, tudo que lhe é pedido é para fazer as perguntas difíceis para a médica. Em contrapartida, ninguém indaga como seu dia está sendo difícil por ter que revirar um momento da sua vida que definiu muito da sua existência. Apesar das amigas estarem lá por Jane, ao mesmo tempo elas não estão, e as cobranças apenas estressaram uma mulher que carrega todo esse fardo que se expressou em uma emoção familiar a nós: medo.

 

Medo de ter essa hereditariedade. Medo de reviver memórias. Medo de sentir a dor da perda de novo. Sutton e Kat agiram sem maldade, mas é bem verdade que, no dia a dia, dificilmente perguntamos o que uma pessoa anda sentindo. Principalmente quando seu comportamento não condiz com o que normalmente apresenta no horário de trabalho e deixamos pra lá.

 

Jane e Jacqueline

 

Resolução vista no resultado da interação conflituosa entre Jacqueline e Jane. A chefia só queria a pauta e mudou seu ponto de vista ao ser cobrada no simples fato de que ninguém da Scarlet sabe da vida do outro. O impacto do desabafo de Sloan que parou a redação com a emoção que partiu o coração.

 

A real é que muita gente não quer ouvir as histórias reais sobre o câncer. Tudo que a maioria quer é apenas o Outubro Rosa, a fitinha rosa e uma mensagem positiva sobre ir ao médico e fazer um check-up.

 

Não queremos saber o quanto o câncer de mama mata.

 

O que calha na verdade de que nossa saúde não é um serviço pontual. Nem é atemporal. É para agora, não importa que ponto da vida estejamos e se aparentamos estar realmente saudáveis.

 

E o importar nessas circunstâncias vai muito além de compartilhar um post no Facebook.

 

Houve outra verdade exposta neste episódio e que endosso: não sabemos como o outro se sente. Nunca mesmo. Podemos ter similaridades com um dado acontecimento, mas ninguém sente a mesma coisa. Não importa se o evento é o mesmo. Uma campanha de conscientização sobre o câncer de mama não afeta ninguém da mesma forma. Não descreve com detalhes como a pessoa batalhou contra a doença, como recebeu o diagnóstico e como quem perdeu entes queridos lidou com o depois.

 

Como disse, há relutância sobre a verdade, ainda mais sobre doenças graves. É normal aceitar as campanhas fofas que têm prazo de validade de um dia ou durante um mês. Sendo que muitas dessas campanhas não quebram o tabu justamente porque não se aprofundam. E isso é igualmente ruim.

 

O desabafo de Jane abre para a vida pessoal de Jacqueline e é lindo de se ver. Um instante que compreendi como um shade nada intencional sobre O Diabo Veste Prada. Em que Andrea invade a casa de Miranda e a pega em uma treta com o marido, o que entregou o divórcio. Aqui, a chefia tem uma vida próspera, é casadíssima, tem filhos educadíssimos, um maridão simpático, um cachorro e uma carreira sólida. Uma vida de privilégio que, querendo ou não, nos impede de ver o que o outro sente. Mesmo sem querer. Ninguém estava despreocupado com Sloan, mas o foco na campanha cegou todo mundo – e competiu com os outros dilemas que se desenrolaram neste episódio.

 

O que reforça o ponto de que nunca sabemos o que há do outro lado. A única maneira de tornar isso visível é compartilhar. Compartilhar com alguém de confiança, claro. Jane precisava compartilhar sua história que tem muito mais pertinência que a campanha de Kat. Infelizmente, a personagem só conseguiu fazer isso ao explodir no meio da redação. Ato que frisou que histórias são mais importantes que likes e compartilhamento – algo que vocês compreenderão o sentido no futuro.

 

Lição número seis: cuide de sua saúde

 

Jane vs. Campanha

 

“O medo causa mau comportamento.”

 

Este episódio de The Bold Type não abandonou os plots menores e ainda assim mandou uma mensagem sobre prevenção ao câncer de mama. Jane tem seu medo exposto tanto para lidar com algo tão próximo de seu coração quanto para encarar o fato de que pode ter essa mesma doença no futuro. Na negação, ela foca em dar o seu melhor, mas as emoções de uma experiência nada reconfortante a acompanham. Muito não é falado porque a aposta foi no sentir e deu para sentir muito em meio às passagens mais lentas de cena. Além disso, nos toques furtivos, como fotos de modelos com seios fartos e a personagem colando um vestido contra seu corpo e focando em seus seios. Às vezes, adiamos lidar com a verdade e Jane escolheu isso mais o não enfrentamento.

 

Não por muito tempo, pois, como disse, a vida tem seu próprio jeito de nos cobrar por assuntos inacabados/não lidados. Logo, não demora muito para vermos a coragem de Jane em cena.

 

A proposta aqui foi inspirar mulheres a cuidar da saúde e indicar como campanhas, às vezes, não ajudam efetivamente. Isso, por meio dos olhos de Jane. O que frisou a importância de se ter histórias verídicas sobre como uma doença reage e como é viver com ela.

 

Câncer de mama, assim como tantos outros tipos, não é sobre a campanha do mês. Nem sobre a fitinha. Graças a dor de Jane, se aprende que é preciso também reconfortar quem já a tem e/ou dar apoio a quem desconfia ou tem probabilidade de tê-la. Se é uma corrente do bem, o toque precisa ser humano. Uma fitinha é apenas uma fitinha (e essa sou eu falando, ok?).

 

Histórias como as de Angelina Jolie, por exemplo, que fez uma cirurgia ao saber da tendência ao câncer de mama, são inspiradoras. Essa em específico serviu de espelho para meio mundo falar sobre câncer de mama, mas o método não é acessível a todas as mulheres.

 

Ir ao médico tende a ser acessível a todas as mulheres e é necessário. Precisa ser inspirado, pois ninguém cuidará do nosso corpo a não ser nós mesmas. Algo que confesso que sigo aprendendo. Desde que vivi com um transtorno alimentar e recebi o diagnóstico de anemia profunda, qualquer queda de cabelo me preocupa. Eu não deveria ter me deixado ir tão fundo sendo que os sinais do meu corpo sempre estiveram nítidos, mas a culpa não foi minha. Transtorno alimentar é um transtorno mental e, às vezes, quando se descobre o que ocorre é tarde demais. O mesmo com câncer de mama.

 

O medo também pode ser a nossa maior fonte de ignorância e Jane passa por isso ao relutar o exame. No fim, ela cede e abre essa experiência para enriquecer sua matéria. A personagem divide já que alguém pode aprender com sua história. Ou se inspirar a base dela. Essa é sim a melhor campanha que se pode fazer porque há muitas mulheres que temem o exame de toque (eu mesma). Heroicamente, Sloan se despe e, de quebra, encontra seu caminho de superação.

 

Jane exame

 

O episódio traz uma grande mudança de ponto de vista em cima da melhor maneira de comunicar uma doença. De fazer campanha de prevenção. A Scarlet é um grande veículo e Kat estava apenas preocupada em provar seu ponto político. De que mamilos de mulheres não devem ser censurados. Ainda mais em redes sociais. Lindíssima, mas e a verdade sobre o que ela cobriu tão intensamente?

 

Jane era a personagem que Kat precisava para sua calorosa campanha. Pessoas reais. Não foi erro dela deixar isso passar, até porque as campanhas de conscientização são absurdamente quadradas. Sem contar que essas mesmas campanhas vendem uma felicidade que não orna com quem viveu. Fato que também cai na lupa de Sloan que lidamente escancara o real problema desse tipo de trabalho. O que confronta a realidade de que muita gente só quer o lado fake ativista e feliz.

 

Da frieza da campanha de Kat, a narrativa consegue trocar seu compasso gradualmente para mostrar que histórias reais importam. Que são mais relevantes. E que o jornalismo deveria se apegar mais a esse viés. Jane contesta o que será comentado no futuro sobre likes e compartilhamento porque ela mesma não se importa. O que a personagem quer é significado e relevância. E a maioria das campanhas não proporciona isso. Bastam ver que sempre escolhem algumas atrizes que nem sequer sabem o que é viver ou perder alguém devido ao câncer de mama. E é estressante!

 

Quem se lembra da campanha da Paralimpíada? Ridículo!

 

Compartilho até algo com vocês: um tempinho atrás, tentei descolar uma entrevista sobre uma campanha que rola em um determinado mês sobre transtornos alimentares. Eu queria mais detalhes para poder publicar no A Bela e as Feras, e tudo que ganhei foi uma resposta seguida de vácuo. Enquanto a “campanha” rolava, valeu me dar atenção. Depois que acabou, bem, nem tchum.

 

E eu sempre volto na página dessa instituição para ver que tipo de serviço de conscientização oferecem. Tudo que fazem é mandar uma turma escrever algo X mais replicar conteúdo. Posso não ser uma influencer, mas esse é um dos meus trabalhos atuais e o que ficou de mensagem é o óbvio: todo mundo se preocupa com prazo de validade. O que não deveria ser uma surpresa, mas não deixa de ser. Afinal, você espera comprometimento com todas as partes. Não é bem assim!

 

Quando fui xeretar mais detalhes da campanha, era óbvio que se tratava de algo pontual. Só que sua temporalidade me horrorizou. Principalmente por se tratar de uma instituição voltada a esse tipo de cuidado e que deveria erguer mais a bandeira. O vácuo que eu ganhei apenas me transmitiu a mensagem de que a turma pouco se importa mesmo. Só precisam de uma data para se manifestar.

 

No fim do dia, poucos se importam. O que é uma quantidade pertinente, pois seria pior se ninguém mais trouxesse essas questões à tona.

 

Este episódio engatou sem querer essa pegada de falso ativismo. Kat se saiu como a responsável, embora sentisse que fazia a diferença. Não nego que ela fez sim, mas chegou uma hora que a personagem centralizou no seu ego. Isso é bem errado, mas a moça não deixou de aprender. Não deixou de ver que campanhas online não são nada perto da troca humana. A troca humana que foi a real pauta desta trama porque só assim transmitiremos uma mensagem verdadeira e inspiradora.

 

Seios não são um crime, diz a faixa que serve de abertura e de finalização para este episódio. Penso que o crime mesmo é não cuidar bem deles, como das demais partes do nosso corpo. Eu mesma preciso tomar coragem para enfrentar um exame de mama em algum futuro próximo. A ideia de sentir dor me deixa horrorizada e travada, mas é melhor saber que não saber.

 

Uma conclusão que cabe ao episódio também, pois Jane saiu da sua própria zona de dúvida. Ela acaba por ser diagnosticada com BRCA e o que tem que ser feito a partir daí é vigilância e prevenção. A incidência de câncer de mama hoje é diferente, pondo mulheres ainda mais jovens para passar por algo tão sério e que pode tomar suas vidas. É aterrorizador, eu sei, mas precisamos ficar atentas.

 

Posso não transmitir a melhor das campanhas, mas deixo a mensagem: cuide de sua saúde, meninas. Não procurem o médico só quando acham necessário, tá bem?

 

E, sério, se há algo que te cativa no quesito conscientização/ativismo, vá em frente. Pessoas apaixonadas, compartilhando o que acreditam ou o que viveram, são mais poderosas que várias campanhas temporárias (e que só querem mostrar que uma empresa é cool ou supostamente engajada. Ata!). Ao menos, isso é o que acredito com todo meu coração.

Stefs
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