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03/maio

“Se você não consegue fazer com sentimento, nem faça.” – Patsy Cline

 

Apesar da mensagem destacada acima, este episódio de The Bold Type entrou na minha pequena lista dos mais fracos. Não gosto de dizer isso porque não é meu critério de avaliação, mas foi aquele que menos me envolvi emocionalmente. Porém, não quer dizer que não tenha sido agradável e reflexivo à sua maneira porque foi sim. Afinal, a ferida cutucada da vez emendou o grande questionamento desta temporada da série: quem é você? 

 

Somado a isso: quem é você e qual é seu propósito? 

 

No 3º episódio, muito foi dito, pelo ponto de vista de Jane, sobre que tipo de escritora ser. Para isso, é preciso se descobrir. É preciso saber quem somos para exercermos melhor o nosso ofício. Já neste episódio, a mencionada personagem colheu novos frutos graças ao seu artigo político sobre a congressista. Detalhe esse que pontua o artifício dos roteiristas de usar das pautas da revista como meio de transformação da trama da semana. Além disso, como meio de desenvolver as personagens.

 

Com mais um sucesso editorial, Jane ganhou o direito de ser parte de um painel político. O assunto? Vozes políticas emergentes com menos de 30 anos. Empreitada que não ganhou uma proporção imensa visto os debates dela no episódio anterior. Esse evento se apresentou apenas para fazê-la questionar novamente seu papel como pessoa, e não profissional, que escreve. Papo que serviu de impulso para sua problemática ao longo desta temporada: o ser relevante. Bem, relevante ela não se sentiu com essa oportunidade que ainda contou com os olhos atentos de Jacqueline.

 

A premissa deste episódio deixou para Jane o agridoce da falha. Fato que teve seu próprio jeito de ser suprimido pelo novo salto na carreira de Sutton mais o foco total em Kat e Adena. Em suma, ela não se sentiu ouvida no painel e nem uma voz influente. O que abriu margem para mais uma leva de inseguranças que, no presente momento, a personagem não tem como combater. Porém, fica de ponta solta para os desdobramentos futuros.

 

Por outro lado, Sutton se saiu vitoriosa. É o plot dela que traz o quote que abre este post e foi com ela que fiquei ao longo deste episódio, embora não desmereça o que ocorreu com Jane. Como tudo em The Bold Type, as histórias têm suas razões de existirem e, no fim, se entrelaçam para alcançar a sua moral. Graças a uma falha de comunicação que se tornou uma grande mentira, a personagem em questão quase perdeu sua chance no departamento de moda. Mas a conquistou ao se mostrar verdadeiramente.

 

O que me faz cair na hora do sincerão: este especial de The Bold Type tem sido uma terapia para mim. Cada episódio tem conversado de novo comigo, mas de uma maneira que tem calhado com meu status atual de vida. Como sempre digo, sou a pessoa que levanta a bandeira de “faça o que ama” e levanto um pouco mais essa mesma bandeira quando conversamos sobre fazer qualquer tarefa com sentimento envolvido. O que me fez abraçar de pronto o quote destacado neste post, presente no moodboard de Sutton, que arrematou a moral de sermos de verdade.

 

Uma frase que também teve seu próprio jeito de calhar na experiência de Jane no painel e na decisão de Kat em ir atrás de Adena. Diferentes perspectivas sobre ser e agir verdadeiramente, o que mostrou o quanto essa tríade é multifacetada. Cheia de decisões diferentes e que vão dizendo muito da personalidade de cada uma delas ao longo da temporada.

 

The Bold Type 1x04 - Jane

 

Ao ver Jane sentada entre aquelas pessoas, me vi de volta à minha sala na faculdade. Um lugar que nunca me inspirou a descobrir minha voz nesse ramo. Que nunca me deu voz por fazer pouco caso do que eu intimamente gostava mais de produzir (entretenimento). Com o passar dos semestres, só quis que o curso terminasse logo (em meio a várias decisões de trancá-lo). No fim, e além da libertação pessoal, me vi decepcionada. Uma emoção que se traduz no fato de que estudei mais a força que por gosto. Não consegui ser verdadeira em um investimento e nem encontrei espaço para a verdadeira Stefs como jornalista surgir.

 

E esses fatores nem são os mais pesados. Pesado mesmo é ter concluído um curso que nunca me identifiquei. Afinal, meu conceito de fazer a diferença por meio da escrita nada tem a ver com vender a alma para ter seu nome em uma matéria, por exemplo (e sei que há vários anjos jornalistas com seus méritos preciosos, não estou generalizando).

 

Minha experiência com o jornalismo não instigou sentimento. Nem o fazer de verdade porque tudo envolvia nota. Vivi a forçação de ter que fazer por questões da grade curricular (e não a curtia justamente por eu não ter perfil de Rádio e TV, por exemplo). Eu me sentia obrigada a fazer várias coisas das quais não queria porque era evidente que não me traria nada de aprendizado (e fazia porque precisava de nota). Sem contar que não me inspirava (algo que se reverteu no último ano). Eu fui quase supérflua na minha turma.

 

Quase porque meu TCC e meus projetos finais voltados para a web salvaram a minha alma nesse curso. Foi quando eu realmente me senti relevante porque eu fazia de verdade e com sentimento. Houve muito amor envolvido. As notas 10 que nunca esquecerei!

 

Eu não encontrei minha assinatura como jornalista, como comentei na última resenha de The Bold Type. E eu nunca me senti enquadrada no curso. Naquela época, eu não tinha noção de que queria realizar um tipo de diferença com a escrita, mas percebi que minha moeda de recompensa é o sentimento. É a retribuição do que fiz com genuinidade recebendo mais genuinidade em troca. E nem todas as profissões permitem que sejamos verdadeiros e é quando pensamos nos famigerados projetos paralelos para não nos perdermos no processo – e recomendo demais, fatos reais.

 

No caso de The Bold Type, as meninas precisam se virar no mundo da Scarlet e, ao longo de 10 episódios, muita coisa no profissional delas dá certo (eu amo uma série!). É quando a ficção nos dá um pouco de esperança sobre correr atrás do que queremos e assim atingir uma completude no processo. Como disse lá em cima, os episódios têm casado comigo pela segunda vez, mas, meu status atual, é de quem procura novamente o propósito.

 

Está aí uma tarefa incansável.

 

Quando digo incansável é porque precisamos descobrir quem somos para atingirmos o propósito verdadeiramente. Já perdi as contas das vezes em que me vi enumerando no que sou boa para assim ter a visualização das minhas capacidades. Meu vício de 2018 sendo que eu tenho bastante noção das minhas capacidades. Contudo, nem sempre o espaço que ocupamos nos ajuda a ver o melhor de nós. Injusto, né?

 

Eu tenho uma relação nada saudável com a palavra escapismo. Eu tenho a habilidade de me nublar sobre quem eu sou e o que eu quero. Ato que vai além da necessidade de pausa, pois há a autocrítica que me enforca tem horas. Este texto mesmo nasceu em mais um dia de forca.

 

Quando a questão é confiar e agir. Como Sutton bem fez, que disse algo muito lindo de impactante neste episódio. A personagem afirma que se é para perder a vaga no departamento de moda, que ao menos fosse como ela mesma e não como a garota fake que ela mesma “vendeu” para Oliver. Ação feita pelo medo visto que essa jovem não tem formação em nada nesse ramo e se achou muito menor, se esquecendo momentaneamente das suas capacidades e do seu conhecimento sobre o mundo fashion.

 

Quantas vezes por dia somos fake para mantermos uma posição, hum? Jane foi a única honesta em meio ao seu plot. Sutton se camuflou em uma mentira e Kat se usou de um ponto fraco pessoal para afastar Adena. O resultado? Essas duas últimas personagens tiveram que correr atrás do prejuízo de não serem e de não agirem verdadeiramente.

 

Fato é: se pararmos de mentir e abrirmos a porta para nos conhecermos bem, nos tornaremos imparáveis.

 

Lição número quatro: seja de verdade

 

The Bold Type 1x04 - Jane Twitter

 

Real é o que faz de você quem você é, disse Oliver neste episódio. Ele está correto. A sociedade tem seu próprio jeito de nos moldar o tempo inteiro. De dizer quem devemos ser para seguirmos de tal jeito. Inclusive, dizer o que precisamos ter para sermos considerados um alguém. Bens materiais são as primeiras coisas que muitos pensam e aderem como a demonstração do verdadeiro eu, sendo que isso, em grande parte, não passa de uma camuflagem. Uma camuflagem que pode esconder uma zona de inseguranças, como os filtros do Instagram e suas dezenas de fotos felizes.

 

Saber quem somos em um mundo que nos estilhaça diariamente é difícil. Mas, como tenho lido bastante por aí, muitas respostas se encontram na nossa infância. Em The Bold Type, tudo se encontra na Scarlet. Jane acompanhou a revista desde que era adolescente e foi quando ela despertou para ser jornalista. O mesmo Sutton que, além da Scarlet, consumiu outras revistas de moda e fomentou sua identidade no ramo desde muito nova, sem ter ao menos uma experiência. Exemplos de paixões que moram em nós desde que nos entendemos por gente. As vocações que são caladas em meio à meta de sobreviver neste mundo caótico. As vocações que despertam o ato de fazer com sentimento e com uma quantidade imensurável de genuinidade.

 

Fazer com sentimento também não é fácil em mundo que só consome. Que quer coisas rápidas. Que foca no desimportante. Que não quer que as pessoas pensem muito. Que tem empatia seletiva ou temporária. Que não quer o bem de ninguém. Um mundo que nos dá empregos não pelo prazer, mas porque precisamos do dinheiro para sobreviver. E se quisermos criar o mundo do qual somos apaixonados, há medo e risco, emoções que evitamos pelo receio de falha. O mundo nos faz inseguros demais, especialmente para perseguirmos o que amamos.

 

Recentemente, me dei conta do meu próprio ciclo vicioso. Um que me empurra para os “mesmos modelos de emprego”. Eu saí dolorosamente da negação de que se eu não tomar algumas providências seguirei saltando para lugares que não gosto e me sentirei infeliz em todas as vezes. Um quadro comum, até banal, mas também sou grande fã do bem-estar. Sou grande fã de chegar no final do dia e saber que pus algo de relevante no mundo. Que valeu a pena. Mas é difícil… Ainda mais quando o que você faz de segunda a sexta aniquila o seu espírito.

 

E eu tenho aprendido a dizer não porque meu espírito é precioso demais.

 

Eu sou uma pessoa intensa. Eu sou uma pessoa que precisa largar textos com propósito. Por mais que negue, eu faço tudo com sentimento e com cuidado. Eu não teria começado este especial de The Bold Type se não fosse para compartilhar histórias ao mesmo tempo que destaco as nuances positivas desta série. A necessidade de dar significado que me deixa em turbulência. Principalmente no trabalho, pois lá essa versão de mim não tem vez.

 

Jane diz no painel que as pessoas precisam de engajamento. Precisam ter vozes para confiar. O que calha nos exemplos. Somos nossa própria âncora, claro, mas precisamos de exemplos. É inspiração para, quem sabe, sairmos do mais do mesmo diário. Para não nos acomodarmos. Para lutarmos um pouco por quem somos.

 

Não menos importante: precisamos ser um exemplo positivo e isso só será possível se mostrarmos nossa própria verdade.

 

Tudo o que disse acima pode soar como uma utopia. Afinal, temos realidades diferentes. Porém, o mundo seria um tanto melhor a base da nossa própria verdade e se pudéssemos investir no que estamos conectados sentimentalmente. Seríamos seres um tantinho mais felizes e com menos crises existenciais. Com menos ansiedade, sem tantos transtornos mentais, exemplos que nos impedem de saltar a linha tênue do tentar. De confiar em nós e na nossa missão aqui.

 

De descobrirmos quem somos de verdade.

 

Porque parece que o mundo não tem espaço para todos. E este mundo nos convence disso diariamente.

 

Mesmo que muito pouco, Jane se inclui nessa mensagem de ser de verdade e de buscar a verdade naquilo que importa genuinamente. Seu único comentário no painel fez a diferença porque ela foi verdadeira. Lançou-se um ponto de vista que concordo totalmente. No mundo da comunicação, precisamos de vozes confiáveis e meu sonho de princesa é ser uma voz confiável também.

 

The Bold Type 1x04 - Sutton

 

Eu me descubro cada vez mais minimalista e um texto verdadeiro para mim já basta. É o que tende a salvar meu espírito e que confronta a minha experiência de idas e vindas em um curso do qual eu sabia que não pertencia. Que calha na minha falta de plano B porque não me identifico com segundas graduações, o que me deixa mais perdida. Que remete ao ciclo vicioso de trabalho que ainda não sei como escapar (mas escaparei em nome da Deusa).

 

Apesar de saber o que quero e o que posso fazer, o medo está sempre ali. A autocrítica ferrenha também, a responsável em me empurrar para o escapismo. Vivo no ciclo de provação, como todo mundo, em que você tem que passar por sei lá o quê a fim de descobrir alguma coisa em qualquer parte do percurso. Precisamos sair do casulo. Precisamos lutar um pouco pelo que queremos expressar neste mundo. E está aí um desafio diário não só meu, mas de muitas pessoas.

 

O moodboard de Sutton falou mais que o posicionamento de Jane no painel. É o reflexo de que mentimos diariamente sobre quem somos verdadeiramente, seja para manter um status em frente a um grupo de pessoas ou para manter um emprego. E eu não sou essa pessoa e brigo para não ser essa pessoa todo santo dia. O que aumenta meu estresse e minha chateação. Eu fico maluca quando mexem com meus valores e não engulo mais essa de “mudar para me manter”. Porque é justamente isso que ouvimos desde que somos crianças e considero isso errado demais.

 

Porque passamos a viver em uma teia de mentiras. Daí, passamos por vários ciclos e não conseguimos nos desprender de muitos deles. Sem notarmos, almejamos o do outro para nos sentirmos um alguém sendo que já somos um alguém. Precisamos apenas olhar para dentro e nos encontrar verdadeiramente. É difícil, mas não impossível. Quem sabe, podemos começar com um moodboard, como de Sutton, que representou a verdadeira expressão do seu eu. Que representou que é horrível viver nessa briga entre quem não podemos ser vs. quem devemos ser. Sendo que podemos ser quem quisermos, desde que envolva a nossa verdadeira faceta.

 

Uma faceta do bem.

 

The Bold Type 1x04 - Kat e Adena

 

Toda essa reflexão também se aplica ao que se desenrola entre Kat e Adena. E que mulheres maravilhosas! Abençoado seja o OTP!

 

Sei que não comento muito da Kat, mas ela cresce neste episódio. Nas tramas passadas, fica claro que a personagem se reconhece como mulher heterossexual, mas passa a se questionar ao perceber que se sente atraída por Adena. O laço entre as duas se dá por meio de uma carta de recomendação, documento que pede a verdade em sua elaboração.

 

Uma verdade que traz luz aos sentimentos de Kat por Adena. Que impacta essa relação e as aproxima efetivamente.

 

Ao escrever a carta, Kat age como uma profissional, mas o que se vê é uma pessoa que quer valorizar tudo de incrível que Adena representa. O meio que gera o beijo esperado, firmando que podemos viver em mundos diferentes, mas não se nega o sentimento que nos move. Muitos chamariam isso de intuição – e eu bem seria essa serumaninha.

 

Kat dá a cereja nessa linda moral sobre ser e agir de verdade. Apoio essencial de um episódio que contou que a realidade tem seu próprio jeito de nos transformar. Só não é culpa dela se mudamos demais. Se nos deixamos levar demais. É culpa unicamente nossa e pode ser tarde demais para nos recuperarmos no processo. Pode ser tarde demais para ser quem somos de verdade e correr atrás daquilo que sabemos que merecemos.

 

Ser quem somos é uma batalha diária que não tem prazo de finalização. É algo que preciso lembrar todos os dias, mas nem sempre é fácil. Ainda sim, é preciso se ater a quem você é e assim traçar um caminho em que a verdade das suas emoções se exponham. Não há nada mais doloroso que viver uma mentira e fazer apenas por fazer.

 

Se não há sentimento, não faça. Mas precisamos fazer em muitos casos, infelizmente. Fugir do nosso eu para assim sobrevivermos. É injusto. Dói. Quem trabalha com conteúdo sabe o que digo. Mas penso que o importante é criar uma válvula recompensadora, como eu tenho este site, para que a sanidade não se perca no processo.

 

E se perder é igualmente pesaroso.

 

O que me faz encerrar este texto com a frase que colocaria no meu moodboard: você é você por uma razão. E eu preciso respeitar mais isso para não me perder no processo.

Stefs
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