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13/jun

Colocar os pés dentro de uma sala de cinema é uma experiência transformadora. Digo isso, pois acredito que entramos e saímos dela completamente mudados. Independentemente de gênero, de motivação e de prediletismos, o intuito da sétima arte é proporcionar escape por meio de sua magia.

 

Dentre as variações do mudo para o falado, do preto e branco para o colorido, sua plateia foi e continua sendo sugada para dentro das telonas. O real sentido da magia pode ter se perdido para alguns, mas é de comum senso que cada um experimenta aquilo que vê e sente de maneira única.

 

Possuímos visões diferentes sobre a vida. Seja com aquilo que desejamos. Seja com cada um dos pequenos grandes passos que damos. Somos adaptáveis à realidade que nos cerca, por mais que algumas vezes nos passe a sensação de absoluta falta de controle. E isso nada mais é que a vida em si. Vivemos no tique-taque do relógio e na sua simbologia temporal.

 

Somos sedentos por fazer parte, por construir e, principalmente, por cultivar algo. De vez em quando, desejamos dividir tudo isso com alguém, mas também podemos desejar o oposto. Percebemos nossas aptidões e talentos, aquilo que ajuda a moldar um pouco mais de quem somos. Somos influenciados por nossa criação, mas também pela maneira com que nossos genes se formaram. Buscamos, mesmo sem as vezes encontrar, nosso propósito no mundo – que podemos nomear como vocação, chamado, entre outros.

 

Ansiosos, por vezes, atropelamos estágios. Tememos que o tempo passe e nos deixe para trás. Buscamos respostas para tudo e, nesse meio tempo, esquecemos de viver o agora. E mais importante disso tudo: esquecemos que podemos ser um pouco mais gentis com nós mesmos e com aqueles que amamos e nos amam.

 

“‘Your twenties are great, but then your thirties come around the corner like a garbage truck at 5:00 a.m.”

 

Alguns se prendem a um modelo preestabelecido e seguem suas vidas exatamente como gerações passadas fizeram. Outros buscam quebrar o ciclo, mudando opiniões, atitudes e a maneira com que interagem com o mundo e as pessoas.

 

Somos gratos pela presença e o impacto que nossos pais tiveram em nossas vidas, mas nem todos podem dizer isso. Nos espelhamos neles como um barco na escuridão do mar em busca de um farol ou como uma bússola ou como o Google Maps que nos mostra a direção quando estamos perdidos. Nossos pais são a mais clara definição de amor incondicional, mas nem todos recebem tal amor e/ou nem todos os pais são aptos para tal dedicação.

 

Temos muito deles, mas também somos muito de nós mesmos. Agimos de caso pensado, mas também por impulso. Dizemos coisas que não gostaríamos e, logo depois, nos arrependemos. Às vezes, gostaríamos de ter dito certas coisas, mas nos falta coragem.

 

Por vezes, suas mentes provocam reações e ações que, infelizmente, àqueles que estão ao redor terão que vivenciar e lidar. Muitos não acreditam que exista somente o bom e o ruim, o famoso preto e branco. Existem diversos tons de cinza – por favor, afaste qualquer conotação proposta por E.L. James naquele livro que não deve ser nomeado. Coexistimos com nossa luz e escuridão, alegria e tristeza, entre outros exemplos de sentimentos e sensações opostos.

 

Tully abriu meu coração para perceber as diferentes perspectivas numa dinâmica familiar. Núcleos familiares podem ser estruturados ou desestruturados, cada qual devido a diversos fatores. Meus pais tiveram diferentes dinâmicas com seus próprios pais e escolheram tê-las comigo. Existe uma ruptura na maneira como os pais educam seus filhos hoje, mas claro que certas tradições nunca se extinguem. Acredito que, muitas vezes, meus pais se questionaram se estavam aptos a tal responsabilidade. Comprometidos com uma nova vida. Tal vida, durante muitos anos a vir, dependeria deles para crescer, seja de forma literal ou metafórica.

 

Jason Reitman criou um estilo próprio, presente em todos os seus filmes – interações humanas e as dificuldades presentes em cada uma delas. Seja a tratar de gravidez, dificuldades entre famílias, casais ou filhos. Reitman sempre nos aproxima da rotina de seus personagens e como eles tentam ou não fazer parte do mundo ao qual foram destinadas à pertencer. Amor sem Escalas faz parte do meu hall de filmes favoritos.

 

Maternidade nunca esteve presente na minha lista de prioridades ou, mesmo como dizem, nunca bateu forte dentro de mim. Seja como um chamado ou desejo de ser mãe. Não é por isso que não sei reconhecer a beleza, a dádiva e a abnegação existente em cada mulher que cultiva isso dentro de si. Sim, existem casos que não são planejados, mas muitas sentem isso e realizam tal sonho. Gerar uma vida é intrínseco, não só para perpetuar a humanidade. Colocar uma vida no mundo exige parceria, foco, dedicação e amor, entre diversos outros fatores.

 

Mulheres e homens são diferentes. Não só geneticamente. Interagimos, reagimos e refletimos de maneiras distintas. Tirando os clichês de razão e de emoção, sempre colocados para separar gêneros, ambos têm a mesma capacidade de guiar uma nova vida. Idealmente falando, pais não precisam ter suas funções tachadas ao que a sociedade impôs. Padrões nasceram para serem quebrados, mas nem sempre o “ideal liberal” visto por alguns funciona.

 

Tully possui diversos motivos para atrair pessoas ao cinema. Mesmo tendo estreado dias depois do tão aguardado Vingadores: Guerra Infinita, conseguiu arrancar elogios do público e também da crítica. Reitman se reuniu mais uma vez com Charlize Theron, sendo a primeira em Jovens Adultos, e marcou a terceira parceria com Diablo Cody, vencedora do Oscar de Melhor Roteiro Original por Juno.

 

Sem pretensão alguma, escolhi assisti-lo graças a essas três pessoas citadas acima. E fico feliz com isso, pois foi uma decisão acertada. Aqui temos o exemplo de filme que desejamos muito falar sobre, mas, caso deixemos algo escapar, arruinaremos toda a experiência.

 

Hollywood valoriza a boa e velha transformação física, desde aumento ou diminuição de peso até próteses. Muitos acreditam que tal alteração contribui na visibilidade do ator ou da atriz em determinado papel. Independentemente da transformação, esses seres mutantes precisam estar preparados para a intensa carga emocional. Detalhe que podemos dizer que Theron entende bem. Vencedora do Oscar em 2004 por Desejo Assassino, a bela talentosa chocou a todos ao dar vida ao mais desafiador papel de sua carreira.

 

É notável o aumento significativo de seu currículo. Desde franquias como Prometheus, do universo Alien, e Velozes e Furiosos, até produções independentes como Vidas que se Cruzam e Lugares Escuros. Ainda assim, Theron encontrara seu lugar em um gênero pouco direcionado para mulheres: ação.

 

Mad Max: Estrada da Fúria e Atômica provaram que a atriz é versátil e destemida. Sem limites, raspou o cabelo para encarar a heroína Furiosa e se envolveu em praticamente todas as cenas de ação da espiã Lorraine.

 

Claro que não podemos deixar de fora o filme que marcara a vida de muitos. Doce Novembro é uma joia que para sempre deverá ser relembrada. Junto com Keanu Reeves, Theron despedaçou corações. Hoje, ambos nos fazem pensar quão sensacional seria vê-los em um crossover entre John Wick e Atômica.

 

Certos rostos tornam-se marcantes quando nos deparamos com ele pela primeira vez. Mackenzie Davis foi um desses casos. Assisti a alguns episódios de Halt and Catch Fire e me recordo de Davis de lá. Algo em sua atuação me fez pensar que sua carreira definitivamente estaria apenas começando. Apesar de seu currículo se concentrar mais no circuito alternativo, ela ficou mesmo conhecida ao interpretar Yorkie, no elogiado San Junipero, episódio da 3ª temporada de Black Mirror. Com passagens em grandes produções como Perdido em Marte e Blade Runner 2049, seu coração parece mesmo pertencer a produções menores e mais intimistas.

 

Theron e Davis representam gerações diferentes, mas, independentemente da experiência, o talento de ambas é potencializado em Tully. Suas interações impulsionam o filme e é emocionante acompanhar o quanto contribuem com o desempenho e a entrega de uma a outra.

 

E, por falar em colaboração, Ron Livingston compõe esse especial elenco. Como Theron já disse em algumas entrevistas, foi gratificante trabalhar com um ator que não se incomoda em ser coadjuvante. Algo que ela também apontou a respeito de James McAvoy, em Atômica. Ambos contribuem e agregam para as produções, mas conscientes e desprendidos de egocentrismo, principalmente ao trabalharem com uma mulher no papel principal.

 

Tully - Marlo e filhos

 

“You’re convinced that you’re this failure, but you actually made your biggest dream come true.”

 

Aqui, acompanhamos Theron se desconstruir mais uma vez. Sua dedicação é tão visível, que pode-se distanciar de tudo aquilo que vimos da atriz. Acompanhamos Marlo em sua jornada em busca de si mesma, ainda que não consiga enxergar isso. Durante todo o filme, vemos o retrato mais do que fiel de uma mãe esgotada não só pela maternidade, mas por tudo ao seu redor.

 

Percebemos quão raro e importante é vislumbrar a verdade. No caso, o que uma mulher realmente sente. E tudo isso sem precisar torná-la uma “bitch” descontrolada e temperamental. Mulheres não são nenhum monstro de sete cabeças. Diria que formamos um híbrido fortalecido com componentes como intensidade, complexidade, empatia e compaixão.

 

Afastada do trabalho devido ao avançado estágio de sua gravidez, Marlo tenta manter tudo sob controle. Porém, com o nascimento de Mia, sua terceira filha, tudo parece desmoronar. Tentando conciliar a rotina de sua recém-nascida com a atenção redobrada e especial que seu segundo filho Jonah necessita, a personagem falha monumentalmente. E é em um desses episódios que percebe que não conseguirá fazer tudo sozinha.

 

Como todo filme independente, existe aquele personagem caracteristicamente hipster. Ou simplesmente alternativo, caso prefiram. Aqui, esse papel recai no rei do indie Mark Duplass, que interpreta o irmão de Marlo, Craig. Bem-sucedido e também com três filhos, percebemos quão contrastante sua vida é.

 

Preocupado com o estado da irmã, ele sugere que ela entre em contato com uma recomendada ajudante, que viria todas as noites para colocar a bebê para dormir. Inclusive, e caso Marlo precisasse, a pessoa a acordaria para amamentar.

 

“Do I have a kid or a fucking ukulele?”

 

Sua vida toma uma guinada interessante quando é chamada mais uma vez pela diretora da escola de Jonah. Alegando quão especial e único o menino é, a instituição acredita que ali não é o melhor local para seu desenvolvimento. Indignada com a decisão da escola, Marlo se descontrola e fala tudo o que realmente pensa. Não importando como isso soaria fora de seu peito carregado de angústia.

 

Tully

“Hello. I’m Tully. I’m here to take care of you.”

 

Com promessas de fazer sua vida mais fácil, Tully, a ajudante, parece tomar conta não só de Mia, mas principalmente de Marlo. Sua persona se assemelha a de uma fada transcendental, que funciona no seu próprio ritmo, independentemente do que ocorre ao seu redor. Ela é um espírito livre na mais pura definição da palavra.

 

Mesmo com a ausência de Drew (o marido), devido a uma viagem à trabalho, a dinâmica familiar nunca pareceu melhor. Marlo nota aos poucos que pode ser mais ela mesma, redescobrindo, por meio do contato com Tully, a mulher vaidosa, confortável e aventureira que um dia foi.

 

Tal relação muda a rotina da casa e da própria Marlo. Porém, é quando a trama recai na percepção e no envolvimento de Drew que as coisas se tornam, diria assim, alarmantes. Seguro de que a ajudante cuidara de Marlo e da bebê durante as noites, o marido torna-se cada vez mais confiante de que existe alguém para olhar por sua esposa. Não que ele seja inteiramente o culpado, mas, considerando o desdobramento que ambos precisam fazer para manter a casa e os filhos de pé, era esperado certas repercussões.

 

Por vezes nos escondemos dentro de nós e recusamos interagir com as pessoas ao nosso lado. Seja por hábitos inquebráveis ou visões de mundo, encaramos nossa realidade de formas diferentes. Mesmo quando nos recusamos a enxergar, o universo, a vida ou se acredita em Karma, fará com que reflita e, quem sabe, responda pelo que ocorreu.

 

Eis então que o filme chega ao seu ápice. Infelizmente, qualquer nova revelação estragará um dos plot twists mais geniais e sensíveis já feitos. Pode soar como um balde de água fria, mas, caso se disponha a assistir Tully, o que acho que deve, entenderá porque tive que censurar este review.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento.

Crédito das imagens: reprodução.

Mari
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