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29/jun

Esta semana em The Bold Type foi extremamente contraditória porque veio carregada em uma completa espiral que trouxe nuances ainda não vistas nas nossas protagonistas. O episódio anterior cravara novos posicionamentos na trama, como o acertar de um novo jogo de baralho, e este veio como o reflexo desse embaralhamento. Um resultado que estabeleceu novos desafios profissionais para a tríade e, ao contrário do costumeiro, tudo rolou longe das paredes da Scarlet. Toque que trouxe um dia com mais cenários, texturas, questionamentos e emoções. Estou em parafuso!

 

De certo modo, esse embaralhamento ostentou uma zona de respiro longe dos assuntos políticos. Foi ótimo porque The Bold Type mostra que é uma série de qualidade sem precisar garantir o discurso da semana e nem se apropriar (algo que ela não faz) de pauta para usar de muleta de buzz. Neste episódio, houve muito da entrega das personagens em um dia que não sorriu para elas (pra variar!). Ao menos, não no começo porque estranheza também imperou ao longo deste novo capítulo que se resume a muito drama.

 

E falarei de tudo pelo olhar de cada uma das manas, como manda a etiqueta!

 

Jane alias Tiny Jane

 

The Bold Type 2x04 - Jane

 

Jane segue com seu desemprego o que, automaticamente, a coloca mais ao fundo do compasso diário de Sutton e de Kat. Porém, a princesa é jamais esquecida! As tomadas externas por todo o episódio beneficiaram a presença dessa personagem e a interação direta com suas amigas. Um bálsamo que me deixou contente – e com saudade de Jacqueline. Sem dúvidas, a retirada da revista deu um novo ritmo à tríade, despindo todo o glamour costumeiro e abrindo espaço para que os dramas propostos fossem sentidos sem interrupções.

 

O intuito de seu maior destaque visou, especialmente, desenvolver mais seus sentimentos por Ben e para conhecer Ben melhor – e vice-versa. Semana passada, esse início de relacionamento ficou em aberto e este veio para estabelecer que o rapaz estará no foco dessa personagem. Não se sabe até quando, mas, por enquanto, está bacana. Além de ser um interesse, ele também entrou como ponte de conflito por competir com a atenção dessa mana em busca de um novo emprego. Um mix que poderia ter fluído isoladamente, mas contou com uma belíssima quebra em forma de Ryan.

 

Apesar de gostar do menino Pinstripe, triângulo amoroso não é meu forte e foi exatamente nisso que pensei quando propuseram um novo interesse para Jane. Pelo que andei lendo, esse viés tem intento e não sei se fico contente. Explicarei meus motivos abaixo.

 

Há um ponto da ficção que tenho sentido muitos problemas: personagens no contexto de relacionamento. Na minha lindíssima adolescência (nem tanto), confesso que não me importava tanto com o peso da escrita nesse quesito porque tudo que eu mais queria no fim da trama era meu primeiro beijo. Ainda mais quando esse beijo firmava quem a personagem escolheria – e nem sempre era realmente uma boa escolha. Nada mais “interessante” que viver essa angústia – que mais dava em dor de cabeça – e sair dizendo que meu ship era endgame.

 

Hoje, meu olhar é rigoroso nesse quesito e sei que, vez e outra, soo como a antirromance. A grande questão é que, ultimamente, os famigerados endgames têm se dado em cima de relacionamentos tóxicos, especialmente em conteúdo voltado para adolescentes. Óbvio que não apoiarei isso.

 

Além dessa questão, tenho dificuldade hoje em dia de apoiar esse espírito de jogo a 3, a 4, o que for. O amor não é um triângulo e as pessoas são capazes de escolher sem enrolar ambas as partes.

 

Uma enrolação que emissora/produtor de série ama e a alonga sem necessidade (a não ser para alavancar/segurar audiência de forma a render renovação de pronto). Ok que na vida real existem capítulos assim, mas, do ponto de vista ficcional, insistir tanto nesse viés não é saudável. Além disso, engessa totalmente a história porque o romance se torna ioiô e haja paciência! Há roteiristas que não largam desse trope, sendo que há várias maneiras de expressar e de esboçar interesse/amor. Não existe somente o triângulo para gerar angústia.

 

Repetir sempre a dose de triângulo amoroso é cansativo. Ainda mais quando se tem Kadena como casal de qualidade de exemplo.

 

Hoje, eu escolho não falar muito desse negócio Ben-Jane-Ryan já que a personagem sempre se mostrou bem resolvida (ou quase como pudemos ver ao longo deste episódio e comento mais lá embaixo). Darei meu voto de confiança visto que The Bold Type dá prioridade ao profissional das protagonistas. Basicamente sua assinatura na S1.

 

E, aproveitando o momento desabafo, dá para ser maduro na construção de romance. Muitos roteiristas é que não querem!

 

The Bold Type 2x04 - Jane e Ben

 

Posso não falar sobre essa dinâmica Ben-Jane-Ryan com ricos detalhes, mas posso reconhecer o trabalho que The Bold Type tem feito na questão de relacionamentos. Tudo começa com as desconstruções que o feminismo têm me dado, pois muito da minha visão sobre esse quesito se alterou. Hoje, me considero um tanto mais espertinha para sacar o que é tóxico e o que é saudável. Às vezes, eu caio como um patinho, mas sempre reflito sobre para encontrar a razão do que me incomoda.

 

Hoje, tento não deixar passar casal que considero extremamente problemático e amém que sempre tem alguém que pensa a mesma coisa (e escreve). O tóxico sempre será meu problema particular porque muitos roteiristas entregam esse “tipo” de relacionamento (que nem é relacionamento) nas entrelinhas. Com aquela gotinha romantizada que não faz favor a ninguém e que cega meio mundo.

 

Por intermédio do tóxico romantizado, vejo adolescentes almejando esse “tipo” de relacionamento. Tal grupo em questão tem uma maioria que compactua com essa romantização e a chama de sacrifício ou coisa parecida. Por alimentar essa rede, obviamente que quem tem poder de criar na TV não largará do osso porque o fã responde “positivamente” – a algo claramente péssimo. Duas fontes que contribuem para essa corrente maligna. Direta ou indiretamente.

 

Um cara que te maltrata gratuitamente, incita sua baixa autoestima, manipula suas opiniões dizendo que você está louca, aposta algo para mensurar o seu valor diante dos olhos dele, ser stalker ao ponto de saber onde você está a altas horas da noite não-é-romance-e-não-é-romântico! É abusivo! Não é amorzinho para ser celebrado. É problemático e pode se tornar em uma situação gravíssima.

 

Com 3 mulheres em cena, The Bold Type equilibra com maestria (ao menos por enquanto) essa balança de relacionamentos. Até Richard e Sutton, que margearam o tóxico graças ao relacionamento escondido, encontraram a luz. Ela deu o exemplo, se valorizando no discurso e mantendo seu sonho profissional. Por essas e outras que só tenho a agradecer pelo tato dos roteiristas desta série. O grupo escreve e entrega esses namoros conforme a idade e o universo das personagens. Além disso, com propósito, como rolou a torto e a direito neste episódio.

 

Isso tem sido excelente de acompanhar desde o Piloto de The Bold Type. É como se o romance fosse temático, mas é meramente uma noção e uma preocupação da parte de quem escreve, que escolhe as pessoas que entrarão na vida de cada uma delas conforme suas personalidades e o que vivem em dado instante (especialmente na faceta profissional). Dá para sentir que é uma leva de decisões a dedo. Nada aqui foi romanticamente criado do nada porque tem seu peso e sua medida visados para desenvolver as protagonistas em um quesito que nem todas as mulheres experienciam ou tem oportunidade de experienciar. Gratuitamente, vem material de background e é lindo!

 

É lindo porque todo mundo ganha desenvolvimento em várias facetas.

 

Jane trouxe outra faceta de si dentro da sua característica de relutar em qualquer início de relacionamento. Embora não destrinchado ainda, penso que a causa dessa proteção emocional vem da mãe. Ela nunca escondeu o quanto tem mais interesse em trabalhar a ter que sair com caras depois do expediente. Ela largou Ryan e, em seguida, notou que não tem pique para lidar com um cara por noite – o que calhou em uma singela competição entre esses dois personagens e que não a apeteceu por ser algo vazio. Daí temos um Ben totalmente oposto ao último ex e aos outros que encontrou. Inclusive, ao ex que rendeu sua primeira matéria na Scarlet.

 

Digo isso porque as pessoas têm seus próprios entraves que nascem, especialmente, depois de impactos muito fortes na vida. Como um trauma ocorrido de um assédio até a perda da mãe. Esse último fato, o caso de Jane, cujo choque mudou, com toda certeza, seu cerne de mundo. Nem é preciso entrar em detalhes para ter um tantinho dessa noção, pois basta lembrarmos do seu ingresso na Scarlet. Ela entrou como a funcionária que todo mundo sabia pouco, com exceção das amigas.

 

É até arriscado dizer que Sutton e Kat conhecem Jane muito bem porque ninguém conhece o outro totalmente. Sem contar que Kat nem sequer lembrou da perda da mãe de Jane na campanha do câncer de mama. Um acúmulo de entrelinhas que frisa que essa jovem simplesmente se fechou. Simpatia e dedicação camuflam demais o rombo que existe dentro dela. Um rombo que escolhe sempre ignorar justamente pelo pressuposto de nunca estar pronta para se abrir. Para mostrar sua cicatriz mais profunda.

 

The Bold Type 2x04 - Jane e Ryan

 

Daí se nota um padrão na escrita voltada para Jane. A partir do momento que ela meio que ajeita o profissional, ou passa por uma turbulência, um cara entra no meio. Assim que foi promovida na Scarlet, vide Piloto, não demorou muito para que Ryan surgisse em seu caminho. Lá, ele a fez questionar tanto a relevância do que escreve quanto sua vida sexual. E esse cara retornou, com o mesmo peso do passado em ser um tipo de influência na vida dessa personagem.

 

Inclusive, de ser de novo a pontinha do iceberg para fazê-la competir com ele no Jornalismo.

 

Como mudança, veio Ben, distante de tudo que Jane vivencia todo dia. Inclusive, distante demais da personalidade de Ryan. Porém, ele tem um mérito que foi retirar uma casca grossa dela. O atrito foi a religião que trouxe mais uma problemática particular dessa personagem e que apontou para a mãe. A fé dele contrastou com uma jovem sem fé alguma e que claramente está em um bad place incitado pela falta de emprego.

 

Uma falta que é sinônimo de fracasso para Jane e ela começa a perder o controle. O que não é nada bom porque, neste episódio, a personagem se apresentou meio fora do tom. Quanto mais se acumula fracasso, mais a tendência é ser um tanto irresponsável. Como aceitar qualquer emprego porque acha que precisa em dado momento ou pelo dinheiro que pode ser bem mequetrefe. Eu estive nesses sapatos e me meti em furada. E Sloan se meteu em uma furada que pode escalar negativamente.

 

De certa forma, todos os caras de Sloan a fazem retornar para o ocorrido com a mãe – e a fuga dela tende a ser profissional. Ou para algum ponto que se retraiu dentro de si – provavelmente em resposta à perda. Desde o começo, Jane é descrita como a que pensa demais e pensar demais nem sempre é sinônimo de sabedoria. Ela se poupa de determinadas vivências pelo senso crítico e pelo perfeccionismo que exige controle total. Para mim, isso é defesa extrema e, como resultado, a personagem vai se privando até encontrar um ponto de virada para expor o que for pertinente ao momento. O que, automaticamente, também nem sempre é bom.

 

Jane é um xodó extremamente cabeça dura. Ela não é maleável, o que a faz ainda mais propensa de ser desagradável e dar mancada. Inclusive, cega quando está sedenta em conseguir algo. Essa sede é sempre muito bem-vinda, mas, neste episódio, a moça pisou na primeira jaca.

 

Ver a influência desses homens sobre Jane não deixa de ser “engraçado” porque, na S1 de The Bold Type, acreditei que só Jacqueline teria esse poder. Male, male, a editora-chefe da Scarlet é uma figura materna e conseguiu fazê-la se abrir ao dar um tanto mais da sua vida pessoal (e como amo esse episódio, pela Deusa!). Estava aí uma pessoa influente o bastante para contribuir no sanar dessa cicatriz, porém, as figuras masculinas têm funcionado para acarretar o mesmo efeito (e torço o nariz um bocado, não mentirei).

 

Ben teve uma abertura até que muito fácil e me espantei. Ainda decido se gosto, embora Jane tenha feito meus lábios tremerem de tristeza.

 

Até então, não houve tanta prova sobre os namoros anteriores de Jane, mas a escrita deixou evidente o quanto Ben tem uma presença diferente. Traz reações diversas a essa personagem. Não apenas por ele ser leve, família e caseiro, mas porque sua visão de mundo é singela e regada pelo amor ao que faz. Como conflito, esse rapaz rendeu uma nova chance de Sloan recuar e a religião logo se tornou um imenso defeito. Assim como Ryan escrever sobre sexo foi um defeito.

 

Eu poderia dizer que Jane é exigente ou insegura, mas, talvez, ela só quer se privar da dor. E é aí que vem o pensar demais porque a personagem quer ter certeza de onde pisa. Sloan até experimenta, mas não demora muito para suas muralhas subirem assim que bate de frente com alguma coisa que não orna com sua leva de pensamentos diários.

 

Por mais que nunca tenha ficado claro se ela prefere (ou não) homens que tenham um mesmo intelecto, ou um intelecto equiparado ao seu, Ben é uma bola fora da curva. Nem jornalista o querido é!

 

Na real, Jane sempre tem um entrave com os caras que se relaciona, uma lição que se confirmou novamente neste episódio. E novamente a partir do ponto de vista de Ryan. A competição entre ambos retornou tão quanto o julgamento sobre o que ele faz, servindo de liga a esse reencontro que, nas entrelinhas, terminou com o ego ferido. Ao menos, da parte de um fofo Pinstripe.

 

The Bold Type 2x04 - Ryan e Jane

 

O que dizer sobre Ryan? Eu fiquei meio passada porque ele caiu no clichê de jornalistas que comentei na semana passada. Ele está quase abraçando a Samara + enquanto isso escreve um livro (e não julgo porque eu fui essa pessoa) + vive em um job totalmente furado. O cara foi demitido e, literalmente, colhe umas migalhas nessa carreira. O que não deveria ser estupefator porque o personagem vivencia um trope batido que não deixa de ser uma realidade também.

 

O que calha no comportamento de uma Jane que não “conseguiu” compreender o novo quadro de Ryan e não perdeu tempo em ser superior quando viu a brecha. Ela foi lá provar que pode muito além da farra que o personagem sempre transmite como “única verdade” nessa profissão. A glamorização que nada mais é ilusão.

 

E Jane caiu como um peixinho nessa ilusão.

 

O que o desespero do desemprego faz com as pessoas, né?

 

Eu fui. Eu tava. Mas não ao ponto de ceder para escrever fofoca (e preciso me desconstruir disso).

 

Foi interessante esse jogo de bilhar entre Ryan e Jane. Especialmente porque Ryan foi inserido no editorial de fofoca e isso raramente acontece na ficção porque imprensa rosa sempre está associada à mulher. Um homem hétero nessa área geralmente tem sua frágil masculinidade ferida e Sloan não perdeu tempo em dar uma sutil cutucada, dentro do senso da história. E foi muito bom vê-lo um tanto confortável (?) com o que faz no momento.

 

Até Jane questioná-lo de novo sobre o tipo de trabalho que faz. Como sempre, isso pareceu ter um peso imenso no poder de decisão dessa personagem quanto ao modo de ver os caras que estão ao seu redor.

 

Inclusive, quanto ao modo de encarar sua profissão. Gente, amo Ryan, mas é a segunda vez que esse jovem mete Jane em furada. Ok que é escolha dela e unicamente dela, mas a palavra de peso veio dele. Vide o impulso rumo à Incite e, agora, para ir atrás de fofoca.

 

Ao contrário de Ben que não “exige” nada por estar totalmente fora da realidade de Jane. O que é extremamente bom, pois ela conseguiu partilhar algo sobre si naturalmente. O que não ocorre com Ryan que é tudo sobre trabalho e quem escreve mais/melhor. Detalhe que me faz lembrar do tipo de relacionamento que a personagem almeja – fato comentado na temporada passada.

 

Em suma, ela não quer casar com alguém como Ryan.

 

Ben agiu como um grande farol claramente cheio de amor para dar. Porém, religioso ao ponto de agradecer pelo prato de comida. Um choque para uma Jane que se empertigou prontíssima para boicotar por pensar no seu bem-estar primeiro. E nem é essa a colocação correta graças ao resultado desses encontros.

 

Se eu tapar os olhos, eu poderia chamá-la de egoísta. Ou de chata. Mas eu me reconheci em suas defesas. Nessa caça a motivos para não se envolver. Eu vivi um relacionamento abusivo e nunca mais tive o mesmo olhar quanto aos homens no geral. Não boto defeito, mas dou a volta, o que também é o suficiente para cair na marmota de “ele é tão legal, dá uma chance”, sendo que não é assim que funciona. Não é tão fácil abaixar as defesas quando sua primeira atitude é simplesmente proteger o que está lá dentro em reflexo de um evento f***. É como se só a gente fosse autorizada a bagunçar quem somos e ninguém mais.

 

Para quê diabos dar espaço para outra pessoa testemunhar essa bagunça? Ou fazer parte da bagunça? Esse pode não ser o grande problema de Jane, mas ela pertence a essa linha tênue. Ela é perfeccionista, quer tudo no lugar, e por que não um relacionamento? É inviável, claro, mas a proteção está ali ao mesmo tempo que prioriza seu trabalho. E tá ok!

 

Essa personagem sofreu demais ao perder a mãe e ter medo de passar por isso de novo, mesmo em âmbito amoroso, é um resultado que simplesmente faz parte de uma experiência como essa. Um resultado profundo que não sofre uma mudança de uma hora para a outra porque finalmente o boy/girl do sonho surgiu.

 

O lado bom dos relacionamentos de The Bold Type é que eles rendem ótimas conversas. Pinstripe e Ben renderam essas ótimas conversas com Jane e foi excelente. Sempre gosto dessa conciliação das garotas com os garotos porque sempre traz algo bom a se refletir justamente pela troca de pontos de vista.

 

Nisso, volto a mencionar a figura materna de Jane. Uma figura que respingará ao longo desta temporada de novo, com o retorno da pauta do câncer de mama, e vê-la desabafar sobre mais uma camada do tanto de dor que carrega é relevante para compreendermos a quantidade de travas que ela impõe para si. Para os outros também. É como se Sloan não nos permitisse enxergá-la de verdade nesses momentos porque ela mesma se apressa para desfocar a imagem.

 

E o que ela faz? Incita provocações. Com Ryan, o campo já é aberto para isso. Com as pontas das unhas, a personagem tocou na fragilidade dele. É um jogo que tira as atenções do que realmente acontece ou pode acontecer, como seu comportamento no segundo encontro com Ben neste episódio. Ela largou seu lance sobre religião e deixou tudo desconfortável.

 

É lindíssimo o lado determinado de Jane. A forma como ela quer se impor em seu meio de trabalho e dar shade nos caras. Eu queria ter esse peito, mas minha Síndrome do Impostor é fortíssima. Mas, eu penso que a personagem se usa dessas atitudes para se defender em algumas ocasiões. Além disso, pelo motivo que já mencionei aqui: nave da Xuxa, especialmente sobre o Jornalismo.

 

Ryan a provocou para levá-la ao antro de pautas quentes que gera as impiedosas fofocas. Basicamente o modo de competição que esses personagens funciona e que não deixa de ser o meio para o flerte. Ela não gosta de ter seu talento questionado e ele acha adorável como ela se expõe para correr atrás do dela – especialmente porque foi ele o dono do discurso que ela joga no seguro.

 

E segurança é uma palavra que permeia Jane Sloan desde o início. Que não rima com autoconfiança, embora isso exista, mas de ser sua própria fechadura.

 

Jane é tão cheia de camadas que tudo que parece certo para ela não é. O que me faz concluir que o que temos dela, por enquanto, é casca. O profundo mora lá com a mãe. O lado que ela não expõe.

 

The Bold Type 2x04 - Jane

 

Posso seguir supondo uma quantidade de coisas sobre Jane e é quase certo que não acertarei. Contudo, é real que ela ainda tenta sufocar uma dor e o trabalho cai como uma luva. É o escape. Essa sede de ter um emprego logo tem muita influência indireta porque a impede de pensar.

 

E é aí que as palavras de Jacqueline ditas no episódio passado conquistam seu sentido. Provavelmente, Jane não vivencia seus dramas. Ela os salta, como bem tentou com o exame de BRCA. Agora, a personagem ainda não desligou a chavinha para compreender que não tem emprego e o que pode fazer com esse novo vazio. Jacqueline sempre uma rainha da sensatez!

 

O bacana é que Jane não maltrata os caras porque não consegue engajar com eles de primeira. Ela é resoluta, o que pode soar em deselegância. Seus questionamentos podem ser insolentes, mas são necessários para seu desenvolvimento. Sloan não curtia a maneira como Ryan via o sexo (e supôs um monte de coisa sobre isso) e torceu o nariz sobre o fato de Ben ser religioso. Soma que resulta no grande impasse que é o julgamento primeiro, porém, há o prêmio do aprendizado que vem em seguida.

 

Por isso que disse que nenhum desses caras são escolhidos à toa. No caso desses dois, suas presenças são importantes para quebrar esse tom resoluto que Jane carrega muito cegamente. A personagem ganhou uma quantidade de pulguinhas que reforçou o conhecer de cenários que o episódio propôs. O que dá aquela quebra familiar de The Bold Type sobre a zona de conforto. Sobre desconstruir o pensamento diante do desconhecido.

 

O que reflete no fato de que Jane precisa se despregar de si mesma para amadurecer. Só vivenciando que ela conseguirá sair um pouco da própria cabeça.

 

Apesar das neuras, Jane aprende. Não tudo, mas o suficiente para o instante. Ela aprendeu sobre Ryan. Aprendeu sobre Ben. Isso é muito bom porque, apesar dos impasses, ela é aberta. Para o contexto de The Bold Type, tal abertura garante desenvolvimento (repetindo a mensagem). Aos pouquinhos, a personagem se abre e, com fé, isso seguirá ocorrendo mais naturalmente.

 

Visão que se aplica a praticamente todos os relacionamentos desta série. Eu gosto como cada um foi construído a base de algum sentimento mais intrínseco e intocado de cada personagem. Jane não consegue se entregar até ter seu solo totalmente seguro. Sutton é pura entrega emocional e precisa de espaço para mostrar o seu melhor nesse quesito. E Kat vivencia seu primeiro relacionamento firme e, neste episódio, acompanhamos seu espiralar em cima disso. Tudo há uma questão em The Bold Type. Cada escolha cabe em cada nuance dessas jovens e funciona. Muito. Demais!

 

Até os caras trazidos merecem um pouco de biscoito. Ryan, coitado, está a ver navios depois que foi demitido, o que serviu de eco para a situação de Jane. Ambos vivem a mesma situação e se uniram para coletar pautas para rodar. Mas de fofoca? Fofoca é o mundo da vergonha entre jornalistas, cheio de preconceitos, real e oficial. Há quem curte realmente escrever sobre e há quem não. Jane e Ryan claramente não porque, bem, vamos relembrar da trajetória deles. Eles são idealistas demais para fazer um monte de notinhas sobre celebridades. Não vale nem por essa de “glamour”.

 

Juntos, eles se divertiram, mas bateram na linha tênue da profissão, ou seja, mudar quem se é para dizer que tem emprego. Um emprego que vale pelo glamour ou qualquer outro benefício que rende nominho na matéria. Foi isso que Ryan vendeu e Jane, no desespero, foi pra cima.

 

The Bold Type 2x04 - Jane matéria

 

Jornalista não curte muito quando você fala do trabalho deles meio negativamente. Ryan sentiu o agridoce do discurso de Jane, que foi invasivo, mas verdadeiro. Ele é mais que isso, mas tem feito umas escolhas podres para se manter na cena jornalística. Como sempre digo, é na hora da escuridão que o jornalista começa a vender a alma para dizer que ainda está no ramo (e acho que posso dar uma generalizada porque outras carreiras). Que ainda tem o suposto glamour da área, ainda tem crédito, pipipopopo e assim por diante.

 

Quando é totalmente ok você assumir que é um fracasso na área – e em qualquer área. Dói? Sim. Fere o ego. Porém, é como Jacqueline disse: é preciso viver o impasse do momento ou não daremos um passo novo no futuro. Sem refletirmos sobre o que ocorre, apenas repetiremos o padrão. Manteremos o ciclo vicioso.

 

Ryan é um padrão. Jane está migrando para esse padrão.

 

Jane bateu em uma nova quina do Jornalismo e, honestamente, eu não esperava essa bola fora. Ao menos, é o que aparentou no final do episódio. Não orna com o que a personagem tem trazido desde o início desta temporada, mas estou pronta para ver até onde ela vai.

 

E muito me encuca a matéria que ela estava dedicada no final do episódio. Seria sobre sua pessoa? Parece cabível!

 

No fim, Jane, Ben e Ryan estão onde estão por escolha. O interessante é que os caras criam contrapostos – um salva as pessoas enquanto o outro vende pauta que pode dizimá-las. Ben é diferente. Sabe o que quer e é bem-sucedido ao contrário do ponto que Jane se encontra na vida. O que configurou o match com Ryan, ainda bastante imaturo e precisado de encontrar sua voz na carreira que tenta se virar. No mais grave, Pinstripe perceberá que isso não é para ele e sairá de cena.

 

Jane conflitou, mas acabou meio que se entregando a um mundo que não quer o bem das pessoas. Nem que seja brevemente para sentir o gosto da aventura. Ao acatar o pitch de matéria que incluía uma mulher grávida, ela praticamente se torna o que tanto Victoria prezava e queria que ela se transformasse na Incite. Resultado que traz a contradição de Jane Sloan, a jovem que refutou destruir Emma, mas, pelo visto, não pensou duas vezes em apoiar a escrita sobre um affair em que havia uma mulher que será dizimada no processo.

 

É o que chamo do lado mais duro do Jornalismo porque essa é uma área em que escolha é importante. Não apenas pelo crédito, mas porque o que você escreve perpetuará por anos e anos. O que você escreve pode acabar com a vida de alguém em segundos. Somado ao desespero de ter um emprego, ou com a chance de conseguir um, o critério pode escapar por entre os dedos.

 

Jane tem background sobre matérias que dão em treta e parece que não aprendeu – sendo que a realidade é que ela não parou para refletir sobre. Sloan está se lançando em um meio que vem da influência de Ryan, que vendeu aquela coisa de ser escandaloso e, automaticamente, ter mais buzz.

 

Cadê seu lado ético, Jane? Aguardando em meu escritório – embora eu queira assistir a proximidade dessa personagem na encruzilhada da profissão. Ou seja, vender a alma em nome do Jornalismo. Vamos acompanhar!

 

Kat alias The Boss

 

The Bold Type 2x04 - Kat

 

Kat finalmente foi conhecer o mundo de Adena e que mundo mais lindo e cheiroso, hein? Sou suspeita para falar! Imaginei que essa experiência daria muito errado (eu sempre a mais positiva), mas ela fez o favor de despertar um lado dessa personagem que a própria personagem não conhecia. A faceta da insegurança e da desconfiança uma vez dentro de um relacionamento. O que diz muito sobre Edison nunca ter se envolvido profundamente por ter essa de desapegada.

 

A partir do momento que Adena provocou esses desconfortos, que são parte do combo chamado relacionamento, se tornou evidente o quanto de sentimento Kat já carrega pela sua namorada. Nem precisou o episódio se encerrar com o lindíssimo eu te amo porque uma olhadela bastou. Edison estava toda encolhida e soltando fogo pelas ventas. Dessa forma, a personagem entregou perfeitamente o estresse que é sentir algo tão profundo por alguém ao mesmo tempo que desconhece o que sente.

 

Ao mesmo tempo que se policia para não ultrapassar o limite e magoar quem se gosta.

 

Em algum momento, as true colors de quem nos relacionamos sempre vêm e sempre achamos que estamos prontos para encará-las e digeri-las. Mas não, nem sempre também. Vide Jane que ruminou o fato de Ben ser religioso e arrastou tal fato por todo o episódio como um problema.

 

Se Kadena estivesse no começo, provavelmente Kat teria dado no pé no pensamento de que não é obrigada a lidar com tanta competição (e a bonita fez isso uma vez lá na S1). Eu mesma vi essa cena muito clara na minha mente e a insistência dessa personagem em conversar trouxe mais uma camada de amadurecimento da sua parte. Trouxe mais responsabilidade antes de agir. Contenção lindíssima por ser um âmbito desconhecido da sua vida. Ela foi lá, insistiu a seu modo e ganhou os motivos da sua namorada para tamanha contenção. Todos muito compreensíveis e encaixáveis ao ponto que ambas se encontram.

 

Adena se esquivou graças ao que considerou ser uma falta de necessidade em pilhar Kat e tudo bem. Fosse pelo fato de que poderá ser despachada a qualquer momento. Fosse pela quantidade de mulheres com quem ficou – e sua afirmação de que está com Kat e ponto final derreteu meu coração. Um poupar protetivo sim e foi bonito vê-la perder suas defesas. Nem todas as pessoas estão dispostas a dar essa entrega a quem está junto. Isso é um mérito de quem está muito seguro quanto ao que sente.

 

Vide Jane de novo que entregou a parte mais vulnerável de si para se fazer entender sobre sua claríssima perseguição quanto ao posicionamento religioso de Ben. Foi bonito de se ver também, especialmente quando você se dá conta de que houve um entrelaçar emocional e de vulnerabilidades entre as storylines dessa personagem com Kadena. Deu um peso a mais ao fato do quanto estamos prontos para aceitar a bagagem do outro. Do quanto estamos dispostos a compartilhar traumas e medos.

 

Em ambos os casos, houve aceitação, o que se abre para aprendizado. No caso de Kadena, especialmente, para amadurecer o casal.

 

The Bold Type 2x04 - Adena

 

Não me cansarei de dizer o quanto é lindo ver Kadena desenvolver cada vez mais. É bom tê-las juntas e resistentes tão quanto vulneráveis e tremidas. Ambas trazem para a televisão um sentimento real dentro de uma construção mais real ainda. Elas não são perfeitas. Elas seguem aprendendo uma sobre a outra. Uma aperta o botão da outra e, unidas, crescem em uníssono.

 

O que amei aqui nem foi a declaração Kadena (embora lindíssima), mas o quanto o papo de rotatividade de Adena não soou como slut-shaming. Kat deu umas brechas neste episódio, como chamar veganismo de estilo de vida (amiga, não faz isso nunca mais porque é posicionamento político), e poderia ter descido a ladeira se sua fala capturasse esse “impasse” como um fator para tachar a namorada de algo que ela não é. Doeu bastante o mencionar de Coco porque tocou em uma linha tênue que poderia tirar a proposta da conversa – e ainda assim me senti um tanto incomodada, mas vamos ao atrito.

 

Pessoas muito seguras tendem a temer a quantidade de relacionamentos de quem se relaciona e aqui não foi diferente. Neste caso, Kat se viu em uma saia justa jamais vestida e prezei demais o cuidado com que isso escalou. Principalmente porque a personagem nunca vivenciou um relacionamento sério. Edison tinha material para ser baixíssima, mas a sensatez tornou seu incômodo em uma solução para que as paredes entre Kadena não começassem a escalar.

 

Estava aí outro ponto que poderia ter dado muito errado e só tenho a existência de Adena para agradecer. Ela não esconde nada e consegue ser, por assim dizer, didática com o que sente. Essa mulher é maravilhosa até quando abre sua cicatriz para ver se Kat para de salgá-la.

 

O que abre para a relevância deste episódio: comunicação é tudo. Seja para relacionamento ou para o que você faz no horário de expediente.

 

Sutton alias Red

 

The Bold Type 2x04 - Sutton

 

Como conversar com uma influencer que comprou drogas no cartão corporativo e Sutton fez a passiva porque está dominada pela sede de crescer. De preferência, o mais rápido possível.

 

O que diabos rolou aqui? De onde veio essa inquietude de Sutton? Estou incomodadíssima com isso também porque parece que furaram o desenvolvimento dessa personagem. Mas, como digo, vamos acompanhar!

 

Sutton encobrir Brooke também cai na contradição que este episódio pregou. Um ponto de extrema oposição ao que ela vem entregando desde que iniciou sua carreira no Departamento de Moda. A personagem quer dar o seu melhor, mas encontrou uma porta suspeita, rápida demais, que tem a inclinação de destruir o que tanto batalhou em poucos segundos.

 

Esperei que juízo visitasse os neurônios de Sutton, mas isso não aconteceu. Se Jane me deixou triste, imagina essa criança? Vi-me temerosa quando a personagem assinou o recibo e lançou na folha de contabilidade aquele valor exorbitante com uma mentira encaminhada. Atitudes que sinalizaram que ela passou um pano no erro em nome de um jantar codinome Chanel.

 

Sutton foi praticamente Jane. Outra junção de proposta deste episódio.

 

Essa jovem estava totalmente destoante neste episódio e fiquei com um pezinho atrás com o complexo para cima de Kat. As duas já se estranharam na semana passada e nesta o clima não foi fácil. Tremi na base de novo! Tudo porque essa personagem viu em Brooke a chance de salto e usou dos “mimos” de Edison para justificar suas escolhas – como o fato da amiga viajar sem ser banida da Scarlet. Basicamente, Sutton minimizou as conquistas alheias porque, do nada, sentiu sede de subir na vida depressa.

 

O azedume farpado de Sutton se deu mais pelo tempo de casa que cada uma delas tem na revista. Ela tem poucos meses de diferença de Kat e ainda é assistente. Soma que deu em resmungo, mas por qual motivo, gente?

 

Soma que deu em irresponsabilidade também e ainda tento entender o motivo que não existiu. Nem Mitzi estava presente para dar ideia sobre competição negativa. Não tinha nada para Sutton agir assim a não ser uma clara inferiorização pessoal quanto às conquistas de Kat. E nem sei se isso é bom. Por enquanto, não é.

 

The Bold Type 2x04 - Sutton e Brooke

 

Não sei para onde essa sede vai, mas é uma sede perigosa – a mesma sede que empacou na garganta de Jane. Não que Red vá mudar de um dia para o outro (espero que não), pois seria destoante visto o encaminhamento da sua história. Ela assegurou seu valor ao questionar o recibo do cartão, mas optou em camuflar um erro gritante que pode lhe custar o emprego. O que cai naquela coisa de conseguirmos resolver o simples e se engajar em algo pior ainda. Sem querer ou querendo. Contudo, o descontentamento foi ver a flanela passada na testa de Brooke depois da vivência de Sutton com o slut-shaming.

 

Sutton se virou no slut-shaming e mostrou superação. Diante de uma nova oportunidade, ela se tornou outra pessoa pelo intento de se encaixar. Ao contrário da semana passada em que ela se viu toda líder, nesta a moça veio regada de complexos profissionais e se moveu como uma sombra. Complexos esses um tanto deturpados, que não ornaram com muita coisa.

 

Poderia ser reflexo do elogio de Oliver? Talvez, mas sua ação ao lado de Brooke se tratou de sede pessoal entrando no profissional. O que não é saudável e dá em estupidez.

 

Se nem o profissional na vida pessoal é bom, imagina o resto.

 

Lição da semana: live what you preach (?)

 

The Bold Type 2x04 - Jane

 

Quanto custa para subir profissionalmente na vida? E depressa?

 

Bem, pode custar você no processo.

 

Como mencionei na abertura desta resenha, este episódio trouxe um tema em comum: contradição. As três foram colocadas em postos contraditórios a tudo que pregaram/trouxeram ao longo de um ano e pouco de The Bold Type. É ruim? Bem, não sou a melhor pessoa para me expressar nesse quesito porque fazemos péssimas escolhas todos os dias. Desde para conseguir um emprego porque precisamos da grana (Jane), seja para tentar se encaixar (Sutton) ou para tentar parar de sentir o que sente (Kat). A vida dá uma dessas na gente e isso se chama teste. Desde caráter até… Caráter!

 

Ética é uma palavra que também orna com os desdobramentos desta semana. Mais da parte de Jane e de Sutton. É sempre bom ter personagens femininas politicamente corretas, mas é melhor ainda quando elas conseguem ser errôneas. Quando elas pecam na hora de tentar viver o que pregam, deixando o rastro da impossibilidade. Isso é muito nossa realidade!

 

É difícil subir na carreira, ainda mais Moda e Jornalismo que são áreas extremamente competitivas – e que me faz comentar sobre o papo de QI que caiu na boca de Ryan e na influência de Brooke que funciona indiretamente. O que firma – de novo – que The Bold Type também está realmente preocupada em mostrar as nuances um tanto mais obscuras de suas personagens. É hora do preto em branco. Não é à toa que tem rolado atritos entre elas – e semana que vem tem mais.

 

O que eu espero é que não maculem irreparavelmente essa amizade. Os atritos são importantes, mas The Bold Type não precisa de manas de bode uma com a outra. Elas podem se perder graças aos seus problemas, mas é importante sempre manter na mente que a tríade forma o lar da outra.

 

Esta temporada tem sido muito de quebra de padrão, de comportamento e de desconstrução em alguns aspectos. É um ritmo gradativo, mas excelente visto que dá tempo de mastigar todos os acontecimentos e de chegar a uma conclusão para assim dar o passo seguinte (seja para que rumo for). Em seguida, indagar o que todas essas escolhas acarretarão na vida de duas personagens que seguem dando a vida pelo job e da outra que pode perder a namorada em um piscar de olhos. A S2 está agarradíssima ao drama. Mesmo na ausência do político, há uma reflexão mais profunda.

 

Neste caso, sobre quem somos. Sobre quem essas personagens são, muito além do closet em que expressam o amor uma pela outra.

 

Vale até dizer que, por trazer tanto da individualidade de cada uma, sem pausa para apoio mútuo, este episódio deu motivos para sentir birra de uma delas. Por enquanto, estou tranquilinha na minha nave da Xuxa. Amo minhas filhas!

 

The Bold Type 2x04 - Sutton contabilidade

 

Outra questão essencial que o episódio debateu meio que indiretamente foi: vale pisar tão fundo na jaca para crescer profissionalmente e rapidinho? Sempre digo, em tom de brincadeira, que meu flop na carreira se deve ao fato de que não tenho peito para puxar tapete. Nem mente para picuinha. Nem ausência de coração para rebaixar uma pessoa. Pode ser os méritos de eu ter tido o tapete puxado, de ter feito parte de picuinhas e ver que não é saudável, e de ter meu coração estilhaçado por ter sido rebaixada várias vezes. Vivenciar a minha profissão (e outras) na firula de ter independência financeira me ensinou muito sobre como tratar as pessoas. Como ser eu. Como escolher de acordo com o instante que vivo.

 

Além disso, como é melhor escolher ensinar que rechaçar. Como é melhor compreender a falta de emprego tão quanto se dar ao direito de recusar qualquer furada. Com o passar dos anos, eu fui construindo uma muralha de valores, conforme cada experiência/descoberta que tive ao longo da vida profissional. Porém, muitos dos meus valores não funcionam nesse antro.

 

Ainda assim, aprendi a me esquivar do que não me deixa confortável, mas não quer dizer que eu seja a pessoa mais rápida em pensar em como meus atos podem afligir outras pessoas. Às vezes, já fiz e o que resta é correr atrás do prejuízo. A coisa muda no âmbito profissional porque eu só embarco em propostas se elas forem “compatíveis” comigo – e é difícil. Eu aprendi a recusar o que claramente desconfio porque terei que lidar com uma furada a partir do instante em que entrar nela (e isso é meu privilégio porque terei apoio ao fundo). Nessas horas, só tenho minha intuição a agradecer. Não tenho mais dó de dizer não, fatos reais.

 

E, digo mais: eu não tenho o menor interesse de riscar meus valores e minhas crenças. Às vezes, há o risco. Norteada por um véu que nubla a visão. Ou pela secura de sair logo do buraco.

 

Às vezes, não tem como pregar o que você vive. Às vezes, você se adapta para segurar o emprego.

 

Às vezes, nem dá para não pregar o que você vive porque o mundo precisa que a gente se imponha.

 

E a gente precisa preservar mais do que nunca nossos valores e crenças.

 

Porque assim nos preservamos no processo. Impedimos, de certa forma, que sejamos descaracterizados em função do meio.

 

Jane e Sutton representam essa de que nem sempre dá para seguir o viver o que pregamos. Viver totalmente a base do que se acredita. Ninguém consegue, mas o importante é sempre manter o foco. Ambas meio que falharam e sabemos que o universo tem sua forma de cobrar. Elas não foram erradas apesar de estarem erradas porque o cotidiano, a competição profissional e a sede de ser alguém bem-sucedido antes dos 30 têm a capacidade de nos tornar uns monstrinhos.

 

É aí que é importante voltar aos valores e às crenças porque é lá que encontraremos a nossa própria verdade. É lá que nos impediremos de ser engolidos no processo. É lá que veremos de novo o que realmente importa.

 

The Bold Type trouxe um importantíssimo revés esta semana ao destoar suas personagens. Mostrou-se novas facetas, suscetibilidade a quem sempre bateu no peito e dizia que sou assim e pronto, e muita vulnerabilidade. Foi um novo momento crucial que pode ser definidor de alguns episódios futuros, pois essas meninas são apaixonadas demais por suas carreiras. São apaixonadas demais por si mesmas.

 

Só sei que esse trio dividindo algumas questões tornou o episódio passível de pensamento mais profundo. Não apenas sobre o papel da religião nas nossas vidas, um assunto que escolhi pular já que está aí algo que prefiro fingir que não existe na maior parte do tempo (e, caso perguntem, minha religião é uma Deusa e um universo), como também sobre o papel profissional.

 

Este episódio foi criando ligas entre as personagens e amei demais. Todo focadinho em estender o trabalho em cima das inseguranças mais profundas da tríade e quero mais (apesar do meu pavor). Houve muito drama, entrave e novos suspiros que podem ser nocivos para algumas partes.

 

Eu amo muito minhas filhas e mamãe pede para que tenham cuidado.

 

Semana que vem promete mais estresse e estou prontinha em meu escritório.

Stefs
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