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16/jul

What We See When We Read foi o último livro que vi/li. Dizer que ele foi escrito seria uma supersimplificação, sendo assim, me permito dizer que ele foi vislumbrado. Peter Mendelsund, renomado designer gráfico, permitiu com sua criação a análise de diversas percepções ao lermos um livro. Seja pelo uso da voz da personagem, sua descrição física ou pela maneira com que lemos e desejamos participar.

 

Mendelsund menciona que, por vezes, não conseguimos “dar cara” a personagem. Senti isso diversas vezes ao chegar ao final de uma história. Me atenho tanto à sua personalidade, suas ações e suas interações com as demais personagens e ao seu meio que, normalmente, esqueço de criar sua imagem física. Mas, por vezes, tais características são mais enfatizadas pelo autor, principalmente se elas conectam com o restante da trama.

 

Adaptar uma obra como Sharp Objects para o formato TV, ou mesmo se fosse para o cinema, cria um contraste entre as tão distintas experiências. Mendelsund cita o cineasta e escritor francês Robbe-Grillet, onde este exemplifica a transformação ocorrida de um meio para o outro:

 

“….The empty chair became only absence or expectation, the hand placed on a shoulder became only the impossibility of leaving…But in the cinema, one sees the chair, the movement of the hand, the shape of the bars. What they signify remains obvious, but instead of monopolizing our attention, it becomes something added, even something in excess, because what affects us, what persists in our memory, what appears as essential and irreducible to vague intellectual concepts are the gestures themselves, the objects, the movements, and the outlines, to which the image has suddenly (and unintentionally) restored their reality.” – For a New Novel, translated by Richard Howard

 

 

Resolvi citar esse livro (superrecomendo por sinal), pois acredito que muito do que descobri nele se aplica ao thriller debut de Gillian Flynn. Formada em Inglês e em Jornalismo, ela trabalhou durante muitos anos como crítica de filmes e de televisão na Entertainment Weekly. Flynn passou a se dedicar como escritora, tendo seu primeiro livro Sharp Objects (Objetos Cortantes no Brasil) lançado em 2006. Sua próxima cria foi Lugares Escuros, lançado em 2009 e adaptado para o cinema em 2015.

 

O que ela nunca imaginaria é que Garota Exemplar, publicado em 2012, colocaria seu nome no circuito, tanto literário quanto hollywoodiano. Crescendo gradativamente nas listas de best-sellers, o thriller ganhou o aval para ser produzido para o cinema. David Fincher (Seven – Sete Pecados, Zodíaco) recebeu a responsabilidade de dirigir o longa, dando vida e movimento à sua obra. Aqui, Flynn teve a oportunidade única de escrever o roteiro da adaptação.

 

Trindade de Flynn

 

Protagonistas - Gillian Flynn

 

Nascida no Kansas, suas histórias têm como cenário a região centro-oeste do país. Foi assim que Flynn encontrou sua voz. Lá, ela criaria personagens que fogem totalmente do arquétipo das protagonistas e/ou heroínas da literatura. Longe de serem perfeitas, suas mulheres em suma são falhas. Camille Preaker, Libby Day e Amy Elliott formam uma tríplice que merece ser estudada. Ao dar vida a elas, se picotou a ideia de que uma mulher é essencialmente boa, cuidadora e abnegada.

 

Vemos essas mulheres ditarem seu comportamento devido ao que ocorreu no passado. Provenientes de tóxicas dinâmicas familiares. Seja através de testemunhos de atos violentos, trauma e/ou abuso psicológico e a irreal responsabilidade de prover para seus pais quando criança. Tudo isso contribuiu para criar deturpadas visões sobre a realidade e os relacionamentos cotidianos. Cada uma delas se desenvolveu da maneira que conseguiu.

 

Flynn permite que elas sejam tudo que normalmente uma protagonista não é. Confusas, manipuladoras, sarcásticas, egoístas, contraditórias, raivosas e inconsequentes. Porém, um elemento sempre as conecta: impulsos violentos, sejam diretos ou indiretos a elas. Funcionam como uma bomba relógio prestes a detonar e diria que és libertador e ao mesmo tempo assustador ler e, consequentemente, ver tais mulheres serem retratadas.

 

Garota Exemplar foi o primeiro livro que adquiri e imediatamente fui sugada por sua atraente e visual escrita. Posteriormente, acrescentei à coleção Lugares Escuros e Objetos Cortantes. Normalmente, gosto de ler antes de assistir, mas confesso que não o fiz com Lugares Escuros, assistindo primeiro o filme estrelado por Charlize Theron.

 

Woman Crush #2 (Sarita sempre será a #1)

 

Sharp Objects - Camille

 

Certas coisas não são segredo para ninguém. Seja meu amor por corujas, polenta e cerveja. Sim, bem aleatório colocar coisas tão distintas numa mesma sentença. Bom, tente acompanhar meu raciocínio. Tudo isso foi uma tentativa de dizer que também não é segredo algum minha admiração e veneração pela linda e versátil Amy Adams.

 

Dedicada ao credo que escolheu como profissão, a ruiva pouco a pouco ampliou seu portfólio, com uma variedade significativa de papéis. Bom, se eu começar a falar sobre sua carreira e como conseguiu deixar de ser coadjuvante, nunca chegarei no seu novo projeto. Tal projeto que marca seu retorno, desde um movimentado 2016 (Liga da Justiça ano passado nem considero) em que entregou duas estonteantes performances – Animais Noturnos e A Chegada (#Justice4Amy).

 

Como uma boa fangirl, acompanho todos os projetos futuros, sendo assim, fiquei surpresa e entusiasmada com a notícia de que ela atuaria e produziria o livro de estreia de Gillian Flynn. Garota Exemplar foi uma das leituras mais interessantes que já vivenciei. Podem me julgar, mas adorei essa história. Tal obra serve como um guia tóxico matrimonial.

 

Objetos Cortantes estava paradinho na minha estante há um bom tempo, mas, assim que a produção da minissérie começou, resolvi desbravar mais uma intrigante história. Assim como Garota Exemplar, neste vemos que sua protagonista vai além daquilo que aparenta. E o mesmo se aplica a Mrs. Adams. Quando terminei de lê-lo, automaticamente pensei: Camille Preaker será o maior desafio de sua carreira até então.

 

Das páginas para as telas da HBO

 

Adaptações HBO

 

Considerando o desafio e a notável capacidade de entrega de Amy, a expectativa pela minissérie da HBO só aumentou. Com o gigante televisivo por trás, Sharp Objects contou com uma equipe criativa de peso para transportar o decadente e cortante universo criado por Flynn para a tela da TV. A começar pelo desenvolvimento por Marti Noxon, que traz na bagagem Buffy – A Caça Vampiros e as mais recentes UnREAL e Dietland. Tirando Buffy, que foi criada por Joss Whedon, todas suas demais criações possuem algo em comum: protagonistas nada convencionais.

 

Tirar esse projeto do papel foi um trabalho árduo e colaborativo, principalmente a considerar conflitos de agendas com outra produção. Jean-Marc Vallée (Clube de Compras Dallas) assinou para dirigir os oito episódios de Sharp Objects e Reese Witherspoon, que já havia trabalhado com o diretor em Livre, apresentou outra proposta logo em seguida. No caso, dirigir oito episódios de Big Little Lies, adaptado do livro de mesmo nome de Liane Moriarty. Considerando seu compromisso com Sharp Objects, ele apresentou disponibilidade para um ou dois episódios. Claro que não aceitaram, fazendo com que o canadense filmasse em 182 dias num espaço de vinte meses.

 

Big Little Lies arrebatou todas premiações ano passado, pois concorria como Limited Series. Agora o status da série muda, colocando-a na categoria drama, tendo que a HBO renovou a produção para mais um ano. Sendo assim, podemos esperar um similar buzz da crítica, público e premiações com Sharp Objects. E, para os fãs da Amy como eu, já decidimos que iremos chamá-la de Emmy Adams desde já. Considerando que faltam quatorze meses para a próxima premiação, a campanha para nossa ruiva segue firme e forte.

 

A HBO lançou material promocional de Sharp Objects em maio deste ano, anunciando finalmente a estreia para dia 8 de julho. Após me deleitar com 1 hora de episódio, tive o súbito desejo de cobrir semanalmente a minissérie. Logo mais sai resenha quentinha sobre o episódio piloto de Sharp Objects.

Mari
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