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24/jul

Antes mesmo de começar a falar sobre o 2º episódio de Sharp Objects, preciso comentar algo. Desde criança, nutro uma grande paixão pela indústria do entretenimento. Bom, mais especificamente, por cinema e televisão. Dou devido crédito ao meu pai, por sempre me estimular. Seja para ir ao cinema, à locadora e até assistir algo da poltrona de casa. Por falar em poltrona, sempre foi uma tradição assistirmos filmes juntos.

 

Decidi dividir isso, pois vai de encontro com o que o Seu Zé me perguntou. Tudo isso após revelar que leu o post sobre a transição do livro para a TV. Sim, meu pai é um querido.

 

Sua pergunta foi categórica: considerando a temática pesada, será que as pessoas assistirão a minissérie? E minha resposta foi sim. Acredito que existam fatores que contribuem para isso e, naturalmente, Amy Adams é um deles. Mas também acredito que exista um público sedento por personagens assim e, em suma, esse público é o feminino. Dados concretos mostraram que o primeiro episódio de Sharp Objects foi o mais visto desde a estreia de Westworld.

 

Como mulher, por vezes me incomodo com a maneira com que o feminino é personificado na indústria do entretenimento. Diversas vezes assistia algo e pensava: não é possível que nos vejam assim, tão rasas e, às vezes, tão idealizadas. Por isso, quero acreditar que o telespectador assistirá Sharp Objects por sua protagonista, Camille Preaker, e pelo que ela representa.

 

Durante o painel da série no 92Y, que contou com a presença do elenco e da equipe criativa, a moderadora direcionou uma pergunta para a Amy. Seu questionamento foi sobre achar que o telespectador se identificaria com Camille e a resposta da atriz não poderia ser mais honesta e sensata.

 

Binge watching vs. transmissão semanal

 

A HBO investe em tempo e em retorno. Espera do telespectador a dedicação semanal até a conclusão. Digo paciência, pois, hoje em dia, existe algo chamado binge watching. E, com ele, muitas pessoas não conseguem mais esperar uma semana.

 

Deixo então minha defesa: não troco a especulação, a expectativa da espera e a oportunidade de conversar sobre. Nem por todos os episódios disponíveis no mundo. Maricota aqui ainda acredita na experiência tradicional.

 

Tal experiência possibilita uma diferente imersão na trama e onde ela quer chegar. Consigo sentir isso somente quando deixo o tempo agir. Diversas produções podem funcionar bem com o binge, mas outras, como The Leftovers, Westworld, Game of Thrones, The Handmaid’s Tale e agora Sharp Objects, funcionam melhor semanalmente. Existe também o investimento financeiro que fala mais alto, o que não permite que o consumo rápido seja considerado.

 

Música: uma personagem

 

Sharp Objects - 1x02 - Camille

 

Big Little Lies arrebatou críticos, telespectadores e prêmios, mas um elemento em particular se destacou. Bom, além do espetacular elenco e da equipe técnica. Sabemos do impacto que a trilha sonora tem em uma produção. Seja orquestrada ou utilizando diversos artistas, absorvemos com mais intensidade as cenas com a música. No caso de Sharp Objects, esse é um dos aspectos que difere do livro. Pouco sabemos se Camille possui alguma predileção musical, algo que a própria nunca menciona. Porém, para a adaptação da HBO, o elemento musical é crucial na concepção de cada episódio. Seja na música utilizada na abertura até a playlist do iPhone da protagonista.

 

Começando pela abertura, percebemos que, a cada episódio, teremos uma faixa diferente. Algo que uma outra produção do canal fez brilhantemente. Sim, falo de The Leftovers, uma série impecável que não recebeu o reconhecimento que merecia. Tirando meu descontentamento, a banda sonora de Sharp Objects, principalmente na abertura, flutua tanto quanto sua protagonista.

 

Vanish trouxe o clássico The Dance 2 de Franz Waxman, presente no filme de Elizabeth Taylor, Um Lugar ao Sol. Já para Dirt, foi escolhida a faixa eletrônica independente Glance Backwards do músico Jeffrey Brodsky. Apenas 2 episódios foram suficientes para compreender a fusão das diversas vertentes do rock, entre elas o pai de todos: o blues. Tem-se um pouco de tudo, desde as psicodélicas de Led Zeppelin, I Can’t Quit You Baby In the Evening; o blues de John Verity, com a belíssima I’d Rather Go Blind; com o rockabilly da região de Memphis; com Keeper of the Key de Carl Perkins; e o mais recente dance-rock de LCD Soundsystem em Black Screen.

 

Passado e presente

 

Sharp Objects - 1x02 - Alice

 

Embarcar nessa jornada musical traz um paralelo com a trama em si. Mais precisamente com a sua dualidade. Existe um choque entre seus dois mundos e suas duas ou diversas facetas. Camille veio de Wind Gap, mas também tentou deixar a cidade para trás. Sua criação pode parecer privilegiada se olhada de fora, mas notaremos que o que acontecia dentro de seu mundo, aparentemente perfeito, é a fuga do limite que uma criança poderia suportar.

 

Após a cortante revelação ao final do episódio de estreia, Camille retoma à sua rotina. E, dessa vez, a vemos dormir e acordar subitamente assustada. Evite ao máximo deixar a porta de seu armário aberta e, principalmente, nunca pendure um vestido no topo da porta. Facilmente irá confundi-lo com uma pessoa, ainda mais se a vestimenta for os trajes que usara para um funeral.

 

Fatos reais, eu nunca faço isso.

 

Fica no ar quem seria a jovem garota que assustou Camille e que a tirou do sono. Bom, eu sei quem ela é, mas o que importa aqui é como Sharp Objects escolherá inseri-la e sob qual contexto. Sydney Sweeney teve seu big break na série – já cancelada – Everything Sucks da Netflix. Porém, as oportunidades que surgiram para a estreante atriz depois disso foram louváveis.

 

Recentemente, Sweeney se despediu de Gilead, a cidade totalitária de The Handmaid’s Tale. Agora, a vislumbramos, mesmo que por meio da memória de Camille, em Wind Gap. Diria que ela teve um ano daqueles.

 

A dor da perda

 

Sharp Objects - 1x02 - Camille flashback

 

Se despedir de alguém é sujeito a interpretações e vem carregado de histórias. Alguns vivenciaram a perda muito cedo, outros ainda nem passaram por essa etapa. Contudo, digo por experiência: a dor e a maneira de lidar serão exclusivamente sua.

 

Perdi minha avó paterna em 2010 e, até aquele momento, nunca tinha visto a morte de perto. Bom, tão perto de meu coração. Digo perdi, pois essa foi a sensação que tive. Sensação que, naquele momento, achei que nunca sairia de dentro do meu peito.

 

Com o passar do tempo, fui aprendendo a lidar com a falta que minha avó me fazia. Entendi que o momento dela havia chegado e que sua partida não foi carregada de dor e sofrimento. Tive sorte que aos 23 anos possuía um sistema de apoio. Apoio esse dado pelos meus pais, familiares próximos e meus melhores amigos. Tal realidade não é recorrente para muitas pessoas, principalmente quando se é uma criança que lida com rejeição, falta de diálogo e carinho.

 

Como Camille menciona sobre a incapacidade de ser mãe ou filha, existem pessoas incapazes de dar ou de receber amor. Conseguimos julgar a constituição ou a criação de alguém? Existem diversos motivos que podem alterar um indivíduo ao longo da vida e se existe algo que essa jovem mulher aprendeu a camuflar foi sua dor. E ainda é cedo para entender a dimensão do que habita dentro dela.

 

Moradores de Wind Gap vivem um luto atrás do outro. Primeiro com os Nash e agora com os Keene. Cada família sempre será lembrada como aqueles que tiveram as filhas brutalmente assassinadas. Fatos que se potencializam mais ainda, pois se trata de uma cidade pequena, conservadora e que julga até o horário que compra bebida. Ah vá, só por que não era nem 10 horas da manhã?

 

Em apenas 2 episódios, Sophia Lillis entregou uma leva de cenas difíceis. Sua fisicalidade é sentida, principalmente porque a jovem Camille se expressa por meio de gestos e de olhares. Dentro dela vive o grito, o pedido de ajuda e a busca por um afago. Só que a única pessoa que ela quer direcionar isso sequer percebe sua existência.

 

 Bom senso: ter ou não ter

 

Sharp Objects - 1x02 - funeral

 

O ato de atender a um funeral é extremamente pessoal. Existem aqueles que lidam diretamente com a dor de perder um ente querido. Existem aqueles que sentem empatia. Existem aqueles que transferem seus próprios sentimentos e revivem a experiência. Existem aqueles que ali estão para prestar homenagens. Existem aqueles que se fazem presentes somente de corpo, pois mente e alma vagam em outro lugar. Existem aqueles que nada sentem.

 

No livro, Camille frisa que nem sequer foi convidada para o funeral, mas, dada a pressão do chefe em cobrir o evento, lá estava ela. Neste mesmo lugar, saiu seu primeiro esboço que se transformou em uma matéria para o jornal de St. Louis.

 

Quais seriam as chances de alguém em Wind Gap ter acesso ao jornal? Considerando tudo isso, uma leve e inapropriada invasão de privacidade não fará mal a ninguém.

 

“Olho por olho e todos acabam cegos.”

 

Elizabeth Perkins está fenomenal como Jackie O’Neill, a ex-amiga de Adora. Sharp Objects, a série, lhe dá mais profundidade e relevância. Tal personagem é o exemplo da moradora que sabe tudo de Wind Gap e, ao mesmo tempo, controla o que revela. Independentemente de como soe para os demais, sua sinceridade se mistura com seu jeito exagerado.

 

Após ouvir as fofocas a respeito da família Keene, o instinto jornalístico de Camille entra em ação. Pouco a pouco, conseguimos entender seu padrão de comportamento, especialmente sua rebeldia característica. Aqueles que olham de fora, tal desprendimento causa espanto. Adora fica horrorizada com a falta de bom senso da filha, que faz anotações no meio da igreja.

 

Amma quer um refresco

 

Sharp Objects - 1x02 - Amma

 

Existe algo de especial e único nas personagens de Gillian Flynn e não digo isso apenas sobre as protagonistas. Sharp Objects mostra, hierarquicamente, uma família em ruínas, fadada pelo seu passado. Contrário à Garota Exemplar e Lugares Escuros, Objetos Cortantes será o único livro de Flynn com mais tempo para ter sua escuridão dissecada. Pensar que o formato inicial seria de um filme, era fato que impossibilitaria o aprofundamento dessas personagens tão ricas e interessantes. E não falo somente de Camille Preaker. Assim como Adora, Amma é crucial na trama.

 

Existe muito de background a ser mencionado, mas temo falar demais antes mesmo da série optar por isso.

 

Aproveito este momento para parabenizar o diretor de casting pela escolha da australiana Eliza Scanlen para interpretar Amma. Poucas jovens atrizes conseguem abraçar tal responsabilidade com tamanha graça e veracidade.

 

É importante que saibam que essas personagens formam três gerações criadas de maneiras diferentes, mas sob os mesmos costumes. O que as une é a dualidade que habita dentro delas. Revelada ou não, está lá, abafada por diversos motivos. Existe algo perturbador e eletrizante ao acompanhar suas interações. E quão manipuláveis elas podem ser, sem ao menos haver esforço para tal.

 

Camille precisa sair às pressas da igreja devido ao rasgo em seu vestido. Enquanto procura um kit de costura na lojinha local, ela encontra com Amma que, previsivelmente, não está em casa tomando sorvete. A meia-irmã possui o charme de uma adulta e a faceta de uma criança, sendo assim, consegue sempre o que quer.

 

Esse breve encontro das duas mostra quão investida Camille está, mesmo que ainda em um primeiro estágio, com sua matéria. O tom de preocupação é sentido, mesmo considerando que elas se conheceram alguns dias atrás. Família é realmente nosso tendão de Aquiles, ainda mais quando tudo volta a acontecer como antes.

 

“É perigoso ficar por aí. Tem alguém matando meninas.
As mais legais, não.”

 

 

Frank Curry: o pai que nunca teve

 

Sharp Objects - 1x02 - Frank

 

Chegamos a um momento que fica difícil separar o background fornecido pelo livro ao que a série decidirá revelar até então. Confio na parceria entre Noxon e Flynn, como showrunner e escritora respectivamente. Ainda assim, se torna impossível falar do papel de Frank na vida de Camille sem ao menos citar um pouco sobre o impacto da paternidade na vida dela.

 

Adora teve Camille com 17 anos, fruto de um caso que teve com um garoto que passava as férias em Wind Gap. Nascida em berço de ouro, ou berço de porco como digo, tal fato sacudiu o status da família com o nascimento de uma menina. Perdendo os pais logo após o nascimento de Camille, a matriarca se casou com Alan que, no livro, é 15 anos mais velho.

 

Mentindo sempre sobre a real identidade do pai, lembro que, inicialmente, cheguei a cogitar se buscaria saber quem ele é. Eis que percebi que essa nunca poderia ser a intenção. Camille demonstra todos os sinais de uma pessoa que grita para ser vista, mas, ao mesmo tempo, encontra alternativas para internalizar seus demônios.

 

“Meus demônios não foram vencidos, só estão um pouco adormecidos.”

 

Camille cresceu nas sombras dos relacionamentos instáveis e da falta de estrutura que passou a ser sua normativa. Estranha dentro do próprio ninho, de um lado tinha Alan que, mesmo casado com sua mãe desde que tinha 3 anos, nunca conseguiu criar uma conexão. Do outro, havia uma figura fantasma que mal conseguira projetar em suas fantasias infantis.

 

Frank assume, em um momento crítico da vida jovem adulta de Camille, a figura que lhe foi negada toda sua vida. Mais uma vez, agradeço por esse formato de Sharp Objects, pois permitiu que mais nuances de um homem que se preocupa com ela fossem mostradas. Genuinamente falando. Existe uma presença, um contato. Conhecendo o perfil da protagonista, ele sabe que ela não mediu esforços para conseguir o que precisa. Sua resiliência, por vezes, se transforma em seu pior inimigo e, ao longo de sua jornada em Wind Gap, a veremos fazer escolhas bem, mas bem erradas.

 

De volta ao túnel do tempo

 

Sharp Objects - 1x02 - funeral reencontro

 

Passa a ser caricato como imaginamos realidades diferentes das nossas. Por vezes, pensamos que tais costumes e estereótipos são gritantemente diferentes ao aprendermos ao longo da vida. Cada sociedade é fundada à sua maneira, uma mais rígida e outras com maior potencial de mudança.

 

O que fascina em Sharp Objects é a maneira com que Flynn criou Wind Gap. É uma cidade que parece uma cápsula do tempo. Um tempo relativo em que tudo parece igual ao que foi anteriormente. Tudo poderia ter mudado, mas se permaneceu do mesmo jeito.

 

No Brasil, lidamos com a morte de uma maneira mais intensa e sentimental. Em outros povos, após velarem o corpo, familiares e amigos se direcionam para a casa do falecido/a para uma recepção com comes e bebes. Pisar nesse ambiente mostra quão estranha Camille é para aquelas pessoas que a viram crescer. Seu caminhar pelos cantos da casa é um lembrete de que ela nunca pertenceu e nunca pertencerá a Wind Gap. Ainda assim, as pessoas tentam obter informações sobre o caso das meninas a todo custo.

 

Reencontrar as colegas de classe evidencia quão oposta ela é. Camille saiu da cidade, ou seja, quebrou o ciclo. Para os que ficaram, isso simboliza uma diferente posição. Como Jackie diz, mostra quão bem-sucedida, corajosa, inteligente e bela a protagonista da série se tornou.

 

Durante o discurso da Sra. Keene, Natalie é descrita como amável, geniosa e cheia de personalidade. O contraste é que todas as meninas de Wind Gap representam algo que efetivamente não são. E isso vai de encontro com a opinião tachativa que a namorada de John Keene, irmão de Natalie, tem da própria falecida. Existe mais por detrás da superfície, tanto da menina Keene quanto da menina Nash.

 

Dente por dente

 

Sharp Objects - 1x02 - porco

 

Chris Messina possui uma significativa carreira tanto na televisão quanto no cinema. Aqui, o ator nova-iorquino precisa convencer a todos que é de Kansas City. Se consegue ou não vender a origem de seu personagem não posso dizer, mas, até então, seu Detetive Willis se mostra indomável para desvendar os agora confirmados assassinatos em série. Seu papel é contrapor o método de Vickery na investigação. Afinal, ele tem muito menos a perder em comparação ao Chefe que nasceu e cresceu em Wind Gap e, automaticamente, todos conhece.

 

Apesar de apresentar os mesmos indícios de brutalidade, principalmente a remoção de dentes, a maneira com que os corpos de Ann e de Natalie foram encontrados é distinta. Enquanto a primeira foi encontrada no lodo da floresta, a segunda foi meticulosamente colocada em um beco. Willis interpreta tal diferença como se o assassino exibisse a 2ª vítima como uma boneca. As conversas com Vickery mostram suas visões e o quanto um investe mais tempo para solucionar o caso que o outro.

 

Tamanho investimento esse que Willis tenta provar graças à conclusão que chegou ao conversar com o médico legista responsável pela autópsia de Natalie. Considerando o estado da mandíbula e da arcada dentária das vítimas, o objeto usado para remover os dentes foi um alicate caseiro pontudo. Eis então que Willis compra uma gigante e medonha cabeça de porco e tenta, com um alicate doméstico pontudo, arrancar um dente.

 

Considerando a teoria do legista, o assassino teria que usar de muita força e de adrenalina ou a remoção não ocorreria de imediato.

 

A Mulher de Branco

 

Sharp Objects - 1x02 - Capisi

 

Similaridades com o livro continuam se mostrando eficazes. Mesmo com leves mudanças, o cerne da trama ainda é a maior prioridade. Camille começa a ficar mais à vontade com sua investigação, principalmente porque parece natural a ela não cumprir muito os requisitos de ética e de boa conduta.

 

Após descobrir o último lugar que Natalie esteve antes de desaparecer, Camille vai até um campo de beisebol. Nele, duas crianças brincam. Todo responsável sabe que não é permitido conversar ou fazer perguntas para uma criança sem a presença de um adulto, mas isso não a impede de abordar um dos meninos, perguntando se conhecia Natalie. É aí que o nome James Capisi é apresentado. Um garoto de 8 anos de idade que disse ser testemunha da abdução de Natalie.

 

Desacreditado, a polícia logo descartou seu testemunho devido ao teor fantasioso. O pequeno afirmou que uma mulher vestida de branco arrastou a garota para dentro da floresta e o resto é história como já sabemos.

 

Sem ao menos perguntar, o garoto diz aonde Capisi mora. Não contente, Camille parte até a casa da pequena testemunha. Histórias de fantasmas são comuns em cidades como Wind Gap. Considerando todo o folclore regional, somados às condições nas quais James vive com a mãe, não existiria um cenário no qual dariam crédito ao garoto.

 

Pequena Mulher, Grande Menina

 

Sharp Objects - 1x02 - flashback

 

 

“What does happen to you when you go home? And that failure to kind of grow up.” – Gillian Flynn

 

Confesso que algo despertou dentro de mim quando ouvi isso. Claro que relacionado ao que vivo no momento. Sair de casa simbolizou um misto de sentimentos conflitantes dentro de mim. Houve dias que achei que estava fugindo e outros que teria a chance de fazer algo por mim e para mim. Ambas sensações eram verdadeiras e, hoje, não vejo nada de errado com nenhuma delas. Pelo contrário, me orgulho da decisão que tomei.

 

Diferente de Camille, tenho uma relação afetuosa e presente com meus pais. Claro que, como toda família, tivemos nossos percalços, mas, juntos, superamos cada um deles. O que realmente me pegou no comentário de Flynn foi o revés que involuntariamente sentimos ao voltar ao local que tanto nos fez ser quem somos. Existe uma grande familiaridade, mas o primeiro retorno, depois de certo tempo, é carregado de expectativas e de autocobrança.

 

Por natureza, somos extremamente duros com nós mesmos. Às vezes, é mais fácil se preocupar/olhar para os outros a fazer algo por si mesmo.

 

Chega a ser desesperador acompanhar a visão de Camille, mas, ao mesmo tempo, pelo menos eu me sinto assim, quero segurar sua mão, pedindo que respire fundo. Mesmo que no momento – excluindo meu conhecimento da trama por causa do livro – não tenha sido explorado muito os vieses de quem ela foi e por que faz o que faz. Eu quero que ela fique bem.

 

Em mais um retorno para a casa da mãe, suas memórias com a irmã a fazem entrar mais uma vez em transe com o agora. Conforme mencionei, cada canto da casa lhe transporta para algum momento do passado. Cortante e desconcertante, vemos a dor em seu olhar ao perceber que o afeto e o amor de sua mãe por Marian não cabiam também a ela. Pouco a pouco, isso define essa adulta que ainda vive a sombra da menina que somente queria que Adora visse.

 

Bless your heart

 

Sharp Objects - 1x02 - Camille

 

Todos nós temos um lugar seguro ou, pelo menos, um lugar que podemos ir e ser nós mesmos. Me sinto assim indo ao cinema. Existe algo de libertador e de encantador que me cura ou eleva sempre que lá estou. Camille tem seu refúgio/lugar seguro quando segura uma bebida, de preferência sua vodca. Depois de presenciar sua mãe chorando na cama de Marian, não existe outro lugar senão o bar naquele instante.

 

Outra pessoa que fez do bar local, seu lugar seguro, é o Kansas City, Detetive Willis. Existe algo no ar quando ele e Camille se encontram. Pode ser estranheza, pois ambos estão desconfortáveis em Wind Gap, se sentem bizarramente conectados devido ao caso e há a famosa tensão sexual a pulsar. Por agora, acompanhamos a evolução gradativa de suas conversas e a deste episódio foi sem dúvidas a mais longa e natural que já tiveram até então. Tão natural que Camille sorriu espontaneamente pela primeira vez desde que chegou à cidade. Mesmo com alguns comentários inapropriados de alguns moradores presentes no local.

 

“Um espírito aventureiro e independente, cujo amor pela natureza pode ter sido seu fim.”

 

Frank continua a acompanhar o andamento de sua primeira cobertura do caso. Ao chegar em casa, Camille conta como foi o dia, passando pela igreja, pela residência dos Keene e pelo folclore envolvendo James Capisi. Ela revela o pessoal momento no quarto de Natalie, onde identificou contrastes entre a decoração do quarto da garota versus como era realmente seus gostos e o jeito de se portar. O que começa a caminhar para o lugar errado é o momento que ela mente sobre seu acesso à casa. Considerando que tudo que viu e ouviu ali será a base do texto que prepara, represálias podem vir para cima dela.

 

Seja uma boa menina

 

Sharp Objects - 1x02 - Amma e Adora

 

Uau, eis aqui o exemplo de como uma cena de apenas um minuto e quinze segundos pode ser tão impactante e efetiva. Camille escuta gritos na sala e, ao descer, se depara com a mãe segurando Amma. A menina chora e se balança descontroladamente. Cada uma dessas mulheres sabe jogar o jogo que é fazer parte dessa família e a protagonista explode ao ouvir as falsas acusações de Adora. Logo em seguida, sua raiva verbalizada entra em stand-by quando a mãe começa a falar em seu dócil tom.

 

De um instante para o outro, vemos uma mulher que sabe virar a situação a seu favor. Manipuladora, Adora compara Camille a Natalie, pois disse ter tentado ajudá-la, compensando pelo que não pôde fazer com a filha. De outro lado, vemos uma menina claramente chateada e perturbada com algo que a mãe diz estar relacionado com a morte das meninas. Bom, vindo de alguém inteligente como Amma, fica difícil de acreditar no drama todo.

 

Se antes Camille hesitou em enviar o e-mail, considerando que nem tudo que escreveu foi legalmente adquirido, agora com toda a adrenalina e raiva que sente ela aperta de vez o botão F. Saberemos das repercussões de sua primeira matéria sobre os assassinatos somente depois, mas aqui ficou claro como estar de volta, naquela casa, a afeta mais ainda.

 

Seguindo a linha do 1º episódio, conhecemos mais uma tatuagem de Camille. Não tão visível quanto Vanish, aqui foi escolhido um local íntimo, regado de simbologias. Dirt é uma palavra que emana o comportamento de algumas personagens e até onde são capazes de cavar para conseguir algo. Mas também poderá ser relacionada à sexualidade da protagonista, algo que a minissérie ainda precisará explorar.

 

Concluindo

 

Enquanto Vanish tinha como papel apresentar Wind Gap, aqui conhecemos um pouco mais de seus agentes e de como seus comportamentos repercutirão no andamento da história. Diferente de uma série de crime e de mistério, Sharp Objects utiliza da força e da escuridão de suas personagens centrais para ditar seus passos.

 

Os assassinatos em si poderiam ser o personagem principal, mas a beleza nua e crua desta minissérie recai sob Camille e, principalmente, nas mulheres em sua vida.

 

“She uses her obsession with words to work, to heal and to harm. But the reason why she’s cutting is home.” – Jean Marc-Vallée

 

Willis perguntou a Camille por que ela escolheu ser uma repórter. Além do amor pela leitura e pela escrita, sabemos que sua escolha profissional recai em sua obsessão por palavras. Eu nunca conseguiria me aprofundar sobre os reais motivos e repercussões de uma pessoa que se auto-flagela. Existe algo de muito íntimo, tornando-se impossível de sequer tentar entender. O que Camille parece buscar com a sua é que olhem para sua dor, mesmo que a esconda por anos.

 

Voltando à pergunta que meu pai fez, ainda acredito que Sharp Objects deve ser conferida. Existe algo de inovador e de explorativo na maneira com que essas mulheres são representadas e externalizam seus problemas e batalhas internas. Saber que ainda há mais 6 episódios para explorar, dissecar e, possivelmente, libertar essas personagens, é extremamente excitante.

Mari
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