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06/jul

Este episódio de The Bold Type subiu no meu pódio de favoritos que, pelo visto, será composto pela linha de desenvolvimento de Kat. Assim como ocorreu no 2×03, que envolveu (e não envolveu) o papo de body positivity, me vi tensa novamente com a proposta da semana que discutiu furtivamente o privilégio branco. Não me vi insegura, porém, aflita porque a promo que garantiu este capítulo glorioso desta série veio seca no pote ao “pregar” um comentário de uma Edison que descobriu ontem o efeito que se tem em não abraçar sua negritude.

 

A única coisa que pensei foi: não é muito apressado ver Kat exercendo tamanha responsabilidade? Não que eu que não tenha curtido. Eu amei demais, mas do 3º para o 5º episódio se teve pouco tempo para que, teoricamente, a personagem endereçasse com propriedade tal tópico. Não houve desenvolvimento, por assim dizer, um detalhe testemunhado no 2×03 em que ela nem se preocupou em colocar uma foto diversa nas redes da Scarlet sobre body positivity.

 

A prévia do posicionamento de Kat neste episódio colocou uma enorme pulga atrás da minha orelha justamente porque ela se tocou da sua realidade, supostamente, dias atrás. Pelo ínterim dos episódios, não faz tanto tempo assim que a personagem se deu conta da sua negritude + o que a fazia recolher essa parte de si + a influência dos pais + a consciência dos seus privilégios + a significância da sua representatividade. Foi muita informação para quem nunca foi apegada em diversificar, apesar de ser muito boa em chamar a atenção para comportamentos machistas.

 

Vide o transcorrer da 1ª temporada. Foi excelente acompanhá-la, mas, no fim, nenhuma storyline desse ínterim de tempo remeteu às questões de raça e o que elas provocam na realidade dessa personagem.

 

Neste presente momento, é cabível Kat falar sobre privilégio visto que tomou consciência dos seus benefícios, mesmo sendo negra. Porém, sofri por antecedência ao apurar certa pressa em endereçar um assunto que ela nunca esteve pronta para discutir. Não com a confiança exposta neste episódio. Afinal, tudo que essa jovem trouxe até então foi dentro do feminismo branco e de um acúmulo de privilégios que tem seu peso branco também – já que o pai ignorou a necessidade de educá-la sobre a influência da comunidade negra e deixou praticamente tudo nas costas da mãe branca.

 

Por um momento, e depois de ver a promo, considerei que finalmente chegaria a hora de The Bold Type dar um tiro no próprio pé. Algo que senti na semana passada com mais vigor graças à súbita vontade de Sutton em subir na carreira. Desejo que a transformara em outra pessoa ao ponto de dar uns shades em Kat gratuitamente. É. Acho que sentirei insegurança para sempre porque amo demais esta série.

 

Em outras palavras: eu temo pelo momento que ela seja estragada. Trauma de séries má escritas.

 

Pelo episódio anterior não ornar muito com a caracterização da qual estamos acostumados em ver a tríade incorporar (e não foi de todo ruim), cogitei que Kat teria a sua consumida pela febre que alguns roteiristas têm em “mostrar serviço” depois de uma chamada de atenção. A série falhou com essa personagem na temporada passada, mas nada que não pudesse ser remediado com o tempo graças aos dois anos de renovação dados pela Freeform. Não era preciso correr para torná-la consciente sobre o quanto o privilégio branco afeta as minorias – até porque isso não acontece depressa.

 

Cenário que norteou meu pessimismo que calha no tom de “precisamos corrigir o “erro” e suprimir novas cobranças”. Um pessimismo que está longe de morrer porque é algo meu assim como a Síndrome do Impostor.

 

Sei que a equipe de The Bold Type é responsável e sua sala de roteiristas é diversa (amém!). A turma (ainda) nunca me deu motivo para usar colete à prova de balas, mas receio existe. Ainda mais com o buzz que Kat tem conquistado. Tirá-la do seu compasso gradual de desenvolvimento pode ocorrer pela euforia do “fazer acontecer” e não seria nada positivo.

 

Pelo buzz, não seria igualmente positivo dar muito destaque para uma e esquecer das outras. Ato que tem o igual poder de desgastar a série e dá em treta entre fã vs. roteirista (precisamente da parte tóxica de um fandom). The Bold Type não chegou aqui também e espero que nunca chegue.

 

No fim das contas, Kat não saiu da continuidade do seu desenvolvimento e não houve perda do tom. Sem dúvidas, The Bold Type tem mostrado uma preocupação maior com essa personagem, o que até calha no que comentei de uma temporada para cada protagonista (ideia que sigo achando excelente). A série me deu um baile de novo e estou contentíssima feat. chorosa.

 

Este episódio entrou com eficácia embaixo da minha pele e bagunçou as mais diversas emoções. Chego aqui com o coração na mão e com o desejo de ser Kat para contratar várias Angie.

 

Esta resenha seguirá um pouco fora do tom porque Jane e Kat agiram como agentes de conflito neste episódio. Não deu para separar as storylines porque ambas também assinaram o tema da vez, que trouxe um resultado incrível. Se estou maravilhada? Estou sim e conto mais na sequência.

 

Tiny Jane & The Boss

 

The Bold Type 2x05 - Jane, Sutton e Kat

 

Primeiramente: é importante saber que privilégio não é somente uma questão monetária. Eu poderia dissertar sobre essa questão, mas, sendo resumida, essa palavrinha faz menção a quem não sofre nenhum tipo de opressão de raça, de gênero, religiosa, sexual e etc..

 

Ao contrário do que aconteceu no 2×03, que teve suas falhas ao abordar o movimento body positivity, este teve seu próprio jeito de inserir o papo de privilégio branco que caiu como uma luva de seda. Longe do ofensivo para ser elucidativo. Deu para sentir propriedade na composição desta história e no ritmo dos diálogos. Uma soma que trouxe uma riquíssima moral visando ambientes corporativos.

 

Uma abordagem que só poderia ser entregue com eficácia se houvesse centralização na minoria. Afinal, o papo de privilégio branco entre duas pessoas brancas não faria muito sentido. Não daria peso ao tema da semana. Como somos sortudos, já tínhamos uma representante em cena e, de graça, contamos com Angie. What a time to be alive!

 

Como disse na abertura deste texto, juro que aguardei o instante sinalizado pela promo com grande apreensão. Por um momento, pensei que Jane tentaria entrar de novo na Scarlet, independentemente de ser uma vaga de social media. Pela sede de querer retornar para lá, não duvidei nem um pouco da sua capacidade de extrapolar esse limite. Não foi o caso, mas o veículo que rendeu uma entrevista para essa pequenina jovem respingou no antro comandado por Jacqueline. Local em que vimos Kat interessada em diversificar os currículos para assim escolher sua nova assistente.

 

Dois veículos de comunicação opostos, mas que se encontraram devido aos paralelos entre Jane e Angie. Nomes que rimam, mas não em realidade. Juntas, e com o respaldo de Kat, elas mostraram a facilidade da pessoa branca em ser chamada para uma entrevista e/ou ser contratada perto de alguém da minoria. O real peso no contexto de privilégio branco que The Bold Type se propôs a debater.

 

E foi deveras difícil despregar deste episódio. Quando vi, acabou!

 

Clima montado, eis que chegou o momento-chave em que Kat chama a atenção de uma Jane que ficou chateada por não ter conquistado um novo emprego devido à questão de diversidade. Atitude que poderia passar batida se sua roda de amigas fosse totalmente branca e nada apegada ao assunto. Porém, Edison estava ali, anulando qualquer chance de passar pano em um comportamento problemático. Não importando se falava com a BFF. A partir daí, só muita conversa. Cada viés trazido foi se encaixando, dando um chacoalhão em Jane e concluindo com a vitória de Angie.

 

Kat foi muito cortês ao se dirigir à Jane. Atitude que prezo com respeito. Em um mundo, especialmente online, que ainda é “preferível” chamar a atenção para um comportamento problemático a sete pedras, posicionamentos como os de Edison são necessários (e extremamente raros de tão pontuais). Inclusive, muito melhores a partir para o ataque que não chega a canto algum. Ela pescou o que foi dito e sinalizou o erro. Sem minimizar Sloan que, claro, partiu para o modo defensivo de muito branco ao dizer que não é racista.

 

Aos meus olhos cansados, Jane se posicionou mal em reflexo ao desespero de não conseguir sair da sua problemática. Não é de hoje que a vemos controlar o que sente. Se entusiasmar com qualquer entrevista/matéria bacana porque são seus métodos de mostrar seu valor. Ao menos, profissionalmente falando. Por ter rolado uma nova chance em um veículo muito similar à Scarlet, confiança impregnou facilmente. Por eu já ter vivido algo assim, embora as circunstâncias fossem totalmente diferentes, perceber que você nem era tão boa quanto imaginava traz à tona uma grande frustração.

 

Assim, tirando um pouco a questão de diversidade, quando sabemos que somos bons, ficamos indignados por não conseguir a dita vaga que parecia sob medida. Uma reflexão que também se encaixou perfeitamente dentro do debate sobre privilégio branco. É sempre “muito fácil” resmungar pela conquista perdida e se esquecer que muitas pessoas passam pelo mesmo. Inclusive a minoria.

 

O que não dá direito de dizer “tem gente em lugar pior”. Está aí um pensamento que abomino.

 

O desemprego a deixou no ápice do estresse e comentei na semana passada que isso traz comportamentos errôneos. Justamente porque se lida com algo fora do controle. Às vezes, tentar demais cansa. Podemos agir sem critério pela sensação de fracasso. Podemos ser extremamente egoístas. Jane se posicionou erroneamente mais porque sua vida está sem estrutura e qualquer chance é chance. Perdê-la é um balde de água fria e, no calor da emoção, pensar no quanto diversidade é algo magnífico lhe escapou por entre os dedos.

 

Eu diria que o posicionamento de Jane foi falha humana visto que ela deixa suas emoções ultrapassarem seu critério. Vide a matéria da stripper que passou do limite. Sloan achou tudo muito formidável, mas violou uma privacidade. E ela mesma não conseguiu enxergar tal ponto até estar diante de um processo – porque estava cega demais em suas convicções e no seu “tipo de feminismo”. A personagem se considera uma ótima feminista, mas agiu mal e tomou seu primeiro chacoalhão nesse meio. Tudo porque ela se colocou no cerne como uma prioridade e não é bem assim que o mundo funciona. Descoberta que só vem com o tempo tão quanto reconhecer seus privilégios.

 

O mesmo cabe para o que levantou a pauta de privilégio branco. Algo que me faz dizer que Jane é, possivelmente, mais girl power que feminista (e há sim diferença). Seu lado político não é desenvolvido, sendo que, uma vez que se abre a porta do feminismo, diversidade aperta o interfone.

 

É contraditório pontuar o que pontuei acima porque houve a pauta da congressista. Houve a pauta do assédio. Houve sua participação no painel de vozes emergentes. O que me faz repetir que Jane se deixou levar demais pelo que sentia e se esqueceu (ou nunca se importou) sobre o quanto diversidade importa. O comportamento “normal” era vê-la contente por tamanha consciência corporativa enquanto se permitia estar arrasada – porque nada cancela a dor/angústia de estar sem emprego, fatos reais.

 

Jane basicamente me pareceu aquelas pessoas que militam sem profundidade. Na hora do vamos ver, a “militância” se esvai. E é importante enxergar bem essa personagem, não sermos tão duros (já que ela foi extremamente mente aberta em receber o passe da desconstrução), porque podemos pagar o mesmo mico. Do nada. Eu me qualifico. Ainda mais porque eu não tenho tanta bagagem sobre a opressão das minorias e, se eu quiser dizer algo, terei que me educar primeiro.

 

Li por aí que Jane acabou sendo racista sim, independentemente de ter sido uma escapulida em reflexo do seu descontentamento. E não posso destrinchar essa parte porque eu não compreendo o racismo em seu cerne. Eu nunca passei por isso, o que me torna menos apta em opinar.

 

Todo esse percurso trouxe a conversa entre privilégio branco vs. falta de diversidade em ambientes corporativos. Fato que pegou Jane de jeito e que impulsionou Kat a aplicar o que tem aprendido, desde que tomou o chacoalhão sobre raça, em seu local de trabalho. Por esse viés, a meta geral foi quebrar mais um parâmetro normativo na Scarlet enquanto Sloan passava por um novo processo de desconstrução.

 

The Bold Type 2x05 - Jane

 

O maior ponto de expressão de Jane foi explicar como se sente devido ao desemprego. Um detalhe nada capturado por Kat no 2º round da conversa, que nem sequer indagou sobre a situação da amiga depois de tomar outro quique. O que enriqueceu mais o papo entre elas sobre privilégio e trabalho. De quebra, garantiu uma ótima conclusão, cheia de conciliações de ambas as partes já que Kat não sabia que esse incômodo de Jane está tão profundo e Jane não reconheceu seu privilégio.

 

É importante evidenciar que uma pessoa desempregada tem vários âmbitos da vida afetados. Não importa quem ela é socialmente. A falta do emprego acarreta, inclusive, doenças seríssimas como a depressão.

 

Não faço referência a um possível acontecimento com Jane. Na real, dou ênfase ao emocional e não ao privilégio. Foi perfeito Sloan ouvir o que ouviu ao ter diminuído a questão de diversidade. Foi extremamente correto, mas não saber o que se passa emocionalmente do outro lado também pode trazer/acumular mais danos. Por enquanto, a trajetória dela está sossegada nesse quesito, mas esse abalo existe. Falamos do que cada um sente diante de uma situação que não ajuda em nada na autoestima e na autoconfiança. É fracasso porque há uma expectativa social que diz que a pessoa empregada é muito mais valorosa que a desempregada que não passa de vagal.

 

É importante sempre respeitar o sentimento do outro e ouvir a razão da pessoa reagir como reagiu. Apenas isso.

 

Voltando, esse cuidado no debate sobre privilégio branco engatou uma nova semana de puríssimo aprendizado em The Bold Type, basicamente em cima do fato de que ninguém sabe o que o outro sente para agir da forma X. Ou o que ocorre do outro lado para tal comportamento Y ocorrer. Ou o porquê de Z acontecer. Claro que são camadas que variam de um assunto a outro, mas foi esse o realismo trazido pelo roteiro. A meta não era causar, mas ensinar.

 

Os roteiristas escolheram educar sobre um viés político e raramente isso ocorre no entretenimento. O jornalismo em si, por exemplo, desvirtua qualquer pauta dessa estirpe porque depende do buzz dos ataques entre várias comunidades para gerar seus views e assim monetizar. The Bold Type esmurrou à sua maneira por meio da sua personagem negra. Kat vocalizou com quista audácia um problema persistente e insistente atualmente em meio a um campo fácil para Jane partir rumo a uma breve febre de ignorância.

 

Ensinar Jane foi a melhor pedida, o que confrontou a verdade de que muitos falam sobre diversidade e privilégio apenas na superfície. Quando vem o teste real, bem, rola o que houve com Sloan. O que reforça o que comentei na resenha do 2×04: pregar o que você vive. Por vezes, sai pela culatra, seja pelo meio ou pelas pessoas do convívio. Por sermos pegos de surpresa em alguns momentos, vigilância constante se faz necessário, o que, com certo tempo, vem no piloto automático.

 

The Bold Type me enche de amor toda vez que escolhe esse posicionamento de ensinar, além de seguir prezando a amizade da tríade. Amigas podem e devem aprender juntas. Uma pode chamar a atenção da outra sem acarretar torta de climão. Kat e Jane erraram em formas muito particulares, mas escolheram deixar tudo às claras. Um contexto que prova o quanto personagens femininas saudáveis fazem falta no nosso entretenimento diário. O mesmo vale para a representatividade que não é apenas sobre ter personagem da minoria em cena, mas ela vir com carga de inspiração também.

 

O que reforça o que venho repetindo desde o começo desta temporada: não há a menor intenção de separá-las. Nada de birras. Nada de virada de face. Apenas muita sororidade, muita partilha e muito aprendizado. Mesmo em dias ruins em que o perdão é cartada-chave.

 

Perdão é relativo, claro. Depende das circunstâncias. Neste caso, perdoar veio atrelado ao educar e, vira e mexe, escuto que você não é obrigada/o a prestar este papel. Tudo bem, não é mesmo, mas penso que podemos ir sempre além da linha tênue (confesso que sou um tanto falha aqui também porque tenho medo de ser rechaçada). Por quais motivos você privará seu conhecimento?

 

Não é necessário insistir em faca de ponta cega. Há pessoas que você desenhará o alfabeto e nada entrará na mente delas. É escolha dessas pessoas não querer aprender e aí a gente toca a bola. Agora, quem tem disposição em saber, como Jane lindamente demonstrou, toda preocupada com Kat e em saber sobre seus privilégios, devemos ajudar. Ajudando contribuímos para desconstrução. Automaticamente, para um tipo de mudança. Como ocorreu entre Kat e Jane, que debateram uma pauta que é extremamente segregadora. Melhor ainda, sob duas lupas diferentes.

 

É importante transmitir sua mensagem e apresentar sua realidade porque tais atos são uma expressão que motiva a diferença. Se eu tenho um conhecimento, minimamente que seja, estarei disposta a mostrar o caminho. Fica a critério a pessoa abraçar ou não. Kat fez isso, sem criar espaço de julgamento ou clima de chacota. Ela não atacou Jane um só segundo e não recebeu o mesmo em troca. Comportamento que raramente ocorre, pois gerar ruído parece mais necessário. Sendo que esse ruído é ensurdecedor e faz a conversa falecer antes de nascer.

 

Eu acredito que é importante estar aberta/o, seja para explicar ou para receber a informação. E o roteiro não veio tímido nesses quesitos.

 

É por essas e outras que um elenco diverso faz uma diferença danada quando se é preciso discutir políticas e privilégios. Ou a opressão em si. Pessoas brancas não têm o que dizer sobre racismo, por exemplo. Elas não vivenciam tal fato graças ao seu tom de pele.

 

Há sim pessoas brancas extremamente conscientes nesses e outros quesitos. Empenhadíssimas em ser ótimas aliadas, usando seu privilégio para conversar maduramente sobre o que aflige as minorias. Ainda assim, é preciso respeitar o protagonismo dessa minoria. Respeitar espaços de fala. Brancos já são privilegiados por serem brancos e não temos que tentar discutir/dar aula sobre um tipo de opressão que não sofremos. O que podemos fazer como aliados é sinalizar. E sinalizar é uma forma de reconhecimento que traz a quebra de algum privilégio.

 

Jane não conseguiu se desenvolver a partir do momento em que teve sua atenção chamada e tentou combater. Como exatamente aconteceu na matéria da stripper. A personagem se vê em pró de muitas coisas, mas nunca enfrentou seus próprios privilégios. Ela tem todo o direito de ficar triste, pois, como disse, desemprego é universal e não deixa ninguém feliz. Porém, ela não tinha noção de que, mesmo desempregada, quase sempre será privilegiada.

 

Algo muito semelhante ao que ocorreu com Kat que não queria ser a mulher negra da Scarlet. Ela não tinha noção da sua representatividade e também caiu na acusação de ter racismo internalizado. Paralelamente, o problema aqui também se deu em reflexo de uma vida de privilégios e no feminismo branco. Soma que resulta a verdade de que ambas nunca olharam para dentro e ao redor, até os roteiristas cutucarem suas respectivas zonas de conforto.

 

Jane se saiu como um ótimo exemplo para pessoas brancas ao cuspir despretensiosamente seu privilégio contra uma cláusula de diversidade. Mesmo que eu nunca tenha vivenciado algo desse tipo no meu meio – que não é mais meio –, é fato que essa chamada de atenção só funcionaria de pronto porque havia uma negra na roda. Caso contrário, refriso minha absoluta certeza de que passaria batido. Ou que o comentário seria raso. Isso não significa que The Bold Type aprofundou, porque está aí algo que a série não faz, mas transformou um cutucão em uma conversa sadia.

 

E, vale dizer, que estou amando esses paralelos de uma dando boas-vindas a outra diante de determinados pontos que alguma delas desconhece. Sutton deu as boas-vindas à Kat sobre o quanto comunicação em relacionamentos é difícil. Agora, Kat recebeu Jane ao fazê-la ver que seu problema não é maior que de todo mundo – muito menos da minoria.

 

Nada exime Jane do deslize e penso que esse é um bom passo para sua maturidade. Ela precisa sair da casinha, especialmente por estar centradíssima em obter um emprego. Uma bitolagem que a impede claramente de olhar ao redor por estar muito concentrada em si e em sua necessidade do momento. A personagem transita para uma versão um tanto egoísta, acho. Efeito da sua busca por estrutura e, sem sucesso, vemos alguém em exaustão. De saco cheio mesmo de não ter vaga.

 

The Bold Type 2x05 - Kat

 

O tema privilégio arrematou o retorno da série à Scarlet e saltitei porque revi minha mãe Jacqueline. Kat trouxe o peso corporativo dentro desse tema, o que não afetou o resto do tom do episódio dado por Sutton. Muito além de educar Jane, a personagem quis mudar a burocracia da revista ao intentar contrato com quem não tem graduação. Essa treta do currículo foi minha parte favorita!

 

Entrave que bateu em outra quina dos privilégios e que raramente se pensa: minorias têm dificuldade de chegar em cargos de poder, ou até de assistentes em um veículo de comunicação, porque as oportunidades não são iguais. E isso não é sentido na hora que a pessoa branca manda o currículo (eu me encaixava), sendo que muitas camadas da minoria não chegam nem na universidade.

 

Apesar de branco ter suas dificuldades financeiras, não há empecilho algum para branco conseguir todos os empregos e atingir crescimento profissional. Ainda mais daqueles relâmpago.

 

Não podemos dizer o mesmo de quem é negro, até aquele que tem mais poder aquisitivo.

 

O que confronta uma Kat que contou com privilégios dos pais para focar só no trabalho.

 

Lembrete que me faz enfatizar um pedaço da trama que quase passou despercebido: Kat endereçar o anterior desconforto sobre sua negritude. No 2×02, ficou claro os motivos dela não querer ser “a garota negra do ambiente”, porém, não queria dizer que ela não sentia. Um sentimento que pode ter soado novo, mas fez seu completo sentido se recordarmos da dificuldade dela em marcar sua raça – porque seria como escolher entre o pai e a mãe, não por algo intrinsecamente social.

 

Outro lembrete que me fez agradecer Jane por não deixar morrer o que criou uma pulga atrás da minha orelha: como assim Kat chama a atenção sobre diversidade sendo que teve uma vida privilegiada e descobriu ontem o peso de ser negra? Com esse comentário, se encerrou qualquer chance de furo no desenvolvimento. Sério, eu quero dar um beijo nas roteiristas deste episódio. Posso dizer que o texto foi bem didático porque até o mais leigo quanto aos seus privilégios pôde se achar.

 

Foi incrível ver Kat retornar às suas raízes, também engatadas na S1, ao ir atrás de realizar uma diferença dentro da Scarlet e confrontar o conselho em nome dos velhos tempos para obter o seu desejo de ser uma ótima chefe para uma nova assistente. Fiquei sem palavras com essa amarração que circundou a personagem e que entregou o famigerado episódio redondinho. Sem ponta frouxa.

 

Resgates de storylines absurdamente quistos dentro da premissa de privilégio. Com Angie, se enfatizou ainda mais as linhas que separam uma pessoa da minoria a uma trajetória que visa crescimento interpessoal e profissional. Pesa-se a necessidade de graduação. De se ter mil e um cursos no currículo que, nem sempre, significam que uma pessoa é boa no que faz. Às vezes, é só acúmulo de informações em um papel, mas que, infelizmente, ainda são capazes de inferiorizar aqueles que realmente possuem plena capacidade de atuar em um ramo com determinada paixão. Sem realmente precisar de uma graduação que, às vezes, não significa nada.

 

The Bold Type 2x05 - Angie

 

Angie se saiu como uma nova Jane, mas mais pelo pressuposto de amar a Scarlet. Foi ótimo sentir a essência da revista, apresentada no Piloto, de volta. Com direito a uma intercalada da entrevista dela com a de Sloan que mostrou a diversidade ao mesmo tempo que se frisava que ambas possuem o mesmo intento. Elas querem agregar a algo maior que elas, embora uma tenha o privilégio de conseguir com mais facilidade e a outra não. Tudo graças à formação acadêmica (e sua exigência para se ter jobs de qualidade), pauta usada para ilustrar a premissa desta semana.

 

Pessoas com a realidade de Angie confrontam diariamente vagas absurdas. No espírito de buscar algo melhor para si, o espírito é esmagado com extrema frequência nesse processo. É uma realidade grotesca e dolorosa, e o roteiro foi inteligente ao pegar o deslize de Jane e usá-lo de lição/reforço ao call out de Kat que rumou para a inserção deveras benéfica de quem se tornou sua assistente. Em vez de abrir uma segunda discussão, visto que Sloan já segurava essa bronca, o texto preferiu explorar o cenário do dia na Scarlet e assim arremessar na nossa face o quanto o privilégio branco é parte da redoma que impede a minoria de chegar a cargos influentes.

 

Um viés que me deu um chacoalhão da pesada. The Bold Type me fez checar meu privilégio novamente tão quanto revisá-lo. Por impulsionar isso em mim, não tenho nada a dizer a não ser agradecer.

 

O que me faz voltar brevemente em Jane que me trouxe muita identificação profissional novamente. Como já contei aqui para vocês, eu posso sair do emprego agora e terei backup. Meu privilégio e terei esse privilégio até quando me for possível. Sloan tem esse apoio de fundo enquanto Angie tem que se virar para ter um salário no final do mês de qualquer jeito.

 

Como Jane, eu não queria ser freela. Nem muito menos PJ. E era só o que tinha em 2016 (e não sei como está agora porque tenho emprego). O que mostra que minha escolha em protelar certas entrevistas também é um privilégio. Eu posso escolher, até onde me for possível, se quero trabalhar em lugar X na sequência do meu recrutamento.

 

Relato que traz a minha verdade, a verdade de Jane e a verdade de Angie. Eu fiquei mal por não ter um emprego e ninguém perguntou exatamente como eu me sentia. Como é estar desse jeito. Outro ponto que os roteiristas trouxeram muito bem, expelindo a importância de indagar o que se passa do outro lado. Independentemente se o assunto que motivou o conflito for diversidade. No meu caso, tive líderes de torcida e tudo bem. Eu precisava desse sistema de suporte e sou muito grata de verdade, mas, na contramão, eu fui consumida pelo que considerei uma falha de caráter e não havia com quem conversar sobre isso sem me sentir envergonhada. Meio humilhada (até escrever um post sobre e, pela Deusa, deveria dar de roteiro para esta série).

 

Jane e Angie possuem realidades diferentes, mas a dita falha de caráter estava presente nas duas. Uma ainda tem o privilégio de escolher para onde vai, apesar da grana curta, e a outra tem que trabalhar e ponto. Muita gente da minoria não pode se dar ao luxo do desemprego porque são os últimos a ser contratados ou, simplesmente, não são contratados. Justamente por não ter acesso ao privilégio branco.

 

The Bold Type 2x05 - Angie

 

Angie cai no bico de sinuca de não ter opção. E empresas grandes não lhe dão abertura por motivos de ausência de formação. Além disso, porque pessoas brancas assumem esses cargos de poder e contratam seus iguais o tempo todo.

 

Trazendo para o BR, nossos pais sempre frisam/frisaram que estudo é importante para não se trabalhar com “qualquer coisa”. Desde novos, ouvimos que trabalhar no McDonald’s, por exemplo, é vergonhoso sendo que é um trabalho. Essa é a voz do privilégio branco em sua maioria que diz que “só é gente” quem pertence a uma empresa de renome com cargo de renome. E o que todo mundo faz? Vai atrás desses cargos e nem todos conseguem.

 

Um todos em que sua maioria é a minoria.

 

Angie pode não ter expressado tanto seu sentimento quanto ao seu job, mas seu descontentamento estava claríssimo. Tão quanto o agridoce do sonho que soa inalcançável por não ter a formação dita imprescindível. E muitas jovens estão nesses sapatos porque, diariamente, empresas dizem quem é bom o bastante. Tudo mensurado na universidade que você se formou (e tem esse preconceito viu?) ou no que existe no currículo. Às vezes, não tem como competir com algo extremamente pronto. Inquebrável. E Kat fez o milagre acontecer.

 

Senti-me quase equiparente à Angie, mas eternamente muito distante. É impossível ser uma profissional melhor e mais apta sem oportunidade. Isso reflete no financeiro porque não tem como se aprimorar sem trabalho. Nem todas as pessoas vem de berço. É impossível crescer quando o padrão de formação, que é acessível para a maioria branca, é a rota dos recrutadores. Se você não tem um plus no currículo, basicamente o problema é seu – o que ilustra também a suposta falta de interesse.

 

Nem mesmo a turma do RH indaga quais são suas dificuldades para se não ter X. Particularmente, acho inaceitável porque seguimos com vários estereótipos que existem ao redor do alguém desempregado – que pesa mais na minoria. Isso é injusto e desigual demais!

 

E daí voltamos para Kat. A mulher que quis derrubar um padrão de recrutamento e conseguiu com extremo sucesso. É preciso pressionar e isso vem de quem tem influência. Inclusive, de quem se preocupa em diversificar e abrir a porta para as minorias. Juro que não dói!

 

Eu entendo Jane. Eu entendo Kat. Eu entendo Angie. Mas meu sentir quanto a essas últimas personagens nunca será equivalente. Nem muito menos o que experiencio. Porém o desenvolvimento Kat/Angie foi extremamente relacionável. Vi-me nessas questões, eliminando um pouco o viés de raça e de representatividade, pois não considero faculdade como a cereja do currículo.

 

Eliminando um pouco o viés de raça e de representatividade mais uma vez, eu nunca fui privilegiada na questão financeira e sempre tive que escolher o que está de acordo com meu bolso. A faculdade em si me trouxe muito complexo de inferioridade porque não era a dita conceitual. A respeitada no mercado. O mimo dos recrutadores. Ao longo dessa jornada, eu aprendi a ver que essa formação não diz nada sobre ninguém. E que não deve definir ninguém seja em ambiente corporativo ou não.

 

The Bold Type 2x05 - privilégio

 

Minha consciência sobre privilégio branco se deu quando fiz um teste do BuzzFeed. Parece recente, mas o fiz em 2015, inspirada em um tema de encontro que elaborei para o I Am That Girl (privilégio). Ainda há muitas arestas a serem aparadas, mas, no passado, dei a mínima para essa tal diversidade. Hoje, eu tenho um olhar um tantinho mais perspicaz e, sempre que tenho chance, cutuco na firma. Infelizmente, não verei mudança por lá.

 

Até porque não tenho cargo de poder. O que não deveria ser um problema, mas temos a hierarquia. Por eu constar na mais baixa, minha voz não é muito interessante em ser ouvida.

 

A real é que, quando você descobre que até sua religião é um privilégio, muito dos arredores se alteram. Basta se permitir. Um exercício muito simples, que chegou a ser mencionado por Kat neste episódio, é chegar na firma e contar os brancos. Onde trabalho só há um negro.

 

Antes de bater meu privilégio, meu desemprego engatilhou um comportamento que, agora, defino como de garota com graves white people problems. O dinheiro me faltou, mas nunca me faltou backup. Eu ainda conseguia sair, por exemplo, bastando apenas a consciência de não gastar muito (porque minha mãe me ajudou em todas essas fases). Mesmo desempregada, eu não sofria com a falta de dinheiro, porém, eu estava desesperada em ter minha independência financeira de volta.

 

Eu resmunguei sobre freela e recusei vários contratos PJ, sendo que há pessoas na mesma área que eu que trabalham assim. Por vezes, sem opção também. Pela falta de resposta no antro Jornalismo, mandei currículo para vários lugares (vamos tentar ser teacher de inglês?). Todos sem resposta. O que me fez crer que havia algo de muito errado comigo e isso me destruiu. Eu comecei a não ver futuro para mim, especialmente porque meu currículo tinha parado no tempo. Um argumento que ainda soa privilegiado, eu sei, mas faço referência, muito brevemente, ao impacto de ser julgada por um pedaço de papel. As ditas oportunidades boas não me escolhiam.

 

“Boas” que exigiam a regulação do rim de experiência.

 

Jane foi muito mais estourada que eu apesar de toda uma identificação que remeteu ao meu passado sem conhecimento dos meus privilégios. Sei que destrinchei toda a causa dela de agir como vem agindo, mas, com um olhar mais frio, suas roupas é um sinal indireto de que não existe um real problema de grana. Se existisse, ela já teria começado a trabalhar na cafeteira que bate cartão.

 

E vamos pensar na questão do aluguel que atormentou Sutton na temporada passada, por medo de ficar desempregada. Jane nem sequer chegou a refletir sobre isso porque está muito bitolada em seu eu. O que a faz tremendamente mimada quando é evidente que ela não passa nenhuma necessidade urgente. Angie estava ali o tempo todo contrastando Sloan. O que apaga a sensação de que os roteiristas meio que comeram bola no posicionamento de Tiny Jane vs. desemprego. Não é só sobre colocar o mesmo moletom e se sentir na derrota eterna, embora isso seja um padrão de série.

 

Há uma outra verdade nesse âmbito corporativo e que merece ser mencionada. Pessoas brancas podem nem ter metade do que consta em seus currículos (porque muitos mentem na tentativa de passarem à frente), mas entram em outro quesito do privilégio: elas são as ditas mais passíveis de aprender. Eu não sei como isso transcorre entre as minorias que buscam as vagas de Jornalismo, por exemplo, mas sei que, como uma pessoa branca, sempre rola um jeitinho. Um jeitinho que vira e mexe é abalado porque o homem branco é a preferência 100%.

 

Em suma, o patriarcado atrelado ao privilégio branco ferra com geral. Afinal, mulheres também são tratadas como uma minoria e a realidade da mulher ainda vem como peso extra (exemplo: se é solteira ou tem filhos, como se isso definisse sua aptidão e seu caráter).

 

The Bold Type 2x05 - Kat e Angie

 

The Bold Type me faz ser uma humana repetitiva e aqui vai de novo: a maioria das tramas desta série tem sua intenção. Aqui não foi diferente e funcionou mil vezes melhor que a pegada body positivity. Deram tom de passagem de tempo de semanas, o que me deixou mais confortável em aceitar essa abordagem que, a princípio, me pareceu carta coringa do desespero. Foi um ponto de alívio e de oportunidade para Kat ter se educado ao longo do período em que se deu o 2×02. Um tempo não visto, mas sentido no impacto da sua fala neste episódio.

 

Foi uma conversa necessária que casou com o ponto de desenvolvimento dessas personagens. Foi maravilhoso acompanhar Kat que não deu uma de arrogante para cima de Jane porque ela agora tem consciência dos seus privilégios e quer aplicá-los de maneira que beneficie a sua e outras comunidades não-brancas. A segunda troca delas neste episódio foi a mais pertinente porque Edison reconheceu que até ontem não tinha noção do quanto as minorias sofrem e pontuou que a diferença vem ao se estar disposta a aprender.

 

Kat não tinha nem noção do quanto o ambiente corporativo é extremamente branco e que ela se deu bem sumariamente por causa do seu privilégio familiar. Os pais dela são bem posicionados socialmente e ela nunca teve dificuldade em se esticar ao longo da Scarlet. Aos poucos, Edison desperta para sua realidade e o que ganhamos a partir daí é puríssimo talento.

 

Houve certo aprofundamento sobre a sua representatividade dentro da revista, que é deveras influente, e o quanto essa mesma representatividade é necessária em mais âmbitos. Outra promessa de desenvolvimento que tem sido cumprida nesta temporada de The Bold Type, com o intuito de inspirar a tríade a reencontrar suas verdadeiras posições em uma NY que não para.

 

Essa personagem tem um cargo de chefia e tal reconhecimento a inspirou nos dizeres que concluíram perfeitamente este episódio: fazer melhor. Algo que foi lindíssimo de se ouvir na sua conversa com Jane. Uma consciência natural que entregou a cereja desta temporada de The Bold Type. Não apenas em atitude, mas em escrita. Foi um complemento para que esse viés de desenvolvimento não se perdesse e que não fosse motivado pela “necessidade” de aceleramento.

 

Ao longo deste episódio, ela foi uma baita mentora. Deu apoio. Educou. Não menos importante, se mostrou como um espaço seguro para Jane entender seu privilégio. Essa personagem ainda é e se vê como uma pessoa em progresso quanto à sua raça e seus mimos. Como todos nós. Kat mostrou que quer fazer melhor dentro do seu privilégio e é este comportamento que deve ser tomado por quem se beneficia de privilégios. Ela quer dar mais oportunidades e quer ser exemplo. Justíssimo!

 

Reconhecer esses fatores dentro do privilégio não vem do dia para a noite. O episódio assentou isso e fez aceitável o posicionamento “súbito” de Kat visto que a promo empurrou um comportamento que vem com estudo, para assim se desconstruir, e com convívio/atenção às minorias. Agradeço as envolvidas!

 

The Bold Type 2x05 - Jane e Kat

 

Apesar do debate sobre privilégio, destacarei o que eu realmente vi neste episódio: feminismo interseccional. Em um modo bem The Bold Type, claro, furtivamente, mas na caruda. Kat uniu as tribos, ao contrário do que algumas mulheres brancas ainda fazem com seu poder e sua influência. Como ainda escalar um elenco 100% branco (é com você mesma que estou falando Greta!).

 

Este episódio foi puramente sobre interseccionalidade e é aqui que deixo minhas estrelas. Kat ajudou Jane, Jane ajudou Kat, Kat ajudou Angie, Jacqueline ajudou Kat. As pessoas brancas se dobraram para beneficiar a storyline de Edison e é esse o feminismo que me importa. Empoderamento para todos os grupos. The Bold Type limpou o feminismo branco esta semana com louvor e merece vários bolos de chocolate do universo. A série pode ter falhado em pequenas causas, mas no feminismo, no empoderamento e na sororidade, a ducha segue muito bem dada.

 

A soma que não tem dado erro e que tem fortalecido a credibilidade da série.

 

E que me faz resgatar o season finale da S1. De compartilhar o peso também podemos compartilhar privilégios. Podemos dar espaço a quem não tem voz. Angie poderia ser uma influente, mas, na guerra do corporativo, ela é apenas uma criança da geração Y extremamente preguiçosa e que acha que ganhará a vida só com a internet. Eu já fiz esse infeliz comentário.

 

Além de checar o privilégio, um simples olhar interseccional pode mudar tudo. Jane é feminista branca, assim como Sutton, assim como foi Kat. Juntas, elas podem vocalizar a mudança em várias vertentes se assim quiserem e o pontapé para essa mudança aconteceu graças à inserção de Angie – seguida de sua contratação. A novata trouxe aquele olhar raro, mas peculiar, sobre o quanto o mundo corporativo não muda. Reluta na hora de mudar. Nem quando se tem uma Jacqueline.

 

Isso porque The Bold Type ainda dá muito crédito à Jacqueline. A realidade tende a ser outra.

 

O que fez da presença de Richard extremamente importante neste ponto de virada. Ele tem a mente aberta e influência. O personagem se saiu como o homem aliado da vez, um posicionamento igualmente importante quando conversamos sobre esses tópicos. É sempre maravilhoso acompanhar esses instantes de parceiragem entre mulheres e homens nesta série.

 

Esse reconhecimento de privilégio mútuo reforçou o papel de Angie que não pertence a esse universo. Foi impossível não torcer para que mais um pedaço do teto de vidro da Scarlet se quebrasse e, quando isso ocorreu, dei um grito. Bom demais ver Jacqueline sendo o apoio de novo, inspirando aquela que, certa vez, disse que só queria ser uma boa chefe/mentora.

 

Kat o mundo é teu!

 

Fiquei abismadíssima como esse assunto cresceu. Trouxe muita pertinência em pouco espaço de tempo. Seria um sonho se houvesse mais diversidade e intenção de diversificar nas empresas.

 

A união de Jane e de Kat fez a diferença em uma nova semana que fez pensar. Que tratou uma pauta que nem todo mundo tem peito para refletir porque requer um olhar para dentro. O resultado? Precisamos melhorar. Precisamos ser muito mais que nossos privilégios.

 

Precisamos olhar para dentro. Urgentemente.

 

Outros comentários

 

The Bold Type 2x05 - Sutton

 

The Bold Type não trouxe casos isolados esta semana e este pedaço da resenha é dedicado a Sutton. Honestamente, não tenho muito o que falar dessa personagem, porém, foi igualmente incrível como trataram o assunto traição. Um assunto que, no mundo feminino internalizado pelo machismo, é motivo para se sair nos tapas com outra mulher gratuitamente.

 

E eis outro ponto que The Bold Type mostrou sua diferença.

 

Por estar tão acostumada em vivenciar o fato de que a mulher é a única culpada pela traição e que o homem merece ser exonerado por “tamanha sedução”, a série entregou mais um exemplo positivo de como lidar com um drama que sempre coloca uma mulher contra a outra – e que séries seguem se usando de artifício de conflito e que compete com o triângulo amoroso. Sutton e Allison se enxergaram verdadeiramente e discutiram um impasse tão comum com extrema maturidade.

 

Quando é que pensamos em desejar o bem a quem aprendemos desde cedo que é nossa inimiga?

 

Quase nunca, né?

 

Rivalidade é intrinsecamente ligada às relações femininas. Em qualquer lugar em que elas estejam. Somos educadas a chamar a atenção dos homens e brigamos entre si por causa desse homem. Um pequenino exemplo que a série não quis usar. Agradeço de novo às envolvidas!

 

Sutton foi muito madura em querer deixar tudo às claras sobre o boy lixo que se envolveu. Um jogo arriscado visto que o machismo internalizado existe em várias mulheres e essas várias mulheres demonizariam essa personagem. Não são todas que recebem tal convite na melhor das intenções. Foi mais um fragmento de fantasia, muito distante de mim que ainda vê mulher xingando a outra de v***, mas igualmente pertinente. Deveríamos ouvir mais e atacar menos. Fazer o exercício da sororidade até mesmo quando não curtimos a colega.

 

Ai, eu sou muito sororidade whore, me deixem em paz! Meramente porque eu abracei a rivalidade feminina por muitos anos e me recuso, na medida do possível, reavivar essa chama maligna dentro de mim.

 

É um prazer e uma nhaca quando você se desconstrói e vê a colega ao lado “diferente” devido ao reflexo desse machismo. Porém, é importante dizer que, assim como o comportamento de Jane sobre diversidade, somos falhas em respeitarmos as colegas. Mesmo que tenhamos um nível Kat de conhecimento sobre sisterhood, somos passíveis de retornar ao que o patriarcado nos impôs.

 

Podemos nos esquecer do nosso privilégio no calor do momento. Da importância da diversidade que se aproxima da escolha em ser cruel com outra mulher. Contrapostos que The Bold Type tem trabalhado muito bem ao longo da S2, entregando roteiros com várias morais.

 

Aqui temos um fim saudável sobre o efeito traição. Chega de colocar tudo na conta da mulher – e quis morrer com esse mané chamando Sutton de stalker, não aguento mais macho embuste!

 

O posicionamento de Sutton nesta temporada, que inclui o famigerado slut-shaming, combate esse machismo internalizado da mulher. Aqui é outro exemplo de que podemos ser melhores. Não colocar outra mulher para baixo. É uma situação dolorida, que come o juízo e altera nosso critério dependendo do impacto. Ainda assim, é importante encontrar a calmaria para se pensar racionalmente.

 

Na traição, a vontade é sair arrancando cabelos, mas, se for possível, sejamos mais Sutton. É arriscado demais, sem dúvidas, mas você assume (ou não) o erro e abre para o aprendizado de ambas as partes. Principalmente se você for feminista, o que ajuda a desconstruir a outra mana. É uma situação complexa porque ninguém quer ser traída e na descoberta da traição queremos perseguir os causantes, mas palavras e atitudes têm poder.

 

Acho que nem preciso dizer nada sobre Suttard, né? Dói demais a angústia desses dois e apenas peço que continuem porque sou angústia sucker.

 

Mas… Eu tenho um grande mas! Em comparação à temporada passada, Sutton tem contado com baixíssimas storylines pertinentes. Tudo que tem rolado agora não faz muito sentido. Sem contar que andam centralizando em excesso essa personagem em relacionamentos. Nem posso criticar muito porque, na temporada passada, essa jovem afirmou que queria que tudo desse certo com Richard. E ela foi atrás daquilo que seu coração ainda quer. Porém, a little bit late.

 

Mas… E sua carreira? Cadê minha Nora Ephron?

 

Espero que Sutton tenha mais conteúdo além dos namoricos passageiros. Fiquei contente ao ouvi-la comentar sobre a mãe e o peso dos péssimos relacionamentos, e mal posso esperar para a girl trip prometida para esta temporada e que centralizará essa preciosa.

 

Lição da semana: você é mais que seu currículo

 

The Bold Type 2x05 - Kat e Angie

 

Escolhi tirar esse papo de currículo como a moral em destaque (e eu já comentei demais sobre privilégio lá em cima, socorro!). A partir daqui, falarei de um modo mais geral.

 

O racismo em ambiente corporativo existe. Por vezes, veladíssimo. A Scarlet inteira é branca e, não muito recentemente, chamei a atenção sobre a baixa diversidade da série (ter só alguns negros não me deixa contente). A contratação de Cleo provocou uma chateação, nem pelo que ela representa, mas por ser uma nova mulher branca que respinga o biótipo de Jacqueline – mesmo sendo ótimo Cleo ter pensamento oposto ao de Jacqueline.

 

A chegada de Angie foi um frescor danado e fiquei desesperada em meu canto para que tudo desse certo. Não apenas pela cláusula em questão, mas porque ela deu uma nuance a mais quanto à diversidade de The Bold Type. Inclusive, trouxe uma trajetória diferente, que me deixou extremamente emocionada. Como disse, eu me identifiquei no quesito de menos coisa no currículo, mais você é dita incapaz. Eu acredito que graduação não garante muita coisa. Não atualmente. Pode até dar mais chances, mas não torna ninguém mais especial.

 

(mas dentro do privilégio branco faculdade faz alguém mais especial).

 

Ver Edison batalhar por Angie me deu esperança, mesmo que seja uma parte da ficção muito sonho de princesa – e queria que começasse a ocorrer a torto e a direito na realidade. Digo isso por conhecer pessoas que são muito talentosas e que não precisam do peso universitário no currículo. Infelizmente, se graduar ainda é uma cobrança, enfiada na nossa goela desde muito cedo, e nos estabanamos sem critério algum para obter o que pode nem ser o que a gente quer no final das contas.

 

Não apoio mesmo crianças entrando na faculdade aos 18 anos. A não ser que se realmente queira.

 

Tirando todo o privilégio de cena, as pessoas são mensuradas por um pedaço de papel. Uma burocracia chamada de apresentação sobre você e seus feitos. Eu não tenho um currículo recheado e cheguei a fazer uns poucos cursos na tentativa de mudar de área no meu emprego passado. Algo que não aconteceu e carrego comigo duas causas: 1. o chefe não queria se dar ao trabalho de contratar outra redatora sendo que só tinha eu e eu manjava de tudo e 2. porque a área que eu queria migrar era uma patota masculina. Ou poderia ser simplesmente os dois. Eu fui atrás, mas não me deram chance. E, mesmo com esses cursos, continuei sendo recusada quando tentei voltar ao mercado.

 

Hoje, esses cursos não valem nada porque você precisa manter a constância de atualização. E como manter essa constância quando a oportunidade que você depende financeiramente não vem?

 

Um exemplo que mostra outra camada desse ambiente corporativo que chega a nem dar chance a quem já está dentro de casa. Minorias passam mais por isso que uma pessoa branca, mas acontece. É da empresa, seja por preguiça de contratar gente nova. Seja por ser uma patota. Seja porque prefere contratar o mesmo tipo de pessoa para manter o mencionado padrão. Fatores que igualmente aniquilam o espírito e a visão de um futuro melhor.

 

Se você estiver infeliz onde está, bem, meio mundo segue o baile até partir de você a decisão de cair fora. Além do mais, há medo de demissão caso você vocalize suas insatisfações. Assim, nos acomodamos e as empresas agradecem porque não querem liberar o FGTS. Uma palhaçada!

 

The Bold Type 2x05 - Tiny Jane

 

Quem passa por uma dessas fica como Jane. Na zona da amargura. Principalmente quando se há consciência de que somos bons. Que temos talento. Só que nada disso confronta a série de emperramentos que nos impede de existir profissionalmente muito além desse papel das trevas. Apesar de haver a campanha de ser quem somos, currículos, por exemplo, dizem que não. Currículos apontam que não interessa quanto de bagagem você tem por conta, pois é o que consta nele que definirá seu valor.

 

Vide a tal de exigência de ter todos os cursos da Adobe em fase de estágio, por exemplo. É absurdo demais! Mas tem sem noção que exige isso e chamam de interesse de se manter atualizado.

 

E é difícil se manter atualizado quando não dão chance no mercado, né mesmo?

 

Várias vagas são pensadas para o padrão e é o padrão que é contratado. O de grandes universidades, branca, com dinheiro para fazer cursos extras (e todos tendem a ser no mesmo lugar), com intercâmbio e pipipopopo. Ok. É um combo importante, mas não deveria ser âncora para inferiorização. Fato que fez todos os comportamentos de Kat neste episódio on point. O que ela viu nos currículos, muitos outros veem. A diferença é que não há uma reflexão, como essa personagem sabiamente fez e nos deixou um rastro de aprendizado.

 

Angie caiu no julgamento a base do currículo e está aí algo doloroso para todo mundo, diferindo a intensidade e a realidade da pessoa. Quanto menos você tem, mais incapaz você é. Essa personagem não tem graduação, o que, automaticamente, a tornou a pessoa mais inútil do universo. Com a sua influência na internet, puff!, mais motivo para botá-la para baixo. Sendo que ela tem aspirações, cultivou uma comunidade online que chama de casa, tem a mente aberta e um valor pessoal que agregaria em espaços corporativos (principalmente os preconceituosos). Na real, currículo não diz nada sobre quem você é.

 

Mas ainda diz e é uma realidade que machuca, especialmente quando você sabe que pode ir muito mais além dessa linha corporativa. Porém, o corporativo quer nem saber. E o que sobra é sofrimento.

 

Sofrimento por você não saber como sair dessa. Sofrimento por você se sentir nada bem-sucedida. Sofrimento porque você não atende uma determinada expectativa. Sofrimento porque você não tem acesso ao que é preciso para conquistar um cargo melhor. É um fucking pesadelo!

 

Faculdade não faz de ninguém melhor, mas ouvimos que sim desde fins do ensino médio (e até antes dependendo da família). É algo que é cultivado como único meio de sermos bem-sucedidos e completos. Hoje, eu discordo totalmente, mas não nego que é uma formação importante. É um caminho para se especializar na área de interesse – uma vantagem para se competir no mercado. É uma aptidão a mais, porém, não deveria ser a definidora de quem é mais capaz.

 

Tem tanta gente que se forma e segue sendo um embuste, né?

 

O corporativo apenas quer a pessoa no formato da caixa e não quem realmente inspira o ambiente. Eu vivi em vários ambientes assim em que o vício do chefe era basicamente contratar o mesmo tipo de pessoa para o mesmo posto (ou não contratar ninguém). Parece algo como carma, mas é tino mesmo de querer manter as coisas como estão. Sem “arriscar” muito. É seguro. É ok.

 

Eu senti na pele o quanto essa quantidade de tópicos exigidos para você ser escolhida/o para uma vaga engatilha uma inferioridade que pode te comer viva. É algo assim universal e, de novo, se altera em intensidade, em urgência, em necessidade e em realidades. Eu passei por isso ao longo de 2016 porque eu não descolava emprego (e foi o auge da crise no Brasil). No desespero e crente da minha incapacidade, foi difícil enxergar todo o cenário e, de quebra, me dar conta do meu privilégio. Eu não vi que ainda estava segura, mesmo sem independência financeira. É tenso sentir todas essas coisas e não encontrar a nesga de gratidão. Jane não demonstrou gratidão e pecou seriamente aí.

 

E já pequei muitas vezes por achar que o mundo me devia certa prioridade.

 

Há a verdade de que muitas pessoas não entendem o desemprego. Não entendem o impacto negativo que isso pode criar dentro de uma pessoa, independentemente da sua realidade. Às vezes, a pessoa não está desempregada ou em “qualquer emprego” porque é preguiçosa. Apenas, foi o que a vida deu no momento. Pessoas caem em depressão pela falta de trabalho e se dobram em vinte quando um único trabalho não é o suficiente. Elas podem ser as pessoas mais capazes do mundo, podem ser uma seleção de Angies, mas o mundo corporativo quer destaque em papel.

 

(e digo papel porque sou a criança dos anos 90, me deixem).

 

Angie combateu sua treva ao se posicionar com paixão diante de quem manda na Scarlet. Não seria lindo se todo mundo pudesse se expressar assim? Mostrar-se além do currículo? A personagem se expôs diante do conselho mumificado da revista, composto por homem branco e privilegiado, e isso me deixou emocionada porque eu acredito nesse poder. Eu acredito que você pode dar mais em amor ao que faz e não em cursos adquiridos em um mês.

 

Kat trouxe tanta verdade sobre contratação que me faltam palavras porque é este outro ponto que abraço genuinamente. Acredito em qualidade e não em quantidade. Em emoção e não na expressão metódica da vida.

 

As empresas, dominadas em maioria por homens brancos, parecem não entender que sem oportunidade as pessoas simplesmente não conseguirão fazer todos os cursos da Adobe. O que faz dessas mesmas vagas privilegiadas, algo muito bem pontuado por Kat. Qual estagiário tem dinheiro para mil e um cursos? Apenas o rico.

 

Dinheiro é uma forma de privilégio, mas não o cerne total do privilégio. The Bold Type não se esqueceu desse ponto também e o cedeu na voz de Kat, que mencionou a distinção econômica que separa Angie de uma boa oportunidade profissional. Que separa uma Jane de uma Angie. Dinheiro também é o que separa a minoria mais carente de ocupar vagas que caem nas mãos das pessoas brancas ditas mais preparadas – quando, às vezes, a pessoa só tinha como pagar um curso (o que não quer dizer nada em talento).

 

Angie é uma personagem que trouxe consciência sobre habilidades e capacidades fora da linha do tempo que é determinada para nós desde a infância. Ela é a bola fora da curva. Uma belíssima bola fora da curva que tem muita vida dentro de si, além de interesse para ir adiante. Ainda vivemos em uma imensa discrepância social e econômica, e, se temos chance, devemos ser melhores. Se temos chance, devemos ser como Kat e abrir esse espaço de fala que segue extremamente apertado.

 

The Bold Type 2x05 - Angie

 

Angie expressou uma angústia da geração Y que também é muito da geração X. No caso, o desejo de trabalhar naquilo que amamos e assim libertar a nossa verdadeira voz. De não querer ficar por tanto tempo no mesmo emprego e/ou batalhar para ser nossos próprios patrões. Essa personagem ditou que sempre quis fazer parte da Scarlet, a revista que é a dita irmã mais velha, mas nunca houve chance. Seu sonho acabou sendo esmagado pelo social, pelo monetário e pelo corporativo. Pontos que formam a tríade do privilégio, sendo seu cerne a opressão que as minorias enfrentam.

 

Minha geração é a X e muitas pessoas que são dela não se encontram ou não se encontraram. Eu mesma não me encontrei, muito embora eu tenha uma ideia muito esclarecida do que eu quero fazer. Nós ouvimos desde muito cedo que um bom perfil profissional se nasce com mil anos de firma e não queremos passar anos luz na firma – a não ser que ela seja exatamente o que buscamos. Enquanto não nos encontramos, vem a angústia e a impressão de que somos um grupo sem ambição.

 

Como a Y que quer fazer vida na internet, por exemplo. Quem prefere isso a estudar?

 

As coisas mudam demais de uma geração à outra, como o aumento da rotatividade nas empresas e a troca constante de curso na universidade. Os picos X e Y se unem no desejo de querer pertencer. De querer fazer a diferença. De querer ser ouvido. De querer ser relevante. Não queremos apenas trabalhar, mas construir um mundo que traga nossa completude. Não queremos embarcar na visão dos nossos pais em viver engessados quando somos humanamente exploradores.

 

Eu mesma já resmunguei sobre alguns pontos da geração Y sendo que a X não se distancia da angústia pontuada por Angie. Sempre terá o comentário debochado sobre mais um querendo ser a voz e pipipopopo, quando esse sentimento é muito verdadeiro. É o que nos tira o sono, dispara a ansiedade e, se bobear, deprime. Não queremos ser limitados por um pedaço de papel porque almejamos grandeza dentro daquilo que dominamos em essência. Somos relutantes, resmungões e etc. porque, para nós, trabalhar por trabalhar não faz o menor sentido. Tem que ter propósito.

 

Mas trabalhamos. Provavelmente, infelizes com o posto, mas trabalhamos. Precisamos ceder porque precisamos sobreviver. Cedemos a uma vivência sem muita cor enquanto cavucamos a nossa fuga desse looping em busca de algo muito maior que a gente. No caso, aquilo que nascemos para fazer.

 

Por mais que essa storyline de Kat seja fantasiosa para a realidade – e digo isso por nunca ter visto nada parecido na minha realidade –, toda essa proposta de The Bold Type se saiu muito brutal para mim. Angie realmente me tirou do cerne não apenas pela sua paixão, mas pelo seu discurso. Uma narrativa que pareceu a história da minha vida. Jamais pensei que um dia daria de cara com um conteúdo que me contaria que graduação não faz uma pessoa. Que há muito além da graduação a se oferecer.

 

Não se tratou de um conselho sobre largar a faculdade, mas de transformar seu meio enquanto sua oportunidade de ouro não chega. Criar aquilo que você acredita enquanto as portas não se abrem ou se criam por sua conta e risco. Angie criou seu espaço e foi por intermédio desse espaço que Kat a viu. Junção que trouxe outro maravilhoso sucesso: Edison se sair como a mentora que almejou ser.

 

The Bold Type 2x05 - Kat

 

Mentor é uma palavra que se associa a esses ambientes corporativos, sendo que podemos ser mentores por conta. Podemos ajudar as pessoas a seguir esboçando seus talentos. Há tanto trabalho independente, por exemplo, que não custa nada investir se você realmente curtir. Há tantos meios de realmente ajudar, bastando um RT ou encaminhando uma mensagem de elogio.

 

Hoje, eu conto com uma mentora muito importante no trabalho. É a primeira vez que tenho o apoio de uma mulher que não quer meu mal. Conversamos sobre praticamente tudo e dividimos várias experiências que foram definidoras para nossas vidas. Ela é linda. Minha própria Jacqueline Carlyle (meramente porque a linda é um tantinho mais velha que eu e loiríssima). Ela faz o que reais mentores fazem: pergunta se está bem, tem interesse, quer ajudar. Não precisamos agir assim somente na firma porque sempre há alguém que só precisa daquele quique de confiança.

 

Está aí algo muito fácil de dar. Confiança. O mesmo se aplica à partilha. Jacqueline usa de toda sua experiência para inspirar suas colaboradoras. Ela sabe empoderar ao mesmo tempo que cobra.

 

Em ambientes corporativos ou não, é muito fácil ser Kat Edison. É muito fácil ser Jacqueline Carlyle. Ser mentor é o verdadeiro significado de liderança. Não custa nada e faz bem para todas as partes. Principalmente porque você tira essa burocracia curricular para destacar o real talento da pessoa. Além disso, ensinar e impulsionar a trajetória de outra pessoa.

 

Da caminhada da vergonha, The Bold Type entregou uma caminhada a se orgulhar. Um novo jus ao título, com direito a uma entrelinha sobre o tipo de vinho que Jane comprou para Kat (Rosé). Essa foi mais uma aula de reconhecimento sobre quem somos e como podemos ser a partir de determinado ponto. Neste caso, em ajudar quem não tem o mesmo privilégio que a gente. Ter um olhar mais diverso não é apenas uma necessidade, mas uma abertura para cobrir os pontos cegos sobre esse viés. Angie entrou como essa cobertura que Kat ainda não tem totalmente, frisando que, para vermos o diferente, precisamos diversificar. Precisamos ouvir quem segue esmagado lá embaixo.

 

Para mulheres, precisamos ser mais interseccionais.

 

Repetindo a receita, eis uma das tramas mais importantes de The Bold Type e que casou com duas personagens em ascensão. O tom foi certeiro, sem discrepância. Inclusive, sem truncar o roteiro para “fazer acontecer”. O posicionamento de Kat se saiu muito natural tanto por chamar a atenção de Jane, da maneira que considero a mais adequada, quanto por também reconhecer que tem suas próprias desconstruções a fazer. O resultado disso foi Angie. A maravilhosa Angie.

 

The Bold Type trouxe seu melhor episódio até então desta temporada. De novo, assistimos escolhas positivas. Manteve-se, como a praxe, a união do grupo e o grupo aprende junto. Isso toca insanamente meu coração maternal apenas para dogs. Saio daqui orgulhosa das minhas meninas – e meio OMG com a Leila, meu Deus, meu Kadena está em risco, não podicê!

 

Acho que sempre pedirei desculpa pela resenha enorme, então, desculpa. Houve muita coisa rolando neste episódio e segui escrevendo como se não houvesse amanhã. Se falhei em algum comentário, estou aqui sempre em busca de esclarecimentos e de aprendizagens.

 

PS: as meninas no karaokê, assim meu coração não sobrevive!

 

E se você tem interesse em checar seu privilégio, aqui vai um teste do BuzzFeed (em inglês). Foi esse que usei de base para o mencionado encontro do I Am That Girl: How Privileged Are You?

Stefs
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