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16/jul

Então que demos um passinho para mais da metade desta temporada de The Bold Type. Como sempre, me vi em todos os ciclos possíveis de apreensão graças às fotos promocionais deste episódio que não me pareceram nem um pouco contentes. Jane e Jacqueline não se falavam há séculos e tudo poderia rolar. Ao menos da parte de Sloan, tivemos alegria, embora sua premissa fosse pesada. Não digo o mesmo sobre Kat e Sutton, a dupla que me chateou inesperadamente.

 

Estou de testa quentíssima com o seguimento de storyline das mencionadas personagens – e dou um peso maior a que norteia Sutton. Se não fosse pelo foco em Jane, já saberia qual episódio ocuparia o primeiro lugar de ruim da temporada (um feito que seria extremamente inédito). Poderia pedir colete à prova de balas? Poderia! Não o farei porque, conforme minhas experiências produzindo resenhas, criei minha própria política de não falar mal de personagens femininas. Não é culpa delas se quem as escreve perdem um tanto a mão na hora de lhes dar aprofundamento.

 

Muito bem. Os desdobramentos desta semana funcionaram como um realinhamento do planeta Scarlet e dou um amém. Depois de eras, colocaram Jane e Jacqueline frente a frente graças à matéria escrita no season finale da 1ª temporada e o saldo foi maravilhoso. Resgataram um assunto ainda muito pertinente hoje em dia ao mesmo tempo que se preparava o salto decisório que faria Sloan retornar à revista. Um processo fluido, muito mais natural. Todinho feito por merecer.

 

Confesso que o resgate desta pauta me deixou com o coração na mão (ah, Stefs, nos conte uma novidade!) porque pensei nos piores cenários. Follow-up é sempre muito bom de se fazer, mas há certa margem de risco. O jornalista pode perder o tom atingido na primeira matéria e destroçar um trabalho que outrora estava perfeito. Por Jane ter ficado tão esbaforida com o desemprego e muito distante do texto que encerrou seu primeiro ciclo de jornada no veículo em questão, acreditei que, pela milésima vez, ela se deixaria levar pelo famoso “eu no centro”.

 

Era um risco a se temer, pois Jane não contou com nenhum jornalista acima dela durante esse follow-up. Ela não teve uma influência de peso durante o processo de escrita + edição, como rolou na primeira matéria, o que a tornou a sua própria responsável. E sabemos que essa personagem tem histórico de matérias que perderam o tato por ela mesma se achar maior que a fonte. Por ela se deixar levar demais e assim ultrapassar o ponto de vista da fonte. Nesse momento, só consegui me lembrar do fiasco da matéria da stripper, fatos reais.

 

Foi nessa tangente que meu coração tremeu porque a relação entre pupila e mentora poderia ser lançada rumo ao ralo sem ao menos desenvolver um tanto mais. E eu não estou aqui para isso.

 

Para vocês verem como minha mente é sacana: eu imaginei Jacqueline de cara com Jane sobre o follow-up e imaginei Jane trocando os pés pelas mãos ao fazer esse mesmo follow-up. Às vezes, é fácil eu me esquecer que The Bold Type preza honestidade entre as mulheres. Falta de costume que segue firmíssima e, de certa forma, é bom porque não me deixa muito cômoda. Sei que soo sempre a pessoa mais apaixonada pela série, mas é importante manter o alerta para erros.

 

The Bold Type - 2x06 - email

 

Em poucos minutos, retornamos ao clima do 1×10. Tudo graças a uma indicação que Jane recebeu plus o mencionado follow-up pedido em uma entrevista de emprego. Alegrias que coloriram o raso limbo dessa personagem e não impediram que a pauta em questão se transformasse em um grande cutucador de novas feridas sobre estupro. Dessa vez, o destaque foi para o efeito dominó em que o ato de compartilhar sua história pode dar grandes chances de outras fazerem o mesmo.

 

Com o resgatar da matéria, receio se fez presente porque o trabalho de Sloan poderia ir para qualquer canto. Traumas da pauta da Emma sim, embora fosse óbvio que a personagem jamais pecaria com seu trabalho xodó. Ela ficou extremamente focada, especialmente para não afetar o bem-estar de Jacqueline. Noção que resultou uma mudança em seu comportamento ao longo deste episódio e trouxe a real Jane Sloan.

 

A indicação teve seu peso também já que representou o palco do assunto. Um prestígio que serviu para direcionar a mesma mensagem. Jane poderia ser a estrela pelo nome, mas foram suas palavras dispostas na matéria que lhe deram o reconhecimento. Um processo que veio com um sutil sentimento de rejeição embutido, pois realmente não é fácil ter que olhar para a pessoa que você admira e recordar do toco tomado. Bom é que o sentimento não escalou, sendo minimamente expressado no final do episódio – e eu ri à beça pois eu mesma.

 

Esse combo de situações criou um encaixe certeiro para o reencontro entre Jane e Jacqueline. Sem grandes dificuldades. Uma vez juntas, a corda bamba entre acerto e erro foi lançada e não houve para onde fugir. Só restou torcer para que Sloan não se rendesse ao calor da sua emoção e acabasse negligenciando no processo as mulheres que se identificaram com a matéria.

 

E, de novo, era óbvio que Jane não deixaria isso ocorrer. Ainda mais quando tal matéria a conectou diretamente com Jacqueline. Não que ela fosse tratar tudo diferente se fosse outra mulher como sua fonte principal já que sabemos que o impasse é Sloan deixar suas emoções falarem por ela. De qualquer jeito e isso já deu ruim algumas vezes. Por isso que curti à beça o fato dela buscar alguma consultoria com sua novamente mentora. É importante essa troca, que vem sendo cada vez mais rara no jornalismo regado de fast/fake news.

 

A real é que eu tenho um apego enorme pelo season finale da S1. Eu consigo revivê-lo sem precisar reassisti-lo. A trama não trouxe um tema positivo, mas encontrei certa positividade nela. Foi uma história que me rachou em mil pedacinhos, porém, me deu esclarecimento. Despertou algo em mim e que me fez tomar providências não muito recentemente em nome do meu bem-estar.

 

E só tenho a Jacqueline Carlyle para agradecer.

 

Da busca pelo novo normal, mencionada no 1×10, aqui conquistamos a lição do quanto é importante que histórias que denunciem todo tipo de forma de violência contra a mulher venham à tona. Viés de premissa forte o bastante para eu saber que passarei os próximos dias ruminando esse follow-up porque, de novo, The Bold Type me deu um tabefe com sua precisão e sensatez. Um trabalho de expressividade emocional muito bem desenvolvido em curto tempo de episódio.

 

The Bold Type - 2x06 - Jane e Jacqueline

 

Ver Jacqueline rodeando Jane de novo, mesmo que indiretamente, representou uma preocupação também muito minha porque eu queria uma matéria tão boa quanto à outra. Sloan não tem sido uma jornalista muito confiável e não por leque de paixão. Nem por sua culpa porque a Incite não cumpriu suas promessas (que se revelaram ilusões) e a queimação na sua credibilidade a fez navegar, mesmo que temporariamente, no ramo das fofocas. Impulsividade se tornou seu nome e vê-la no processo de ser estrela não pareceu uma boa pedida. Eu super rangi os dentes com o papo de monetizar em cima da indicação, pois estava aí outro rumo que essa personagem poderia tomar aleatoriamente – e tenho certeza que Ryan daria todos os direcionamentos errados.

 

Por essas e outras que a presença de Jacqueline foi essencial. Pelos olhos dela, Jane manteve o senso. Um senso que, como já disse, duvido muito que escaparia de graça. Afinal, falamos da sua melhor matéria na Scarlet que, na minha opinião, até compete com o live do exame BRCA.

 

Inseri-la em um território conhecido não diminuiu o medo que eu senti e Jacqueline de âncora foi o suficiente para dar confiança. Para Jane relembrar sobre o que é escrever por paixão. Fazia um tempo que a personagem não desenvolvia algo que coincidisse com seus valores, o que fez desse processo uma retomada pessoal também.

 

Jane finalmente direcionou a energia estagnada para uma matéria de coração. Uma matéria que a interligou a um passado importante vivido na Scarlet. Soma que rendeu nostalgia, apesar do tema da premissa, pois parecia que o mundo da revista estava distante. Quase inalcançável do ponto de vista dessa personagem. Uma missão e um peso que resgataram a faceta que acabou esquecida nesse processo de desemprego e, claro, ao longo desta temporada – da pequenina que quer mudar o mundo com suas palavras e ter a Scarlet como o seu lar.

 

Como se fossem velhos tempos, Jane honrou uma pauta que precisa de follow-up eterno. De quebra, salientou o quanto a Scarlet/Jacqueline fizeram falta no contexto de The Bold Type. Justamente porque editora-chefe e revista representam o cerne desse universo. Quem acaba por empurrar esse leme é a própria Sloan, que não perdeu os macetes aprendidos na vida e com sua mentora.

 

Esse realinhamento entre Jane e Jacqueline tinha que ser especial e com seu impacto particular. Era para ser intimista e assim foi. Com esse ponto de vista, digo o quão inegável foi o fato de que este episódio pareceu The Bold Type da 1ª temporada. Realização que bugou meu cérebro porque eu gostei de Jane fora da revista. Sem contar que foi o método encontrado para Kat ter fala e ser propriamente desenvolvida. Inclusive, foi uma chance para conhecermos outros lugares além da Scarlet (como o apezinho Jane&Sutton).

 

Medidas de alteração que funcionaram, mas, quando parei para refletir, esse funcionar é relativo. Essa dinâmica de Jane fora da revista me fez feliz por 3 semanas porque, ao menos nesse ínterim de tempo, a personagem estava realmente focada em algo. A partir do momento que o desemprego chegou, a jovem ficou empacada e parou de trazer coisa nova – a não ser girar em um fake triângulo amoroso ocioso que ornou com um total de vários nada, sad but true.

 

Sempre defendo que The Bold Type faz algumas coisas por algum motivo. O que não me impede de torcer o nariz várias vezes e tenho experienciado isso com mais frequência nesta temporada. Só que, mais um pouco, Jane entraria em processo de saturação porque foi ficando mais evidente que não queriam explorar o real limbo do desemprego. O que é uma grande lástima – e comento isso lá embaixo.

 

Honestamente, eu não aguentava mais vê-la enfiada no café. Ainda mais na companhia de Ryan (será que tô pegando ranço de Ryan? Juro que o acho uma fofura apesar de tudo). Seja como for, o que pesou mesmo dentro de mim foi a ausência de Jacqueline. Para Jacqueline ter storyline, era preciso trazer sua pupila de volta. Você não me deixa de lado um mulherão desses. Não quando esse mesmo mulherão é a fonte de inspiração que move tudo ao seu redor.

 

Resultado: eu estou muito contente com esse retorno. Foi como emendar duas partes do coração.

 

The Bold Type - 2x06 - Ben e Jane

 

A Jane deste episódio se afastou da Jane de 5 episódios atrás com sucesso. Esta semana, a pequenina assumiu o cerne da premissa, como costumava fazer na S1, e nadou na essência que a introduziu em The Bold Type. Determinada. Cuidadosa. Atenciosa. Com o peso da pauta, também a vimos se afastando do seu costumeiro “deslize” de deixar as emoções à frente e de não abrir mão das suas próprias impressões. Sloan estava preocupada, especialmente com a outra personagem da sua matéria, ou seja, Jacqueline.

 

Ela também contou com o apoio das manas, o que resgatou o clima full sisterhood. Em vez da irresponsabilidade de sair escrevendo porque precisa de um emprego, ela escreveu com sua razão na mão. A sede de outrora cessou e trouxe uma jovem compenetrada. Com isso, se angariou vitórias graças à sua caracterização bem responsável.

 

Uma caracterização focada em não ferir os sentimentos de Jacqueline, a quem continuou a demonstrar extremo zelo conforme o desenrolar da parte 2 da matéria. De fato, a proposta não era Jane se provar para sua mentora, como bem a sinopse vendeu e motivou minha preocupação, mas escrever novamente sobre um tema de maneira que empoderasse o ciclo de novas histórias a ser compartilhadas sobre a violência contra a mulheres. Foi um desafio porque, como disse, Sloan esteve por conta em todo processo e escolheu ser firme e transparente. E isso é muito! Muito para quem só queria se provar para as editoras-chefes que surgiram até então em seu caminho.

 

Eu amei a delicadeza com que Jane tratou o assunto, tendo conhecimento do que poderia apertar em forma de pergunta e no que deveria se distanciar. Esse traço da personagem foi uma melhoria perto do final da temporada passada e acompanhamos de novo essa pequena garota alçar um voo maior que si. Como sempre quis.

 

O sucesso da sua matéria foi a pontinha de um iceberg que lhe deu de volta à consciência do que nasceu para fazer e como fazer. Jane foi profissional do início ao fim e a cereja foi Jacqueline reconhecer isso mais uma vez. Sua mentora se expressou sem interrupções, consciente de que não tinha “controle” do texto da sua outrora jornalista. Foi mais que demais Sloan compartilhar o produto final com a mulher que ainda é sua maior fonte de inspiração. Um reflexo em completude de que, apesar do receio, ela foi lá e fez. Deu seu melhor e espero feedback positivo se resgatarem esse plot.

 

Sloan andou com suas próprias pernas e colheu um imenso fruto. Considerando que Ryan a norteou pelos últimos jobs, mesmo que indiretamente, Jane Sloan ganhou o mundo por conta. Resta saber se esse imenso fruto e essa imensa paixão/dedicação abrirão para o amadurecimento. Como disse várias vezes por aqui, essa personagem tem uma casinha linda de ingenuidade sobre a profissão e vimos que há certa blindagem sobre a realidade do outro. Ela não deixa de ser consciente à sua própria maneira, mas ela é a mais tradicional do trio (embora mente aberta). Há muito que essa linda pode desconstruir e estou prontinha para acompanhá-la nesse processo.

 

Mas isso não me evita de entrar na parte agridoce do desenvolvimento de Jane. A ideia do prêmio foi muito boa, mas se saiu como medida fácil para um alguém que não conseguia lidar consigo mesma. Que teve consciência de seus privilégios ontem e que tinha que aprender/digerir o que foi ouvido. Houve uma queimada de etapa, pois jamais que o universo seria tão bonzinho. Ao menos, não três vezes – indicação, follow-up em forma de processo de recrutamento e Jacqueline dando a vaga na Scarlet de novo (e com que dinheiro?).

 

Semana passada, eu dei o passe livre para Kat e seu “súbito” conhecimento sobre diversidade e privilégio branco porque ela mesma disse que se passaram semanas desde o 2×02. Não posso ceder o mesmo passe para Jane porque pisaram no acelerador. Aliviaram para uma personagem (que muita gente tem mandado bad review) que nem sequer penou pra valer. Tudo que tivemos dela foi batida de pé em reflexo do que sentia e tudo bem. Mas como resgatar a fênix se nem cinza ela virou?

 

O resultado deste episódio foi maravilhoso, porém, penso que Jane não aprendeu tanto em seu desamparo profissional. No decorrer de 3 semanas, ela praticamente pisou nela mesma em busca de estrutura e não ganhou nenhum senso com isso. Do 4º ao 5ª episódio, a moça ficou na inércia, quicando entre dois boys sendo que poderiam usar melhor esse espaço.

 

Tentaram apagar essa brecha de Jane por meio de diálogos assertivos, como aconteceu com Kat na semana passada. Falas que pontuaram uma dita segurança sobre a jornada seguinte e que ela estava mais confortável com a falta de job. Não nego que Sloan me pareceu mais consciente desse furo em sua vida, mas por que não seguir a partir daí?

 

Tal posicionamento foi extremamente contraditório visto o como ela se encontrava na semana passada – e aquele momento foi o auge da fase sem job. Rolou salto temporal? Provavelmente sim! E sou dessas que vai criticar salto temporal quando começa a afetar construção de personagem.

 

The Bold Type não descobriu hoje que tem uma S3. Poderiam ir devagar como ocorreu na S1.

 

E se querem mais prova do quanto isso é danoso, vejam Sutton, cuja história perdeu toda a lógica.

 

Essa superação de Jane não deixou de ser relâmpago. Na semana passada, ela estava inclinadíssima a abraçar a Samara. Nesta, não a permitiram dar esse mergulho para realmente sentir seu mundo às avessas. Além disso, mostrar, mesmo que brevemente, como a lição de Kat transformou seu ponto de vista.

 

Eu esperei que tudo isso ocorresse em algum instante, mas acompanhei um auge súbito que se dividiu em três momentos. Três para quem não tinha absolutamente nada (desculpem se sou meio cética). Se não bastasse a indicação, ela conquistou a chance de fazer o follow-up como uma entrevista de emprego. Uma oportunidade que, vale dizer, foi muito estranha de testemunhar por ter se tratado de uma sugestão masculina. Não deixou de ser interessante também, pois foi mais um momento em que The Bold Type posicionou homens como aliados das mulheres.

 

Uma indicação que se tornou vitória. Um follow-up que virou matéria. Uma nostalgia que levou Jane de volta à Scarlet. Too much!

 

Óbvio que nada disso cancela o que comentei sobre Jane ter feito tudo por merecer. Nem mesmo o quanto adoro a fluidez de The Bold Type. Só que poderiam ter dividido essas vitórias. Principalmente porque conversaram sobre privilégio na semana passada e deram a Sloan uma bagagem cheia de privilégios. Cancelaram toda a dificuldade para simplesmente blindá-la.

 

O que faz da storyline de Kat e de Angie a mais fundamental no quesito construção e objetivo de trama até então. Da ponta do privilégio, Edison atuou dentro desse conceito e conquistou a quebra de uma cláusula. Já Jane, apenas acordou em um bom dia para receber as estrelas do universo.

 

Contraditório.

 

The Bold Type - 2x06 - Jane e Elena

 

Não esperava que todo esse cenário restaurasse totalmente a storyline profissional de Jane. Foi fácil demais para a angústia supostamente prometida. Poderia ser o caminho, mas se tornou a solução completa.

 

Eu mesma vi a indicação como uma conscientização para a personagem e uma forma dela recuperar o espírito esmagado (o que não deixou de acontecer). Para relembrar que ela ainda é extremamente capaz de buscar o que realmente merece. Foi esse caminho que eu vi, especialmente pelo que ocorreu na semana passada. Já o follow-up não consegui encaixar porque me soou como nova medida desesperada de impressionar Jacqueline (alguém troca quem escreve as sinopses?).

 

O que eu queria realmente é que Jane se desse conta do que é uma vida sem estrutura. De que mesmo nas trevas, coisas boas podem acontecer e que é importante se apegar a essas coisas. Queria saber como ela passou a ver seus arredores depois da chamada sobre privilégio branco. Falo de desenvolvimento emocional, um ponto que tenho defendido demais na storyline de Sloan.

 

E que não rolou.

 

Dar-lhe esse mundo de premiações, a essa altura do campeonato, não é um favor. Foi cedo demais e afeta um tanto seu desenvolvimento porque, como disse, se pulou etapa. O que fizeram ao escolher esse viés foi sinalizar que não importa o que pode rolar, Jane conseguirá as coisas facilmente. Parece o modo compensatório pela perda da mãe e isso também não é correto.

 

E vale frisar que Jane tem essa de depender de outras pessoas para meio que ter uma carreira (e seguirei defendendo que Sloan deveria ter criado um Medium, seria muito mais sensacional). Salvo a Incite que foi um mérito e o retorno à Scarlet que não deixou de ser um mérito também.

 

Para vocês entenderem melhor o que digo, trago, de novo, o parâmetro Sutton. Ela não transitou de uma carreira para a outra com facilidade. Era fato que a personagem conseguiria, mas se pesou desemprego, dinheiro, o sonho dela em ter uma vida em NY, o dólar no envelope. Criou-se meio que uma mitologia em torno da paixão dessa jovem por Moda e foi encantador. Soubemos muito dela em curto espaço de tempo e foi o bastante para o ínterim da S1. Com Jane, não ganhamos nada parecido, só que ela é a menina de ouro aos olhos de Jacqueline e da Scarlet. E que não confia em Deus, comentário que nem se encaixa no antro profissional, o que destaca seu tradicionalismo.

 

O que não é ruim, mas deixa enraizado o fato de que se ela ficar sem job de novo, a mesma novela pode se repetir. Justamente porque a jovem não amadureceu no processo de ausência de estrutura. Ela tem justamente a mentalidade de que alguém a salvará de todas as intempéries profissionais e meio mundo se saiu como suas mãos. Como Ryan que não tem outra função a não ser essa (not sorry).

 

De certo modo, consigo dar um desconto nisso porque arranjar um emprego na área jornalística não é fácil. Se houver prêmios e QI, o processo todo se torna mais fácil e cabe a você manter o job. Meu primeiro emprego depois da formação veio por meio de indicação, mas não há nada mais valoroso que você encontrar um job por conta. Tudo bem que Jane conquistou a massacrante e breve experiência na Incite, mas, puxando o que Jacqueline lhe disse com o que Kat acrescentou na semana passada, era melhor ter estendido por mais um episódio esse desamparo de Sloan.

 

Não ficaria feliz em ver aquela cafeteria de novo, mas sou grande fã de tirar toda a esperança. Esse seria o clima perfeito para se saber da indicação.

 

E essa sou eu falando, a rainha da angústia e de deixar personagem na bad.

 

The Bold Type - 2x06 - Jane premiação

 

Deixando as críticas da bad de lado, esse combo de premiações contribuiu para mais uma transição significativa da S2. Uma mudança geral que enfatizou uma pauta de impacto. Foi o instante que a série precisou tirar suas personagens de determinados vícios tão quanto inserir outros em forma de novos erros. Foi um novo reajustar do tabuleiro porque a Scarlet precisa da tríade junta e de Jacqueline como propulsora do empoderamento das suas colaboradoras.

 

Amy-Jo Perry trouxe o mesmo molde de roteiro que The Bold Type se sustenta praticamente desde que nasceu. Assuntos políticos que, após a experiência, renovam nossa bagagem de aprendizado. Nesse quesito, não tenho do que reclamar. A construção da história, visto que se tratava de uma continuidade, deu muito certo. Veio com compasso e respeitou todos os limites de uma Jane que conseguiu transmitir sua mensagem. Sem dúvidas, ganhamos uma dobradinha muito importante que moldou mais o núcleo que Jacqueline existe.

 

Esta semana, voltamos a ver Jane. A garota que estava em um ritmo repetitivo que se camuflava com a presença de Ryan/Ben e com o surgimento das amigas vez e outra em sua rotina. Nada relativamente se alterava ali e mais uma semana com esse viés de storyline seria chatíssimo (mas encararia pelos motivos que expliquei acima). Isso significa que, apesar de dar mais um mimo a Sloan, tudo caiu como uma luva para inseri-la de novo no contexto da Scarlet. O bonding que isso criou entre Jane e Jacqueline, junto com o follow-up, é muito difícil de ignorar. É consistente, verdadeiro, e você torce por ambas.

 

Você quer que elas voltem a ser mentora e pupila. O mais rápido possível justamente por ser a essência que move a série. É o gosto de sonho se tornando realidade e é lindo.

 

Mesmo distantes, Jane e Jacqueline mostraram que ainda possuem química. Desde o decorrer da matéria sobre o exame de câncer de mama, a relação das duas sempre seguiu transitando para o bem. Neste episódio, essa dinâmica se fortaleceu, muito além do respeito que sentem mutuamente.

 

Estou contente que esse retorno tenha acontecido no bico desta temporada e de uma maneira inspiradora. Era o tom certo para duas personagens que se reconhecem à sua maneira. Foi a virada rumo ao encerramento da S2 e foi crível. Pelo distanciamento cada vez mais a contragosto de Jane ao meio que realmente pertence, imaginei que essa transição rumo à Scarlet ocorreria no season finale, como um paralelo que acenaria para a saída dela na S1. Amém que não!

 

Eu sentia falta de Jane dentro da dinâmica da revista e não tinha tanta noção disso. Não quando a vi com Jacqueline tirando aquela foto maravilhosa. O que me faz pontuar sobre o quanto os assuntos políticos nublam o que se desenvolve (ou não) lá atrás. The Bold Type segura muito bem essas pautas, mas, quando se tira essa camada, há personagens na nave da Xuxa. Está na hora de reais dramas interpessoais/pessoais já que o profissional de todo mundo me parece bem. Eu quero saber mais dessas garotas, como descobrimos sobre Sutton. Como descobrimos sobre Kat.

 

E, vejam bem, Jane é a única que não sabemos muita coisa. O que volta para a resenha do 2×04.

 

Jane traz homogeneidade às premissas centrais. A personagem é a liga e entrelaça uma storyline a outra, tão quanto as personagens, equilibrando níveis de destaque e de conversa pertinente. Nenhuma perdeu o brilho com ela no cerne e vice-versa. Em contrapartida, todas ficaram meio esquecidas e à mercê de salto temporal assim que Sloan deixou de ser a bússola da Scarlet. A revista que é o palco da história toda e nem Kat e Sutton tiveram mais oportunidades de destaque nesse cerne, a não ser no início da temporada.

 

Já que The Bold Type foca no profissional, chegamos a um ponto com algumas incongruências.

 

Não solto em Jane toda a responsabilidade da série acontecer porque não é. Nunca foi. Porém, não se nega a verdade de que ela é o norte. Com sua ausência do cerne, as histórias da tríade se truncaram e penso que agora é o momento de ver se conseguirão reajustá-las (melhor sem salto temporal).

 

Penso que Kat é a única que tem funcionado muito bem nesta S2. Comentário que destaca o fato de que Jane na S1 tinha mais desenvolvimento e pecaram com Kat e a questão de raça. Vejam bem, né? Há uma turbulência entre essas personagens no quesito de foco e desfoco de background. Parece inofensivo porque não dá para dar atenção para todo mundo ao mesmo tempo. Só que já passaram por isso antes…

 

The Bold Type - 2x06 - Jacqueline e Jane

 

Este episódio centralizou uma retomada enquanto transmitia uma nova mensagem sobre o efeito dominó em torno do estupro. Jane e Jacqueline renderam o reencontro de impacto. Uma relação de valor e que não nos matará mais de saudade.

 

O que me faz dizer que não dá para ter The Bold Type sem a editora-chefe e confesso que estava aborrecida pela Deusa estar de fora do cerne.

 

Foi sim muito pertinente/necessário tirar o destaque de Jane e transferi-lo para Kat (e sempre será obviamente porque a série não é de uma só), mas, esta semana, The Bold Type mostrou que não pode ficar sem a saga pupila e mentora. Ainda assim, é esperado que o destaque continue a ser democrático, de forma a trazer mais dessas preciosas, porque assim se traz uniformidade junto com as pautas políticas. Não podemos esquecer que background é essencial também. É desenvolvimento.

 

Os entornos das storylines têm funcionado para The Bold Type. No caso, mais a pegada política, pois focamos no que a pauta da vez quer contar e nem prestamos atenção no fundo do quadro. Essa pegada deu uma supercamuflada para o que realmente transcorre com essas personagens – e não tem transcorrido quase nada, a não ser para Kat. Depois de 6 episódios, Jane e uma matéria do passado, sem crises sobre desemprego, evidenciaram com mais latência o quanto a tríade está carente de desenvolvimento emocional também.

 

Sei que The Bold Type preza o feliz e eu também prezo isso demais. A série quer que essas meninas sejam sempre positivas e que as pessoas se sintam bem. É onde mora parte da sua consistência. Contudo, é importante tomar cuidado porque nem tudo é feliz e o feliz demais é exagero.

 

No geral, eu gostei muito do que escreveram neste episódio. Houve unidade entre as mulheres da série (e Ben a tiracolo), o que garantiu o tom de lar. Foi um conjunto de premissa que me ajudou a perceber que o que aconteceu comigo ainda tem uma influência gigantesca em muitas coisas que realizo. O posicionamento de Jacqueline veio certeiro no 1×10 e, aqui, não foi diferente. Salvo pela sua escolha de não aprofundar seu ocorrido.

 

Jacqueline teve que manter sua elegância e sua plenitude ao mesmo tempo que ouvia o nervo mais dolorido do follow-up da matéria de Jane. O pensar no depois. Em quantas mais teria passado pelo mesmo. O quanto a morte desse embuste não traz tranquilidade porque a marca criada é permanente. Não apenas em corpo, mas em mente visto que se instala uma cicatriz mental que pode passar muito do seu tempo adormecida, mas, diante de gatilhos, como o caso dessa personagem, o mundo desmorona pelo despertar brusco referente ao que ocorreu.

 

Do outro lado, Jane exerceu sua mágica e resgatou o motto da revista e da sisterhood. Mulheres apoiando e elevando as outras. Ela viveu mesmo aquela coisa chamada o que está guardado, espera que o universo traz, e encerrou a semana de volta ao lugar que não via a hora de retornar. Nada melhor que ouvir isso de Jacqueline – e minhas pernas tremeram com o “senti sua falta”, socorro!

 

Os outros plots

 

The Bold Type - 2x06 - Kat

 

É meio repetitivo, mas, de fato, eu não tenho muito que dizer sobre Kat e Sutton.

 

Sobre Kat: os roteiristas poderiam ter escolhido todas as formas possíveis e inimagináveis para expressar a curiosidade de Kat sobre a cena lésbica. Uma situação que, automaticamente, veio com a bagagem de se namorar Adena (especialmente devido ao lance de rotatividade) e com a curiosidade sobre esse “novo mundo” que se tornou difícil de “silenciar”. Eu não curti, nem um pouco, o que se sucedeu nessa storyline. Eu estava com febre e achei que alucinava.

 

A questão é que se usaram de um trope batidíssimo e extremamente desrespeitador com quem é bissexual. O B do LGBT vive sendo rechaçado como a pessoa indecisa. Supostamente por esse motivo ela trai porque não sabe o que quer da vida. Entenderam os motivos da chateação?

 

E, se vale de algo, Kat pirou com a rotatividade de Adena para…? O que me fez lembrar dela abrindo mão da (ex) namorada na S1 ao dizer que não é a pessoa de relacionamentos. Bem, acho que alguém aqui precisa amadurecer nesse quesito. Ao menos, Edison não é cabeça dura e isso já ajuda.

 

Eu não consigo nem pensar no efeito traição, mas no simples fato de que pegaram o desenvolvimento Kadena e criaram uma rachadura brusca e sem educação. Sem respeito ao B do LGBT que ainda precisa se justificar o tempo todo sobre sua orientação sexual. Fosse a intenção ou não, fiquei de testa quente, me desculpem! A sorte, se é que posso colocar dessa maneira, é que Adena é evoluída e lidou muito bem com a honestidade de Kat. Algo que eu não esperava.

 

Não quando traição é uma angústia que os roteiristas esticam até não haver mais ponto de retorno. Como o jogo de um triângulo amoroso. Não é uma questão apenas de The Bold Type, claro, mas de qualquer outro conteúdo que não larga desse osso.

 

Apesar de não ter curtido essa “solução” para uma curiosidade, apreciei como Adena chegou junto. Ela foi muito dona da situação. É nesses pequenos pontos que Kadena ainda consegue ser muito especial. Se fosse uma personagem imatura, imaginem o escândalo…

 

The Bold Type - 2x06 - Sutton

 

Sobre Sutton: estressante e faz semanas que me sinto assim. Porém, escolhi ficar na miúda até saber do meu limite e o limite desse esquema. A irresponsabilidade da personagem é sentida desde que Brooke entrou em sua vida e dei amém que Oliver transmitiu sua mensagem. Ela tem nadado em incontáveis problemas que a desvirtuam da sua meta que é subir na carreira. E aí?

 

E vamos lembrar que esse desejo de subir mais ainda veio exatamente daquele jeito: do nada.

 

Além das bebedeiras que atingiram o ponto nonsense, o incômodo é que Sutton nitidamente falha, mas sua sagacidade em deixar o job em dia camufla o que uma Brooke anda sugando. É irritante. Meio que dá um ok para o aspecto de que tudo bem você chegar virada da balada no trabalho, desde que cumpra suas tarefas. É problemático, especialmente porque não reflete responsabilidade. Além do mais, o corpo e a mente têm seus próprios limites e deu a entender que a personagem está nessa há semanas. Ah, que espertinha!

 

A storyline de Sutton está extremamente fora do tom. Há vários picos que ameaçam transição, mas não transitam. Não teve contexto de mudança e a mudança aqui só não é drástica porque ninguém anda acompanhando o que ela faz nessas festas. A real de que The Bold Type preserva muito a tríade.

 

De uma ideia de networking para subir na carreira mais rápido, se tornou festança para migrar rumo a uma dor de cotovelo por Richard. Por quais motivos, gente? Pode ser que ela seja assim e eu esteja cobrando o que nem tem o que cobrar, mas ninguém age de modo X sem motivo.

 

O que me faz pensar na girl trip e estou sedenta.

 

Antes que perguntem, tudo bem Sutton ficar mal por Richard. Afinal, ela ficou muito tempo com ele. Sem contar que foi uma relação saudável e recíproca, sendo o ponto problemático o fato de o namoro ter sido escondido. Doeu ela ouvir que ele de certa forma seguiu em frente. Cada um reage ao coração partido do seu jeito particular, pode ser na miúda ou erraticamente. Só não dá mais para ignorar Brooke.

 

Ao contrário de Mitzi, a quem realmente deveria ter mais destaque, Brooke só tem roubado espaço que seria mais bem gasto para o desenvolvimento de Sutton. Como na S1.

 

Considero muito importante a tríade ter sua individualidade porque nós temos a nossa individualidade. Não vivemos apenas do interpessoal. O fato de tirarem Jane da Scarlet foi justamente para isso. Mudança de lugar traz novas pessoas, mas não significa cegueira. Como já disse por aqui, ninguém sabe tudo sobre todo mundo, mas comportamentos frequentes e erráticos, ainda mais da sua melhor amiga, é meio impossível não perceber. Mesmo que você não saiba como abordar.

 

Eu gosto muito de Sutton, mas está cada vez mais difícil engolir o que escrevem para ela. Sem contar que já é absurdo Oliver ainda não ter visto a conta exorbitante. Red pode ser a preferida, mas ele nunca perdeu a chance de chamar a atenção na menor oportunidade.

 

Repetindo meu apelo na resenha passada: quero minha Nora Ephron de volta.

 

E parece que ela retornou. Com o mesmo efeito rapidex com que Jane retornou para a Scarlet. Percebem o padrão de aceleramento? Só foi o Slutton entrar em cena para ela acordar?

 

Olha, desceu travando.

 

Mas nada apaga o óbvio: vão deixar Sutton bem para Oliver pegar a conta abusiva. Ao menos, é o que acredito que rolará. Enfim. As coisas andam tão descoordenadas com essa personagem e só quero ver que justificativa do além darão para o revólver na semana que vem.

 

Lição da semana: conte sua história

 

The Bold Type - 2x06 - email

 

Well, it was incredibly healing for me to tell my story, and has had a positive impact.

 

Contar sua história, ainda mais quando envolve um tipo de violência, não é fácil. Porém, há uma verdade sobre você não estar sozinha. E há a segunda verdade sobre você compartilhar o que aconteceu e ser ouvida.

 

E há uma terceira verdade em que, uma vez compartilhada sua história, você se transforma em um chamariz para outras mulheres que se sentem encorajadas a fazer o mesmo. Este é o ponto de verossimilhança que The Bold Type trouxe esta semana e que se chamou de efeito dominó. Um efeito que me atingiu em cheio novamente tanto pela premissa quanto pelo resultado final.

 

Na resenha-reflexão do 1×10, eu coloquei como lição o famoso você não está sozinha. É uma frase que parece o clichê do universo. Parece uma frase vazia quando, em circunstâncias como essa, nos sentimos ainda mais sozinhas. Totalmente sem voz. Infelizmente, para algumas mulheres essa ação não funciona, por N fatores, mas nada diminui o fato de que você pode/deve buscar ajuda.

 

No passado, foi Mia e sua balança da justiça que tocou nossos corações. Ela se tornou um símbolo, a fonte-chave, de uma história que segue acontecendo com milhares de mulheres. Ela criou seu próprio espaço de expressão ao escolher não ficar calada quando o maior pedido que veio na sua direção foi para que ficasse. Sua exposição constante em um parque se transformou em um farol que atraiu outras mulheres a dividir o fardo, que pode se diferenciar em peso e em tamanho.

 

Com Mia, aprendemos que, às vezes, nem é preciso dizer para demonstrar empatia. Basta agir. Um gesto é uma expressão positiva que pode sinalizar que você estará lá por essa pessoa. Muitas mulheres precisam disso, especialmente de outras mulheres que compartilham uma história de mesma premissa, mas com nuances, sequências e possíveis desfechos totalmente diferentes.

 

Essa personagem se transformou em um simbolismo para que a violência contra a mulher fosse denunciada. Todo tipo dela. Ela moveu as protagonistas desta série a refletir sobre o estupro. Influenciou Jane a dar seu melhor enquanto escrevia sua matéria. Fez Jacqueline contar sua verdade. Uma Mia inspirou essas mulheres em sua dor, de modo mais expressivo que falado. Foi apenas uma troca. Sem mínimos detalhes. Foi o famoso apenas estar lá. Nada mais que isso.

 

Daí, veio Elena para reforçar o mesmo acontecimento dentro de um ramo em que a palavra do homem infelizmente ainda é lei – o jornalístico. Tão quanto a importância de compartilhar o que houve. Nisso, Jane ganhou novamente a responsabilidade de mostrar que mulheres não devem se calar e Jacqueline teve que lidar com o seguimento do assunto que atingiu outra mulher que poderia ter sido sua colega de trabalho.

 

Mia criou seu próprio contexto de partilha/denúncia. Elena foi o efeito dominó, que se propôs a contar sua história inspirada por Jacqueline.

 

Lembrando um pouquinho da tag de Primeiro Assédio, muitas quebraram as barreiras da internet e contaram o que aconteceu pela primeira vez. Vítimas muito novas. A maioria sem muito discernimento do que ocorria/ocorrera. A maioria ao redor de homens dentro do papel de proteger suas crianças. Eu pertenço a esse grupo e até hoje eu não sei que nome dar ao que ocorreu comigo. Ainda assim, cutuquei essa cicatriz na mesma época que a Olga fez esse serviço para a comunidade. Eu ganhei força, muito embora continuasse temerosa em contar sobre meu ocorrido.

 

Eu nunca contei nada para ninguém e me abri na mesma época que rolou a tag de Primeiro Assédio para uma roda de mulheres. Uma roda que não me parece real porque é o encontro do I Am That Girl que menos lembro. Deve ser porque parte de mim quer esquecê-lo justamente por se tratar de um instante em que abri minha ferida mais profunda (e as outras fizeram o mesmo). A definidora de basicamente tudo que eu sou. Informação que deixa mais explícito os motivos do season finale e deste episódio terem movido o inferno em mim.

 

Uma vez falado, tive que ir quebrando barreiras para me aproximar do que me ocorreu. Por mais doloroso que fosse (e ainda é) porque essa parte da minha história me mudou e sempre precisou ser tratada. A parte mais moída de mim, oriunda desse acontecimento, é uma linha plana, cheia de buracos, em que cada ponto de turbulência é intrínseco ao que me aconteceu. Retorna para o que me aconteceu, como minha vivência com um tipo de transtorno alimentar. Eu só tinha 14 anos, a fase que penso que aguentei demais para quem não sabia muita coisa sobre a vida, o universo e tudo mais. Eu esmaguei isso dentro de mim.

 

Sendo que é uma parte que precisa de cuidado e de tratamento. É uma risca mental que tem seus gatilhos expressados dos jeitos mais inusitados. Desde pisar em uma balança até achar que meu corpo está marcado demais em um vestido.

 

Antes do mencionado encontro, eu nunca havia compartilhado meu fardo. Recentemente, eu o fiz de novo. Duas vezes. Doeu igual, mas foi como se eu caísse nessa noção de que eu preciso tomar providências sobre algo que eu apenas guardei.

 

Jacqueline e Elena expressaram como seu agressor as mudaram. O relato de cada uma, que resgatou Mia do fundo da minha mente, compôs várias zonas de verdade que mulheres ainda silenciam. E a coisa toda muda quando mulheres atingem um ponto da vida em que conseguem apoiar a outra.

 

A real é que a storyline de Jacqueline se tornou uma ponte influenciadora para eu buscar ajuda porque eu cheguei no ponto da vida que não dá mais para me enganar. Não dá mais para achar que posso cuidar disso sozinha. Tipo, não dá! Ainda mais quando você tem consciência de que quer fazer N coisas, mas não faz visto que sua mente volta para… Lá.

 

Ou para todos os pontos de turbulência que nasceram em nome do fato.

 

Tem pontos da vida que você sozinha simplesmente não consegue lidar e eu acreditei que sim. Por longos e longos anos. Daí, ver uma personagem como Jacqueline quebrando o círculo da tríade e pegando os pesos no 1×10 serviu de  demonstração de um alerta para mim. Eu chorei com esse finale e chorei mais vezes ao lembrar dele. Eu fui engatilhada de um jeito que eu jamais fui. Naquele instante, em que rola a troca entre Mia e Jacqueline, pensei que posso quebrar esse círculo também. De que nada adianta eu dizer sempre para meio mundo ir lá falar mesmo dos seus problemas quando eu os sufoco quase todo dia. Sem lidar com nada.

 

Eu sou muito apegada ao que amo culturalmente e The Bold Type nasceu para me ajudar. Entrou na minha vida na hora certa.

 

 


 

And she taught me that what matters most isn’t your byline or these awards. What matters most is the story and the truth. In our personal lives and the stories we tell, the truth must always come first.

 

Eu nunca tive a menor intenção de compartilhar de novo o que me ocorreu até me ver no bico de sinuca. Antes de me expressar para duas pessoas, eu cheguei a escrever sobre na fase das vítimas de Harvey porque eu fiquei 100% gatilho. Mas desisti. Eu tentei me expressar no intento de mostrar que alguém do outro lado não está sozinha, mas não estou pronta para escrever sobre isso.

 

Mas aprendi, durante os últimos 3 anos, o que Jane destacou em seu discurso: a nossa verdade tem que vir em primeiro lugar. Posso não lembrar muito bem do encontro do I Am That Girl, mas sei que todo meu ciclo no movimento foi para me trazer ao ponto que me encontro agora. Para me fazer ver uma tag como a do Primeiro Assédio. Para eu entender que eu fui vítima. Para eu finalmente me desprender do medo e da vergonha de dizer o que houve e buscar apoio. Um processo que, pessoalmente falando, segue doloroso e relutante. Acho que sempre será porque eu terei uma risca disso sempre comigo.

 

Jacqueline mencionou um novo normal no 1×10 e é isso que acontece. A gente acha um novo normal, todo dia. Principalmente quando retornamos para o fundo obscuro do cérebro que remete ao ocorrido. A gente precisa seguir adiante mesmo que a dor seja maior. É difícil. Eu não me sinto normal, mas estou em busca de um novo tom de normalidade ao me botar em tratamento.

 

Apesar de ser um processo dolorido, que exigirá até mesmo os seus cacos, partilhar a história sobre sua violência é importante. Buscar ajuda psicológica também. Denunciar também. Ter um porto-seguro. A vida da mulher tende a ser muito solitária e se não nos ajudarmos não teremos como nos curar. Como nos apoiar. Como termos espaços seguros. Nem menos indicar que outra mulher não está sozinha. Muitas como eu simplesmente abraçam o problema e o silencia quando, de fato, isso não ajuda. Só se criam crostas e mais crostas até você perceber que não pode mais se mover.

 

E daí vem a escolha: libertar ou não a si mesma? O fato em si nunca deixará de existir, mas penso que a gente sempre tem que se cuidar. Podemos ter todo o apoio do mundo, mas o passo decisivo para a recuperação sempre será nosso.

 

A última, e mais recente, vez que contei sobre meu ocorrido eu ouvi: obrigada por compartilhar sua história. Eu não esperava. Tipo, nunca mesmo. E é isso que precisamos fazer porque não é fácil revelar uma violência tão abrupta contra si e buscar ajuda/denunciar.

 

O interessante é que Mia, Elena e Jacqueline expressam fases diferentes. Jacqueline deu a impressão de ter trabalhado em uma redação raiz, em um tempo em que o estupro era um tabu a 200%. Elena veio na sequência e marcou certa proximidade nessa mesma timeline. Depois, Mia, a voz mais próxima da geração atual e que denunciou graças também ao tempo que vivemos e que diz para nenhuma mulher ficar calada sobre o que lhe aconteceu.

 

Três fases. Três vozes. Três estupros. Três mulheres que Jane abraçou sozinha sem nunca ter passado por isso. Sloan foi a empatia, o espaço seguro e a atitude/denúncia (e pode ser militância já que ela se considera feminista). Papéis que podemos executar, independentemente da nossa realidade.

 

Resgatando meu encerramento da resenha do 1×10: quem passou por isso carregará esse peso para sempre. Com sorte, haverá alguém para segurá-lo um pouco. Não unicamente para aliviar o nosso espírito, mas, talvez, para dizer o famoso eu também.

 

 

Se você precisa de ajuda e de esclarecimentos, deixo umas fontes de consulta aí embaixo. Stay strong! ❤

 

 

1. Dossiê Violência contra as Mulheres (esse link é importantíssimo)

 

✔ Denúncia e apoio

 

1. Direitos, responsabilidades e serviços para enfrentar a violência

2. Rede Feminista de Juristas (válido para orientação jurídica para mulher)

3. O que fazer em caso de estupro

4. Saiba como denunciar uma violência online

 

✔ Geral

 

1. Especial Olga sobre estupro

2. Violência sexual: informação responsável salva vidas

Stefs
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