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25/ago

Diferente dos episódios anteriores, Cherry é o pedacinho da história que mais se distancia do material original. Se você devora livros como eu, sabe que, por vezes, somos bem chatos quando se trata de adaptações de livros que gostamos. Com Sharp Objects, criei um certo protecionismo e o motivo é bem simples: a maneira com que Gillian Flynn moldou suas mulheres.

 

Nem todos entendem porque é necessário desconstruir o gênero feminino. Se ainda é difícil quebrar os padrões, pelo menos na indústria do entretenimento já temos algumas demonstrações disso.

 

Admito que pode soar estranho parabenizar a existência dessa história e de personagens como Camille, Adora, Amma, entre outras. Mas é justamente graças a essa estranheza que cada vez mais pessoas se mostram engajadas em criar e consumir diferentes narrativas.

 

Enquanto o processo é lento no cinema, a televisão anda mais à frente. Cresce a quantidade de produções que desafiam a construção de seus enredos e de seus personagens. Breaking Bad, Penny Dreadful, Hannibal, The Leftovers e The Handmaid’s Tale são algumas das séries que me vêm à cabeça. Cada uma delas possui um elemento que as torna diferente: seus protagonistas não são, na teoria, fáceis de gostar.

 

Se formos colocá-los em prática, ao longo da jornada de suas séries, criamos diversos sentimentos em relação a eles. Nos vemos atraídos a esses descontrolados e impulsivos personagens. Torcemos, mesmo sabendo que não é certo; profetizamos para que tenham aquilo que merecem e também desejamos que sejam felizes, mesmo que à sua forma.

 

Como já disse nas resenhas anteriores, Sharp Objects  tem uma protagonista que poderia ter tudo para não agradar. Porém, o efeito que Camille causa é exatamente o oposto. Mesmo que muitos telespectadores ainda vejam a minissérie como “quem matou quem”, chegamos cada vez mais próximo da real pergunta.

 

A afirmação de que é mais seguro ser temido que amado fará todo sentido.

 

Bom dia, Wind Gap

 

Sharp Objects - 1x06 - Cherry Pie

 

Me fiz a seguinte pergunta no início deste episódio: qual o fascínio de ver as pessoas acordando? Parece que a equipe de roteiristas e Jean-Marc Vallée tem uma atração em capturar os rituais matinais dos moradores e visitantes de Wind Gap. E diria que eles vão de entediantes a até curiosos.

 

Falando em despertar, como que uma pessoa, durante mais de trinta anos de casamento, se sujeita a dormir em um sofá-cama? Não dá para saber se foi todo esse tempo, mas Alan ultrapassa os limites da passividade e do conformismo. Torna-se entendível considerando com quem ele é casado. Porém, nunca aceitável.

 

Por sua vez, Camille sai do quarto de Richard às pressas, após a noite inusitada que tiveram juntos. Sua memória estava envolta nos acontecimentos após o Calhoun Day e, dali pra frente, ela precisa colocar suas energias no real motivo de ainda permanecer em Wind Gap.

 

Seu retorno para casa na manhã seguinte a coloca em mais uma espiral de lembranças. Dessa vez, que justificam o nome Cherry no título deste episódio.

 

“Mamãe, não dá vontade de dar uma mordida nela?
Como uma cereja suculenta.”

 

Evidências

 

Sharp Objects - 1x06 - bicicleta

 

Imaginei que teriam que incitar um pouco mais a intriga de quem realmente está por trás das mortes de Ann e de Natalie. O formato para TV possibilitou que novas peças fossem colocadas, a fim de provocar diversas reações. O que apenas me preocupa é se utilizarão o tempo que resta para dimensionar a significância do desfecho dessa história. Acredito que será um desfecho merecido, assim como Flynn fez no livro. Bom, todos os envolvidos sabem o que fazem, então, não vejo a hora do cair das cortinas.

 

No livro, nenhuma evidência é encontrada. Qualquer uma que ajudasse a encontrar a pessoa por trás dos crimes. Na série, vemos Adora recebendo uma misteriosa ligação e tal mistério é logo revelado com o milagroso aparecimento da bicicleta de Ann na lagoa da fazenda Preaker. Conveniente ou não, dada as circunstâncias, é o mais próximo que a polícia chega de desvendar o que ocorreu.

 

Conheci Will Chase em Nashville, onde interpretou o cantor Luke Wheeler. Desde então, ele fez algumas participações e o acompanho por ser namorado da querida Ingrid Michaelson. Fofocas à parte, seu papel em Sharp Objects, apesar de secundário, vem carregado de muita emoção. Conforme esperado, Bob é chamado ao local para identificar o objeto encontrado e é realmente de cortar o coração o momento em que o personagem despedaça ao confirmar a dona da bicicleta.

 

Mrs. Know It All

 

Sharp Objects - 1x06 - Jackie

 

Além de inserir evidências, agitando o rumo da investigação, o roteiro decidiu explorar uma personagem em específico. Jackie que, no livro, é a amiga de Adora que parece saber tudo sobre todos. Ela recebe uma dose redobrada de relevância e digo que ter alguém do talento de Elizabeth Perkins seria o mínimo que poderiam fazer. Desde o momento que apareceu no piloto, ficou clara a intenção da série em desenvolver essa personagem. O tempo somente mostrou o quanto ela guarda em cada garrafa de bebida.

 

Pouco a pouco, Jackie se transformou no termômetro de Wind Gap. Adotando a famosa filosofia do quente ou frio, essa mulher instiga a todos apenas com o olhar. Olhar que guarda algo ainda não revelado, mas que, de certa forma, começa a abrir passagem para dentro de sua alma.

 

Discreta quando sóbria, ela adota uma postura respeitosa. Como no caso de deixar flores no beco onde Natalie foi encontrada.

 

Seus dois encontros com Richard “KC” Willis comprovaram que ela sabe mais ao que insinua sempre dizer. Sua amizade com Adora parece ter perdido a força nas últimas décadas e o motivo disso ainda precisa ser revelado. Existe algo de corajoso e ao mesmo tempo covarde nessa personagem. Sua escolha de palavras é sempre dúbia, repleta de significados e variadas interpretações. Contudo, há algo em que ela é sempre verdadeira: demonstrar carinho por Camille.

 

Cutucando o passado

 

Sharp Objects - 1x06 - KC

 

KC parece desviar um pouco dos acontecimentos centrais, principalmente após a descoberta de uma importante evidência. Com tudo se encaminhando para a conclusão, o detetive decide colocar suas energias em outra direção. Assim como no livro, Willis se torna obcecado por Camille e sua família.

 

Seu faro instigou a partir do momento em que percebeu que Camille e seu passado sempre pareciam ser um assunto delicado a ser mencionado. E tal curiosidade foi levantada após sua bizarra visita ao casarão da matriarca de Wind Gap. Descobrir mais sobre a repórter é descobrir mais sobre as principais pessoas em sua vida: Marian, Adora e Amma. Sua ida à clínica de reabilitação de St. Louis é o primeiro passo dado. Usando o pretexto de que estuda perfis de comportamento para um caso, ele descobre que boa parte dos pacientes ali encontram formas de se punir.

 

“Nossos pacientes podem ser impulsivos e agressivos, mas raramente violentos.
Eles agridem a si mesmos mais que outras pessoas.”

 

Somente uma coisa me incomodou um pouco durante essa visita e isso é revelado na conversa de bar entre o detetive e Jackie. KC descobriu que Camille saiu da clínica logo depois que sua colega de quarto tirou a própria vida. Creio que não existe mesmo confidencialidade para pacientes nessas condições. Seguindo com o propósito, a visita começou a orientá-lo para dar os próximos passos. E espero que, assim como no livro, se revele suas motivações.

 

Conto de crianças mortas

 

Sharp Objects - 1x06 - Camille

 

Duas semanas atrás, li um tweet que dizia que tanto Preaker quanto Willis são péssimos em suas profissões. O que não deixa de ser um pouco verdade, tendo que boa parte do tempo eles optam por zanzar com seus carros, encontrando as mesmas pessoas, nos mesmos lugares. Isso mostra que cidades pequenas como Wind Gap funcionam como um relógio, cada ponteiro simbolizando um comportamento marcado.

 

“Você está me entrevistando?”

 

E é esse tal detetive que conta para a tal repórter que a bicicleta de Ann foi encontrada por um funcionário de Adora no lago da fazenda de porcos. Indignada, Camille retorna para o casarão, confrontando a mãe logo de cara. Será que ela achou mesmo que conseguiria algum furo exclusivo com a matriarca? Ah, Camille, parece que não conhece a mãe que tem.

 

Depois de levar um coice de descontentamento da esposa, Alan tenta cumprir com o papel de pau mandado que tanto lhe serve. Adora pediu a ele que conversasse com Camille a respeito de sua presença na casa, que se estendeu mais do que gostaria. Como sempre, tudo é culpa da filha, causando estresse e alterando a dinâmica da família. Família essa que Preaker claramente nunca pertenceu.

 

Comparações com a avó Joy são feitas mais uma vez, com direito a Alan revelar que a Rainha Mãe tinha uma predileção por machucar as pessoas. A começar por Adora.

 

Cereja suculenta

 

Sharp Objects - 1x06 - Camille e Becca

 

O ato de voltar para o local onde cresceu e que moldou quem você é como pessoa é uma experiência extremamente reveladora. Quando cheguei em Dublin, Irlanda, em 2014, foi difícil processar a magnitude dessa mudança. Independentemente do tempo que ficaria, me desafiei a deixar o local que chamo de casa. Sair de casa mostra amadurecimento, aquela necessidade de andar com as próprias pernas. No caso de Camille, sair de Wind Gap simboliza uma chance de quebrar o ciclo.

 

Confesso que a maratona nostálgica na casa de Katie foi um dos momentos que tanto aguardei. Camille tem o primeiro contato direto, desde que voltara, com as mulheres de sua geração. Se Preaker ganhasse uma garrafa de vodca em cada poker face que fez, sairia dali arrastada.

 

Katie e suas minions, com exceção de Becca, são a representação de tudo que uma mulher de Wind Gap deve ser. Conflitos entre trabalhar vs. maternidade; religião vs. ciência são algumas das pautas em questão. Ah, claro, não poderia faltar o repúdio aos ideais feministas.

 

Julgando que está ali profissionalmente, Camille cada vez menos consegue informações úteis para seu artigo. O que resta é tentar levar o momento da maneira menos tortuosa possível. Fugindo da sessão de lamentos, ela encontra normalidade em Becca que, diferente das demais, parece tratá-la decentemente.

 

Flashbacks são muito mais reveladores e impactantes nesta série perto do recurso voice-over que também é usado para contar o passado. Foi graças a um evento durante um dos treinos de cheerios que Becca, usando sua sensibilidade, consegue entender o significado da palavra cherry cravada na coxa de Camille.

 

“Nós éramos maravilhosas e atraentes por fora.
Mas, por dentro, havia esse buraco escuro.”

 

Mordidas e retaliações

 

Sharp Objects - 1x06 - Ashley

 

Se Jackie é uma personagem fascinante, diria que Ashley chega a me dar arrepios de nervoso. Longe de colocá-la numa caixa de estereótipos, mas ela é cria de nascença de Wind Gap. Nem precisamos saber quem será quando crescer, pois já conhecemos alguns exemplos durante o evento na casa de Katie. Camille mesmo disse que, para sobreviver em Wind Gap, é preciso abraçar o título no qual está fadada a pertencer.

 

Acreditando que a vida real é um script ensaiado, conhecemos mais dessa garota sedenta por popularidade. Ser popular, ao seu ver, é o desejo supremo de qualquer pessoa. Por isso, ela afirma que, por causa disso, John nunca poderia ser o assassino. Tudo que ele mais deseja é passar despercebido, mesmo que ela tente reprogramá-lo como seu bicho domesticado. Nada nesse relacionamento soa verdadeiro.

 

Suas opiniões sobre as garotas assassinadas são reversas ao que realmente acha que aconteceu enquanto convivera com elas. Principalmente a Little Keene.

 

Pela primeira vez, durante as habituais conversas com o Boss, Camille reflete que em momento algum as mulheres de Wind Gap foram consideradas. Sim, como autoras do crime. Curry diz o que todos normalmente acreditam: mulheres não matam assim de forma tão violenta.

 

Sabemos que ali, tudo é possível.

 

Roleta-russa

 

Sharp Objects - 1x06 - Amma e Camille

 

Scanlen domina os momentos finais de Cherry, dividindo o protagonismo com Adams como se fosse uma veterana mais que ambientada. Confortável e versátil, vemos essa garota dominar as diversas facetas dessa complexa personagem. Autodestrutiva e impulsiva, Amma tenta carregar todos para o centro de seu furação.

 

Se houvesse um fenômeno natural, com certeza ele se chamaria Amma. Ela se aproveita da carência de Camille e consegue arrastá-la ao que parecia uma carona. Naturalmente, isso se torna algo mais.

 

Alterada com comprimidos, Amma e suas minions adentram em alto estilo a uma festa local. Imediatamente, Camille se vê sugada para aquele mundo, tão diferente, mas tão familiar. Antes mesmo do roteiro mostrar tudo que aconteceu daqui em diante, só pensei: alô alô Millennials figurantes descoladinhos na festa, ninguém menos que Amy Adams acabou de passar ao seu lado.

 

Tudo que ocorre na festa é exatamente como imaginei ao ler Sharp Objects. Amma orquestra tudo, como uma aranha envolvendo sua presa, e é durante o jogo de roleta-russa, aka passa passa bocal de oxicodona, comprimido analgésico forte para dor, que o pior acontece. Ironias à parte, Amma encerra a brincadeira da maneira que queria: passando o comprimido para a Big Sis.

 

“Se você saber sobre a Natalie, pergunte para sua mãe.”

 

Visivelmente alterada, considerando que havia bebido tudo que pôde durante a reunião das cheerleaders, Camille começa a se sentir mais leve. Só que nem a sensação de andar nas nuvens parece distraí-la da confusão que Ashley se enfia. Consideradas párias na cidade, a cheerleader resolve questionar o que Amma está fazendo ali. O que já esperamos acontece, com Camille intervindo no meio das garotas. E, dentre alfinetadas, a repórter resolve questionar o pedaço da orelha de Ashley que está faltando. Hum, essa doeu…

 

Temida ou amada

 

Sharp Objects - 1x06 - Amma

 

Fico pensando qual teste de cena eles escolheram para o casting de Amma. Só sei que essa linda da Eliza Scanlen foi escalada com todos os plus possíveis da nota máxima. Amy Adams comentou de maneira elogiosa a naturalidade e a autoconfiança da jovem atriz em conduzir suas cenas. Algo que fica cada vez mais nítido no transcorrer da série.

 

De tempos em tempos, somos arrebatados por talentos naturais como o ato de respirar ou comer. Senti isso com a Dakota Fanning anos atrás e, mais recentemente, com Millicents Simmons (Um Lugar Silencioso) e Brooklynn Prince (Projeto Flórida).

 

“As garotas gostavam de você? Com os rapazes é fácil. É só deixar que façam coisas com você.
Quando deixa fazerem isso com você… está fazendo isso com eles.
Você tem o controle e eles gostam de você.
Não é igual com as garotas. Elas podem fazer o que eu quero, mas elas não gostam de mim.”

 

Sequências como essa mostram como Jean-Marc Vallée possui um olhar precioso, captando cada fragmento dos arredores, mas, principalmente, escolhendo focar na presença dessas duas atrizes. Apesar de usarem uma dublê para representar Camille – cláusula contratual deve ser caríssima -, Amy e Eliza entregam cada momento com precisão. Existe uma conexão criada entre essas estranhas irmãs que, até quase dois meses, nunca tinham se visto.

 

Camille genuinamente se preocupa e, às vezes, se identifica com Amma. Apesar da pouca idade, ela já sabe usar do poder que tem sob os outros. Mesmo que seja infligido, ela acredita muito mentalmente que detém o controle.

 

Concluindo

 

Sharp Objects - 1x06 - not safe

 

“The blood is rare and sweet as cherry wine.”

 

Já dizia meu amado irlandês Hozier em uma de suas canções.

 

Se a equipe criativa adora colocar seus personagens despertando, temos que também considerar o fascínio pelos bares e pelas lanchonetes da cidade. Como todos os personagens principais se encontram em um desses lugares, Vickery conta para KC que um dos funcionários do matadouro identificou Keene como a pessoa que jogou a bicicleta na lagoa.

 

Lembro que brincar de gira gira, ou seja lá qual nome, era superdivertido. Falando como uma velha, se foi o tempo em que brincadeiras assim eram tudo que precisávamos. Amma e Camille dividem um momento puro e singelo, algo raro considerando tudo que ocorreu até agora.

 

Com apenas dois episódios para seu encerramento, Sharp Objects provoca os ânimos de suas personagens e de seu público. Mesmo que você tenha lido o livro, como eu, sinto que seremos surpreendidos de certa forma. Fico no aguardo daquele twist que só uma série dessa qualidade consegue entregar.

Mari
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