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02/ago

Antes mesmo de começar esta resenha, gostaria de me retratar. Sei que já deveria ter abordado o assunto desde meu primeiro texto, mas acabei não o fazendo. Fix, o 3º episódio de Sharp Objects, foi difícil de processar. Difícil emocionalmente e também devido à sua devastadora cena final, a mais gráfica apresentada até o momento.

 

Com o estopim dos canais streaming, uma maior leva de pessoas passa a ter mais acesso a séries, filmes e documentários. Isso transfere uma grande responsabilidade em cuidar do seu conteúdo. Cuidar ao ponto de se preocupar em como isso pode repercutir a partir do momento que uma pessoa decide assisti-lo. Existem aqueles que acham que vivemos em tempos muito sensíveis. Eis aqui minha opinião: tenha um pouco de empatia e tranque seu privilégio em uma caixinha, nem que por alguns instantes. E, se conseguir, reflita.

 

Durante uma entrevista, Gillian Flynn disse que, dentre seus três livros, Objetos Cortantes é o que mais ecoa entre os fãs. Seu livro de estreia foi publicado em 2006 e, até hoje, é o que mais engaja os fãs a trocar experiências e a comparecer a eventos em livrarias. Temos um exemplo de livro que aborda diversos transtornos mentais, alcoolismo, autoflagelação e até diria sociopatia.

 

Wind Gap e suas personagens carregam uma bagagem de violência sem precedentes visto quão pequena é. Seja autoinfligido ou direcionado a alguém, os temas do livro se tornam mais alarmantes visualmente. E, com isso, é importante que o canal e a equipe criativa se dediquem a cuidar do assunto.

 

Aviso de gatilho

 

Sharp Objects - 1x03 - trigger warning

 

Cada pessoa digere determinado assunto de uma maneira. Alguns assistem algo com distanciamento, outros sentem empatia. Porém, são aqueles que passaram ou passam por situações semelhantes que podem ser afetados. Eis então que o aviso de gatilho se torna importante.

 

Proveniente da expressão Trigger Warning (TW), o aviso de gatilho nada mais é do que o alerta sobre o conteúdo de determinado assunto. Tal assunto pode desencadear memórias, causando desconforto, estresse e/ou pânico.

 

A HBO já tem como praxe classificar o conteúdo de suas séries logo na primeira imagem. Seja por linguagem pesada, cenas de sexo, violência, entre outros. Independentemente do primeiro aviso, dependendo do que a série aborda, o papel da equipe do canal e de suas redes sociais precisa ser mais presente e ativo. Quanto a isso, Sharp Objects tem seguido a cartilha corretamente.

 

É sabido que muitas pessoas não deixam os créditos rolarem até o final, principalmente quem acompanha programas pela TV. Isso aumenta quando assistido pelo computador. O aviso acima aparece ao final de cada episódio, direcionando a ajuda. Existe também uma relação de países, cada qual com seus serviços de apoio. Alcoólicos Anônimos aparece listado no Brasil. Acrescentaria o CAPS (Centro de Apoio Psicossocial) também como opção para brasileiros em busca de ajuda e de tratamento.

 

Eu te vejo

 

Sharp Objects - 1x03 - Amma e Camille

 

“Você odeia este lugar como eu, mas você adora meninas mortas.”

 

Tal afirmação poderia, mesmo que cruelmente, resumir o que este episódio simbolizou na jornada de Camille até aqui. Existe algo, quase que não visto a olho nu. É esse algo que Amma diz enxergar. Aquela prepotência de acreditar que sabe mais que a pessoa em si. Mesmo com todo esse prematuro conhecimento, fica a cargo do olhar do telespectador desvendar o passado de sua protagonista. Confesso que, até então, tem sido um verdadeiro deleite, mesmo tendo a leitura de Objetos Cortantes a meu favor.

 

Com esse íntimo diálogo, vemos que o que as aproxima também as distancia. Camille e Amma representam gerações diferentes e distantes uma da outra. Desenvolveram até aqui algo que é difícil de nomear, pois oscila constantemente. Normalmente, quando conhecemos alguém novo, existe aquele pisar em ovos. O tal medo do desconhecido. Isso não é um problema para as filhas de Adora.

 

Existe uma familiaridade com que Camille tenta cuidar de Amma e assim evitar que Adora acorde para vê-la naquele estado. É algo como se desejasse ter tido alguém olhando por ela. Conforme esse novo relacionamento é construído, vemos uma jovem mulher tentando consertar algo que foi quebrado há muito tempo. Independentemente da diferença de idade entre as duas, a protagonista se aproxima da sua mãe no quesito carência. Enquanto Amma parece ser protegida por tudo e todos, Camille passou sua adolescência lidando com seus demônios e a imagem que criavam dela dia após dia.

 

Alice in Wonderland

 

Sharp Objects - 1x03 - Alice e Camille

 

Tudo que veremos entre Camille e Amma servirá como alicerce para apresentar outro relacionamento. Um relacionamento que consta em um passado não muito distante. Durante o 2º episódio, a vimos ser assombrada constantemente pela imagem de uma jovem garota. Neste, descobrimos quem ela é e mais precisamente porque visita a mente de Camille tão intensamente.

 

Utilizando de flashback, voltamos à chuvosa noite em que Camille decidiu se internar em uma clínica de reabilitação em St. Louis. No livro, a justificativa que ela dá é que não existe mais espaço para seus cortes. Algo que compara a um drogado em busca de uma veia boa. Apesar da vulnerabilidade, em momento algum ela parece se sentir derrotada. Ainda existe algo em seu olhar, mantendo-a viva.

 

Alice é uma garota de apenas 16 anos que se autoflagela. Ao contrário de Camille, ela estrategicamente evita algumas partes de seu corpo. Aqui, descobrimos a conexão da protagonista com as músicas que escuta e a responsável por isso é Alice. Sempre que autorizada, a adolescente escapava do mundo real ao embarcar nas músicas de seu iPod. Apesar da resistência inicial, uma forte conexão nasce entre as duas.

 

“Achei que fosse algo que superasse.
Nunca fui boa em ser adulta.
A Peter Pan do corte.
Isso, eu nunca vou crescer.”

 

Crime de paixão

 

Sharp Objects - 1x03 - Willis

 

Desde que Willis foi chamado para dar assistência ao caso, os conflitos com o Chefe Vickery se tornam mais alarmantes devido à pessoalidade da situação. Vickery pensa como um agente local, agregando suas suspeitas em caminheiros mexicanos que se mudaram para a região trazendo suas famílias, hábitos e seja mais lá o quê. Falas como essa evidenciam a mente preconceituosa de uma região fundamentada por conflitos étnicos e culturais.

 

Willis pensa diferente, afirmando que existe passionalidade nos crimes. Muitos agregam um crime passional ao ato sexual em si, porém, vai muito além disso. Seres humanos são impulsionados por diferentes instintos e motivações. E quem desencadeou os assassinatos em série fez porque necessita se sentir poderoso. Em controle da situação.

 

Pessoas de bem

 

Sharp Objects - 1x03 - Adora e Bob

 

Parece que Curry sabe o momento certo de ligar, pois o boss sempre age como despertador de Camille. Depois do primeiro trabalho concluído, um bom trabalho em sua opinião, ele precisa que ela se aprofunde mais nas peças seguintes. Seu próximo artigo precisa ter um cunho mais pessoal, principalmente focando nos pais das vítimas.

 

Cada momento e cada interação é uma readaptação. Afinal, ela é uma estranha fora do ninho. Bom, pelo menos ao olhar dos outros, pois, para Camille, tudo soa familiar demais.

 

Assim como no 1º episódio, Bob Nash continua verbal em relação a sua angústia e ao seu sofrimento. Tudo isso somado ao como a cidade o vê, considerando alguns episódios no passado em que bebeu um pouco a mais. Com sua esposa ainda fora de casa, o pai de agora três tenta, apesar de tudo, manter o ritmo da família.

 

“As mulheres daqui não matam com as próprias mãos.
Elas falam e você morre.”

 

Nunca levei umas palmadas ou apanhei de minha mãe, mas me recordo como suas palavras feriam. Nada se comparado ao que acontece em Wind Gap, claro. Agora, se existe alguém que fala e você morre em seguida, esse alguém é Adora. Camille conhece a mãe que tem e, no momento que ela aparece na casa dos Nash, vemos seu semblante alterar rapidamente. Foi como ver sua versão de 13 anos de idade ser contrariada.

 

Se existe o Efeito Borboleta, também existe o Efeito Adora. Usando o mesmo discurso desde que Camille pisou na cidade, ela pede desculpas pelo comportamento da filha, sempre a incomodar e a tocar em um assunto tão aborrecedor.

 

Cutucando feridas

 

Sharp Objects - 1x03 - Camille

 

Vickery abordou Camille enquanto estava prestes a entrar na residência dos Nash. Acho que não é preciso explicar como a Mama sabia onde a filha estaria. Quando o chefe de polícia visita o casarão um pouco depois, percebe-se uma cumplicidade entre os dois, algo que o formato da adaptação também permitiu explorar melhor. Considerando que Adora é realeza local, nada poderia passar despercebido a ela. Existem alianças, principalmente em cidades como Wind Gap.

 

O nível de confidências é tamanho ao ponto de Vickery chegar a mencionar sobre a desobediência da outra filha, Amma. Considerando os acontecimentos recentes, Wind Gap possui um toque de recolher. Porém, para uma juventude entediada, regras foram feitas para serem quebradas.

 

Turning the Blind Eye é uma expressão que parece se aplicar perfeitamente quando o assunto é Amma. Independentemente do que dizem a respeito das atitudes da filha mais nova, Adora lida com ela de forma diferente. Desvirtuando tudo, reverte o ângulo da conversa, focando em Camille e no quão perigosa e instável ela pode ser. Somente a maneira com que conversa com a filha, alertando-a sobre Camille, mostra o abismo e a descrença nessa falida relação.

 

Assim como Vickery, Camille recebeu uma dose de julgamento e de acidez por parte de Kansas City devido ao artigo que escreveu para o jornal de St. Louis. Vemos que se constrói cada vez mais a tensão entre esses personagens, distintos em suas abordagens, mas que buscam a verdade de alguma forma. Preaker tenta acreditar que está ali somente a trabalho, mas, gradativamente, o motivo de sua ida à Wind Gap vai se transformando. Amma é um desses motivos.

 

De frente com Camille Preaker

 

Sharp Objects - 1x03 - John

 

Se procurar a definição de passivo-agressivo no dicionário, com certeza encontrará Wind Gap. Como uma típica cidade sulista, tudo nela beira extremos. Tudo e todos sabem quem você foi, mesmo que seja apenas pura presunção. Camille abraça o desafio como se estivesse reencontrando um velho conhecido, mas isso não significa que conseguirá o que precisa. Seguindo as novas recomendações do boss, a personagem segue com sua busca frenética por citações oficiais e a tal pessoalidade que Curry tanto espera.

 

Depois de falhar mais uma vez em quebrar o muro da Mrs. Keene, Camille parece ganhar na loteria ao esbarrar com John e Ashley. No livro, o irmão mais velho de Natalie é um dos personagens mais incógnitos da história. Dificilmente conseguimos entendê-lo, talvez, porque sua sensibilidade e sua franqueza destoam do restante de Wind Gap. Contrário à negativa que vinha recebendo, a protagonista consegue uma abertura com Ashley. Um mero encontro se transforma em um furo de reportagem.

 

“Sinto falta da cidade, você pode sair de casa e tem pessoas à sua volta, e elas não sabem nada sobre você. Você pode ser qualquer um.”

 

John deixa claro quão sufocante e intoxicante é viver em uma cidade como Wind Gap. Principalmente se não nasceu, cresceu e se corrompeu ali, como é o caso dos Keene, que se mudaram há dois anos. Viver lá simboliza tudo oposto da falta de privacidade e do bom senso. Poucos são aqueles que vivem sem ao menos ligar para o que os demais pensam. Natalie era um espírito livre, porém excêntrica demais aos olhares externos.

 

 Sobrevivendo

 

Sharp Objects - 1x03 - Alice

 

Nós, como seres humanos, somos sedentos por conexões pessoais. Fomos feitos e criados para viver em sociedade, mesmo que alguns se sintam bem sozinhos. Criamos expectativas e, por vezes, não sabemos lidar com suas consequências. Somos vulneráveis e carentes em um momento e destemidos e independentes no outro. Diria que somos uma contradição ambulante, repleta de contrastes e de cores. O mais interessante nisso tudo, é que somos únicos. Não existe e nunca existirá ninguém igual a você.

 

Amo filmes de ficção científica e como suas histórias quebram barreiras. Mas, o que mais amo, é essa humanidade. Que faz de nós quem somos.

 

O relacionamento de Camille com Alice, durante as seis semanas de internação, foi expandido em comparação ao citado no livro. Nas páginas, a protagonista comenta brevemente sobre sua colega de quarto, mas aqui escolheram explorar essa doce e amarga relação. O mais incrível é que, conforme desvenda mais sobre Amma no presente, Preaker mais se afunda em suas memórias com Alice.

 

“As coisas melhoram com a família da gente? Talvez quando eu for mais velha como você?
Não. Não mesmo.
Então o que a gente faz?
A gente sobrevive.”

 

Alice sente o que um adolescente normalmente sente nesse estágio de sua vida. O que acontece é que não existe uma cartilha de como passar por tudo, mas o imediatismo é um denominador comum. Nessa idade, tudo parece absoluto e escrito na pedra. Torna-se alarmante no peito a possibilidade de que aquilo que vive e que sente serão para sempre. Infelizmente, nem todos possuem o apoio e a ajuda necessários para quebrar tal sensação e pensamento.

 

Grito abafado

 

Sharp Objects - 1x03 - Alan

 

Só existe um título neste casarão e é o da matriarca Adora. Alan, vejamos bem, nem sequer podemos chamá-lo de patriarca. Sua presença se torna, por vezes, despercebida diante da tríplice feminina que habita o lugar. Assim como Alice, seu refúgio é a música, de gosto bem refinado, mas com aparelhos de ponta. Em cada episódio, o vemos embarcar em uma nova jornada musical, seja sozinho ou quando puxa sua esposa para dançar. Fora isso, esse personagem se mostra presente somente em corpo.

 

Alan, ao mesmo tempo que se mostra preocupado com a esposa, tenta se manter distante de sua rotina diária. Rotina essa que parece rodar em torno de cuidar da vida dos outros. Em específico, das filhas. Lavar uma louça ninguém quer, não é mesmo? Enquanto arrumava seu jardim, destruído por uma embriagada Amma, Adora se corta nos espinhos de suas rosas. Ironia mais sútil que essa impossível.

 

Adora, sempre a sussurrar, levanta sua preocupação com a presença de Camille e a influência negativa que poderá recair em Amma. Por sua vez, Alan acha que, por Camille ser uma mulher madura, suas escolhas não os afeta. Alguém como Adora nunca refletirá as barbaridades que saem de sua própria boca e não é à toa que alguém como Alan, aparentemente tão passivo, não consegue nem ao menos gritar em alto e bom som.

 

Seu momento na varanda parecia um misto de raiva com o chamado de ajuda. Quão interessante é virar a percepção que temos também para ele que, tecnicamente, não foi feito para pertencer a esse jogo.

 

Penso, logo existo

 

Sharp Objects - 1x03 - Camille e Kansas City

 

Inicialmente, Camille se mostra sugada pela presença e pela nova dinâmica criada com Amma. De certa forma, Preaker se sente responsável pela garota, esta que dribla o ambiente do qual crescera e, principalmente, quem a criou. Desde a sua chegada, Amma fica curiosa em conhecer mais sobre a mulher incorrigível que sua mãe mencionava.

 

Instigando a big sis, Amma a convida para uma noite na cidade com seus amigos. O que Camille naturalmente recusa, condenando a ida da garota. Afinal, haveria o perigo e a desobediência do toque de recolher.

 

Inquieta após a intimista visita de Amma ao seu quarto, Camille decide visitar novamente o quarto de Marian. Mesmo que fragmentadas, tais imagens simbolizam suas memórias. É inegável a constante, em diferentes estágios de sua vida, de uma garota mais nova que a vê como inspiração ou mesmo alguém com quem contar. Sua imersão se torna tão profunda que, mais uma vez, Alice reaparece para tirar seu sossego, fazendo-a ir em direção ao seu lugar favorito.

 

Ir ao bar implica sempre em mais um encontro com Kansas City e Camille sabe jogar com as cartas que tem. Bom, mais precisamente com os drinques. Pedindo uma trégua, os dois parecem encontrar um novo tom para suas conversas. Willis se mostra interessado em conhecer mais sobre Wind Gap e as pessoas, já que está um pouco cansado de se sentir como uma pária. Tal conversa se torna tão natural que ambos decidem estender a bebedeira para o estacionamento que Camille tanto frequentou quando mais nova.

 

Pela primeira vez, vemos espontaneidade e leveza na protagonista. Dentre histórias do passado e perguntas bestas, cria-se uma vital relação.

 

“Você era como a filha do pastor? Beleza, dinheiro e inteligência?
Bem, beleza e dinheiro podem ajudar muito nesta cidade.
E inteligência?
Vai tirar você desta cidade.”

 

Flores de plástico não morrem

 

Sharp Objects - 1x03 - flores

 

“Olhei até ficar cansado
De ver meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro
Os pulsos os punhos cortados
O resto do meu corpo inteiro
Há flores cobrindo o telhado
E embaixo do meu travesseiro
Há flores por todos os lados
Há flores em tudo o que eu vejo
A dor vai curar essas lástimas
O soro tem gosto de lágrimas
As flores têm cheiro de morte
A dor vai fechar esses cortes”

 

Rosas possuem diversos significados. Todos atrelados ao motivo pelo qual elas são dadas. Amor, gratidão, celebração, luto, entre outros. Dar ou receber rosas é um ato que conecta as pessoas envolvidas. Rosas são belas ao olhar, mas também possuem espinhos que machucam caso não sejam devidamente podadas.

 

Existem rosas por todos os lados em Fix, desde o acidente de Amma, destruindo o jardim de Adora no início do episódio, até o buquê de flores que Camille recebe na clínica. A protagonista entra em uma espiral desde que começa a relembrar de Alice e, principalmente, devido a maior proximidade com Amma. Só que ela não esperava que a garota conseguisse, com tanta naturalidade, entrar embaixo da sua pele e fazer seu sangue ferver.

 

“Seja perigosa como a mamãe disse.
Poderia me matar aqui, e sabe de uma coisa?
O Dick ainda não desvendaria o crime.”

 

Sua conversa com Willis é interrompida por Amma que, na presença das amigas, sempre mostra que é uma loba controlando sua matilha. Entre insinuações sobre a vida sexual passada e considerando o momento a dois com o Detetive, ela cutuca e provoca Camille, sem ao menos mostrar um resquício daquela doce garota embriagada que distribuía beijos e abraços na irmã mais velha.

 

Amma, gradativamente, mostra sua verdadeira face e é assustador ouvir o que sai de sua boca.

 

Passado não pode ser consertado

 

“Quando morre, se torna perfeita.”

 

Sharp Objects tem sua trama rodeada pela morte. Desde porcos a meninas mortas, existe uma escuridão que caminha silenciosa e que ao mesmo tempo é ensurdecedora. No livro, durante um dos cafés da manhã em família, Amma revela impetuosamente seu desejo em se tornar a próxima vítima. Em sua mente, aquele que morre, atinge a perfeição, sendo, então, adorado e amado para todo sempre. Ímpeto talvez não seja a palavra certa aqui, pois existe sempre um tom de verdade por trás de um desejo. Independentemente de como ele soa em voz alta.

 

Resolvi revelar esse terrível momento do livro porque ele serve de contraste ao que aconteceu com Alice e, consequentemente, às repercussões em Camille. Diferente das páginas, o 3º episódio da minissérie escolheu dar mais profundidade tanto ao relacionamento entre as duas quanto à maneira com que Alice tira sua própria vida. De um lado temos uma garota que inveja pessoas mortas e a outra que não encontra uma saída para sua dor.

 

Existe uma familiaridade da protagonista com a morte, principalmente por conhecê-la tão cedo, com a partida de Marian. Além de familiar, existe outro sentimento que sempre a atormenta: culpa. Camille condena sua incapacidade de consertar as coisas, seja a saúde de sua irmã, algo que disse, ou alguma atitude não tomada. Debaixo dos cortes, ainda vive uma mulher que se cobra excessivamente ao ponto de não conseguir discernir o que é de fato dela e o que foge de seu controle.

 

Concluindo

 

Decidi dedicar parte desta resenha para falar sobre o aviso de gatilho, pois o que o final deste episódio entrega, além de bem executado, deve ser feito com extremo cuidado. Sabemos que muito do que vemos na televisão é apenas colocado com o propósito de chocar. Em Sharp Objects, principalmente por sua temática adulta, haverão momentos visualmente e emocionalmente desconfortantes.

 

Fix apresenta o primeiro deles: a morte de Alice por envenenamento. Como Camille reage é consequência da dor e sua resposta para tal é se cortar, assim como beber foi a maneira que encontrou de não pensar tanto em se cortar. O nome do episódio simboliza a palavra que ela cravou em seu antebraço na noite que se internou.

 

Temos aqui uma personagem no sentido mais humano da palavra. O que a define não é a quantidade de palavras cravadas no corpo e sim como decide viver apesar disso. Vemos aqui uma jovem mulher que sente cada palavra em seu corpo pulsar. Ainda assim, ela encontra combustível para mais um dia, sem ao menos destratar alguém por causa disso. Mostrar seu passado e como Alice foi parte dele são meios para que o telespectador comece a entender mais sobre o que carrega em sua bagagem. Isso a coloca em um patamar distinto de personagens já criadas. Seja na literatura ou na televisão.

 

Entregando seu episódio mais impactante até então, Sharp Objects se encaminha para a metade de sua jornada. O que virá daqui pra frente, lhe garanto, será tão impactante quanto.

Mari
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