Menu:
08/ago

Como toda série, independentemente de sua duração, existe aquele momento decisivo de sua existência. Seja por chegar ao seu ápice ou para preparar o telespectador. Seja manipulativo ou não, a trama será criada e servirá com seu propósito, logicamente ou não.

 

Ripe marca a metade da jornada de Sharp Objects, considerando que sua fonte é proveniente de uma adaptação literária. Para tal, seu desenrolar é totalmente diferente de qualquer outra produção. E isso eleva-se quando a criadora da obra faz parte de todo o processo.

 

Cria-se uma nova expectativa visto toda a temática e as pessoas envolvidas no projeto porque adaptar uma obra literária tende a ser uma imensa responsabilidade. No caso de Sharp Objects, o formato se expande. Permite cobrir fielmente o material original, mas também abre precedentes. Explorando e aprofundando os personagens e, consequentemente, o crucial desfecho deste mistério.

 

O que se percebe neste episódio é que existiu uma necessidade de prolongar o inevitável. Muitos podem interpretar isso como a famosa encheção de linguiça. Apesar de algumas cenas serem aleatoriamente colocadas, acredito que farão sentido no final. Afinal, aqui há a liberdade de alterar ou de acrescentar, independentemente do texto original. É sempre válido desde que seja feito da maneira certa.

 

Visualizo a thread da série no Twitter depois que assisto cada episódio. Gosto de acompanhar o que os telespectadores falam. Frequentemente, o que aparece é o ritmo lento e, por vezes, que nada parece ocorrer. Sendo que o que fascina no texto da série e em sua identidade visual é que tudo que é apresentado é uma pista. Na maior parte das vezes, o comportamento humano é o maior indicador.

 

Rituais matinais

 

Sharp Objects - 1x04 - Road

 

Considerando os impactantes eventos do episódio anterior, Ripe inicia sua narrativa exatamente aonde Fix terminou. Camille se mostra arrependida por ter jogado pela janela o iPod de Alice, o que a faz parar na estrada para procurá-lo. Seu retorno matinal intercala com uma sequência trivial envolvendo o despertar do Detetive Willis, Chefe Vickery e Adora. Existe algo íntimo e ao mesmo tempo intocável em cada uma dessas realidades. Tais personagens são tão contrastantes que somente alguém como Jean-Marc Vallée poderia captá-los tão precisamente.

 

Sorry not sorry

 

Sharp Objects - 1x04 - Amma e amigas

 

Sabemos que uma coisa é certa para a jovem atriz Eliza Scanlen: sua vida nunca mais será a mesma após Sharp Objects. Para alguém tão novo e ainda sem muita trajetória, se comprometer tão ferozmente a uma personagem é louvável. Patricia Clarkson e Amy Adams representam diferentes gerações de atrizes em Hollywood e trabalhar ao lado de mulheres tão talentosas e colaborativas deve ser uma experiência transformadora.

 

O que mais impressiona é que ela entrega de igual para igual ao lado desse fantástico elenco. A cada episódio, Scanlen consegue contar mais sobre a contraditória e intensa personalidade de Amma.

 

Neste episódio, suas atitudes da noite anterior ficaram fincadas no emocional de Camille, gerando uma estranheza esperada entre elas. Porém, existe sempre algo que as reconecta. Decepcionada com seu comportamento perante a irmã, ela tenta pedir desculpas pelo que causou. Sua desculpa foi a de Alfa de seu grupo que facilmente faz bullying na tentativa de se mostrar para as amigas.

 

“Minha mãe diz que os homens escrevem a História, então é claro que vão querer se destacar.”

 

Por falar em se mostrar, os preparativos para Calhoun Day, a tradicional festa local que Adora sedia todos os anos, é iniciada. Amma, sendo a joia preciosa da matriarca da cidade, ensaia para a peça teatral. Mesmo que a mãe leve muito a sério o evento, a filha parece se divertir bastante com sua posição de destaque. Ríspida, mas ao mesmo tempo acessível, a garota parece não se intimidar com figuras de autoridade e sua conversa com o professor é mais uma prova de seu comportamento manipulador e calculista.

 

Fofocas à la carte

 

Sharp Objects - 1x04 - vipers

 

Alvo Dumbledore mesmo disse que as palavras são nossa inesgotável fonte de magia. Seu poder é tanto que são capazes de formar grandes sofrimentos e também remediá-los. Assim como as rosas de seu jardim, o que sai da boca de Adora é sempre cortante. Seu timbre macio e arrepiante penetra na pele de qualquer um ao seu redor.

 

Por falar em rosas, seu corte na mão a impossibilita de comparecer ao almoço das víboras seniors. Camille segue sem a mãe para o restaurante, o que deve ter sido um grande alívio.

 

“É só um arranhão.
Talvez para você.”

 

Conforme conhecemos as diferentes gerações de Wind Gap, sabemos que cada uma cumpre com um papel na cidade. Aqueles que ousam sair da delimitada curva estão destinados a viver nas margens, colhendo migalhas. Por um lado, Jackie tem seu papel traçado, porém, o modo com que escolhe usá-lo que a torna fascinante ao olhar do telespectador. Suas convicções são fortes e a maneira com que escolhe expressá-las mostra que nem tal cidade pode segurá-la.

 

Como uma boa cidade pequena, a roda de fofoca chega a ser o ponto alto do dia de muitos moradores. Entediante e pacata, Wind Gap prova que tirar conclusões e julgar são mais produtivos a cuidar de sua própria vida. É isso que o almoço de Camille com as “amigas” de sua mãe serve. Claro que, como repórter, estar presente pode vir a ajudá-la com mais furos jornalísticos.

 

Bob Nash e John Keene parecem ser os únicos nomes suspeitos no imaginário da cidade. Suas contrastantes personalidades levantam teorias e aumentam a tensão e a urgência em solucionar os crimes.

 

Sensor aranha

 

Sharp Objects - 1x04 - John

 

Como o bom filho que aparenta ser, John ainda tenta manter o estado de sua mãe sob controle. Mesmo que ela própria já esteja entregue à depressão e à irreparável tragédia que assola a família.

 

O personagem visita o aquário aracnídeo de Natalie e percebe que um dos amigos da irmã sumiu. Será que Camille sabe algo sobre isso? Brincadeiras à parte, sua vida parece desmoronar cada vez mais. Além da presença constante de Vickery e de Willis, John tem que lidar também com sua demissão da Preaker Farm.

 

Bob Nash também recebe sua dose de vista grossa por parte das autoridades, mas é o garoto Keene que parece sofrer mais consequências. Principalmente porque suas ações noturnas, mesmo que genuínas, parecem suspeitas.

 

Disperso e desconectado com tudo e todos, ele parece viver no piloto automático desde o que ocorrera na cidade. Seu relacionamento com Ashley parece ser uma mera casualidade, tendo que 100% dos esforços parecem vir dela. Até mesmo na intimidade do casal.

 

Crimes na floresta

 

Sharp Objects - 1x04 - Kansas City e Camille

 

“O que não te mata, te fortalece.”

 

Quem nunca se sentiu empoderada com essa afirmação que atire a primeira pedra. Curry, em mais uma ligação, pede updates de Wind Gap e, como sempre, de Camille. O chefinho, com seu sempre carinhoso tom de voz, se diz esperançoso com o tour que ela fará com Kansas City. De quebra, ele acredita que será uma ótima oportunidade para tirar informações oficiais e úteis para seu próximo artigo.

 

O passeio na floresta entre Camille e Richard, até então, foi um dos momentos mais fiéis já retratados na série. Ambos firmam um acordo: para cada cena de crime que ela mostrasse, o Detetive responderia algo on the record para seu artigo. Embarcando pelo passado e pelas memórias trágicas daquele lugar, o pária de Kansas começa a entender mais sobre a escuridão de Wind Gap. E é com essa bizarra troca de informações que a relação deles toma outro rumo.

 

E será com Richard que veremos como Camille se porta e se enxerga sexualmente.

 

Violência intergeracional

 

Gillian Flynn teve como intuito explorar um tema que sempre a interessou: violência intergeracional. Estamos acostumados a vivenciar a predominância do tema no universo masculino. Raiva, brutalidade e o ato da violência em si passados de geração em geração são raramente explorados no universo feminino. Se os homens foram ensinados a não expor sentimentos, mulheres aprenderam que precisam se conter. Principalmente em relação a sentimentos vistos como negativos, como a própria raiva.

 

Wind Gap tem manchas em seu passado e elas mostram que se uma pessoa não cumprir as regras sociais, um rótulo lhe será automaticamente atrelado. Em suma, claro que isso ocorre com a população feminina da cidade. O primeiro crime envolveu um casal lésbico, dado como suicídio. Uma das garotas deixou um bebê recém-nascido para trás.

 

Camille expõe também um ponto estratégico da floresta onde os jogadores do time da escola se revezavam com a cheerleader da vez. Esse momento mostra como o homem e a mulher pensam quando a discussão envolve sexo, estupro e consentimento. Aqui, diferente do livro, não é revelado totalmente o envolvimento de Camille nessas atividades. E nem mesmo quão ativa ela era sexualmente. Tentando ao máximo preservar suas ações e seus rótulos da época, a repórter consegue conhecer mais sobre o Kansas City e o caso em si.

 

“Tem a ver com poder para quem se sente impotente.”

 

Perigosa e em perigo

 

Sharp Objects - 1x04 - Adora

 

Desde que o Detetive Willis bateu o olho em Camille, ele sentiu que existia algo além daquela bela faceta e seu retorno à Wind Gap acrescentou mais um mistério a ser solucionado.

 

Assim como Willis, Vickery também tem os olhos grudados na filha de Adora. Principalmente porque ela parece gostar de cutucar os ânimos dos locais ao escrever sobre o caso. Ambos possuem estilos de trabalho diferentes, mas uma coisa têm em comum. Devido ao longo período sem nenhuma prova concreta, eles admitem que precisam dividir mais informações um com o outro. Comunicação é essencial, principalmente se tais informações envolvem Camille.

 

Este episódio foi o que mais se afastou do livro, mas é totalmente justificável o motivo. Flynn nos fez acompanhar a mente de Camille do começo ao fim de Objetos Cortantes. Já na série, a equipe de roteiristas permitiu ir além de sua mente, ou seja, acrescentar diferentes perspectivas e interações entre os demais personagens. Uma relação bem explorada na adaptação é a de Vickery e de Adora. Existe uma cumplicidade e espontaneidade um com o outro ao ponto de deixar Alan visivelmente irritado.

 

O motivo de sua visita é recheado de preocupações, a primeira delas a respeito do Calhoun Day. Vickery não acha apropriado sediar o tradicional evento anual no quintal de sua casa. Só que ele precisa ser relembrado que a matriarca sempre fala por último e ela acha que um pouco de frivolidade não matará ninguém.

 

A outra preocupação desse personagem é com as filhas de Adora. Vai de sua interpretação classificar quem é a perigosa ou quem está em perigo entre as duas.

 

Fruta madura

 

Sharp Objects - 1x04 - Camille

 

Se me dissessem para escolher uma cena que defina o cerne de Sharp Objects, com certeza escolheria essa conversa entre Adora e Camille. Também já me arrisco a dizer que essa poderia ser facilmente a “Emmy Tape” de ambas, ou seja, o episódio escolhido aos elegíveis à premiação. Momentos como esse me fizeram lembrar de algumas entrevistas com o elenco.

 

Em uma delas, Patricia e Amy confessam que tinham que beber um pouco durante os breaks. Tudo isso para aliviar um pouco da tensão que era viver essa tóxica relação entre mãe e filha.

 

São momentos como esse que mostram a inaptidão e a negação do ser humano em simplesmente ser uma pessoa de verdade. Conforme falei acima sobre a violência intergeracional, outras coisas também são passadas de geração para geração. Adora não compreende que para alguém amá-la é preciso mostrar a ela o que é o amor. Uns dizem que esse sentimento chega a ser algo tão natural quanto respirar e dormir. Principalmente se é incondicional.

 

E só existe um tipo de relação assim: entre pais e filhos.

 

Infelizmente, isso não ocorre com a família Preaker. O que se instalou entre os relacionamentos formados foi uma crise emocional. Ao contrário de muitas jovens mães que recebem um chamado, Adora depositou tudo de negativo nesta nova vida. Uma vida que já carregava muito além do que poderia.

 

Adora envolve Camille como se ela fosse um gato atrás de seu novelo de lã. Só que o golpe final é dado quando compara seu odor ao de uma fruta madura. Um paralelo nada sutil ao início de seu envolvimento sexual com o Kansas City.

 

“Desde o começo você me desobedecia, não comia…
Como se estivesse me castigando por você ter nascido.
Você fazia com que eu me sentisse como tola, como uma criança.”

 

Weirdo like me

 

Sharp Objects - 1x04 - John e Camille

 

Com uma mãe como Adora, com certeza que Camille encontraria refúgio no bar local. O mais agravante é que ela teria tudo para voltar a se cortar, mas, como fizera um pacto consigo mesma, beber para não pensar na dor e na angústia que sente é a solução. Bom, além disso, existe uma triste verdade: não existe mais nenhuma parte livre para uma nova palavra.

 

Ao contrário da presença carimbada de Kansas City, quem chega ao bar e se senta ao seu lado é John Keene. Após um passeio noturno para buscar uma nova aranha para a coleção de sua irmã, o garoto desabafa com Camille. Dentre analogias do sofrimento dos porcos e como a cidade o intitula de baby killer, se cria um paralelo entre ambos. No caso, a perda das irmãs mais novas.

 

Assim como Alice perguntou para Camille se as coisas melhorariam com os pais, John pergunta se um dia conseguirá superar a morte. Já imaginamos a resposta.

 

À sua maneira, Camille entende o que é ser julgado constantemente pelo que as pessoas acreditam ser verdade. Por essas e outras que sente empatia pelo garoto Keene. Existe algo de muito cruel na maneira com que facilmente o colocam na fogueira. Independentemente de seu faro como repórter, ela mostra mais uma vez sua generosidade com o outro.

 

Em contrapartida, um momento em particular chama bastante atenção. Vemos Ashley limpando uma mancha vermelho no carpete embaixo da cama que divide com John. Pistas e mais pistas são deixadas para o telespectador.

 

Concluindo

 

Sharp Objects - 1x04 - Amma

 

Ripe deixou um gosto amargo na boca, pois mostrou o lado mais cruel de alguns personagens. Por outro lado, alguns saíram daqui mais vocais, a exemplo de Alan. O marido papel de parede finalmente se impôs perante a esposa. Sabendo como Adora ama se vitimizar, foi importante vê-lo jogar na cara dela que também perdeu uma filha e que nem tudo é culpa de Camille. Isso apenas aconteceu porque, provavelmente, ele escutou parte da cortante conversa entre mãe e filha.

 

“Você tem uma noção bem estranha da palavra “machucar”, querida.”

 

Camille descobriu a conexão de Amma com Ann e Natalie. Servindo sempre como a apaziguadora dos conflitos, a filha mais nova de Adora andava junto com as meninas, até mesmo quando iam na cabana bizarra da floresta. Tal informação é suficiente para colocá-la em pânico, pois, se a cabana era um ponto em comum entre as garotas, Amma pode estar em perigo.

 

Desde que o trailer oficial de Sharp Objects saiu, uma cena em específico me fascinou. Se pensou na cena das meninas andando de patins no escuro, apenas iluminadas pelo farol do carro, você acertou. Jean-Marc Vallée e sua equipe de edição nos transportaram para uma viagem deslumbrante nos minutos finais do episódio, que mesclou delírios da mente de Camille com situações que de fato ocorriam. Isso que chamo de o Sr. Cliffhanger.

 

Mesmo eu sabendo o que ainda acontecerá, todas as minhas expectativas foram elevadas ainda mais. Se continuarem com o que fazem até aqui, posso até fechar meus olhos. Daqui pra frente é confiança plena de que essa história entregará o desfecho visual e emocional que sua obra original tanto merece.

Mari
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3