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25/ago

Não me lembro exatamente quando foi a primeira vez que assisti 50% (50/50), filme estrelado por Joseph Gordon-Levitt e Anna Kendrick. Só sei que, dias desses, bateu vontade de reassisti-lo e cá estou toda emocionada com essa segunda experiência que não deixou de ser formidável. Ultimamente, tenho feito várias revisitas cinematográficas e tem sido bem bom.

 

Sumariamente, o filme traz a história de Adam que é diagnosticado com um tipo de câncer, cujas chances de sobrevivência são de 50%. Não é uma premissa pra lá de nova, mas a entrega de Joseph ao longo das etapas do tratamento da doença faz rir e faz chorar. Bem Sandy & Júnior mesmo.

 

Katherine, a personagem de Kendrick, é a psicóloga de Adam. Ela é assistente, na verdade, que atua na área um tanto prematuramente para coletar mais aprendizado para sua formação. A personagem é inexperiente e se vê desafiada a lidar com as mais variadas emoções visto que seu paciente pode morrer (e está extremamente azedo quanto a isso). Impasse que entrava a positividade dessa mulher justamente porque seu papel é tentar também reverter o pessimismo dele. E a moça não desiste.

 

É um encontro um tanto difícil nas primeiras sessões, pois Katherine é extremamente pra cima e, de quebra, afetuosa. Detalhes que, obviamente, irritam Adam que a vê com certo desdém.

 

Para piorar, ao menos do ponto de vista dele, Katherine é cheia dos toques que demonstram suas tentativas funestas de expressar conforto. E, claro, ele recua. Boa parte do filme traz o contato desses personagens e como ele evolui junto com a doença de Adam. É o coração da trama.

 

Katherine se sente falha por não saber como agir e o que falar para Adam. E Adam a repele drasticamente. Contudo, ambos divertem em suas próprias trapalhadas adultas.

 

50% - Adam e Katherine

 

Juntos, ambos lutam com uma emoção em comum: negação. Ele não recebe bem a notícia do câncer. Nem muito menos a ajuda dela. O personagem acha tudo que ela fala coisa da nave da Xuxa porque seu quadro não deixa de ser grave. E ela fica de mãos atadas porque não tem acesso a ele.

 

Terapia vai e vem, e Adam padece depressa. Porém, os conflitos ao seu redor se iniciam como se estivessem em câmera lenta. Após o diagnóstico, sua vida se torna preta e branca, e o que descarrila a partir disso testa a positividade que Katherine quer tanto incitar em seu paciente.

 

Depois do diagnóstico, Adam passa por algumas perdas. A começar pela namorada. Mulher que ele era meio dependente devido às caronas para a quimioterapia. De início, tudo parece muito bem, mas, em poucas passagens de tempo, ela se revela como um fortíssimo exemplo de quem escolhe não lidar com o problema do outro, especialmente quando é algo grave, como o câncer. A personagem de Bryce Dallas promete ficar ao lado do seu “amado”, mas, enquanto isso, o trai. Uma vez desmascarada, pelo melhor amigo dele, a moça se exime de qualquer auxílio sem pestanejar.

 

Na maior cara de pau, ela anuncia que não tem condições de atravessar esse caminho ao lado de Adam. Assim, a brecha se abre e os pais do personagem entram em cena. A mãe, na verdade, que quer ser a companhia e o auxílio extra. A figura materna insiste em cuidá-lo de perto, mas nada disso ocorre. Adam escolhe se cuidar sozinho, apesar de Katherine e do melhor amigo assumirem a responsabilidade de assisti-lo – processo que não é imposto.

 

Ao mesmo tempo que todo mundo parece distante de Adam, os poucos que lhe restaram seguem firmes em sua companhia. Sem grandes intervenções, o que reflete no respeito que cada um dos secundários cede com relação à trajetória que o protagonista tem que enfrentar. Apesar de apoio ser necessário, ele é o único que pode compreender como se sente e assim seguir adiante.

 

Caso perguntem, 50% não traz a exacerbação da doença. O roteiro foca nos efeitos colaterais do tratamento e no resultado emocional que tal experiência acarreta. Destaco o cansaço tanto de estar doente quanto de não ter certeza se todo o esforço será positivo no fim das contas. Último fato que dá um tapa em Adam, que entra em colapso emocional dentro do carro (a melhor cena do filme, sem dúvidas). É um instante transformador em que desesperança e luto de si mesmo o atordoam.

 

É neste instante que enxergamos a verdadeira moral do filme, que diz que as oportunidades podem ser perdidas uma vez que você é diagnosticado com algo tão grave e que mata sem aviso algum. De novo, é a questão de viver o hoje como se fosse o último dia de nossa vida.

 

(e há mais mensagens neste filme, fatos reais).

 

50% - grupo Adam

 

Por meio do seu aparente asco de estar doente, Adam sem querer transmite a mensagem do quanto devemos parar de fazer listas. Devemos seguir adiante, sem pensar muito. Dentro daquilo que queremos. O filme cutuca aquele papo de só farei quando… porque o quando pode nem chegar a acontecer.

 

O quando que esse personagem mais quer, e que se torna um temporário passado visto o avanço da doença, é o amor. Ele sempre almejou amor e não tê-lo, nem mesmo vivenciá-lo, dá uma sutil baqueada que acaba por encontrar seu tom apaziguador na presença tão fofa de Katherine.

 

Além do seu papel de psicóloga, ela conflita muito discretamente sobre se envolver emocionalmente com um paciente. Ainda mais no prezado instante em que acabou de ser chutada pelo ex. Com a junção desses dois personagens, 50% entrega que o amor verdadeiro também é seu mote. Seja da parte de Katherine ou até mesmo do melhor amigo que não arreda o pé da vida de Adam.

 

Há também o amor de Adam pela sua profissão. O amor de Katherine pela sua profissão e por querer dar o seu melhor ao primeiro paciente da sua vida. O amor da mãe sobrecarregada para com o filho. E o amor heterossexual, que é o que o protagonista mais quer.

 

Ele só queria dizer eu te amo para alguém, gente. Assim, de verdade, verdadeira. O coração partiu!

 

Dirigido por Jonathan Levine e escrito por Will Reiser, 50% é extremamente sutil no desenrolar do ponto de conflito de seu roteiro. O humor negro é o grande responsável em suavizar toda a história. Desde a abordagem do câncer até o montar da relação entre Adam e Katherine, o texto arranca de quem assiste uma experiência que arremata a importância de dar valor à vida. Outra mensagem que é deveras batida, mas, aqui, há certo conforto visto a conclusão dessa trajetória.

 

Este é um filme que não tem ecos de tensão porque o lado suave de cômico controla qualquer chance de dramalhão. Porém, há sua angústia. Ainda assim, o filme é bem querido e traz várias mensagens importantes sobre justamente o viver.

 

As performances seguram a transição (im)perfeita do câncer. Os personagens suavizam um problema grave e demonstram que, além da importância de viver o agora, as relações que restam em tempos de dificuldade também são extremamente importantes.

 

Sutilmente, este filme mostra que é importante priorizar os verdadeiros laços em época de trevas. É aquele velho ditado de que amigo verdadeiro fica com você até na companhia da Samara. É preciso amar e proteger aqueles que nos mantêm de pé em dias bons e ruins. Essa é uma verdade que considero universal. Quem não fica, não merece quem somos e fim de papo.

 

Essa história também discute o é tarde demais. O que me faz entrar no real motivo deste texto.

 

Nós somos vulcões

 

50% - Adam pesquisa

 

“O vulcão Moha Moha, localizado na ilha de Savai’i, entrou em erupção hoje de manhã, liberando uma nuvem de cinzas de 6km no ar. Apesar de relatórios indicarem que o vulcão está enfraquecendo, nossos analistas podem confirmar que ele está se fortalecendo.”

 

Muito além do câncer, 50% inspira a pensar na vida (como disse lá em cima). Inspira a refletir sobre o que perdemos em, por exemplo, vivermos demais no mesmo cotidiano. Um tipo de reflexão que nunca me recuso a ter (o que traz o famigerado momento da sofrência) e retornar a este filme calhou como uma grande mensagem (que coincidentemente bateu com meu rever de um episódio de The Bold Type).

 

Como escrevi neste post aqui, ultimamente tenho me sentido entediada. Em completa inércia. Sem contar meu recorrente ciclo vicioso de autossabotagem. Eu sinto que não faço nada de bom. Que não sou relevante. E perco muito do meu tempo amarrada a essas “teorias”.

 

Como já contei para vocês: eu sou meu próprio farol sabotador. Daí, o que temos é aquele longo episódio chamado Reclame Aqui. Sendo que reclamar só dobra minha angústia.

 

De acordo com a minha personalidade INFJ mais meu eneagrama de número 4 (com licença que acredito nisso demais), minhas melhores vivências se encontram do lado de fora. Ponto de vista que conflita com minha preferência unânime de viver para dentro. De me sentir bem em minha própria companhia – o que tem horas que é bem relativo.

 

Adam enfrenta os estágios intensos da doença e foca no comum: nas coisas que não fará. Nisso, ele passa a viver para dentro. Não fazemos isso? Nos encolher diante de um problema que pode ser ultra sério? Ao receber o diagnóstico de que o tumor não cedeu e que ele terá que passar por uma cirurgia, basicamente de vida ou morte, o personagem se sente traído pela vida. Afinal, ele não bebe e não fuma. Como logo ele, dentre milhões de pessoas, acabou diagnosticado com essa doença?

 

É aquele senso de injustiça tão intrínseco a nós, especialmente quando temos certeza de que fizemos tudo certo (e sabemos que é impossível alcançar esse nível de perfeição, por assim dizer). Por termos tudo (supostamente) certo, ficamos inconformados com as falhas da rota. Achamos a vida absurda por ter nos apunhalado sendo que, talvez, o intuito é mudar nossa perspectiva.

 

Quem sabe, o que ocorreu/ocorre é para nos fazer repensar. Nem que seja por meio de um choque em forma de doença.

 

O que não é muito legal de dizer, eu sei, mas estou usando o contexto do filme.

 

Adam sempre mostrou estar muito bem em seu canto, um claro introvertido, e segue assim durante o filme. Com poucas interações. Poucas saídas – e quando ele tenta ter uma vida social vem o realismo de que ele “não é mais o mesmo”. Tudo que lhe importa é um amor para chamar de seu, algo que não rola e que o faz perder a esperança. Até porque seu foco é tentar superar o câncer.

 

O rapaz também não quer ser um peso para a mãe que já cuida do pai com Alzheimer. Nisso, entramos na metáfora sutil do filme, que se expressa no quote acima.

 

50% - Adam tratamento

 

Antes do diagnóstico, o personagem estava dedicado a uma matéria sobre o referido vulcão e esse mesmo assunto retorna em um instante debilitante. Um instante que quase passa despercebido se não fosse a reação dele diante da notícia de que esse mesmo vulcão finalmente entrou em erupção.

 

Mas o que isso tem a ver?

 

Adam pode ter sido derrubado, mas, aos poucos, a história o mostra reconquistando a sua força. Como um vulcão. Sua fase de quietude é simbolizada pelo tratamento e sua inquietude é simbolizada pela sensação de que logo menos entrará em erupção de tanta raiva por estar vivenciando algo que não parece certo. Do início ao meio do filme, o rapaz apenas “dorme”. Quando o soco da reviravolta é dado, finalmente vemos seu estado de erupção. E ninguém espera por isso. Quando falamos de câncer, sempre esperamos o pior encerramento do universo.

 

O resultado dessa trajetória marca o fim do filme, em que tudo fica nos conformes. Até um encontro com Katherine que fica reticente. Do tarde demais, Adam percebe que não pode perder tempo. O que é relativo já que um vulcão precisa de seu tempo de dormência para depois entrar em erupção com força total. É basicamente a metáfora da transição da nossa vida. O recolhimento para pensar e, depois, dar atividade ao que foi remoído, aprendido e assim por diante.

 

O vulcão que Adam pautou tinha um nome enorme e esse nome enorme traz outra metáfora. Um nome grande para um problema significa um problema ainda maior, como o nome do câncer que o retém. É comum, e penso que mais “fácil”, mergulharmos nesses problemas grandes demais, algo que o personagem faz até receber o seu ultimato. O instante da trava. De retroceder e perceber o que diabos está realmente acontecendo.

 

Não havia nada para Adam fazer a não ser seguir às rédeas do tratamento. Ele “dormia” até o momento em que a morte veio lhe dar um belíssimo olá! na forma de um companheiro da quimioterapia que perde sua luta contra o câncer.

 

É quando o humor negro da história se torna em um forte agridoce. Instante que destaca o quanto não queremos a possibilidade do bem em instantes absurdamente trágicos, mas sim a verdade de tudo. Não queremos o conforto de uma Katherine. Queremos logo o tudo ou nada.

 

Queremos saber se venceremos ou não o problema. Nisso, ruminamos mais o problema. Ação que traz a consequente impressão de que estamos em um beco sem saída. E por estarmos nesse beco sem saída, normalmente não queremos palavras positivas. Queremos a receita para sair.

 

Enquanto essa receita não vem, vivenciamos o grande problema. Escalamos o problema. Chafurdamos no problema. Pegamos as réstias do problema. Tornamos o problema, seja de que tamanho for, uma segunda pele e, por vezes, esquecemos de que ainda é possível viver um pouco mais, mesmo em meio a uma grande adversidade. Claro que isso é uma variante porque cada um experiencia seus impasses à sua maneira, mas sempre há algum comportamento padrão.

 

Em vez de vivermos, curtimos o problema enquanto ele discorre. Às vezes, esquecemos do que existe ao redor e que pode nos equilibrar em meio à confusão.

 

É possível viver os dois ao mesmo tempo? Bem, eu não consigo tanto assim. Eu acho. Eu entro em conflito (meu estado de espírito atual), embora eu tenha alguns escapes. Eu apenas parei de culpar a vida para culpar eu mesma, o que não considero um tipo de evolução. Não fujo, mas me torno minha pior inimiga em dias cheios de atritos aparentemente insuportáveis.

 

50% - Adam e Katherine

 

Somos seres imediatistas e queremos tudo para ontem. Principalmente a solução para os nossos problemas. Até para as doenças. E isso é um padrão. O câncer de Adam simboliza o quanto ele tomou tempo para entrar em erupção e ganhar um novo viés na vida. Enquanto nada acontecia, o personagem enfrentou estágios. Estações. E muito tempo de espera para o nódulo do problema começar a se dissolver.

 

Adam teve que seguir a passos de bebê, que também esquecemos, para não nadar apenas na larva, ou seja, ficar preso ao diagnóstico. Preso a um ponto de vista que pode ser unilateral. Algo que ocorre com a gente também.

 

Às vezes, só precisamos relaxar (e sei que é difícil), especialmente quando não se tem muito que fazer. Adam encontra isso nos exercícios com Katherine. Em curtir a presença do melhor amigo. Os problemas podem nos consumir se não fizermos ao menos um questionamento importante: o que podemos fazer enquanto isso? Eu me questiono o tempo todo e, feliz ou infelizmente, ainda sou o vulcão meio adormecido, meio entrando em erupção. Eu ainda não eclodi. Fico apenas no prestes.

 

No filme, há outra pergunta: e agora? Questionamento largado em seu final, depois que Adam vence sua adversidade e ganha uma chance com Katherine. A chance de cumprir algo que ele disse que não conseguiria: dizer que está apaixonado. Não é o que ocorre, mas o roteiro larga essa possibilidade em um instante que demarca o recomeço. Um recomeço que também depende de nós.

 

E tudo bem que esse filme é aquela questão de sorte. Basta só mudar o cenário de causa.

 

50% pega o trope do câncer e o torna uma reflexão sobre o espaço que ocupamos, a vida que temos e a vivência. Às vezes, não temos como impedir um grande problema, como o caso de Adam que teve que vivenciá-lo dia após dia, mas não quer dizer que não há beleza ao nosso redor. Porque há.

 

O mais bacana é que Adam não desiste de si mesmo apesar de exausto. Ele enfrenta adversidades menores, como não ter carona para a quimioterapia (e isso dói demais porque é uma porcaria chamada descaso). Ele se mantém no jogo, embora sinta muita impotência de estar naquele estado.

 

Este filme não é exatamente um roubador de lágrimas, até porque o humor ácido arranca risos acanhados. Ele é sobre como a vida pode mudar em um piscar de olhos. E cabe a nós o modo para enfrentarmos o problema e o que faremos adiante uma vez livres desse problema.

 

Somos todos vulcões, o filme quer anunciar. Em alguns dias estaremos em extrema erupção. Em outros, adormecidos. Mas o importante é não deixar a vida correr sem fazermos parte dela.

 

E está aí um conselho que preciso aderir.

 

A real é que a vida é praticamente um 50% todo santo dia. 50% para fazer certo ou para fazer errado. Os outros 50% são os resultados das nossas escolhas que, em maioria, vêm de como lidamos com quem somos, com o que temos e com as adversidades que a vida nos lança.

 

Se recomendo o filme? Bastante. É curto, gostosinho. Uma fofura do cinema independente.

Stefs
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