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06/set

Primeiramente: gostaria de avisar que este post não é uma resenha. É um textão sobre alguns feelings que Para Todos os Garotos que Já Amei me acarretou durante essa experiência. Por eu não ter lido os livros, meio que não me senti no direito de sair comentando como “crítica” – e o risco de falar abobrinha seria grande demais para eu suportar. E, honestamente, não tenho milhões de coisas, por assim dizer, negativas para pontuar. Ou até mesmo para resmungar.

 

(um milagre divino porque eu não resisto ao pedido de colete à prova de balas)

 

Meio que eu entro naquela coisa que a juventude contemporânea alega a torto e a direito (e muitas vezes com razão): eu não sou o público-alvo desse tipo de filme. Então, nem tenho que inventar moda.

 

(mas eu sou super o público-alvo, me deem licença!)

 

A situação seria diferente se eu lidasse com um conteúdo problemático. Aí sim meus dedos sangrariam fervorosamente. Como disse, não perco a chance de solicitar o coletinho, fatos reais.

 

Felizmente, este não é o caso. Então, vamos ao que interessa.

 

Mas, antes, senta que lá vem história. 

 

Annette - Segundas Intenções

Quem está no gif: Reese Witherspoon em Segundas Intenções.

 

De uns tempos pra cá, eu tenho me reconectado com conteúdo adolescente dos anos 90. É a década que eu cresci e que tem me servido de estudo para uma história que tenho escrito atualmente. Nessa época, eu vivia na locadora e alugava filmes com o mesmo naipe de Para Todos os Garotos que Já Amei. Foram tantas as vezes ao ponto dessa minha aventura se tornar um tanto irritante para o adulto que passava na sala. Não é à toa que, até hoje, minha mãe sempre mete uma: mas vendo esse filme de novo?

 

Velhos hábitos nunca morrem.

 

Por causa dessa pesquisa para o meu enredo, retornei para vários filmes adolescentes que compuseram essa fase da minha vida (e tenho assistido também uns dos anos 80, vale dizer). Tirando o suspense e o terror, comédias românticas foram uma maioria nos anos 90, o que tornou Para Todos os Garotos que Já Amei nada novo para mim. A não ser pelo conceito da premissa e pela sua protagonista asiática. No mais, não rolou nada que eu não tenha praticamente engolido quanto tinha meus 14 anos (e em doses exageradas).

 

Em contrapartida, esse processo de rever filmes que foram importantes na minha adolescência me deixou mais preparada para acompanhar Para Todos os Garotos que Já Amei. Penso que eu não o veria assim de pronto porque eu evito demais qualquer coisa que esteja no hype ultimamente.

 

Não por ser a senhora conceitual, indie, blasé, mas eu tenho dado meu próprio tempo para “ingerir” conteúdo. De quebra, eu fico meio cansada quando me sinto rodeada pelo buzz de qualquer coisa e daí eu deixo a maré do frisson passar. Isso tem me ajudado a evitar decepções e o agridoce de que perdi tempo (e, ultimamente, ando muito mala sobre meu tempo, me ajudem).

 

Graças ao meu aquecimento nada programado com relação a esse gênero, eu estava com a porta de um vício que tinha ao longo da adolescência reaberta. Naquela época, eu era feliz e não sabia. Ao menos, nesse quesito. Feliz ou infelizmente, em algum momento eu perdi essa parte de mim. Contudo, essa parte de mim tem pedido para retomar seu posto de direito atualmente.

 

Como mencionei, eu fui uma grande rata de locadora. Saía de lá com uns 5 filmes embaixo do braço e aproveitava todas as promoções de levar mais que 5. Vamos lembrar que eu fui uma adolescente sem dinheiro, então, basicamente tinha que pedir autorização dos pais para alugar qualquer coisa. Ok que isso não me impediu de passar dos limites, como pagar uma multa exorbitante.

 

Eu não, meus pais.

 

Esse processo se tornou meu principal escape. Ontem, eu tinha a locadora para escapar de tudo de ruim que começava a me abalar nessa mesma fase. Hoje, adolescentes contam com a internet.

 

Ela é Demais

Quem está no gif: Jodi Lyn O’Keefe em Ela é Demais. Vocês não têm ideia do grito que eu dei quando saquei que ela fez a Jo de TVD, WTF?

 

Já cheguei a ficar dentro da locadora esperando um filme retornar, o que denuncia minha obsessão cinematográfica que eu estava um tanto esquecida. Um esquecimento que voltou a ser muito presente, embora eu não tenha tido ótimas experiências. Ao menos, não com o desprendimento do passado. Infelizmente, há muito filme problemático e isso foi um risco que comecei a correr diante dos meus darlings. Afinal, é fato que eu encontraria algo que eu não curtiria.

 

E tenho que dizer que fiquei muito passada com algumas coisas, como eu alugar filmes à vontade (salvo os pornôs que ficavam em uma salinha privada) sem nem ao menos meus pais pensarem na idade de censura (e nem tenho do que reclamar sobre isso, acho. Nem o cinema chegou a me barrar na época quando vi Pânico, por exemplo).

 

Os revivals problemáticos: Gatinhas e Gatões (que foi mencionado em Para Todos os Garotos que Já Amei e é problemático demais da conta e a menção dele me estressou sim). E Segundas Intenções que foi um dos meus vícios mais problemáticos – e caí para trás quando o reassisti porque eu o vi com 14 anos. Revisitar esses filmes tem sido muito legal, mas sempre garante uma crise existencial.

 

Essa é a tríade de filmes que mais vi em fins dos anos 90 (tirando minhas próprias conclusões porque foram os primeiros que fui atrás na minha lista de revival): o mencionado Segundas Intenções (tóxico as fuck), Ela é Demais (so kisss meeee) e Fica Comigo (pouco conhecido no BR). Os dois primeiros têm na Netflix, diga-se de passagem.

 

O primeiro filme se tornou um cult que, como disse, uma garota de 14 anos da década de 90 deveria ser vetada de assistir (porque há muita coisa promíscua e umas atitudes que eu mesma tento entender para justificar minha obsessão por esse filme que segue sim, com certeza). Ele traz a história de Sebastian e de Kathryn, uma dupla maligna de meios-irmãos que aposta a virgindade de Annette por coisas das quais não comentarei até porque estraga o impacto da experiência.

 

O segundo filme traz uma aposta na premissa. No caso, Zach, o garoto popular, precisa levar a “garota mais feia” da escola para o baile de formatura. Situação que surge porque ele tomou um pé na bunda da garota mais popular da escola. Com isso, ele jura que pode levar qualquer uma para essa festa. De quebra, torná-la atraente. Obviamente que ambos se apaixonam e so kiss meeeee.

 

Já o último acabou sendo lembrado, do nada, depois que assisti Para Todos os Garotos que Já Amei. O filme traz Nicole e Chase, vizinhos que deixaram de se falar devido à hierarquia escolar. Aqui, ela é a popular e ele o nerd loser. Em um belo dia, ele toma um pé na bunda. No mesmo dia, ela descobre que o cara que estava a fim se apaixonou por outra. No modo uma mão lava a outra, a personagem vai atrás do “amigo” e pede para que ele seja seu acompanhante em uma festa chamada de Centenário. Nisso, começa o fake dating e, obviamente, ambos se apaixonam.

 

Aproveito para dizer que Fica Comigo é esquecido entre comédias românticas adolescentes sendo que tem uma trama que se afastou dos pastelões da época e tem diálogos muito interessantes.

 

Essas foram as três experiências que me fizeram notar o quanto fui uma adolescente muito que alienada e é meio zoado dizer isso porque não tinha tanto entretenimento nos anos 90. Ainda era uma fase de inocência, por assim dizer, porque só existia a TV aberta e amigos da rua/prédio.

 

E o telefone. Ou cartas. E a locadora, logicamente.

 

E É o Tchan, a banda que eu mesma só saquei do significado das letras com mais de 20 anos nas costas.

 

Fica Comigo - Nicole

Quem está no gif: Melissa Joan Hart em Fica Comigo. 

 

Quando conteúdos adolescentes são lançados atualmente, eu fico com o pé atrás. Graças a essas experiências e às minhas realizações particulares. Assim, revisitando vários filmes antigos, dei por mim que não tive realmente bons exemplos ao longo da minha jornada cinematográfica na fase teen. Claro que isso é pessoal para cada um que viveu nessa época e como tratou o que consumiu ao longo desse período. Mas… A adolescente que defende Delena com unhas e dentes hoje, por exemplo, me fez pensar várias vezes se não seria eu mesma nos anos 90.

 

Eu confundia sofrimento como “algo legal”, “digno da garota sentir”, sendo que sempre há um limite. Inclusive, há vários caminhos para se nortear um casal sem precisar maquiar um amor abusivo.

 

Eu romantizava a morte do cara pela garota e vice-versa, gente. E esse é um exemplo levíssimo!

 

Mas, Stefs, para que você nos contou tudo isso?

 

A sede que eu costumava ter com relação a filmes adolescentes dormiu dentro de mim. Para não dizer que sumiu totalmente. O máximo que cheguei perto nos últimos tempos foi em séries voltadas para esse público-alvo. Nada muito além disso (o que denuncia que houve sim uma queda quase geral quanto ao meu interesse por cinema, ao ponto de resumir minha experiência aos indicados do Oscar).

 

Filme Pânico

(daí eu conheci o mundo de filmes de terror feat. suspense feat. suspense psicológico)

 

Por ter comido o pão que o diabo amassou com as séries adolescentes, isso já bem grandinha, se criou dentro de mim uma forte desconfiança sobre YA e afins. E eu tive uma fase fortíssima de consumir só YA, informação que este site denuncia bravamente.

 

Hoje, eu não tenho acompanhado muito o circuito desse gênero. Uma boa parte está na minha lista, mas assisto mil anos depois (ou finjo que nem existe).

 

No caso de Para Todos os Garotos que Já Amei, eu não via a hora de chegar o sábado para assisti-lo. Eu mesma fiquei: que fogo é esse, garota? É só um fucking filme que você verá daqui 84 anos.

 

Daí vocês dizem: mas a internet toda estava, Stefs, deixa de ser boba!

 

Estou sendo boba sim porque eu tenho 32 anos e devia ficar de boa.

 

(ignorem que acabei de botar um rótulo em mim, eu apenas tentei me justificar pobremente)

 

Essa espera me despertou o seguinte: por quais motivos você, Stefs, deixou de curtir esses filmes? O que a fez apagar toda uma experiência de vida do nada? Poderia julgar os eventos malignos da minha adolescência, que de fato impulsionaram esse meu distanciamento, ou a vida adulta em si visto que a faculdade mata almas criativas. Mas, no fundo, eu sei bem o que aconteceu: o mundo me fez sentir vergonha de gostar de filmes, de séries e de livros desse gênero. Daí temos o escudo guilty pleasure.

 

Algo que nunca entendi porque eu não sentia receio de dizer sobre o que eu gostava (e esse receio nasceu e ficou em mim por anos). Eu realmente me empenhava, vide as resenhas de Pretty Little Liars a Teen Wolf que fiz por aqui. Mas, gostar de “coisas adolescentes” meio que te coloca abaixo de toda a cadeia de “pessoas adultas de valor”. Anos no Jornalismo me ensinaram, hein?

 

(ah, mas você tem que fazer política, economia, ver os cults. Oh, bite me)

 

Como também disse, rever as comédias românticas dos anos 90 despertou uma parte da minha mente necessária para que eu não ignorasse Para Todos os Garotos que Já Amei. Eu bem sabia que ignoraria se não tivesse retomado esse contato antes de Lara Jean iluminar a minha vida em um fim de sábado de pança cheia de pizza. A expectativa de chegar em casa logo, em meio a uma sexta mormacenta, me foi muito familiar porque a sentia enquanto aguardava o delicioso momento de ir até a locadora depois da aula. Eu amava esse gênero e, ultimamente, tenho voltado a amá-lo.

 

Este último lançamento da Netflix apenas me disse: volte ao seu habitat natural, querida. 

 

Para Todos os Garotos que Já Amei

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - Lara Jean Covey

 

Como este texto não é exatamente uma resenha, resumirei a premissa:

 

Para Todos os Garotos que Já Amei (To All the Boys I’ve Loved Before) é um filme que se inspirou no primeiro livro de uma trilogia assinada por Jenny Han. Nele, temos Lara Jean, interpretada por Lana Condor, que é extremamente romântica e consumidora de romance. Além disso, aspirante número 1 de viver seu próprio romance. Uma forma de vivenciar isso é no ato de escrever cartas para os garotos que já se apaixonou. Ato que também é um medidor sobre a intensidade dos seus sentimentos.

 

Resultado: como leitora e escritora desse gênero, ela mesma acaba romantizando tudo, mas de uma maneira bem saudável.

 

Se ela envia essas cartas? Não. Ela as guarda, todas bem bonitinhas e endereçadas, dentro de uma caixa que ganhou da mãe antes que a mesma falecesse. O que realça a importância e o peso da ausência da matriarca Covey na vida dela e das irmãs, Margot e Kitty respectivamente.

 

As cartas parecem desimportantes perto da mudança de Margot para a universidade, sendo que são o ponto sensível da história e o motivo de todos os conflitos. Enquanto elas não chegam nas mãos dos garotos que LJ já amou, acompanhamos, nos primeiros minutos do filme, a dinâmica dos Covey. E que dinâmica mais gostosinha! O pai dessas manas é extremamente maravilhoso!

 

A mencionada Margot, vivida por Janel Parrish, minha eterna Mona de Pretty Little Liars, assume o papel de figura materna da casa (e li que isso não consta no livro) e sua transição abre um buraco entre as irmãs. Inclusive, promove Lara Jean a líder da casa, o que não orna muito bem visto que ela não tem a mesma organização que a irmã mais velha. Nem muito menos tanto pé no chão já que os livros e a imaginação tomam bastante do seu tempo (vide o quarto desarrumado).

 

Conversa vai, conversa vem, e logo vemos a primeira ponta da seleta lista de garotos que LJ se apaixonou: Josh. E, em poucos minutos, a história se transforma de novo visto que esse cidadão se torna ex- namorado de Margot.

 

E o que isso tem de interessante? Além de uma carta by LJ, Josh tem histórico de amizade com a nossa querida protagonista. Na hora, eu pensei que veria mais um Fica Comigo 2018, mas com apunhalada na irmã mais velha.

 

Não é isso que rola e eu fiquei muito aliviada! Não apenas pela inexistência de conflito entre as personagens por causa de homem, como também porque eu queria que Josh desaparecesse. Não sei como ele é no livro, mas não ganhou meu coração não, fatos reais.

 

A entrada de Josh na trama engana ao incitar o receio de que ele renderá atrito entre as irmãs. Só a ideia delas brigarem por causa desse jovem me faria largar o filme, não mentirei. Porém, há um ponto de mudança inicial e relevante.

 

Comédias românticas, ainda mais adolescentes, não hesitam em colocar uma garota contra a outra por um mané. No desenrolar da trama, Josh é um artifício e é sempre bom chamar homem de artifício em alguns casos. Ele não acrescenta em nada porque LJ, apesar do receio de voltar a sentir o que sentiu por esse rapaz no passado, o deixa em plano de fundo. Meramente porque o real deal deste filme se chama Peter Kavinsky.

 

Peter é um dos garotos que LJ já amou também e, claro, tem uma carta em seu nome. Ele é o início do conflito romântico, pois, de uma hora para a outra, essas mesmas cartas são enviadas aos seus destinatários. O que resta para a personagem fazer? Enfrentar a angústia e é nesse enfrentamento que Para Todos os Garotos que Já Amei se afasta do corriqueiro desserviço visto nesse gênero.

 

Mais precisamente: o desenvolvimento e o tratamento com sua protagonista.

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - Lara Jean, Margot e Josh

 

É a partir disso que Para Todos os Garotos que Já Amei dá uma esmurrada em várias comédias românticas adolescentes dos anos 90. A começar pelo fato de que a protagonista não é humilhada ao vivo no instante em que suas cartas caem nas mãos dos destinatários. Na real, os garotos vão até ela querendo saber o que diabos acontece. Praticamente, o filme traz um contraposto da storyline do diário, em que a garota é caçoada ao ter seus pensamentos lidos para a escola toda. Aqui, no transcorrer de tudo, LJ se sai como uma rainha invicta diante de suas declarações amorosas.

 

O que sinaliza para um fato importante deste filme: nenhuma adolescente tem que ter vergonha de seus sentimentos. Para Todos os Garotos que Já Amei valoriza esse traço da sua protagonista. Oposto ao diário que fez milhões de garotas da ficção temer que o cadeado se quebrasse do-nada.

 

O que destaca Peter. Como garoto popular, ele também fugiu do viés que acarreta a humilhação da garota. Ele faz o oposto, ou seja, mostra um verdadeiro interesse sobre ser o felizardo de uma carta romântica assinada logo por quem nem conversa direito. Ele, assim como os outros, fica muito passado com tamanha declaração. Isso me deixou extasiadíssima, especialmente porque LJ sai de sua invisibilidade naturalmente. O constrangimento sentido remete ao desejo comum de querer se enfiar no buraco por desacreditar que algo X está rolando. Em vez do buraco, a personagem simplesmente desmaia. E, mesmo desmaiada, há graciosidade. Não há uma exposição ao ridículo, viés que normalmente é o escolhido.

 

De uma hora pra a outra, LJ tem que lidar com as cartas e os garotos. Só que Peter é o único garoto que já amou que ela tem que enfrentar. Josh até tenta colar junto, mas não cabia a ele dar aval ao fake dating. O trope dos tropes que não falta em comédia romântica e que é a razão do compasso de Para Todos os Garotos que Já Amei.

 

A carta cria um caminho mais sutil de aproximação entre Peter e LJ. Neutro. Sem 20 caras ao redor dele ou o desejo dela de buscar refúgio no banheiro/ser arisca porque todo garoto popular é mala demais. Ao contrário de todo o asco que envolve o primeiro contato de personagens extremamente diferentes e que têm a missão de se apaixonar, ambos pagam uma sequência de micos, como o beijo curto e aleatório. O fato de Peter querer a ex longe se une à necessidade de LJ manter Josh longe. Daí se firma o mencionado fake dating. Viés que meio mundo chama de “batido”.

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - carta

 

Sério: fake dating é batido sim. Perdi as contas das vezes em que assisti comédias românticas que respiram esse trope. Eu já escrevi fanfic de fake dating e é algo assim muito divertido. É descompromissado até a escrita mostrar que algo está dando certo. E é esse processo que compõe Para Todos os Garotos que Já Amei e os filmes que mencionei neste texto (menos Segundas Intenções que é um tantinho mais agressivo e fake é o interesse do cara). O legal é ver como esse trope se desenvolve e perceber se há algum diferencial em sua abordagem.

 

Tropes são pontapés de execução na hora de montar o roteiro ou o enredo de um livro. A diferença real vem na construção desse trope e Para Todos os Garotos que Já Amei entrega sua premissa com uma educação gigantesca. Os personagens são respeitados. Surgem e falam com relevância para manter/frisar esse falso interesse que dá vida à história. De quebra, o texto não apaga sua protagonista. Ela é a razão, do início até a conclusão do filme.

 

Em comédias românticas, normalmente é o Freddie Prinze Jr. da geração que ganha as atenções e o “mérito” de nortear a história. É ele quem manda, independentemente da “garota feia/loser” ser essencial para o compasso da trama. Aqui, LJ é o mérito. Ela norteia o roteiro por conta própria e ter Peter um tanto mais de background (não tanto quanto Josh) foi mais que demais. Ele é apenas parte dessa composição que tornou o romantismo das cartas em uma realidade nada combinada.

 

Embora a ideia seja do bonitão, é a garota invisível que manda o seu comando. Automaticamente, ele a segue e não rouba seu protagonismo.

 

E o mais gostoso é justamente isso: ver até onde tudo vai. Embora se espere sempre o final feliz porque faz parte da fórmula, esperar que tudo dê errado é de lei. Afinal, acompanhamos dois mundos diferentes que precisam se unir. Para isso acontecer, só mesmo com os conflitos típicos da idade. Como a ex de Peter ser a menina malvada e ter ciúme da “loser”.

 

Gen é o conflito de praxe de comédias românticas adolescentes. E ela tem outro peso, além de ser ex-namorada de Peter: ela também é ex-melhor amiga de LJ. Fato que tinha tudo para tornar o cotidiano e as relações da protagonista inclinados a cair no mais do mesmo. E não houve mais do mesmo, além do trope de fake dating.

 

Apesar de LJ ser jogada em um cerco de garotas que se envolveram com os garotos que escrevera as cartas, a personagem tem muita noção do seu espaço. Porém, é desafiada a sair da zona de conforto e sai por conta. Não há intenção alguma de descer o nível e nem de ela “cair em tentação” para furar o olho de alguém. Na real, e como também manda a praxe desse gênero, é a adolescente que tem o olho furado.

 

O que acontece com LJ e como ela vai se sentindo a partir do momento que o fake dating se inicia são meio que vangloriados e respeitados pela roteirista. As cartas são importantes, mas não tanto quanto à relação que Peter e ela passam a construir em seu fake dating. Sem exageros. Sem apunhaladas. Do nada, o filme se torna somente deles e não queremos nem saber do resto, embora os demais componentes do elenco sejam preciosos (menos Josh, pelo amor da Deusa). O casal-não-casal arranca sorrisos e torna essa comédia romântica original à sua maneira.

 

Inclusive, relevante no quesito emoção porque, como disse, o que LJ sente não é motivo de vergonha. O que calha também em Peter, pois, em nenhum momento, ele sofre a influência dos amigos para contestar o que começa a sentir pela sua namorada fake. O personagem é muito livre. Ele tem atitude e é esta atitude que torna Para Todos os Garotos que Já Amei ainda mais especial. Esse jovem é totalmente avesso ao próprio Freddie Prinze Jr. da minha geração, que sempre tinha o BFF malvado que começava a sentir inveja e tenta – do fucking nada – “roubar” a garota.

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - Lara Jean e Peter

 

Se eu for sinalizar um grande diferencial, entre tantos diferenciais, deste filme, dou um salve para o fato de que LJ e Peter realmente conversam. É nesse ponto que ambos constroem a sua dinâmica, longe do excesso de badalos dessa fase da vida. Ambos se tratam com demasia honestidade, o que faz muitos filmes do passado imersos nesse gênero chorarem. Simplesmente porque o apelo sexual era um tanto maior. Mais da parte da garota, claro, que sempre davam um jeito de objetificá-la.

 

De quebra, há outro diferencial que Para Todos os Garotos que Já Amei traz em seu texto. Geralmente, é a menina malvada mais os garotos populares que se infiltram para criar mais angústia até o cara em questão perceber, finalmente, que ama quem tratou como loser a vida toda. O que, óbvio, faz o cara correr atrás da garota. Aqui até existe essa turma, mas ela não é relevante. A turma não tem pretexto algum de deixar Peter e LJ desconfortáveis e complexados.

 

Ainda mais ela que é a garota de vários tipos de enredos que se torna sempre o alvo dos populares.

 

Em Para Todos os Garotos que Já Amei, ambos sentam e compartilham suas vulnerabilidades. Compartilham gostos e problemas sérios. É com ele que LJ abre como se sente sobre o amor e que ele abre sobre o quanto sua família peca em questão de afeto. A cena da lanchonete e da viagem são pontos cruciais, além de altíssimos da trama, pois assentaram a confiança e, depois, a entrega de que há sentimento rolando. Mesmo que a protagonista não enxergue isso muito bem à princípio.

 

Quando dois personagens se abrem naturalmente, porque assim querem, é magia que provavelmente vem em seguida. Para Todos os Garotos que Já Amei entrega essa magia, sem forçar seus personagens. Nem muito menos socar um monte de gente para atribulá-los. De certa maneira, eles próprios trocam os pés pelas mãos, embora Gen seja quase a estaca do vampiro.

 

Dessa forma, Peter e LJ criam um espaço seguro para falar de algo difícil nessa idade: sentimento. É esse o grande diferencial do filme. É o ponto de transformação, pois ambos ficam tão à vontade um com o outro ao ponto de você se esquecer de que se trata de um fake dating. Parece que até os dois se esquecem porque não há a constante obrigação de manter as aparências. Quando isso se faz necessário, o tom preza pelo divertido. Além de beneficiar sempre LJ.

 

A partir do instante em que o fake dating entra em cena, tudo flui como se realmente fosse um primeiro encontro. Que dá em outros, o que gera mais conflitos até o sentimento relevante nascer.

 

O amor que LJ tanto quis vivenciar e chamar de seu é realizado. Constatação que não vem fácil porque ela mesma diminui o que passa a sentir por Peter tanto por medo quanto por não acreditar que um garoto como ele curtiria uma garota como ela. A personagem meio que espera o instante real de ser trollada, mas sai por cima ao decidir que ela mesma deve se afastar. Ideia que ganha seu impulso em forma de Gen que, como toda boa menina malvada, acha que vence na mentirinha.

 

Só que Peter e LJ saem com graça da invenção para a verdade.

 

O que sei é que este roteiro, escrito por Sofia Alvarez, acompanha deliciosamente o olhar digno de aesthetic de Susan Johnson. Nesta trajetória, LJ ensina o quanto os sentimentos são importantes. Dos romantizados (desde que se mantenham em uma linha saudável, como é o caso deste filme) até os que são verdadeiros e querem transbordar. O amor na adolescência é uma das experiências que muito adolescente quer viver, mas não tem chance graças aos estereótipos que ainda persistem nessa fase. Sem contar o quanto há ainda essa diferença de que menina precisa sofrer pelo que sente pelo garoto e que garoto precisa pisar na garota para saber até onde o jogo vai.

 

Desde muito cedo, meninas são privadas de sentir. De deixar o caldeirão explodir. Graças aos garotos que amamos, ou achamos que amamos, trancamos o sentimento a sete chaves, como um próprio diário. Várias e várias vezes temos que dissimular a nossa verdade por incontáveis motivos ao longo da adolescência. É errado demais e ver garotas como LJ, independentemente de ser uma ficção, ser valorizada pelo que sente, é um prêmio e tanto de Para Todos os Garotos que Já Amei.

 

O retrato de Lara Jean Covey

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - LJ

 

Primeiramente: eu não posso dizer muita coisa sobre representatividade asiática, então, antes de vocês seguirem adiante, recomendo a leitura desta thread.

 

 

 

Agora, sairei dos comentários sobre o filme e sua construção para falar de Lara Jean, mas do ponto de vista de uma garota branca experienciando conteúdo desse gênero com uma protagonista que fugiu do combo pronto de manas brancas e loiríssimas.

 

LJ vai um tanto mais além da importância da sua representatividade. Justamente porque ela não foi agraciada com a mania atual de Hollywood que é maquiar a torto e a direito esse quesito trazendo representatividade vazia. Em outras palavras, o ato de colocar alguém da minoria em destaque e dizer que cumpriu a lição de casa. Sendo que, em incontáveis casos, essa minoria em destaque não conta nada de relevante/significativo.

 

Como já disse quinhentas vezes (e, se quiserem, vocês podem ler mais aqui), representatividade não é só uma questão de botar alguém da minoria em destaque. O destaque em si é o primeiro passo importante, mas de nada adianta se as histórias dadas não transformam. Se não fazem essa mesma minoria se sentir relevante em meio a tanto conteúdo que segue com protagonistas brancos.

 

E, agora, como uma praga sem fim: escalando os mesmos atores para jurar que tá tendo diferença. Que tá tendo preocupação lá com a cláusula de minoria mencionada no Oscar.

 

Finjo que nasci ontem.

 

E, caso não saibam, Para Todos os Garotos que Já Amei chegou perto do whitewashing. A propagação do mesmo pensamento de que não existe uma adolescente asiática capaz de levar nas costas um filme desse gênero que meio mundo só vê a mulherada branca.

 

Incrível que se esquecem de que a adolescência é vivida por todo mundo. Sem distinção.

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - LJ e Kitty

 

Muito além da representatividade, que é sim o pico mais importante e transformador de Para Todos os Garotos que Já Amei no quesito elenco, e muito além do seu romance pra lá de fofo, temos um rio de contrapostos que torna este filme positivo perto de outras comédias voltadas para o mesmo público-alvo. E, logicamente, esboçarei esse pensamento por meio dos meus filhos nascidos nos anos 90.

 

A década de 90 foi uma época que me marcou demais pela sua cobrança em aparência (o que gerava a “ingestão” de mulheres com o mesmo padrão, obrigada pelos mimos do mal MTV). As protagonistas de comédias românticas, por exemplo, eram todas loiras e lindas. E as losers calhavam de ser quase sempre as morenas. Salvo em Segundas Intenções em que a vilã é uma Sarah Michelle Gellar lindíssima e tingida – e essa é uma parte essencial que me tornou a stan desse filme.

 

Não foi uma questão de representatividade. Na real, foi só porque Kathryn tinha cabelo escuro.

 

Muito conteúdo para jovens frisava o quanto a aparência era mais importante. Não que isso tenha mudado hoje em dia, mas, pela falta de uma internet eficaz como a de hoje, estávamos expostas a objetificação de um jeito absurdo. Além disso, expostas a verdade de que a mulher branca sempre seria a mais bonita de todas. De preferência, se fosse loira e magérrima.

 

Britney, Christina, Mandy. O padrão que eu engoli à beça na minha adolescência. E a indústria do pop nos EUA agia como as Paquitas da Xuxa: todas tinham praticamente a mesma aparência. Não tinha como competir com isso porque tudo era vendido como única verdade.

 

Os meninos também não fugiram dessa chuvarada de ostentação de aparência, embora isso continue a ser pouco comentado. Para quem não sabe, eles também são afetados pela mídia, mas são estimulados. Ao contrário das garotas que são humilhadas, a começar se estiverem acima do peso, os garotos são realmente inspirados a ser os bombadões porque jamais ser magricela.

 

Porque magricela era sempre o cara nerd e as meninas queriam o Freddie Prinze Jr..

 

O mesmo vale para o amor. Não havia uma história que não fazia o cara bonitão se usar da garota “feiosa” (a morena) ou “virginal” (a loira) para encher seu ego. Para provar que era realmente o Freddie Prinze Jr. da sua geração. Para piorar, esse amor empurrava uma transformação na aparência, que tornava tudo ainda melhor para ambos. Um pedido que vinha sempre da parte popular que não podia em nome de Deus andar com uma garota ou um garoto desarrumada/o.

 

Ou seja, você só pode ser amado ao dar um jeitinho aí nessa blusa amarrada na cintura.

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - LJ e Margot

 

Muitos desses filmes, que apostam nesses tropes de fake dating e etc., caminham de maneira meio incômoda justamente porque não há especificamente uma preocupação com o conteúdo. Mais precisamente, na maneira como os personagens se enxergam além das aparências. O amor dos anos 90 era merecido só se a garota ou o garoto estivessem bonitos e em forma. Mesmo que muitas histórias do passado tenham acertado, não se nega que a aparência falava sempre mais alto.

 

Para Todos os Garotos que Já Amei pega essa questão de aparência e joga no lixo. Com muito gosto. Em nenhum momento o biotipo, o estilo e a origem de LJ são julgados e isso me deixou ainda mais apaixonada por essa história. Gen a ataca mais em sua personalidade, embora tenha dado aquele shame em nome de um par de botas. O slut e o bitch, tão comum e excessivo no falar dos anos 90, ficaram de fora. Embora tenham se usado daquele vídeo viral, esses pequenos diferenciais deram mais voz a uma protagonista que assumiu todas as suas broncas.

 

Inclusive, deu valor a um filme que estava mais preocupado em construir seus personagens e não um ideário de competição sobre quem é mais bonita do pedaço. Nem sobre quando o cara pediria o tratamento de beleza para a garota que não cumpre o padrão de desejada do colégio.

 

E LJ é uma garota fora do padrão e isso canta demais a seu favor. Não apenas por ser uma adolescente mestiça, mas por ter muita noção de como gosta de ser. De como gosta de ser vista. De como gosta de se vestir. Ela não tem adendos sobre sua autoimagem. Seu adendo é seu coração.

 

Aí vocês me falam do soltar do cabelo de LJ. Tal ato não foi realizado porque ela precisava disso para ser aceita. Para ser tratada com passe especial na panelinha de Peter. Não foi o início do que viria a ser um banho de loja. Esse momento intimista foi um momento de verdade da parte dele. Uma declaração de que ele achou algo bonito nela, genuinamente. E o mais marcante é que isso foi dito antes desse fake dating mostrar que teríamos um final feliz.

 

Algo que me fez lembrar dos questionamentos do quanto eu vivia de cabelo preso e que devia soltá-lo porque os garotos curtem (e eu odiava meu cabelo). Peter a elogia em troca de nada e isso é importante. Meramente porque ele não disse isso com a meta de melhorar a aparência dela. Não é à toa que LJ desacredita e sente a vergonha natural que é ter o cabelo, uma parte invisível de si, finalmente livre de uma grande xuxinha (no meu caso era o monstro chamado bico de pato).

 

O filme brilhou mais para mim ao anular o bendito banho de loja. Somado a esse ponto, trago o fato de que eu esperava o Freddie Prinze Jr. dessa geração correndo atrás da garota dizimada pela menina malvada ao vivo em algum instante do filme. Era a praxe dos anos 90 e eu achava lindíssimo, queria mais.

 

(não nego que ainda acho porque eu sou sugadora de angústia, ainda mais das mais ridículas)

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - LJ e Gen

 

Tudo bem que Peter corre atrás de LJ, mas aqui temos outro ponto que faz Para Todos os Garotos que Já Amei muito diferente das comédias românticas para adolescentes que já vi até aqui. Ele realmente tenta intervir por ela, como acontece com os caras populares que viram o conforto só na hora que a menina se debulha em lágrimas graças ao papel conflituoso da menina má. Só que, o final dessa cena, que é sim minha favorita, ela diz que aquela luta é dela e de ninguém mais.

 

Nada de boy salva a garota dessa vez. Rejuvenesci 10 anos.

 

E rejuvenesci mais ainda em uma cena anterior a essa: a da jacuzzi. Ela não foi sexualizada. Em nenhum momento LJ foi tratada como um fetiche asiático, o que acontecia demais nos anos 90 (e anos anteriores). O que, inclusive, me faz dizer que Para Todos os Garotos que Já Amei se imunizou também do estereotipado nerd, que bem poderia ser Josh. Em vez disso, criaram Lucas. Um anjinho que também contribuiu para a importância da minoria representada com significado.

 

Parece tudo muito florido, mas LJ tem suas dificuldades. Ela pensa na aparência, mas não com tanta obsessão como muitas comédias românticas já pregaram. A personagem tenta reprimir o que começa a sentir justamente porque ela “não é uma Gen”. E não demonstra nenhum interesse de ser.

 

Lara Jean Covey sai de uma boa quantidade de convenções e de estereótipos, o que a torna ainda mais importante. Ela é, sem dúvidas, um ponto de extrema virada em narrativas desse gênero. Não apenas por ser mestiça, mas porque sua composição e seu desenvolvimento tornaram fácil para qualquer garota, até mesmo eu, a branca dos anos 90, se identificar com suas angústias.

 

E isso sim é dar valor a representatividade das minorias. Lara Jean tem voz. Ela é sua própria ordem e sua própria bagunça, como toda adolescente querendo encontrar seu lugar no mundo.

 

Mais sobre Lara Jean Covey

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - Lara Jean

 

Quando me lembro das minhas amigas asiáticas, que tive na adolescência, elas agiam basicamente como eu. Curtiam filmes. Lanches. Ver coisas bonitas. Ter materiais escolares bem legais. Falar sobre garotos. Trocar bilhetes. A cultura não era tão conflituosa, apesar de ter me visto boiando várias vezes quando elas conversavam em coreano (eu cresci cercada por coreanos, vale dizer). Eu nunca me senti fora da vida delas, embora existisse as desavenças teens. Elas eram estudiosas sim porque muito era imposto pelos pais, mas jamais, mesmo, as vi agindo nada menos que adolescentes.

 

Hoje, dou graças de ver algo tão bonito dado à Lara Jean Covey. Ela me fez lembrar dessas garotas e da minha atual amiga que vive me dando conteúdo asiático pra ver (é você mesma Viviane, obrigada). Ela é uma adolescente como qualquer outra. Que imagina. Que faz bagunça (e ver a bagunça dela me fez contente porque sempre estereotipam a asiática como a sistemática que só vive para estudar). Que quer se apaixonar e que ama estar rodeada de romance.

 

Ela é uma preciosidade para o tempo que vivemos e pensar que Hollywood ainda pensou em roubar isso do grupo em questão é de querer socar o mundo. Não faz o menor sentido e este filme é a prova real disso.

 

Essa experiência me fez lembrar também de outra parte da minha vida: a fase ficwriter. Foi a minha lembrança despertada conforme via o filme e que me trouxe identificação com LJ. Eu investia pesado nesses romances clichês. Todos muito importantes para mim. Por essas e outras que compreendi demais a mente da personagem porque eu nunca vivi um romance adolescente. Então, só me restou criá-los ou imaginá-los.

 

Algo expressado por meio da escrita (obrigada Rowling pela existência dos Marotos, mas daí lembro que estou de mal de você, então, cancelando este comentário). Deveria ser por isso que fui obcecada por vários romances e comédias românticas, porque o que, literalmente, me restava era imaginar um Freddie Prinze Jr. correndo atrás de mim e me dizendo que sou um amor para recordar (aproveitando para mencionar outro filme que obcequei justamente pela tragédia).

 

Como disse, há um poder transformador em Para Todos os Garotos que Já Amei. LJ e Peter se tornam amigos primeiro (alá como conversa é importante) e, assim, formam um casal. Daquele tipo que, muitas vezes, não tive lá nos anos 90 como exemplo positivo. Sem banho de loja!

 

A não ser o Zach de Ela é Demais. Que não é tão imunizado porque ele só enxergou a garota quando ela passou pela transformação do programa da Xuxa.

 

(preciso seguir com a lição de casa em busca dos crush dos anos 90)

 

Em Fica Comigo, rola bastante o que acompanhamos entre LJ e Peter (mas também tem seus adendos por motivos de aparência). O que culmina em: esse tipo de troca faz com que os personagens se conheçam melhor sem forçar a barra. Isso se a escrita for boa.

 

O que é o caso aqui.

 

LJ não é um peão da sua própria história. Ela é a história. Além de algumas nuances de inferioridade, ela se sai como sua própria heroína e isso dá muito gosto de ver.

 

O caso do garoto chamado Peter

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - Peter

 

Agora é minha chance de queimar minha fama de antirromance porque, além de LJ, que é incrível, o romance dá conta do recado e encanta em sua pureza. Rouba sorrisos e suspiros muito bobos.

 

O que tende a me encantar em comédias românticas adolescentes é como duas pessoas opostas passam a se conhecer a partir do momento que anunciam o fake dating. Há a troca de habitat. Ela conhece o mundo dele e ele conhece o mundo dela. Normal para manter as aparências.

 

A costumeira diferença vem dos agregados, ou seja, da panelinha de cada um e a dele enche mais o saco porque é a popular. Automaticamente, os criadores da própria beleza.

 

E não há isso aqui neste filme.

 

Não é uma novidade que duas pessoas opostas, em um filme, comecem a se encantar uma com a outra assim que se conhecem fora de seus estereótipos sociais. Isso normalmente rola mais da parte dos garotos que, subitamente, têm a revelação sobre o quanto a garota esquisita é muito legal (aka muito bonita e vice-versa). Aqui, em Para Todos os Garotos que Já Amei, não há essa pressão de um comparecer no mundo do outro. Inclusive, não é um esquema unilateral – porque, normalmente, é a garota que precisa se adequar a ele. Ambos seguem de boa e as pessoas ao redor os recebem mais de boa ainda. SOS!

 

Este filme segue o clichê nesse tipo de desenvolvimento, mas inova. LJ é elevada o tempo inteiro. Até nos instantes em que se vê perto de ter seu coração partido. Até mesmo diante das mancadas de Gen (ai mas que vontade deu de tacar a xuxinha na cara dela).

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - Peter e LJ

 

Embrenhada na tecnologia atual, a trama ajuda Peter a desenvolver um relacionamento falso com a garota que lhe escreveu uma carta de amor. Uma garota que ele podia zoar. Contudo, o personagem se empenha para tornar esse processo o mais agradável possível. Em vez da típica exigência da aparência e de forçar a agenda dos populares na menina loser, gestos e conversas realizam sua diferença. Muitas, claro, intermediadas por esse jovem, mas é ela quem brilha mais.

 

Dá muito gosto de ver que Peter tem voz positiva. Ele me imunizou de querer socar o garoto a cada minuto do filme (oi Josh!). Ele não tem a postura de ser apenas o interesse amoroso e de fazer LJ a revelação da gostosura do ensino médio (me desculpem por isso, mas é o que rolava nos anos 90). A trama consegue ser justa com esse personagem, o que o tornou facilmente um cara a se idealizar. A começar pela sua mencionada vulnerabilidade. Não há tanto cheiro de testosterona.

 

Peter acaba sendo uma proteção de LJ e não a total causa das dores e das angústias de LJ. Afinal, ela alimenta suas próprias constatações e é Gen quem a chama para a briga a base de uma mentira. Há sim aquela sombra de que ele será um grande canalha porque é o esperado. Vamos lembrar que sempre há a questão de que garoto apaixonado é a chacota, pois fere sua masculinidade ou algo parecido. Não no caso dele que investe no fake dating, mais do que eu imaginei. Gente, ele compra as coisas favoritas dela e fica chateado quando ela age esquisitamente.

 

Para minha própria surpresa, esse jovem compreende a desconfiança dela sobre sua maravilhosa existência. Nada disso o impede de ficar chateado, sendo que poderia porque temos o estereótipo do atleta que não sente nada. Justamente por isso que garotas como LJ dificilmente confiam em caras como Peter. É a hierarquia da adolescência porque há, de novo, a questão da validação e da autoestima.

 

Perto de manas como Gen, garotas como LJ acham surreal o que caras como Peter passam a demonstrar. Eu mesma apertaria a sirene do alerta cilada.

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - LJ e Peter

 

Peter e LJ trazem uma história de igual para igual. Ele não muda exteriormente por ela. Ela não muda exteriormente por ele. Há detalhes que compõe a mudança de um para o outro, mas internamente. Uma mudança para o bem. Para o somatório deles como um casal (falso).

 

O filme pregou a confortabilidade dessas mudanças. Todas sendo muito naturais, muito distantes do A, B, C que ambos inseriram em um contrato (e, ah!, esses contratos!). O roteiro conduz a transformação de uma patifaria em um romance com extrema delicadeza. Sem se esquecer de respeitar a protagonista. Algo que tende a não ocorrer em histórias desse gênero.

 

O contrato é esquecido porque o que a história traz desses dois é um trajeto que encontra sua resolução sem exigir as típicas pressões adolescentes. Se eles mudam é porque sentem algo um pelo outro e não porque a situação exigiu. Pequenos gestos moldam Para todos os Garotos que Já Amei, com consideração da parte dele e a curiosidade da parte dela. Ambos tornam tudo uma diversão e não uma missão. Só que o destino tinha mais para eles e fiquei muito satisfeita com o final feliz. O que me contradiz porque gosto de final infeliz – determinados hábitos nunca nos abandonam totalmente.

 

Desde muito cedo, eu escutei que garoto implicando com garota é sinal de que ele gosta dela. E garotos passaram a compreender que essa é a única forma de chamar a atenção da garota sendo que isso tende a ser maldoso. Muitas comédias românticas apostaram (apostam) em ridicularizar a menina, como acontece em Ela é Demais, para garantir seu cliffhanger romântico. Tanto para gerar a angústia masculina, o ato dele correr atrás de quem descobre gostar além de uma aposta/fake dating, quanto para mostrar que a garota só é digna de amor se for posta lá embaixo.

 

Era esse o tipo de amor que romantizei um dia e ver que existe Para Todos os Garotos que Já Amei me deixa muito aliviada. As adolescentes de hoje precisam ver coisas saudáveis. Precisam sair dessa ideia de que amor é aquele que te faz sofrer ao ponto de escalar o abusivo. Just stop!

 

Só sei que Peter tem toda a moral de ser idealizado. Só não digo que ele é perfeito, porque ninguém é. Entretanto, eu bem queria esse Freddie Prinze Jr. da geração de vocês nos meus 14 anos.

 

Mais motivos para assistir

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - LJ e Lucas

(eu juro que este texto está terminando, aguentem firme)

 

Para Todos os Garotos que Já Amei reabriu portas e janelas para uma versão da Stefs que sempre amou esses filmes. Que via neles a sua própria fuga e era bom demais (apesar das tretas). Não havia em mim a consciência da representatividade naquela época, penso que ninguém tinha, então, foi muito fácil eu caçar identificações. Nunca acertei e me restou Kathryn Merteuil para amar.

 

Com esses filmes, eu me sentia em casa. Sentia-me segura. Talvez, esse contexto escapou de mim porque perdi as pessoas com quem conversar sobre esses filmes. Assim, tudo se tornou destoante de mim e acabou amassado pelo guilty pleasure + jornalista tem que curtir é política.

 

Por que eu ouvi esses humanos mesmo?

 

Além da sua representatividade, aqui temos uma história lindinha. Há uma personagem que idealiza o amor até viver o seu amor. Ela não muda drasticamente para ser aceita por um cara que fugiu também do modo atletas do grupo Freddie Prinze Jr. (embora seu personagem em Ela é Demais ainda continue a ser o grande amor da minha vida. Quem é que manda o time limpar a casa de mozão para sair com mozão mesmo sendo uma aposta?). Sério, sou muito grata por ver uma produção como Para Todos os Garotos que Já Amei.

 

Preciso também ressaltar outros pontos que cantaram em meu coração:

 

1. O grupo de atletas, costumeiramente o pesadelo de garotas como LJ. Aqui, todos a tratam bem e caí da cama. Fiquei só heart eyes com um dos amigos que a trata como um nenê precioso;

 

2. Em Fica Comigo, há uma fala da protagonista que é o marco da história: meninas quando competem é arte. Como disse, eu jurava que Margot e LJ tretariam pelo boca aberta do Josh. Muito pelo contrário. As irmãs se unem e dialogam, criando sua própria sisterhood dentro de uma sisterhood. É lindo demais!

 

3. Os garotos em cena não são forçadores de barra. LJ tem plena liberdade e pleno controle da sua transição na história. Nada de amigo invejoso querendo “roubar” a garota.

 

Único ponto negativo (que nem é negativo):

 

1. Senti falta de um desenvolvimento real de Gen, mas daí lembro que meninas malvadas em comédias românticas são inseguras e invejosas. Rasas. Não dá para mudar tanto se falamos de um clichê. Mas, por rivalidade feminina ser coisa dos meus anos 90, senti falta do abrandar de panos entre duas personagens que um dia foram amigas. Não sei se algo assim rola nos livros, mas, visto que o romance teve seus méritos, as meninas podiam ter dado o dedo mindinho em nome da paz. Secretamente, a jovem vilã também precisa de algum tipo de ajuda para sair da toxicidade.

 

Concluindo

 

Para Todos os Garotos que Já Amei - LJ e pai

 

Para Todos os Garotos que Já Amei me deixou com uma nostalgia danada. Uma nostalgia que se divide em vários âmbitos, um pouco mais além do fato de eu praticamente ter vivido na locadora para pegar todos meus filmes teens. Por meio dele, retornei a um ponto de refúgio: minha mente.

 

Era lá que eu criava minhas cenas românticas até descobrir o que era fanfic. Uma experiência que eu tive, sinto saudade, e que escrevi muitos clichês. E escrever clichês é bem isso: fácil. Não se exige muito, mas é importante que seu desenvolvimento seja inovado/diversificado. Aqui temos um caso.

 

Eu não tenho palavras para este filme a não ser nostalgia (que mentira depois deste textão). Nostalgia de cartas. Nostalgia de acompanhar vários romances por segundo. Por outro lado, eu não tenho tanta nostalgia sobre os garotos que achava que amei quando o que eu queria mesmo era validação masculina. Todos os garotos que achei que amei me magoaram e rechaçaram meus sentimentos.

 

E esse último ponto ainda perpetua os romances juvenis de má qualidade. A validação masculina quando uma garota simplesmente pode gostar do cara porque gosta dele e fim. E ele pode gostar dela e fim.

 

E LJ reconhece isso dentro de si e foi um choque danado ver que é ela quem corre atrás do garoto. A personagem vai atrás porque seu coração acredita no que sente. Depois de anos em idealizações, finalmente essa jovem vê que tem chance de vivenciar um romance de verdade. Com direito às cartas de amor que sempre quis receber. E não há um final diferente que eu poderia desejar.

 

Lara Jean

LJ quebrou o trope do Freddie Prinze Jr., I stan a queen!

 

Como disse quinhentas vezes ao longo deste texto, há muita positividade neste filme. Tanto pela protagonista, que esfregou com qualidade a importância da representatividade de valor, quanto pelo garoto que é muito mais que o Freddie Prinze Jr.. Eu estou radiante, de verdade, especialmente porque eu acessei uma parte de mim que acabou silenciada pelo que é dito melhor “culturalmente” para você se encaixar e ser ouvida.

 

LJ vence suas lutas. Vence a vergonha de ter seus sentimentos presos depois que as coisas se tornam bem ruins entre Peter e ela. Vence até mesmo Gen, a figura eterna da menina malvada que a gente quer trancar na gaveta. Todo esse universo é composto pelos ditos clichês do gênero e a delicadeza de sua construção traz conforto. Inclusive, endereça ao que muitas garotas aprendem muito cedo: esconder e tratar o que sente como irrelevante.

 

Eu mesma ignorei demais meus sentimentos e, hoje, eu sou a clara reencarnação de quem não sabe lidar muito bem com eles.

 

E LJ poderia passar por isso. Com seus sentimentos. No fim, ela se liberta e agora eu quero os livros para saber o que acontece. Não sou obrigada!

 

Recomendo demais este filme. Ele cumpre um tremendo serviço para com o gênero e traz um novo olhar sobre esse trope de fake dating. Lana Condor está incrível. Uma importante revelação.

 

De uma garota que quer muito um romance para si e que consegue de um jeito divertido e respeitador, aqui temos uma bela lição sobre aceitar o que sentimos. Ai, mas você está repetindo isso. Ai, eu estou sim. Não apenas por ser a adolescência, mas porque aquilo que guardamos, dentro de caixas ou de gavetas, é quem somos e o mundo precisa desse lado de nós.

 

Não apenas pelo romance, mas para tornar o mundo mais leve. Para que não tenhamos tantos problemas em expressar o que não é vergonhoso. É apenas parte de quem somos.

 

Ela é Demais - Zach

Caso você tenha boiado, esse é o (próprio) Freddie Prinze Jr. da minha época. Ele competia com Leo DiCaprio e Josh Hartnett em meu coração.

 

Agora deixo vocês em paz! Vão assistir ao filminho lá na Netflix, ok? Ok! ❤

 

PS: os gifs não me pertencem.

Stefs
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