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01/set

Crawling in my skin
These wounds, they will not heal
Fear is how I fall
Confusing what is real

 

Esta semana, eu me emocionei com um vídeo de um trecho de um show do Linkin Park, no Reading Festival, Inglaterra. Nele, Mike Shinoda puxa a plateia para cantar In The End e nem preciso dizer que foi mais uma homenagem ao eterno vocalista Chester. Sei que esse início pode soar meio aleatório, mas prometo que fará sentido.

 

Existe uma canção em particular que, durante a leitura de Sharp Objects, me fez pensar em sua protagonista, Camille Preaker. E essa canção é a mencionada acima.

 

Desde que nos foi apresentada no Piloto, aprendemos a olhar o mundo através do seu olhar. Silenciosamente, caminhamos ao seu lado, em sua busca por algo que ainda não se sabe ao certo. Contrário ao que esperam, o que busca de fato é a verdade. Não digo a verdade sobre quem matou e o porquê. O que ela busca é a sua verdade. A verdade sobre o passado e como está fincada nela, muito mais que seus cortes.

 

Descobrir sobre os cortes de Camille ao final de Vanish foi uma das grandes cartadas da trama e, desde então, acompanhamos a história entrar em mutação. Como KC mesmo diz, existe algo de fascinante na Preaker Girl. Algo que nos mantêm totalmente investidos em cada uma de suas ações. Sejam elas contraditórias ou não, é graças aos seus impulsos mais que humanos que conseguimos chegar mais próximo de uma das grandes revelações de Sharp Objects.

 

 Olha o aviãozinho

 

Sharp Objects - 1x07 - Camille

 

Depois da exuberante e alucinante noite que Camille e Amma compartilharam, o pior estava fadado a acontecer. Quando se é mais novo, um dos mimos mais gostosos que se pode receber dos pais é quando cuidam de você enquanto está doente. Digo isso porque tenho pais extremamente preocupados, mas nada comparado aos índices Adora Crellin. Já adulta, a tendência é que você aprenda a se cuidar, mesmo que, por vezes, o colo familiar seja bem-vindo.

 

Ver Camille, sem seus trajes pretos, usando uma camisola branca foi de arrepiar a alma. Tudo isso porque sabemos que ao pé da cama estaria ela, a criatura com voz mansa e garras em forma de palavras. Bom, se suas palavras fossem apenas o problema, acho que ok. Contudo, acompanhamos o sonho de uma mãe ser realizado: finalmente cuidará de sua arredia filha mais velha. 

 

Naturalmente, sua ilusão dura pouco. Camille se comporta como sempre faz: se esquivando das gotinhas de Adora.

 

“A sua saúde não é uma conta que você pode cancelar.
O corpo cobra o preço.”

 

Depois de se desvencilhar das garras da mãe, Camille sai em busca de um caridoso estabelecimento que venda álcool logo cedo. No caminho, passa à frente da casa de Ashley, onde Vickery e seu time fazem uma busca por evidências.

 

Lembram daquela mancha de sangue que a namoradinha perfeita tentou esfregar? Pois é, foi bem fácil convencê-la a colaborar depois de ouvir as palavras da televisão e da heroína local.

 

Gato e rato

 

Sharp Objects - 1x07 - Jackie e Vickery

 

Esqueci de acrescentar o posto de gasolina na lista de lugares corriqueiros que os personagens desta série se encontram. E, mais uma vez, é no local que Camille mais gastou dinheiro com vodca que o Chefe Vickery resolve, digamos assim, abastecer seu carro. Nada coincidentemente, Jackie O’Neill está saindo do estabelecimento.

 

Usando do seu dom de dizer pouco e muito ao mesmo tempo, Jackie provoca Vickery ao perguntar sobre a garota dele. Pensando que fala sobre sua esposa, ele se vê em um jogo de gato e rato com a residente mais sem papas na língua de Wind Gap.

 

Nunca imaginaria que esses personagens se tornariam tão importantes para esta história e que os veria, cada um a sua forma, cumprir seu papel nesta trama. E diria que mais ainda após o final de Falling, o penúltimo e crucial episódio desta impecável adaptação em forma de série.

 

Existe aquele ditado de que a ignorância é uma bênção e nada poderia soar mais perfeito que isso para esse encontro. Afinal, se comprovou o que já estava mais que óbvio. Chefe Vickery e Adora Crellin, sentados na árvore, se B-E-I-J-A-N-D-O – imaginem a voz de Amma para tornar esse momento ainda mais bizarro.

 

Quem procura… Acha!

 

Sharp Objects - 1x07 - KC

 

Richard Willis aka Detetive KC aka Dicky se prova um melhor detetive quando o assunto foge do que foi realmente designado a solucionar. Dando continuidade à sua investigação a respeito de Camille e sua família, o vemos chegar bem perto. Depois de receber uma dica de Jackie, ele vai até uma clínica popular a poucos quilômetros de Wind Gap. Sua busca é por Beverly, uma das enfermeiras que tratou Marian Crellin no hospital central dessa mesma cidade.

 

Tudo que transcorreu daqui em diante difere bastante dos acontecimentos do livro. Tratando-se de uma obra extremamente honrosa com o material original, ainda assim voltei a respirar aliviada. Optaram apenas por encurtar a ordem das descobertas, porém, todo o envolvimento do detetive é 100% acertado. O que realmente importou é a revelação de que Marian foi internada diversas vezes, com diferentes sintomas. Além disso, curiosamente tratada por diferentes médicos.

 

Flynn introduz em sua cortante história uma doença mental muito recorrente em adultos. Mães nesse caso. Nomeada como Síndrome de Münchhausen, o causador provoca a existência de sintomas e, consequentemente, doenças em crianças, como uma forma de chamar a atenção para si mesmos. Beverly tentou expor que Adora abusava de Marian, mas, considerando o peso do nome Preaker, a enfermeira acabou perdendo seu emprego. O que mesmo assim não a impediu de orientar Willis a buscar mais informações no hospital a respeito da outra garota.

 

Sim, a irmã de Marian, Amma Crellin.

 

Quem domina quem?

 

Sharp Objects - 1x07 - Amma e Adora

 

Tudo que Amma diz e faz é um paralelo da conversa que teve com Camille após a alucinante caminhada de patins pela cidade. Chega a ser desesperador e triste vê-la afirmar que a melhor parte da ressaca são os cuidados da mãe que quer que ela esteja sempre doente. Como faz mesmo sentido toda aquela psicologia reversa do deixar fazerem algo com você, mas que na verdade é você que está fazendo com eles.

 

Sem antes mesmo de dar um nome ao seu estado mental, é visível que Adora sempre abusou da saúde e do psicológico de suas filhas. O mesmo se aplica a Joya, mãe de Adora, que foi uma mulher extremamente alterada e violenta. Seja Preaker de nascença ou Crellin por união, existe uma amaldiçoada herança familiar.

 

E vale um adendo: isso que chamo de originalidade para nomes, fala sério.

 

“Você não precisa da minha ajuda para sentir-se melhor.”

 

Acho impressionante que tudo, mas tudo que acontece, tem o dedo de Camille envolvido. Sim, tudo que sai da ordem natural é culpa da filha visitante, segundo Adora Crellin. A mãe não esquece de pontuar que o estado atual de Amma é graças à má influência da filha mais velha. Essa mulher finge tão bem não saber de nada, que acho que até ela acredita que não sabe de fato.

 

Seu poder de manipulação atinge outra esfera quando vê que Amma começa a mostrar que não precisa de seus cuidados. Ameaçando tirar seus privilégios e benefícios, a filha logo muda de ideia, dando para a matriarca o que ela tanto deseja: uma filha “doente”.

 

Scars To Your Beautiful – Parte 1

 

Sharp Objects - 1x07 - Camille sorrindo

 

Antes de falar sobre um dos momentos mais bonitos e vulneráveis já criados para a televisão, gostaria de ressaltar o ato de sorrir. Independentemente do estado de espírito e de como estamos por dentro, por vezes, somos tomados por uma força maior. Muitos dizem que o olhar é a porta da alma, então, nomeio o sorriso como a janela de nosso coração.

 

A referência é para o sorriso genuíno e não para aquele que alguém cobra (“você devia sorrir mais”). Não acredito que exista uma explicação do porquê disso, mas é sobre como nos sentimos ao ponto de esboçá-lo. No caso de Camille, os momentos em que ela abre a boca são raros tão quanto o ato de mostrar seus dentes ao sorrir de ponta a ponta.

 

Provando que nada é ao acaso, Camille, ao chegar em Bean Town, lado mexicano de Wind Gap, se depara com o jovem mais procurado da cidade. John Keene afoga suas mágoas sabendo que esse poderá ser seu último momento de liberdade. Ela, automaticamente, se aproxima e inevitavelmente pergunta se ele realmente cometeu alguma coisa. John em momento algum negou o ato, mostrando sinais de cansaço físico e emocional. Como ele mesmo diz: só quero que isso acabe.

 

Temos no menino Keene um exemplo claro da fragilidade masculina. Tal personagem é exatamente o oposto a tudo que um homem deve ser. Sensível, emotivo e, olha só, lágrimas caem do seu rosto. Absurdo, não é mesmo? Ironias à parte, vale lembrar das falas dos moradores de Wind Gap a respeito da sua choradeira. Tachado de gay e de baby killer, John tenta adormecer todo o barulho ao seu redor. Nessa crucial conversa com Camille, vemos toda sua frustração e acompanhamos sua raiva ser expurgada quando resolve contar sua versão, fabricada claro, dos fatos.

 

Scars To Your Beautiful – Parte 2

 

Sharp Objects - 1x07 - Camille e John

 

Taylor John Smith brilha em um episódio que merecidamente poderá lhe render uma indicação de ator coadjuvante no Emmys do ano que vem. Digo isso, pois o jovem ator consegue expressar diferentes emoções e, acima de tudo, contracena frente a frente com Amy Adams.

 

John representa a tristeza de um familiar que perde um ente querido e toda a constatação de que deverá viver sempre com essa dor. Basta pensar em Camille e como a perda de Marian sempre a afetará. É por isso que ele a desafia a provar que não está morta.

 

Me recordo claramente o impacto desse momento enquanto lia Sharp Objects. Diferente de tudo que já vivenciei, Flynn colocou esses dois personagens juntos na mais perfeita sintonia. Dentre familiaridades, como a perda de irmãs, tanto John quanto Camille encontram conforto um no outro. E, sim, é errado em todos os níveis possíveis visto que ele é o principal suspeito.

 

Mesmo assim, esse íntimo e tão peculiar encontro expõe por completo o que ela tanto evitou colocar pra fora.

 

“O mistério do destino humano é que somos fatais, mas temos a liberdade de cumprir ou não o nosso fatal: de nós depende realizarmos o nosso destino fatal.”

 

Sempre que me vejo afogada em pensamentos e reflexões sobre algo, vou atrás do que Clarice Lispector disse a respeito. Sim, Clarice tem seu parecer em quase tudo que você possa imaginar. Camille, independentemente de toda sua dor e da extensão de seus traumas, conseguiu se manter viva. Do outro lado, temos John, um garoto sensível demais para um lugar como Wind Gap. E é com tal sensibilidade que ele vê o que ninguém nunca viu. Em um misto de angústia, de alívio e de exposição, o personagem despe Preaker e analisa cada palavra cravada em seu corpo.

 

Sim, ele a lê meticulosamente, com todo o respeito merecido.

 

Por favor, nunca cresça

 

Sharp Objects - 1x07 - Adora

 

Todos possuímos, de certa forma, uma síndrome de Peter Pan. Literalmente, é impossível não crescer, mas bem que, às vezes, desejamos voltar alguns anos. Justamente para escapar das responsabilidades e dos tormentos da vida adulta. Amma tem consciência dessa inevitabilidade. Contudo, o que realmente quer ouvir da mãe é que ela é muito mais que a sombra. O prêmio de consolação da irmã que morreu.

 

“Você acha que não vou crescer?
É por isso que quer que eu continue criança?
Para que eu seja como a Marian?
Você é como ela.
Não, não sou tão boa.
Ninguém é tão bom quanto alguém morto.”

 

Adora acompanha de perto a deterioração do estado de saúde de Amma. A mãe ainda tem a capacidade de dizer que tudo voltará ao normal assim que Camille partir. Defina normal, minha cara.

 

Outra coisa que vai além da normalidade são as atitudes de Alan. Mais apropriadamente a falta delas. Como uma bruxa a preparar suas poções, temos um cônjuge que veste a viseira com absoluta destreza. Sabe aquele tipo de pessoa que acha que o melhor a se fazer é ficar fora do caminho?

 

Fascinante

 

Sharp Objects - 1x07 - fascinating

 

Mesmo arriscando tudo ao passar a noite com John, Camille se vê confortável com aquele menino tão fragilizado e esgotado de sentir tudo que sente. Depois de dividir sua vulnerabilidade, é a vez dele confidenciar como sua irmã realmente foi. Ele nunca acreditou que Natalie fosse uma menina ruim, mesmo com as predileções para mordidas. O único problema dela foi sempre ser muito autêntica. E sabemos como Wind Gap lida com pessoas assim. Adora é mencionada como a única pessoa que nunca desistiu das garotas perdidas.

 

“Ela nunca desistiu. Como se ela fosse endireitar as duas.
Nunca deixei minha mãe fazer isso comigo. Acho que devia ter deixado.”

 

Camille tem uma epifania ao ouvir as opiniões de John a respeito da influência de Adora na vida de Natalie e, consequentemente, na de Ann. Antes mesmo que consiga refletir, os dois são surpreendidos pela voz de Vickery e um chute bem dado na porta do motel. Considerando a nova evidência encontrada na casa da piscina, John é algemado e encaminhado para questionamento.

 

Enquanto isso, Camille lida com a constrangedora presença de Richard Willis, que age como o Dicky que bem é.

 

Conivência

 

Sharp Objects - 1x07 - Jackie

 

Se você acha que recebeu todos os golpes que a vida poderia lhe dar, eis que uma hora se ganha um presente. Aqui, foi arquivos do passado. Dicky, que seguira a orientação de Beverly para investigar as entradas de Amma no hospital, acaba encontrando a primeira chave que destranca o mistério que envolve a família de Camille. Jackie tem seu nome estampado em diversas solicitações negadas de autópsia. Sim, nossa bocuda alcoólatra favorita tentou cavucar sobre a morte de Marian.

 

Transtornada com tal informação, Camille entra sem cerimônias na casa de Jackie. Entre uma sangria batizada com um comprimido, ela joga a famosa merda – perdão – no ventilador. Há quem afirme que um cúmplice não é tão culpado quanto o executor. Bom, eu diria que é tão ruim quanto. Principalmente por ser conivente a uma situação que poderia ter sido evitada.

 

No caso de Wind Gap, Marian nunca poderia ser salva. Afinal, era a palavra da Rainha Adora contra o ponto de vista de Jackie, a vista como invejosa e bêbada.

 

Com o desfecho desta crucial personagem secundária, conseguimos entender o porquê das escolhas da equipe de roteiristas em torná-la essencial para a trama. Elizabeth Perkins deu vida brilhantemente a essa conturbada mulher, regada de intenções, mas todas elas sem freio e direção.

 

Concluindo

 

Sharp Objects - 1x07 - Amma

 

Adora matou Marian pouco a pouco tendo Jackie como cúmplice indireta. Além da ex-amiga, Vickery e Alan podem facilmente entrar para o fã-clube dos escrotos coniventes de Wind Gap. Não precisa ser guru para saber que os homens da Mama sabem o que realmente acontece. E, considerando a predileção da matriarca por garotinhas, Camille só refletiu sobre o que era evidente.

 

“Foi a minha mãe.”

 

Meu mundo caiu. Mais especificamente o mundo de Camille caiu. Vê-la ligar para o boss amado é de partir o coração. Mais um daqueles momentos que deu vontade de entrar em cena para abraçá-la. Mrs. Adams merece todos os louros mais do que nunca por ter nos feito embarcar nessa montanha-russa de emoções chamada Camille Preaker. Se antes achei que ela tinha dado seu melhor, tudo que faz neste episódio, desde o momento que acorda com as vestes brancas até o colapso nervoso da descoberta, ultrapassa os níveis humanos de comprometimento profissional e emocional para com a personagem.

 

Sharp Objects se transforma constantemente. Por mais que muitos tenham desistido logo no início, só digo uma coisa: lamento muito.

 

Exatamente como deveria ser, o slow burn, que muitos reclamaram a respeito no andamento da trama, foi honrado como a obra de Flynn merecia. Camille sentiu seus cortes pulsarem e a revelação que o público tanto clamou finalmente foi respondida.

 

Com apenas um episódio para seu desfecho, Sharp Objects provou que, com a equipe certa na frente e atrás das câmeras, histórias normalmente não contadas podem ser sentidas e aceitas pelo que elas são.

 

“I had a bottle of burgundy wine…..my love she did not know….so i poisoned that dear little girl.”

 

PS: um brinde à trilha sonora que mais uma vez foi estonteante e fez minha nuca arrepiar com os minutos finais do episódio.

Mari
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