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12/set

Olar, tudo bem? Eu espero que sim! Hoje, trago para este site mais uma daquelas resenhas que foram esquecidas no meu arquivo, mas que chega aqui em um tempo ideal visto que Um Pequeno Favor logo menos estará nas nossas telonas. E mal posso esperar para conferi-lo.

 

Devido a esse ínterim de tempo, me perguntei se seria válido escrever algo sobre o livro e me convenci de que sim. Meramente porque diminuirei (e assim quero acreditar) o tamanho da resenha do filme. Como vocês sabem, não poupo no textão (e sempre torço para não rolar textão e acho que este post se tornou um textão).

 

E este textão é uma resenha aprofundada. Não entrego as causas da trama, mas dou uma pincelada no caráter dos personagens.

 

 

Um Pequeno Favor é um livro de suspense assinado por Darcey Bell – e esse é seu debut. A primeira coisa que chama atenção na capa é a famigerada menção a algum livro que se aproxima da premissa e a referência da vez foi Garota Exemplar. Além disso, A Garota no Trem. Duas ditas “comparações” que, normalmente, influenciariam na hora de eu decidir ou não pela leitura. Honestamente, não gosto desse merchan, porque no fundinho sabemos que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Porém, gostamos de sofrer e, se tivermos sorte, não tomaremos algum golpe no meio da testa.

 

E como surgiu o interesse por este livro?

 

Como mencionei, Um Pequeno Favor se tornou um filme (que estreia nos EUA esta semana e no Brasil no dia 27/9). Um motivo que também não é o bastante para eu adquirir o livro. Porém, contudo, entretanto, a adaptação contará com a presença da minha esposa Anna Kendrick e acredito que esse fato me poupa de mais explicações. Ela é a real razão de eu ter corrido atrás de ler esta história que segue sim os moldes de construção e de compasso de Garota Exemplar e A Garota no Trem. Além do mais, segue o mesmo tom de suspense sobre uma pessoa que desapareceu, com o apoio de narradores em primeira pessoa nem um pouco confiáveis.

 

Como manda a regra desse tipo de livro, a história é entregue de diferentes pontos de vista e não é muito difícil você subir as defesas assim que a primeira página é virada. Por ninguém ser confiável, detestar ao menos um dos personagens é lei tão quanto considerar seus pensamentos uma imundície, uma estupidez, uma chatice e assim por diante. Penso que essa é a parte interessante de títulos que exploram sua premissa de tal maneira, mas confesso que eu mesma sempre encontro algum entrave e não engajo com a proposta. Algo que experienciei fortemente em A Garota no Trem. Embora fosse o intento da autora em entregar humanos “com defeito”, eu passei a maior parte do tempo estressada. Um estressada do jeito “mas que porre”.

 

Daí nasceu a relutância de livros que seguem mais ou menos esse caminho. Principalmente porque é quase certo de que não levarei nada da leitura comigo (acho que só Gillian Flynn teria algo a me contar de verdade e eu preciso me aprofundar no material dela depois da minha experiência com Sharp Objects). E eu gosto de levar algo comigo quando fecho o livro. Caso contrário, eu fico mais estressada pela sensação de que perdi tempo.

 

Gente, eu sou um poço de estresse!

 

Agora, se eu levei algo comigo sobre Um Pequeno Favor? Bem, isso é papo offline, minha gente.

 

Um Pequeno Favor - Blog da Stephanie

 

Um Pequeno Favor abre com posts do blog da Stephanie, que escreve conteúdo voltado para mamães. Além de representar o papel de blogueira, ela é mãe de um menino e é viúva. Aparentemente, ela tem uma vida estável e equilibrada, embora não perca a chance de nos contar sobre o quanto sua vivência em Nova Iorque era muito melhor em comparação ao seu estilo de vida atual.

 

Estilo esse alterado pelo marido que faleceu em um acidente de carro. Primeira informação que me deixou em alerta prontamente sobre essa jovem, além da descoberta do seu segredo bem podre.

 

Enquanto o papo sobre o desaparecimento de Emily não se aprofunda, sabemos do background de Stephanie e do quanto esse mesmo background ainda tem imensa influência em sua vida. Essa parte do livro marca a alternância entre os posts e a narrativa dessa personagem – que é responsável em assentar os primeiros fragmentos da premissa. Compasso que entrega outro intento de Um Pequeno Favor: também trabalhar a questão de aparências.

 

O que os olhos não veem o coração não sente, certo? Ao menos, é isso que Um Pequeno Favor prega em boa parte da sua trama até desmascarar geral.

 

Stephanie é o principal canal nessa questão de aparências, justamente por ser a narradora com mais destaque. Quem a lê online e se identifica jamais diria que essa mesma pessoa é uma “depravada”. E uso “depravada” porque foi a primeira coisa que se passou na minha mente, como um tipo de reação das mamães que acompanham o blog dela se soubessem do seu segredo mais profundo. Eu mesma tenho outra opinião sobre essa personagem e que nada tem a ver com “depravada”.

 

A real é que existe um tesão incontrolável nessa personagem que deixa você ligado para saber se tem algo além disso. Principalmente quando ela entrega partes do seu segredo e insinua a redenção (que não existe por se tratar de algo mais forte que tudo). Nisso, você quer saber se há mais “safadeza” embaixo do tapete dela e foi quando comecei a engolir as páginas do livro. Eu me vi sedenta para saber o que mais a blogueirinha tinha a contar sobre seu babado nada normativo. Um babado que é problemático e nem posso me aprofundar sobre isso.

 

Ao mesmo tempo que Stephanie chama a atenção para o desaparecimento de Emily, ela mesma vai largando seu segredo na nossa face e é quando a roleta do nosso próprio julgamento se inicia. É um fato que embrulha o estômago, mas isso deve ser relativo, não sei. Eu mesma fiquei 90% enjoada porque os outros ‎10% estavam ocupados tentando entender aquele misto de prazer e de culpa que a rodeia e a sufoca. É seu passado e esse passado a transformou.

 

Mas não muito, por assim dizer. A liga do passado de Stephanie, tão intrínseca em si, ainda rende escolhas péssimas e ela tem noção disso. Para compensar, a blogueirinha vende a faceta de boa pessoa e tenta a todo custo ser essa boa pessoa. A que preza por harmonia. A que quer nos convencer de que não é má por curtir coisas ditas inapropriadas. Ela gosta de sexo, muito, e, se for com a pessoa errada, mais precisamente quem não deveria desejar, a coisa se descontrola.

 

Por um momento, pensei que a personagem fosse ninfomaníaca, mas é muito tesão envolvido. O que já me faz avisar que há umas passagens que indicaria para 18+. Não é assim algo digno de um pornô, mas é bom avisar, não é mesmo?

 

Com o contexto dado, não demora muito para a emoção de confiar desconfiando tomar espaço. Stephanie começa a soar como a principal culpada de qualquer coisa que tenha acontecido na sua vida e com a de Emily. Meramente pela maneira como ela narra seus podres, totalmente em busca de absolvição. Quem lê acaba mais como seu juiz e até agora não sei que ultimato dar à blogueirinha.

 

Confesso que não dei tanto peso para os podres de Stephanie (mas fiquei boquiaberta toda vez que eles retornavam) porque há outra questão largada nas entrelinhas: sua nítida obsessão por Emily. Ao ponto dela reconhecer seu perfume – e isso foi a primeira pulga que se plantou atrás da minha orelha. É quando nadamos nas duas facetas dessa mulher. A da blogueirinha perfeita que só quer saber onde está sua dita BFF e da mulher que tem um passado de torcer o nariz – e de prender o interesse porque não podicê.

 

Enquanto Stephanie praticamente pede desculpa por ser do jeito que é e investe na aura de bobinha, Bell se usa dos textos do blog para chamar a atenção sobre o desaparecimento da indesculpável Emily Nelson (que será Blake Lively nos cinemas). Uma mulher que é extremamente o oposto da mamãe blogueira, descrita como uma Deusa bem-sucedida que trabalha na área de RP de uma empresa de moda, extremamente elegante, muito bem casada e igualmente mãe de um menino. As crianças reúnem essas mulheres tão duais e só sabemos o real motivo dessa aproximação, que parece inocente, no final da leitura. Até chegarmos lá, é batata desconfiarmos de que uma delas não era bem uma BFF.

 

O suspense começa com o pedido de um pequeno favor da parte de Emily. Favor esse que a blogueirinha concede sem pensar duas vezes, o que a deixa responsável pelo filho de quem acreditou ser sua amiga. Uma amiga que não retornou no tempo combinado e que a faz correr atrás de Sean, o marido inglês bem-sucedido, um tesão, que parece extremamente desinteressado com a situação.

 

Com os três em cena, a autora instiga um drama do ponto de vista de quem “prega” a perfeição – a própria Stephanie. De quem realmente reconstruiu a própria vida em cima de uma casinha da Barbie e que, ironicamente, se choca com o que acaba descobrindo sobre Emily. É aquela velha coisa de julgar alguém sendo que você nem toma conta dos seus próprios podres.

 

É, poderia ser essa de julgamento, mas Stephanie tem um lado. É quando a vemos se usar do mesmo tom de desculpa aplicada em si e aos seus arredores para amenizar impasses e comportamentos que surgem ao longo do desaparecimento de Emily. Apesar de ter feito o que fez no passado, há uma nesga de ingenuidade na blogueirinha que, na verdade, é praticamente seu próprio cancelamento por ser uma ponta fraca.

 

Stephanie jamais imaginou que Emily fosse tão corrompida. Realização que se abre conforme ela mesma começa a amarrar os pontos sobre esse desaparecimento. Uma busca da sua parte que acontece por um motivo que, quando se colide, inicia a brincadeira de gato e rato.

 

Um Pequeno Favor - Emily

 

Quais seriam os motivos de Emily desaparecer? Teria ela sido sequestrada? Teria ela sido assassinada? Teria ela ido viajar no intuito de tirar férias longe da família? Muitos questionamentos surgem ao longo da narrativa de Stephanie e, quanto mais ela se aproxima, mais verdades escabrosas sobre sua dita melhor a amiga a atingem. Por formar uma bagagem sobre o background daquela que sumiu, eu esperei que a blogueirinha fosse crescer no livro, mas ela acabou me lembrando da protagonista de A Garota no Trem. A própria pessoa feita de otária com a diferença de não ter direito à sua reviravolta.

 

E a reviravolta que ocorre é muito simples. Sem nenhum tipo de consequência (para ambas).

 

Emily tem sua voz e ela costura o enredo de acordo com o que se desdobra com Stephanie desde o seu desaparecimento. É quando temos outra impressão da mamãe blogueirinha porque a sumida da história claramente não suporta quem não considera sua BFF. Basicamente, essa personagem é a manipuladora, que se usou dos sentimentos da jovem mais frágil para conseguir seus intentos.

 

Há um preenchimento do percurso até se chegar no resultado do favor pedido. É nesse recontar que vemos Emily se sair como uma sombra na vida da blogueirinha. A sumida desperta o lado obscuro, que se entremeia ao passado, da sua nem um pouco BFF. Desde o marido até sua vida em NY (e Stephanie trabalhava em uma revista, algo muito similar ao mundo de uma confiante Emily). Ao contrário da mamãe dita de bem que tenta dissolver esse desaparecimento, até desistir graças a um combo (quase) irrefutável de evidências, com seu jeitinho fofo e sensato, a “amiguinha” chique cria uma rachadura de caráter.

 

Emily tem baixo caráter de um modo tão perverso que você se esquece de que Stephanie é uma “depravada”. Ao menos, eu esqueci, embora os segredos de ambas sejam impossíveis de digerir. Eu fiquei horrorizada com dois lances que a sumida da história acarreta. Toda plena e serena, WTF? Dei toda a razão do mundo para a blogueirinha ficar chocada com certos pontos sobre a BFF porque sem condições (e ela vai lá e me abraça a pior ideia ever, sem condições²).

 

Isso porque o texto de Bell é muito leve, por assim dizer. A trama é entregue como se fosse um bolo.

 

Um Pequeno Favor tenta vencer mais na questão dos grandes segredos que criam diversas facetas em suas personagens. Este é o livro que quer testar nossas emoções mais avessas. Aquelas que nos empurra a pensar se chegaríamos a tal ponto ou se faríamos tal coisa. É o mote da história e que me deixou ainda mais receosa no início da leitura. Meramente porque deve ser por isso que eu amo detestar esses enredos, embora eu tenha encontrado identificação aqui. Algo assim milagroso visto que não curti A Garota no Trem, por exemplo.

 

No começo, você acha que Stephanie sente ciúme ou inveja de Emily. Ou que está apaixonada por Emily (e eu bem esperei por isso). Há algo nela muito preso ao que Emily representa. Uma falha em si se sente tragada pelo universo de uma mulher aparentemente perfeita e ela se deixar ir. Sensação que vai um tanto além de querer ser como essa pessoa. Poderia chamar de obsessão, mas eu penso que a blogueirinha precisava de alguém para trazê-la de volta à vida e é isso que a sumida da história faz.

 

Como disse, Emily é uma sombra. É aquela pessoa que não podemos ver porque algo esquisito em nós se manifesta. E é assim a relação entre Stephanie e Emily. Um campo minado em que seus segredos acabam por ser benéficos (ou quase) para ambas as partes e é por meio disso que a trama funciona. E não funciona muito bem porque, como disse, o final não tem reais consequências.

 

Quem é capacho de quem?

 

“Se eu quiser viver em paz comigo mesma, se eu quiser continuar acreditando que sou um ser humano e não um monstro, preciso fazer o possível para ignorar a faísca que existe entre nós. O que, à sua maneira, é também algo sexy. Portanto, existe um dilema, uma dessas coisas sobre as quais não se escreve num blog – se você estiver em seu estado de perfeito juízo.”

 

Conforme a leitura avançava, eu senti a inadequação de Stephanie entre meus dedos. Ela é uma mulher que se deixou ser desejada por basicamente todos os motivos errados. Que deixou sua vida se transformar basicamente pelos motivos errados. Que deixou o marido silenciá-la por todos os motivos errados. E, obviamente, isso depende do ponto de vista de quem lê.

 

Ao viver em NY, ela tinha muito mais experiência. Tinha muito mais vida. No espaço que ocupa atualmente, ela é completamente apática e invisível. O que faz de Emily uma quebra em sua rotina e um elo muito fácil de se apoiar visto que essa jovem nem amizade tem.

 

Uma entrevista da Kendrick resumiu Stephanie perfeitamente: ela é a pária da sociedade que habita. A Mãe Capitã, zombada o tempo inteiro e excluída da própria roda de mães. A mulher invisível que vê em seu blog (e no filme é um vlog) um modo de controle ao meio em que vive.

 

E, de uma forma estranha, eu senti empatia por ela. Afinal, se usam de todas suas fraquezas.

 

Stephanie não soa de todo mal, embora ela seja deveras problemática e irritante em alguns pontos (hi, moms!). Ainda assim, um tanto menos perto do que Emily faz e como Emily pensa. Conclusão alcançada graças ao mostrar das fragilidades da blogueirinha. Ela tem um misto de carência, de abandono, de falta de identidade, de ausência de autoestima e de pura solidão. Ela busca incansavelmente um tipo de validação, a palavra que resume sua “amizade” com a diva da cidade. A personagem quer ser aceita porque nunca se sentiu assim na vida.

 

O sexo é sua moeda para se sentir relevante, mas, depois do orgasmo, o que fica é a culpa. Além disso, a sensação de que é uma pessoa suja.

 

Essa personagem sente que precisa ser salva e Emily entrou em sua vida como um tipo de salvadora. Stephanie romantiza a dita BFF, o que influenciou na minha tese de platonismo (e o filme me dará o que pensei e I’m happy). Tudo porque, além do cheiro de perfume, a blogueirinha dá outros ricos detalhes que só alguém muito interessado guardaria. Ao menos, é o que eu acredito porque sou um relapso.

 

Os detalhes fazem de Um Pequeno Favor uma história de cinco sentidos. O enredo entrega particularidades de Emily por meio dos sentidos de Stephanie. Pequenas coisas que fisgamos de pronto e refletimos ao longo da leitura. E, independentemente da obviedade das pistas, o olhar da blogueira torna tudo mais interessante. Justamente porque se trata de uma opinião de quem não consegue pessoalmente se desligar da sombra da dita BFF.

 

Esse desligamento não ocorre porque os instantes de reflexão da parte dela com Sean criam o tom da transição sobre o sumiço de Emily. Mesmo quando as mencionadas evidências intentam encerrar essa história. Ambos criam conflitos de opiniões de acordo com o que viveram e vivem enquanto a sumidinha tem as opiniões muito bem definidas sobre ambos.

 

Os posts no blog parecem totalmente desimportantes, mas são essenciais para construir a visão da situação de Stephanie. Tão quanto a narrativa de Sean que entrega o lado oposto de Emily (e da blogueira). Como o gosto surreal por adrenalina e por filmes de terror/suspense. Para ele, a esposa perfeita sempre foi malévola e controladora. Para a blogueirinha, a BFF é um anjo injustiçado.

 

“Essas pessoas parecem muito reais e falam com a gente como se fosse de verdade, mas não são. É tudo um sonho. Uma fantasia. E, quando acordamos, é sempre triste. Sentimos mais saudades do que nunca, mas, ao mesmo tempo, entendemos que essas pessoas continuam dentro da gente, nem que apenas nos nossos sonhos.”

 

Vale abrir um espaço aqui rapidinho para dizer um pouco sobre Sean. O personagem que ninguém se importa e que é marido de Emily. Stephanie fica na companhia dele, sendo solícita e amorosa. Atitudes que realçam ainda mais as true colors da blogueirinha tão quanto a visão dele sobre ela – que é péssima e a empatia por essa personagem me pegou de jeito aí.

 

Os comparativos que ele faz entre a esposa e Stephanie me deixaram de testa quente demais. O mood de macho embuste é real. Em contrapartida, ele é um completo bunda mole, mas jura que tem controle de tudo.

 

A julgar pelo passado de Stephanie, é meio óbvio esperar que esses dois se envolvam e que, em curto espaço de tempo, a mamãe blogueira assuma o posto de Emily. “Assuma” porque a bichinha é tão otária que nem sei por onde começar.

 

Sean é aquele tipo de personagem que não é muito útil a não ser que você aposte no trope óbvio. Bell aposta no trope óbvio, o que tenta reforçar que Um Pequeno Favor é sobre Stephanie e Emily. Mais precisamente sobre como ambas se enxergam de uma a outra e individualmente. Duas mulheres com passados podres em que se espera a revelação do pior lado de cada uma (porque sempre dá para piorar).

 

Confesso que só consegui digerir Emily porque vi a própria Blake nela. Ainda assim, ela é atraente por ser indesculpável, mas só se você ignorar seus atos. O que é praticamente impossível. Ao menos, para mim foi e é isto.

 

Assim: lá no final do livro, como maneira de resolver a história, a autora inventa uma mentira na voz de Emily que eu honestamente torço para que o filme não tenha usado. Seria muito problemático para o tempo que vivemos hoje graças ao feminismo.

 

Infelizmente, não posso falar mais, mas tudo nela é motivado pelo seu próprio conceito de justiça. E isso deveria dar ruim, mas…

 

A empatia que nasceu em mim por Stephanie me deixa demais na saia justa. Eu mesma não sei explicar, mas eu queria muito que a personagem vencesse de certa forma no final. Não poderei aprofundar esse ponto de vista por ser caminho de spoilers, mas… Eu tenho fraco por personagens que aparentam muita vulnerabilidade e são elas que me prendem porque quero entender o que rola. Personagens como Emily me prendem também, mas elas já vêm muito prontas. E Emily é prontíssima. Não hesita o mesmo tanto que sua não BFF blogueirinha.

 

Tudo para Emily é capacho. Stephanie é o próprio capacho. Assim como Sean.

 

E eu me senti o próprio capacho quando terminei este livro. Quando a trama atinge sua reviravolta crucial, nada mais transcorre e fiquei a ver navios. Parece que nada saiu do lugar e eu fiquei extremamente chateada com o resultado. O que me faz concluir que Um Pequeno Favor é de seus personagens. Você realmente se envolve com o que cada um tem a dizer até porque algumas pistas, que são tratadas como detalhes notados por uma dedicada Stephanie, são extremamente óbvias.

 

Como bem disse lá em cima.

 

Conforme a história rumava para o fim, eu esperei algum tipo de reviravolta de Stephanie e foi aí que me decepcionei. Eu esperava que do peixe ela se tornasse a suprema, mas a conclusão descola um jeito de ferrá-la e achei extremamente injusto. O que é contraditório visto que eu não nego a excitação de ver alguns tipos de vilões sendo vitoriosos. Mas, aqui, eu queria que a considerada tapada revelasse que de tapada só tinha a cara. Não foi dessa vez.

 

Não dá para esperar muito um tipo de final feliz com esse viés de premissa. Ainda assim, eu aguardei um instante de luz da blogueirinha e é aqui que conto com a transformação do filme. Todas as sombras e todos os pensamentos de Stephanie poderiam transformá-la em uma antagonista em cima da própria antagonista que Emily é. Esse era o final que eu queria.

 

A questão de aparências

 

“Mantive a promessa. Nada de homens e nada de escolhas ruins. A única coisa que importava era Miles.”

 

Stephanie e Emily são extremamente opostas, mas igualmente interessantes. Eu curti Stephanie um tanto mais porque, apesar de suas porcarias, foi um tanto mais fácil sentir empatia por ela. O motivo? Bell explora sua vulnerabilidade.

 

O que criou um contraposto dentro de mim porque não senti o mesmo pela protagonista de A Garota no Trem, por exemplo (e cogito em algum momento reler esse livro já que fui anestesiada). Seja como for, o fato da blogueirinha ser incompreendida e ainda humilhada pelo macho da história me deixou chateadíssima.

 

E eu meio que comecei a torcer por ela.

 

Mesmo com a empatia instalada, eu desconfiei de sua índole até o desfecho da história. Ela não tem a mesma maldade de Emily, embora sua dualidade seja escancarada. E é impossível não levar isso para a vida real. Eu tenho este blog e tento ser o mais honesta possível. Porém, contudo, entretanto, não dá para saber quem eu sou de verdade e em completude a base do que posto aqui. Algo que se aplica ao universo de Stephanie. Ela tenta ser a melhor nos dois âmbitos, mas Sean e Emily a fazem retornar para a sombra dentro de si.

 

Ela tem sim a narrativa da coitadinha e foi por isso que esperei sua superação. Caí do cavalo. Stephanie é uma completa people-pleaser. Por vezes, ela se força demais para ser aceita e isso, obviamente, me incomodou várias vezes também.

 

A real é que Stephanie norteia tudo sozinha. A amiga é quem representa seu propulsor maligno porque, de certa forma, ela não deixa de querer a mesma excitação que existe na vida de Emily. Quando a blogueirinha se vê vivendo na casa da desaparecida, há a entrega de um desejo íntimo que se transporta para o real. O luxo, os vestidos, o trabalho e até o marido. Ela quer e ao mesmo tempo não quer tapar esse buraco. Porém, é irresistível demais, o que desequilibra o que essa personagem sente pela sua dita BFF. É tudo e ao mesmo tempo é nada. Ela tem sentimentos diversos e que poderiam ter suas complexidades exploradas (o que não é o caso).

 

Apesar da minha empatia, Stephanie é passível de ser detestada. Eu fiquei de boa, o que é bem inédito porque eu não hesitaria em tacá-la no fogo. Mas quem sou eu para julgá-la?

 

E é essa a charada de livros assim: quem é você para falar mal do outro?

 

Daí temos Emily que é sufocante. Ela trata a não BFF como o peixe ao longo da história, o nosso bode expiatório, e foi por conta desse fator que senti esse compadecimento pela blogueira. Sentimento que se intensificou quando Sean também mostra suas intensas true colors.

 

Um Pequeno Favor segue a fórmula de personagens que não valem nada. É uma narrativa que quer provocar em quem lê algum tipo de desconforto por ser um livro sombra. Aquele que quer atingir algum ponto nosso que, talvez, temos vergonha de admitir e assim lançamos embaixo do tapete. O que motiva muito estresse e muito inconformismo porque evitamos olhar para o nosso umbigo. É um desafio encontrar pontos de identificação em tramas como esta, mas eu os achei em Um Pequeno Favor e não conseguirei destrinchá-los ao vivaço.

 

Emily é aquela presença arrepiante de muitas facetas. É muito fácil ranger os dentes por causa dela e esperar que ela se ferre bravamente. Ou, melhor, esperamos mais uma dose de inteligência de personagens que nasceram para serem as vilãs de qualquer situação. Ela joga, bastante, mas o enredo em si não contribui muito com a expertise que essa mulher possui.

 

Em suma, as reviravoltas criadas pela autora, perto do final da trama, não fazem jus às personagens no geral.

 

Apesar do livro cumprir seu serviço de nos envolver com a narrativa dessas mulheres, eu senti falta do potencial de transformá-las mais drasticamente diante da situação após o desaparecimento. Ambas entregam seus pontos fracos e fortes, mas nada é propriamente aproveitado. Há certo comodismo sim. Ao menos, a partir do momento que o enredo avança para seu encerramento. O resultado foi prático demais e não deixa o impacto de algo transformador no leitor.

 

O que fascina aqui é o mau-caratismo das personagens. É isso que torna a leitura um tanto mais curiosa. Que impregna. Eu mesma não conseguia parar de pensar nelas.

 

Voltando à questão de capacho, ninguém nasce prontíssimo para exercer/incitar esse papel. Alguma coisa do passado deu aval a esse comportamento e Um Pequeno Favor trabalha em cima disso. O livro quer nos convencer de que cada personagem tem uma motivação “justa” sendo que, para variar, o ser humano consegue extrapolar e se revelar pior que o imaginado.

 

Por essas e outras que as aparências enganam neste livro e se tornaram a aposta de Bell em seu enredo. Como alguém consegue manter tanto as aparências ao mesmo tempo que esconde desejos e pensamentos que as colocariam na fogueira da Inquisição? Eu não sei decidir quem tem o maior podre, mas o que Emily faz me deixou indignada.

 

E sabem o que é pior? Você sabe que tem gente assim. Você sabe que existem humanos sem respeito pelas pessoas e que farão o que tiver que ser feito para sair por cima.

 

E é quando pessoas como Stephanie são convenientes até se tornarem coniventes.

 

“Foi então que tive uma sensação que ainda não consigo explicar. Era como se, quase como se eu estivesse desapontada… Como se tivesse sido enganada.”

 

Acho que pessoas com um tanto de caráter não se deixaria levar por uma figura como a de Emily. Ao menos, é o que minha ingenuidade narra aqui na minha mente. Em contrapartida, a blogueirinha cai nessa devido ao seu segredo e à sua clara carência. Ela perdoa por também ter sujeira embaixo do tapete. Uma sujeira que dividiu com quem chamou de amiga.

 

Há uma relação de compensação da parte de Stephanie que, para se sentir melhor, precisa ser vista com excelência e ser útil. Não é à toa que a moça não hesita quando o papo é a BFF and I’m so sorry, sweetie. Personagem que vive para agradar o outro me dá na testa e me questiono agora mesmo por quais motivos a blogueirinha ganhou parte do meu coração.

 

Uma parte bem pequena, mas não suficientemente invisível.

 

Um Pequeno Favor pesa na dualidade de suas personagens e é isso que torna a leitura interessante. Talvez, eu tenha me irritado com A Garota no Trem, porque os podres das personagens não davam descanso. Foi um destrinchar de (suposto) mau-caratismo sem ponto de evasão enquanto, neste livro, há um descanso com os posts da Stephanie e com o background de cada um que conduz esse enredo que poderia ser mais doentio.

 

Mas ele é doentio à sua maneira.

 

Assim como manda essa pegada, Um Pequeno Favor questiona a forma como nos mostramos para um grupo de pessoas e como somos totalmente outras pessoas quando estamos na nossa intimidade. Eu realmente associei o papel de Stephanie ao meu e deve ser por isso que capturei algumas semelhanças. Ela é vulnerável, sozinha, claramente infeliz (o infeliz estamos trabalhando, mas me considero muito triste e isolada de tudo e de todos). Emily é a luz do farol que, literalmente, transforma sua vida ao ponto de tirá-la, literalmente, da inércia.

 

Stephanie é um buraco negro que não se reconhece como tal. Emily sabe que Stephanie é um buraco negro e sabe como usá-lo a seu favor. Enquanto uma precisa da fachada para se afastar de uma versão de si que não sente orgulho, a outra se usa de seus maneirismos e do que aprendeu ao longo da vida para justamente sair de mais uma leva de tédio que sua rotina se transformou.

 

Emily vê em Stephanie a cura do seu tédio e a extensão da sua adrenalina. Não há boas intenções nessa mulher. Além dos segredos da blogueirinha, que faz muita questão de obter por se descrever como a própria manipuladora de informação, a sumidinha sabe que sua não amiga precisa de um vaso para diminuir a culpa do que fizera na juventude. Segredos que também transformam esse livro e que nos deixa na saia justa sobre que lado tomar. Ou tomar lado algum já que geral pertence ao balde das maçãs podres.

 

Essa questão de viver de aparências é o chavão do livro visto que sua trama central é fraquíssima. É o ser não sendo que prende página a página e não o conflito em si. A motivação do desaparecimento não tem muito que criticar porque basta assistir algum jornal para ver que as pessoas realmente passam dos limites em nome do dinheiro. As pessoas matam por dinheiro. Traem por dinheiro. Dinheiro é o famoso mal necessário e é um empurrãozinho de nada em Um Pequeno Favor.

 

O grande porém é o desdobramento da causa que parece que acarretará a maior reviravolta de todos os tempos, mas o livro deixa a desejar ao se concluir com simplicidade irreal. Sem uma gota de consequência, especialmente para Emily.

 

O que não deixa de ser um tanto real também porque há vilões que saem imunes. E é aí que o inconformismo ganha pungência por querermos algum tipo de justiça.

 

Ao menos, eu queria um tipo de justiça.

 

Bell não eximiu o caráter de ninguém. Particularmente, ela fez bem em entregar todos os podres, porque só assim eu me mantive na companhia de Stephanie e de Emily, e estourá-los até não serem mais necessários. Talvez, foi até bom o fim reticente, mas eu teria que ler de novo para rever a minha opinião.

 

Concluindo

 

A Simple Favor

Anna Kendrick como Stephanie e Blake Lively como Emily

 

Por mais que eu tenha sentido empatia pela Stephanie, eu queria mesmo era reciclar geral.

 

Nem tudo que as pessoas enxergam sobre nós é realidade e Um Pequeno Favor é justamente sobre isso. É sobre duas mulheres que se unem de maneira “inusitada” e que têm segredos podres. Fiquei surpreendida com o tanto que essa história me amarrou porque algo em mim dizia que eu abandonaria a leitura. Eu tenho dificuldade em engajar com esse tipo de personagem, como rolou em A Garota no Trem. Um livro que não cansarei de repetir que poderia ter desenrolado a questão do gaslighting que ficou nas entrelinhas (e duvido que muitos pegaram de primeira).

 

Esses livros impedem que você escolha um lado justamente porque também mexe com o caráter e o valor de quem lê. Eu senti muito dos meus valores sendo confrontados porque, bem, nós temos podres. Alguns podem ser fáceis de dividir, mas outros não. E é quando tentamos nos transformar em cima desses podres. Os mais profundos, especificamente, para fugirmos da perseguição eterna do passado.

 

O cerne familiar transformou Emily e ela não consegue segurar seu lado sádico para fugir do tédio da vida. Stephanie se transformou por desejos reprimidos e que ela reconhece que não são bons. Porém, ambas não conseguem se frear. Imersas na adrenalina do desaparecimento, as duas dançam conforme suas sombras interiores e não conquistam absolvição. Elas são mantidas do mesmo jeitinho, mas conseguem ser salvadoras de Um Pequeno Favor. 

 

Houve uns momentos em que me vi angustiada para saber mais da falcatrua de valor que impera sobre as duas. Por elas não serem confiáveis, vemos o desaparecimento ser contado diferentemente ao mesmo tempo que o caráter deixa a desconfiança sempre no ponto do auge. Ambas seguram perfeitamente o enredo e, por isso, dá para perdoar a conclusão.

 

Um Pequeno Favor trabalha com detalhes. Stephanie é a personagem dos detalhes. É ela quem constrói nosso imaginário. Ela quer ser a narradora confiável. Se consegue? Aí é de cada um.

 

Não há enrolação em Um Pequeno Favor. O fim é nada chocante, mas a entrega dos fatos não demora a nos atingir – o que endossa o que comentei sobre a leitura ter sido rapidex. Sério, gente, eu fiquei muito ensandecida por este livro. Eu o engoli! Nem pelo mistério, mas pelas personagens (não me custa repetir!). A leitura é bem gostosinha, fluida. Os pontos de vista são complementares. Mesmo não superando o próprio Garota no Trem, que, apesar do meu estresse e do meu ranço, chegou a algum canto pertinente, este livro chegou a canto algum. Justamente porque o sumiço não desenvolveu com potencial.

 

Sobre o filme: além de algumas decisões de Emily, eu espero que mudem a mencionada conclusão. O fim é resultado de um conflito raso porque claramente Bell se empenhou mais no lado podre de suas personagens. Nas telonas, isso não soa muito interessante mesmo sendo o que toma mais espaço no livro (e que contará com atrizes maravilhosas). As pessoas querem o conflito para se engajar e o conflito em si praticamente não existe. Por mais que eu defenda o motivo do sumiço como algo comum a nós, talvez não seja empolgante no cinema.

 

Eu espero que as reviravoltas finais tenham sido adaptadas porque, da mesma forma que queria mais de Stephanie (principalmente) e de Emily, Anna e Blake merecem reconhecimento por meio de uma adaptação que seja muito boa. As páginas finais meio que exigem uma mudança mais palpável.

 

(eu ainda quero que Stephanie seja um tanto enaltecida, não mentirei)

 

Agora, penso em que tipo de milagre Paul Feig e sua equipe realizaram nessa história, sério. O trabalho do marketing está incrível e as alterações são visíveis nos trailers. Lendo as entrevistas, o roteiro de Jessica Sharzer explorará mais as personagens, o que já tem em minha conta. Para mim, o livro é mais delas que sobre o desaparecimento e pode ser até que o intuito de Bell tenha sido esse. Só nos dar o mau-caratismo e o quanto as pessoas se maquiam para ser quem não são.

 

A pegada do filme é no trope loira/morena e com uma pincelada hitchcockiana. Haverá um tom noir que, ao menos para mim, responde a atmosfera ao redor de Emily. Esteticamente e pelas atrizes, capaz que a adaptação vença. E é capaz que não porque um bom conflito e uma boa resolução são importantes – algo que o livro não concede muito bem.

 

E é justamente nesse quesito que estou receosa e que botarei em conta ao ver o filme. Por enquanto, deu para notar mudanças que me parecem interessantes porque, apesar dos pesares, o livro é unilateral. Ou seja, é só sobre o desaparecimento e é ele que desmascara geral.

 

Eu não sei como o roteiro foi adaptado e não sei se devo me deixar levar pelas expectativas (que são altas mais pela Kendrick). Li muitas resenhas negativas sobre este livro e agora tem saído alguma coisinha positiva sobre o filme. Mas tem Anna Kendrick, então, eu estou protegida por quem me interessa.

 

Enfim, preciosos. Eu até recomendo esta leitura, mas só se vocês não forem muito exigentes. É interessante à sua maneira, mas não chega ao mesmo tom de A Garota Exemplar, por exemplo. Há suas semelhanças em construção de trama e de narração, de usar um conflito muito próximo da nossa realidade para desenvolver a questão do mau-caratismo, mas não é assim chocante não.

 

É uma leitura descompromissada. Que serve para conhecer uma autora nova. Não é uma história que causa impacto em conflito ou que mudará sua visão de mundo, mas as personagens são multifacetadas. Elas mostram o quanto escolhemos sempre mandar a fachada quando podemos ser igualmente traidores e baixos. Depende das circunstâncias.

 

Stephanie e Emily se distinguem pela forma como se veem, veem o outro e veem a realidade que compartilham. Além disso, veem a situação do sumiço. Elas são incongruentes, o que torna o resultado da experiência muito particular de quem lê. Eu gostei, mas repito que daria outro final.

 

 

Lembrando que o filme estreia no dia 23 de setembro, hein?

 

 

Para anotar ❤

Título: Um Pequeno Favor
Autora: Darcey Bell
Tradução: Ana Carolina Mesquita

Gênero: Suspense
Editora: Bertrand Brasil

Stefs
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